Dispensações


Dispensação é o mandato em um período de tempo no qual Deus interage com o homem.
Obs.: Esta postagem englobou as “Dispensações” e “Eras” como tendo o mesmo contexto dispensacional.
Todas as dispensações foram marcadas pelo fracasso do homem em cumpri-las.
São sete dispensações que dividem a história bíblica, conforme descrito abaixo.

1 – Inocência
Responsabilidade: Não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.
Fracasso: Pecado (comeram).
Juízo: Morte e a maldição sobre toda Terra.
Início: Criação do homem. Gênesis 2.26-31, sexto dia.
Término: Queda do homem. Gênesis 3.
Duração (tempo): Desconhecido.

2 – Consciência
Responsabilidade: Obedecer a Deus com base na consciência.
Fracasso: Corrupção total da humanidade (carne e espírito).
Juízo: Dilúvio.
Início: Expulsão do Éden.
Término: Dilúvio.
Duração: 1.656 anos.

3 – Governo Humano
Responsabilidade: Multiplicar e Povoar toda a Terra.
Fracasso: Desobedeceram e intentaram contra Deus.
Juízo: Confusão de línguas (Babel), dispersão geral.
Início: Após Noé sair da arca com sua família (Gênesis 9).
Término: Chamamento de Abrão. Gênesis 12.
Duração: 427 anos.

4 – Promessa
Responsabilidade: Morar em Canaã.
Fracasso: Moraram no Egito e geraram um filho não prometido (Ismael).
Juízo: Escravidão no Egito.
Início: Chamamento de Abrão. Gênesis 12.
Término: Entrada dos filhos de Israel (12-Tribos) em Canaã.
Duração: 430 anos.

5 – Lei
Responsabilidade: Guardar a Lei.
Fracasso: Violaram a Lei e rejeitaram o Messias.
Juízo: Destruição de Jerusalém e do Templo, Dispersão por entre as nações.
Início: No deserto, após terem passado o Mar Vermelho.
Término: Rejeição e Morte ao Messias (o Senhor Jesus Cristo).
Duração: 1520 anos.

6 – Graça
Responsabilidade: Crer no Evangelho da Graça de Deus; Receber ao Senhor Jesus pela fé.
Fracasso: Apostasia (divisões e desvio da verdade escritural).
Juízo: Condenação eterna – Inferno (João 3.18-36).
Início: Dia de Pentecostes (Atos 2) com o batismo e morada do Espírito Santo no Crente.
Término: Dia do arrebatamento. A vinda do Senhor Jesus Cristo para buscar sua Igreja.
Duração: Até agora tem durado aproximadamente 2000 anos.

7 – Milênio
Responsabilidade: Obedecer e adorar a Cristo.
Fracasso: Rebelião.
Juízo: Inferno.
Início: A vinda do Messias (Cristo) para o seu povo (Israel), após arrebatamento da Igreja.
Término: Soltura de Satanás e advento da última rebelião – Gogue e Magogue (Ap.20.7-8).
Duração: 1000 anos.

Dispensações
Significado
Entendimento

A Lógica das Dispensações:

Para entendermos como e porque as dispensações foram necessárias, precisamos primeiramente entender o processo perfeito das coisas de Deus.
O ambiente natural (mundo) tem muitas semelhanças com o ambiente espiritual, a saber:
Na natureza nada se perde e nada se cria, tudo se transforma; ou seja: A cada ação ocorre uma reação. Nada se cria por acaso nem se perde sem ter um destino; tudo permanece na natureza de alguma forma, e de alguma forma o processo será revertido ou transformado novamente sem que nada se perca ao ermo ou apareça do nada; exemplo: A ocorrência de um frio, gerado por um aparelho de ar-condicionado dentro de um ambiente, gera um calor equivalente na parte externa do ambiente, e que em algum tempo, próximo ou distante, desta ou de outra forma, estes dois componentes, “frio” e “calor”, se anularão através de outra ocorrência, devolvendo a um o que fora tomado do outro. Este processo é facilmente entendível no sistema contábil das empresas comerciais, onde cada crédito em uma conta gera um débito igual em outra conta até que, direta ou indiretamente, estas contas voltem ao estado original de zero, para que assim a contabilidade redunde em perfeição.
Essa mesma perfeição da criação de Deus também existe no âmbito espiritual; não existe causa sem efeito, não existe pecado (desobediência) sem consequência (punição). Uma criança que coloca a mão numa chapa quente terá a mão queimada, mesmo a criança sendo inocente; mais punida a criança seria se fosse avisada antecipadamente, pois não teria quem se compadecesse dela, já que sua desobediência ocorrera por vontade própria.
As dispensações foram manifestações da misericórdia de Deus no trato com o homem e as consequências pela desobediência são justiça da perfeição de Deus. Sem perfeição não existe justiça, e sem justiça o caos se estabelece.
O homem, como a criança do exemplo, foi avisado mas desobedeceu e por isso perdeu o direito à salvação. Portanto, a punição de morte por causa do pecado é inevitável.
Pela Graça de Deus manifestada em Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo, nossa dívida de morte foi executada no sacrifício da cruz, remindo todo aquele que nele crê.

A Utilidade das Dispensações:

Após o pecado, o homem não foi retirado do Éden para se recuperar e angariar o direito de reingressar no paraíso. A expulsão do Éden foi o cumprimento irrevogável da Palavra de Deus punindo o homem com a morte eterna. O homem recebeu as dispensações como forma de testemunhar nos “autos de infração” que ele (homem) é totalmente incapaz de, por suas obras, restaurar-se. Melhores condições de permanecer na presença obediente de Deus o homem teve quando ainda estava no Éden, mas falhou. Como, depois, em condições mais desfavoráveis, iria o homem conseguir melhor proeza? Se em estado de santidade o homem exaltou-se e perverteu-se, quanto mais em estado de desgraça!
Pergunta chave: Como, então, a misericórdia de Deus poderia nos alcançar sem que sua Palavra (palavra condenando à morte) deixasse de ser cumprida?
Resposta: A morte daquele pelo qual tudo foi feito, seria a solução; e assim se fez:
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.
(João 3:16-19)

A ressurreição de Cristo testifica a aceitação lícita do justo pagamento de nossas dívidas:
De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.
Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;
Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.
Porque aquele que está morto está justificado do pecado.
Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos;
Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele.
(Romanos 6:4-9)

Título: TEOLOGIA DO PACTO OU DISPENSAÇÕES ♦ Autor: BRUCE ANSTEY. ♦ Traduzido por: Mario Persona.
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 ÍNDICE 

O assunto “Dispensacionalismo versus Teologia do Pacto” foi inicialmente abordado pelo autor em uma série de palestras em Kirkland, Washington, em Março de 2012. Não foi possível na ocasião tratá-lo de forma tão ampla quanto se desejava, em razão de ter sido apresentado como palestras públicas. Esta publicação nos deu a oportunidade de expandir as observações apresentadas naquelas palestras e tratar o assunto de forma mais completa.

Este livro apresenta o modo dispensacional de Deus e inclui uma exposição dos principais erros da Teologia do Pacto. A fim de apresentar a verdade de forma clara e simples, e expor aquilo que não está em conformidade com as Escrituras, o autor não tem qualquer intenção de humilhar cristãos que professem os erros da Teologia do Pacto. O desejo sincero do autor é que este livro sirva de “luz nas trevas” a todos aqueles que estejam verdadeiramente em busca da verdade (Sl 112:4). Nossa oração é que o leitor venha a obter um melhor entendimento do propósito de Deus em glorificar a Seu Filho nos céus e na terra.

Gostaríamos de encorajar cada crente a considerar o fato de que o Senhor dá grande valor àqueles que estão dispostos a pagar um preço para professar e andar na verdade, e Ele irá recompensar adequadamente cada um naquele dia vindouro. “Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3:11; 22:12).

É com profundo amor e afeição por toda a Igreja de Deus e com o desejo de servir de ajuda a todos os cristãos que publicamos este livro. Que Deus possa abençoar ricamente Sua Palavra.

Teologia do Pacto ou Dispensações.

Qual a maneira correta de se interpretar as Escrituras?
Quando o assunto são os princípios básicos de interpretação das Escrituras, o mundo cristão está dividido em duas principais correntes. Independente de estarem ou não cientes disso, conforme a posição que adotam, em relação a Israel e à Igreja e aos santos do reino milenial, no propósito de Deus para a bênção futura do homem no reino de Cristo, os cristãos são identificados por seguirem ou a “Verdade Dispensacional” ou a “Teologia do Pacto”.

É triste ter de admitir que desde o seu princípio a Igreja fracassou em guardar “o bom depósito” ou a verdade que lhe foi confiada (2 Tm 1:14). Uma das muitas coisas que foram perdidas ao longo dos anos foi a verdade dispensacional. Ela foi ensinada pelo apóstolo Paulo, todavia de algum modo acabou incompreendida e perdida nos primeiros séculos da história da Igreja. Com a perda dessa verdade foram introduzidos muitos erros na profissão cristã. Um destes erros é a Teologia do Pacto. Trata-se da crença de que a Igreja seria um cumprimento das profecias do Antigo Testamento concernentes a Israel. Este erro foi inicialmente ensinado por homens como Agostinho (400 D. C.). Mais tarde, por ocasião da Reforma Protestante (nos anos 1500), ele foi transformado em um sistema de doutrina conhecido hoje como “Teologia do Pacto” ou “Teologia Reformada”. Infelizmente há muito tempo a Teologia do Pacto é aceita como o método ortodoxo de interpretação da Bíblia pela grande maioria da profissão cristã. Quer sejam os católicos ortodoxos ou romanos, ou os reformadores protestantes com suas igrejas nacionais, ou as muitas denominações dissidentes que saíram desses grupos, a maioria — senão todos — aceitou esta interpretação errônea do propósito de Deus em abençoar os homens sob o reino de Cristo. Foi somente nos anos 1800 que Deus efetuou uma restauração completa da verdade “que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3) e a verdade dispensacional voltou a ser conhecida.

Cremos que todos os cristãos precisam ter uma compreensão básica da verdade dispensacional. Sem isto ficaremos à deriva na profissão cristã de nossos dias. As consequências de não se enxergar a distinção entre o modo de Deus tratar com Israel e com a Igreja são significativas, no que diz respeito ao reino milenar de Cristo que se aproxima. Isso leva a muitos erros, desde uma escatologia incorreta (estudo dos eventos futuros) até uma eclesiologia incorreta (estudo da doutrina e prática da Igreja). Isto influencia também os objetivos das pessoas envolvidas no serviço cristão.

Nosso objetivo neste livro, portanto, é estabelecer os princípios básicos da verdade dispensacional, a fim de que o crente possa ficar bem fundamentado nesta importante linha de verdade e, assim, ter um melhor entendimento do propósito final de Deus, que é o de glorificar a Cristo no futuro (o Milênio) em duas esferas — nos céus e na terra — por meio da Igreja e de Israel restaurado, juntamente com as nações gentias.

Na última parte do livro examinaremos os dogmas básicos da Teologia Reformada do Pacto e explicaremos por que esta doutrina é um erro. Iremos também apontar o impacto negativo que ela tem na vida e serviço cristãos. Nossa oração a Deus é que o leitor possa ser adequadamente informado a respeito deste sistema de ensino errôneo e seja convencido a afastar-se dele.

O que é Dispensacionalismo?
A palavra “dispensação” (“oikonomia” em grego) significa “administração de uma casa”, “gestão de uma família” ou “regras da casa”. No sentido em que é usada nas Escrituras trata-se do modo de Deus tratar com os homens na administração de Seus desígnios em Sua casa. Portanto, a palavra dispensação significa uma maneira específica que Deus utiliza para ordenar ou governar Sua casa na qual o Seu povo se relaciona com Ele. Esta definição pode variar às vezes por diversas razões. Por exemplo, no Antigo Testamento, quando Israel estava sob a Lei, Deus ordenou Sua casa de uma maneira diferente da que ele hoje ordena a Sua casa no Dia da Graça. Portanto, tem ocorrido uma mudança de dispensações — uma mudança na gestão da casa de Deus.

O ensino bíblico que observa e reconhece uma diferença entre Israel, Igreja e os santos do reino milenial — cada um com sua vocação, bênçãos e destinos específicos — é o que chamamos de Dispensacionalismo.

As Escrituras dizem: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja [reparte] bem a palavra da verdade” (2 Tm 2:15). Este versículo indica que a Palavra de Deus possui divisões, e se quisermos ser aprovados diante de Deus precisamos saber distingui-las em nossos estudos das Escrituras. A tendência da maioria dos cristãos é enxergar a Palavra de Deus como uma massa indistinta de versículos bíblicos que teriam sido todos escritos especificamente para nós, os crentes no Senhor Jesus. Todavia, existem coisas que foram escritas para Israel e pertencem àquele povo, e há também coisas que foram escritas para a Igreja e dizem respeito especificamente a ela. As Escrituras fazem distinção entre estes dois grupos de pessoas abençoadas como sendo entidades distintas das nações gentias. Ela diz: “Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus” (1 Co 10:32). Manejar ou repartir bem a Palavra da Verdade é estudar a Bíblia, observar, e entender as distinções que Deus fez entre estes diferentes grupos. Israel, Igreja e Gentios têm vocações, bênçãos e destinos completamente diferentes no plano de Deus para a bênção dos homens. Cada grupo foi chamado com o propósito de manifestar as glórias e excelências de Cristo em diferentes esferas de Seu reino vindouro, não apenas na terra, mas também nos céus:
• ISRAEL — “A esse povo que formei para mim; o meu louvor relatarão” (Is 43:21; 60:1-22; Sl 79:13).
• GENTIOS — “E os gentios… publicarão os louvores do Senhor” (Is 60:3-6).
• IGREJA — “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2:9; Ap 21:10-11).

O fato de 2 Timóteo 2:15 dizer “… que maneja [reparte] bem a palavra da verdade” indica que as Escrituras podem ser mal manejadas ou repartidas e aplicadas. Este tem sido o caso do método pactualista de interpretação bíblica que examinaremos no final deste livro. Portanto, é preciso ter cuidado no manuseio das Escrituras e prestar atenção às distinções entre o que é interpretação e o que é aplicação.

Como cristãos, somos culpados de cristianizar as Escrituras que não foram dirigidas a nós e imaginar que elas tenham sido. Pegamos passagens que foram claramente escritas para Israel e imaginamos que estejam se referindo à Igreja. Um exemplo disto são os subtítulos de algumas Bíblias que aparecem no topo de várias páginas, particularmente nos livros dos Salmos e do profeta Isaías. Esses subtítulos, que não fazem parte das Escrituras divinamente inspiradas, foram adicionados pelos tradutores para instruir o leitor (infelizmente de forma errada) que essas passagens teriam sido escritas (na opinião deles) para a Igreja, quando elas foram claramente escritas para Israel. É compreensível que isso tenha acontecido, já que os tradutores eram teólogos reformados da Teologia do Pacto. Não estamos dizendo que os cristãos não deveriam ler e buscar por lições morais e práticas nas passagens do Antigo Testamento — 1 Coríntios 10:11 e 2 Timóteo 3:16 indicam que devemos fazê-lo. Mas isto não significa que as passagens do Antigo Testamento tenham sido escritas para cristãos, pelo menos quando o assunto é a interpretação. Romanos 15:4 diz: “Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança”. Aquelas coisas no Antigo Testamento foram escritas “para” nós, mesmo que não tenham sido dirigidas “a” nós. Isto é algo que deve ser observado e compreendido por todo estudante da Bíblia.

Existem três principais dispensações no modo de Deus agir (cf. “Concise Bible Dictionary” — pag. 216-217). Alguns podem enxergar mais de três dispensações, mas todos os dispensacionalistas concordam que as três que iremos considerar são as principais, e são aquelas sobre as quais recai a controvérsia a respeito do ensino dispensacional. Portanto é de vital importância entender as diferentes maneiras de Deus agir em conexão com elas.

  • A primeira destas dispensações é a Dispensação da Lei. A casa de Deus na terra não foi realmente estabelecida até que Ele tivesse criado um relacionamento com Israel sobre o terreno da redenção, dando àquele povo a Lei e o culto a Deus no tabernáculo — Êxodo 10:40. Antes disso os homens caminhavam com Deus como indivíduos, mas não existia um sistema publicamente organizado por Deus para tratar com os homens no que diz respeito à Sua casa. Portanto, dificilmente poderíamos afirmar que existissem dispensações antes disso (cf. Concise Bible Dictionary).

    A Dispensação da Lei foi um modo organizado de Deus tratar com os homens (a nação de Israel) no qual as obrigações legais e exigências da Lei deviam ser cumpridas pelo povo que estava sob ela, a fim de poder caminhar em comunhão com Deus. Essa administração do povo de Deus naqueles tempos passou por três fases:
    1. Aproximadamente 400 anos sob os Juízes (da entrada de Israel na terra de Canaã ao final do tempo dos Juízes — Atos 13:19-20).
    2. Aproximadamente 500 anos de reinado (desde o rei Saul ao cativeiro babilônico).
    3. Aproximadamente 600 anos de testemunho profético durante os Tempos dos Gentios (do cativeiro babilônico a João Batista — Lucas 16:16)

  • A segunda grande dispensação é a Dispensação do Mistério. Ela também tem sido chamada de Dispensação da Graça de Deus. Trata-se de uma administração para o governo de um povo celestial, salvo por graça e selado com o Espírito Santo — a Igreja de Deus. J. N. Darby a chamou de “a presente dispensação” e “dispensação da Igreja” (Collected Writings, vol. 1, p. 289).

    O apóstolo Paulo foi comissionado para “demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério. Portanto a Paulo caberia ensinar as coisas relacionadas ao Mistério “que desde os séculos esteve oculto em Deus”, que compõem a verdade de Cristo e da Igreja (Ef 5:32). O ministério da graça realmente começou com o ministério de nosso Senhor Jesus Cristo (João 1:17; Lucas 4:16-30), mas quando o Seu povo (os judeus) O rejeitaram, Deus deixou aquele povo de lado por um tempo como nação e iniciou a atual Dispensação da Graça com o chamamento celestial da Igreja por meio da vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes (At 2:1-4; 1:15). Os crentes hoje estão sendo chamados para fora de entre judeus e gentios para fazerem parte desse novo grupo celestial que Deus está formando — a Igreja de Deus, corpo e esposa de Cristo (At 15:14; 26:17). A responsabilidade do ministério cristão é a de promover a “dispensação [oikonomia] de Deus” ajudando os crentes a entenderem sua vocação celestial em Cristo, e a conduzirem suas vidas em conformidade com a atual administração de Sua casa (1 Tm 1:4). A Igreja não é uma dispensação, mas é governada por uma dispensação ou normas de conduta de Deus em relação à verdade especial revelada no Mistério.

  • A terceira grande dispensação ainda é futura; trata-se da “Dispensação da Plenitude dos Tempos” (Ef 1:10). Esta será uma designação especial de Deus para com os homens durante o reino público de Cristo no Milênio — o reino de mil anos de Cristo. Naquele dia o remanescente de Israel restaurado e muitas nações gentias desfrutarão de uma porção terrenal de bênção sob Cristo e a Igreja. A administração de toda aquela esfera estará nos céus, encabeçada por Cristo e pela Igreja por sobre a terra. Isto está indicado em Efésios 1:10 na expressão “no Cristo”. Geralmente, quando nos escritos de Paulo o artigo “o” é colocado antes de “Cristo” (como em “no Cristo”) isto indica a união mística entre Cristo, a Cabeça, e os membros de Seu corpo (1 Co 12:12-13). [N. do T.: A passagem de Efésios 1:10 na versão Almeida traz “em Cristo”, mas o correto seria “no Cristo”, como aparece na versão de J. N. Darby e na tradução literal de J. N. Young].

    O que é notável acerca destas três dispensações (ou administrações) da casa de Deus é que existe uma notável diferença entre a Dispensação do Mistério e as outras duas que vêm antes e depois dela. A Dispensação da Lei e a Dispensação da Plenitude dos Tempos são administrações que têm a ver com povos terrenos, enquanto a Dispensação do Mistério, encaixada entre as outras duas, é uma administração envolvendo uma companhia celestial de pessoas — a Igreja. A ordem dessas administrações no tempo são como as três partes de um “Biscoito Oreo” recheado. As duas dispensações externas (como se fossem as duas partes externas do biscoito) são administrações relacionadas à terra, enquanto a dispensação do meio (o recheio no exemplo do biscoito) pertence ao povo celestial. A verdade é que quanto mais estudamos a Dispensação do Mistério, mais iremos ver o quão diferente ela é das outras duas.

    Como já foi mencionado, a Dispensação do Mistério é uma vocação celestial intercalada que tem a ver com a Igreja. No momento atual as tratativas de Deus com a nação de Israel estão suspensas e, por meio do evangelho da Sua graça, Deus está chamando os crentes para fora, para fazerem parte da Igreja. Depois Deus voltará a tratar com Israel e introduzirá na bênção um remanescente de todas as doze tribos, juntamente com as nações gentias que serão abençoadas sob Israel no reino milenial de Cristo. Portanto, uma mudança ocorreu nas maneiras dispensacionais de Deus agir, da Lei para a Graça ministrada agora no Mistério. Haverá ainda outra mudança, do Mistério para o Reino, quando vier a Revelação ou Manifestação de Cristo.

    Disto aprendemos que Deus não tem apenas o propósito de ter um povo abençoado com Cristo na terra naquele dia vindouro da glória do reino, mas que também deseja ter um povo abençoado com Ele no céu.

As eras, também traduzidas como “séculos” ou “mundo” dependendo da versão, costumam ser frequentemente confundidas com dispensações, mas são coisas diferentes, apesar de estarem de alguma maneira conectadas. Na verdade a maioria daqueles que ensinam o Dispensacionalismo costuma apresentar um gráfico de eras chamando-as de dispensações. Somos gratos por preservarem a verdade dispensacional, mas eles não são claros quanto a estas distinções. Essencialmente, o que fazem é “homogeneizar” ou mesclar eras e dispensações fazendo delas uma mesma coisa. Por exemplo, o “Unger’s Bible Dictionary” diz que “uma dispensação é uma era de tempo durante a qual o homem é provado…”. O gráfico das “Sete Dispensações” de C. I. Scofield é outro exemplo desta mistura.

Nas Escrituras uma era é uma época ou período de tempo que já passou, está passando ou passará neste mundo. Períodos assim são chamados de “os tempos dos séculos” ou “tempos eternos” (Tito 1:2), dependendo da versão da Bíblia. Uma dispensação, como já observamos, é um mandato público de Deus na administração de Suas formas de tratar com o homem envolvendo determinadas exigências morais e espirituais para aqueles que estão em Sua casa. Essas administrações podem mudar durante uma era, mas elas não são eras. As Escrituras fazem distinção entre as duas coisas.

Em Seu ministério o Senhor falou de duas eras em particular: “nesta era nem na era que há de vir” (Mt 12:32 NVI). “Esta era” é a era Mosaica, que começou no Sinai e estava em progresso nos dias da primeira vinda do Senhor. Quando Ele foi rejeitado e expulso deste mundo, esta era passou a ser caracterizada de outra forma e se tornou uma “presente era perversa” (Gl 1:4 NVI – ou “século mau” ou “mundo perverso”, dependendo da versão). Isto porque os “poderosos desta era” (1 Co 2:6-8 NVI ou “príncipes deste mundo” ou “poderosos desta época”) cometeram o maior de todos os pecados ao crucificarem o Senhor da glória. Escolheram Barrabás, o ladrão, ao invés de Cristo, e agora “todo o mundo está no maligno” (1 Jo 5:19).

Alguns acham que o atual chamamento de Deus por meio do evangelho colocou a era Mosaica em suspenso, e que ela não recomeçará a não ser em algum dia no futuro. Mas isto não é correto: a era Mosaica continua seguindo o seu curso na terra nos dias de hoje. A vinda do Espírito Santo e a introdução do Cristianismo não fizeram com que ela terminasse e tampouco deram início a uma nova era. Todavia, embora a era Mosaica não esteja suspensa, a conexão de Deus com Israel como nação está suspensa. Aqueles que creem no evangelho são chamados para fora de entre judeus e gentios para serem feitos parte da Igreja; eles são libertados da “presente era perversa” (Gl 1:4 NVI) e já não fazem parte dela, no que diz respeito à sua posição diante de Deus. A Igreja, portanto, não tem qualquer ligação com a terra e com as eras ou períodos de tempo, pois ela é uma entidade celestial que está fora do tempo. Portanto, falar dos tempos atuais como “a era da Igreja” não está doutrinariamente correto.

A Igreja está na terra no presente momento como peregrina em sua jornada rumo ao seu lar celestial; sua vocação, caráter e destino são todos celestiais (2 Co 5:1; Ef 1:3; 2:6; 6:12; Fp 3:20; Cl 1:5; Hb 3:1; 11:16; 12:22; 13:14; 1 Pe 1:4). Já que a Igreja continua na terra e atravessa “esta era” que é marcada pelo mal, as exortações do apóstolo são para nos mantermos separados de seu caráter e maneiras. Devemos viver “neste presente século [era] sóbria, e justa, e piamente” (Tt 2:12). Os crentes devem rejeitar a sabedoria desta era, pois Deus tornou “louca a sabedoria deste mundo [desta era]” (1 Co 1:20). Além disso, os cristãos materialmente “ricos deste mundo [desta era]” (1 Tm 6:17) são admoestados a não confiarem na incerteza das riquezas. Eles devem distribuir suas posses e deste modo entesourarem “para si mesmos um bom fundamento para o futuro” (1 Tm 6:18-19). É triste ver que alguns cristãos hoje estão deixando de lado sua perseverança e passando a amar “o presente século [era]” (2 Tm 4:10) e, como consequência, se estabelecendo no mundo. Demas é um exemplo disto (2 Tm 4:10).

Sabemos, a partir das Escrituras proféticas, que a era atual tem ainda no mínimo mais 7 anos para o seu fim, os quais começarão a contar após a Igreja ser chamada para o céu. Esses 7 anos formam a septuagésima semana de Daniel (Dn 9:27). Esta “era” está neste momento sob o controle de Satanás, que é o seu “deus” e “príncipe” (2 Co 4:4; Ef 2:2). Ela terminará com a Manifestação de Cristo naquilo que é chamado de “fim do mundo [fim da era]” (Mt 13:39-40, 49; 24:3; 28:20). Nessa ocasião o Senhor inaugurará o “século futuro” ou “era futura”, que é o Milênio (Mt 12:32; Mc 10:30; Ef 1:21; Hb 2:5; 6:5). Quando o Milênio tiver terminado seu período de mil anos, virá o Estado Eterno. As Escrituras chamam isso de “séculos dos séculos” ou “todo o sempre” (Gl 1:5; Ef 2:7; 3:21; 1 Tm 1:17; 1 Pe 5:11; Ap 5:13; 22:5). Não é exatamente uma “era”, pois as eras estão associadas ao tempo, e não há tempo na eternidade.

Resumindo, uma “era” é um período de tempo, e uma “dispensação” é um mandato de Deus (uma economia) durante um período determinado de tempo em relação a alguma revelação específica da verdade que Ele entregou à Sua casa.
Os principais nomes de Deus e de Cristo ao longo das eras
  • ERA DA INOCÊNCIA (Adão e Eva no Jardim do Éden) — Deus (Elohim), SENHOR Deus (Jeovah-Elohim).
  • ERA DA AUSÊNCIA DE LEI (do jardim ao dilúvio) — Deus (Elohim).
  • ERA DO GOVERNO (do dilúvio ao chamado de Abraão) — Deus, o SENHOR.
  • ERA DA PROMESSA (de Abraão à Lei) — SENHOR (Jeovah), o Deus Altíssimo (El Elyon), o Deus Todo-poderoso (El Shaddai).
  • ERA DA LEI (da Lei a Cristo) — SENHOR (Jeovah), o Senhor de toda a Terra, o Deus dos Céus.
  • O ATUAL DIA DA GRAÇA — Pai.
  • ERA DA GLÓRIA DO REINO (Milênio) — Deus Altíssimo, Filho de Davi, Filho do Homem.

Como já foi mencionado, a verdade dispensacional envolve a suspensão das tratativas de Deus para com Israel por terem rejeitado a Cristo, o Messias, e o início de um chamamento celestial de pessoas, pelo evangelho, para formarem a Igreja. Depois disso Deus voltará a tratar com um remanescente de Israel para introduzi-lo na bênção juntamente com as nações gentias durante o reino milenial de Cristo. Portanto, poderíamos dizer que a presente vocação da Igreja é um parêntese celestial nas tratativas terrenas de Deus para com Israel.

Havendo declarado esta simples sequência de eventos concernentes a Israel e à Igreja no modo de Deus agir, a pergunta que naturalmente surge é: “Como sabemos que esta ordem de coisas é correta?”. A resposta é que a Palavra de Deus a indica em muitos lugares. A rigor, o grande teste para sabermos qual é verdadeiro — Dispensacionalismo ou Teologia Reformada do Pacto — é verificar se encontra respaldo na Palavra de Deus, nossa única autoridade. Tendo isto em mente, podemos citar uma lista de professores bíblicos do passado e do presente que adotam diferentes lados nesta questão, alguns professando uma visão dispensacional, outros da Teologia do Pacto. Já que estas duas visões se opõem, ambas não podem ser verdadeiras. Todavia, não é o que os homens dizem a respeito do assunto que deveria determinar a posição que adotamos, mas sim o que a Palavra de Deus diz. Ao longo de suas páginas encontramos testemunho após testemunho do Dispensacionalismo como sendo a verdade, e nos surpreende que alguém possa ler as Escrituras com seriedade e deixar isso passar. Dos claros ensinos do apóstolo Paulo em suas epístolas aos tipos no Antigo Testamento, passando pelas figuras apresentadas nos evangelhos, o ensino deste assunto é abundante e confirma que realmente existe uma ordem dispensacional no modo de Deus agir. Os teólogos do Pacto irão negar, mas só estarão negando as esmagadoras evidências das Escrituras.

Gostaríamos agora de demonstrar isto levando nossos leitores através de várias passagens que mostram esta ordem dispensacional. Para auxiliar na compreensão desta ordem simples, assinalamos quatro características evidentes dela. Nós as chamamos de “Os Quatro Pilares da Verdade Dispensacional”. São eles:
  1. As profecias do Antigo Testamento indicam que ocorreria uma interrupção ou suspensão no modo de Deus agir para com Israel em razão da rejeição dos judeus de seu Messias, e que mais tarde Deus voltaria a tratar com eles em um tempo futuro.
  2. As Escrituras do Antigo Testamento também declaram que, como consequência da rejeição dos judeus de seu Messias, eles seriam espalhados por todo o mundo por um juízo administrativo ou governamental de Deus, e que por muitos séculos seriam um povo sem um país.
  3. As Escrituras também indicam que nesse interim Deus iria voltar Sua atenção para os gentios a fim de chamar de entre eles crentes no Senhor Jesus Cristo para serem parte de uma nova companhia de pessoas abençoadas, chamada de Igreja, a qual é o corpo e noiva de Cristo. Isto não significa que no tempo presente Deus não salve judeus que creiam e os introduza na Igreja — com certeza Ele faz isso (Tm 11:1-5; Gl 6:16; Ef 2:14-16), mas o seu foco durante o tempo presente está predominantemente nos gentios (At 13:44-48; 15:14; 28:23-29). O propósito desse esforço não é fazer com que crentes gentios substituam Israel (como alguns cristãos erroneamente pensam), mas formar uma companhia celestial totalmente nova de crentes, a qual possui suas próprias bênçãos e privilégios que são distintos, e também uma vocação e destino celestiais.
  4. As Escrituras indicam que após este atual intervalo Deus irá voltar a tratar com Israel e os abençoará de forma literal em conformidade com as promessas que fez aos Patriarcas e às visões que deu aos profetas daquele povo. Um remanescente de todas as doze tribos será restaurado ao Senhor e abençoado na terra em sua pátria durante o reino de Cristo.

As Profecias do Antigo Testamento indicam uma suspensão nas tratativas de Deus para com Israel.
O primeiro “pilar” da verdade dispensacional é que as Escrituras proféticas do Antigo Testamento ensinam que haveria uma interrupção nas tratativas de Deus para com Israel como consequência da rejeição do Messias.

A atual suspensão das tratativas de Deus para com a nação não ocorreu durante a vida e ministério do Senhor Jesus, mas depois de os judeus terem rejeitado Seu testemunho (At 7:51) e também o testemunho do Espírito Santo (At 7:51). Depois de haver, não somente crucificado o Cristo, mas também resistido ao testemunho do Espírito de Deus (falando a eles por intermédio dos apóstolos), a nação foi colocada de lado nas tratativas administrativas de Deus. O golpe final de rejeição e incredulidade culminou no fato de os líderes responsáveis pela nação terem apedrejado Estêvão em Atos 7, enviando-o para o céu com a mensagem: “Não queremos que este Homem reine sobre nós” (Lucas 19:14). Ainda assim Deus os suportou com paciente misericórdia por quarenta anos até o ano 70 D.C., quando a nação foi destruída pelo exército romano. Após a rejeição final de Cristo por ocasião do apedrejamento de Estêvão, Deus passou a buscar pelos gentios com o evangelho de Sua graça. Portanto, houve uma progressão no julgamento da nação que terminou com ela eventualmente tendo sido colocada de lado:
• Judicialmente na cruz (Sl 69:22-28).
• Administrativamente no apedrejamento de Estêvão (At 7).
• Literalmente pelo fato de o exército romano ter destruído a cidade e o santuário (Dn 9:26; Mt 22:7).

Estas profecias do Antigo Testamento não vão além de indicar o que ocorreria no modo de Deus agir durante o tempo em que Israel fosse colocado de lado como nação. A razão disto é que a verdade do atual chamado celestial da Igreja pelo evangelho (apresentada no “Mistério”) estava escondida dos santos do Antigo Testamento e era um “mistério que desde tempos eternos esteve oculto” (Rm 16:25; Ef 3:9; Cl 1:26-27). Trata-se da verdade do Mistério que “noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens” (Ef 3:5). Portanto os profetas do Antigo Testamento não poderiam ter falado das coisas reveladas no Mistério, pois ninguém nos tempos do Antigo Testamento as conhecia! Todavia, as passagens do Antigo Testamento que estamos prestes a examinar estabelecem o fato de que as tratativas de Deus com Israel (na verdade os judeus) seriam suspensas. Este é o primeiro “pilar” da verdade dispensacional.
As passagens a seguir indicam esta interrupção ou suspensão:

  • “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade [expiação], e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo [santo dos santos]. Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações. E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador.” Daniel 9:24-27

    Esta bem conhecida profecia mostra que ocorreria uma interrupção nas tratativas de Deus para com Israel, já que a 70ª semana (de anos) está separada das 69 semanas. O que causaria essa interrupção está claramente indicado em “será cortado o Messias” por meio de Sua morte (Isaías 53:8). Isto se refere à rejeição e crucificação de Cristo pela nação judaica.

    Enquanto o ciclo de semanas é interrompido com a morte de Cristo, a profecia segue adiante na última parte do versículo 26 para falar da destruição “da cidade e do santuário”. Isto, como já observamos, foi feito por Tito e pelos romanos no ano 70 D.C. Eles são “o povo do príncipe, que há de vir”. O fato de esta profecia continuar no versículo 26, mas não imediatamente com os detalhes concernentes à 70ª semana, indica claramente que ocorre uma interrupção no ciclo de semanas. O versículo 26 segue dizendo “… e até ao fim haverá guerra; estão determinadas assolações”. Isto se refere à história da cidade de Jerusalém nos anos que se passariam entre a 69ª e a 70ª semana. Nenhuma cidade passou por tantas guerras e problemas como a culpada cidade de Jerusalém. Walter Scott assinala que aquela cidade já foi sitiada 33 ou 34 vezes desde que Cristo foi rejeitado por Seu povo. O próprio Senhor disse que ela seria “pisada pelos gentios” até Sua vinda — a Manifestação de Cristo (Lc 21:24-28). Ou seja, ela ficaria sujeita aos gentios até Cristo voltar.

    No versículo 27 a profecia indica que em algum momento no futuro o ciclo de semanas será retomado com a 70ª e última “semana” tomando seu curso, quando os judeus farão “uma aliança” de morte com o “príncipe” romano (Is 28:15). Mas após as 70 semanas terem se cumprido, as seis grandes promessas relativas à restauração de Israel e às bênçãos da nação no reino futuro (mencionadas no versículo 24) se tornarão realidade. Sabemos que a 70ª semana (de sete anos) não se cumpriria após a 69ª semana, pois imediatamente após seu cumprimento as seis promessas de restauração e bênçãos feitas a Israel aconteceriam — e nada disso aconteceu sete anos depois de Cristo ter morrido. A 70ª semana, portanto, ainda está para ser cumprida.

    Portanto a profecia mostra que haveria uma interrupção e depois uma retomada nas tratativas de Deus para com Israel, mas não nos é dito quanto tempo duraria essa interrupção, ou com quê Deus estaria ocupado nesse ínterim.

  • “Agora ajunta-te em tropas, ó filha de tropas; pôr-se-á cerco contra nós; ferirão com a vara na face ao juiz de Israel. E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. Portanto os entregará até ao tempo em que a que está de parto tiver dado à luz; então o restante de seus irmãos voltará aos filhos de Israel.” Miquéias 5:1-3

    Por ocasião do ataque dos assírios (o Rei do Norte — Dn 11:40-42), o profeta mostra a obra do Espírito de Deus no remanescente, trazendo à consciência dos judeus o sentimento de culpa por terem rejeitado seu Messias. Muitos anos antes, mas em um tempo ainda futuro em relação àquele em que o profeta falava, a nação feriu “com a vara na face ao juiz de Israel” — isto é, eles insultaram e rejeitaram a Cristo (Mq 5:1). O versículo dois é um parêntese que identifica quem é esta importante Pessoa. Ele nasceu na insignificante cidade de Belém, mas estava destinado a ser “o que governará em Israel”. Suas “saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”, referindo-se assim ao caráter eterno de Sua Pessoa. Esta Pessoa eterna não poderia ser outro senão o Senhor Jesus Cristo.

    Como consequência de Sua humilhação e rejeição a profecia declara que “os entregará até ao tempo em que a que está de parto tiver dado à luz”. Isto significa que Deus iria interromper Suas tratativas com a nação. Seria algo temporário, como é indicado na seguinte frase, “até ao tempo em que a que está de parto tiver dado à luz”. Mais uma vez o profeta não especifica por quanto tempo a nação seria deixada de lado, mas nos assegura que o Senhor iria restabelecer Seu relacionamento com ela depois do “parto”. O trabalho de parto de Israel é o “tempo de angústia para Jacó” — a Grande Tribulação (Jr 14:8; 30:7). O “parto” da nação é seu renascimento pela graça de Deus (Is 66:7-8). O profeta declara que nessa ocasião “o restante [remanescente] de seus irmãos” (os judeus) sairá da Grande Tribulação e será restaurado ao Senhor. Eles serão então reunidos aos “filhos de Israel” (um remanescente das dez tribos) que também serão restaurados naquela ocasião. Portanto, as duas partes da nação que ficou dividida por quase três mil anos serão reunidas naquele dia e entrarão juntas no reino milenial de Cristo, como um só povo (Is 11:12-13; Ez 37:1-28).

    Mais uma vez aqui temos uma clara indicação de que Deus interromperia Suas tratativas com a nação de Israel e voltaria a tratar com ela em algum momento no futuro, sem dizer em quê o Senhor teria Sua atenção concentrada nesse ínterim. Como ocorreu em Daniel 9, a causa da interrupção apontada nesta passagem é a rejeição de Cristo, o Messias, pelos judeus.

  • “O espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; a ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do Senhor, para que ele seja glorificado.” Isaías 61:1-3

    Esta passagem indica que o Messias (o Senhor Jesus Cristo) possui um triplo ministério em conexão com Israel: em graça (Is 61:1-2a), juízo (Is 61:2b) e cura (Is 61:2c-3). Sabemos disso da aplicação feita pelo Senhor desta profecia em Lucas 4:16-21, mostrando que haveria uma interrupção em Seu ministério Messiânico. Ele indicou isto ao interromper Sua citação da passagem na parte em que diz “anunciar o ano aceitável do Senhor”. Ele então anunciou que aquela parte da profecia estaria se cumprindo naquele momento de Sua primeira vinda, ao dizer: “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4:21). Ele não mencionou que as outras duas partes da profecia estariam se cumprindo naquele momento. A história confirma que as duas últimas partes ainda não se cumpriram. Estas tinham a ver com o Senhor executando juízo sobre os grandes reinos deste mundo e trazendo conforto, cura e restauração a todos os que “choram” (se arrependem) em Israel e, como consequência, as bênçãos mileniais prometidas pelos profetas do Antigo Testamento seriam derramadas sobre a nação. Como sabemos, isso ainda não aconteceu.

    Se o Senhor não tivesse indicado esta interrupção na profecia, talvez não a tivéssemos percebido na passagem de Isaías. Mas já que Ele indicou que apenas parte dela se cumpria em Sua primeira vinda, sabemos com certeza que ainda há de vir um dia quando ele irá cumprir o restante da profecia.

  • “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha. Escureçam-se-lhes os seus olhos, para que não vejam, e faze com que os seus lombos tremam constantemente. Derrama sobre eles a tua indignação, e prenda-os o ardor da tua ira. Fique desolado o seu palácio; e não haja quem habite nas suas tendas. Pois perseguem àquele a quem feriste, e conversam sobre a dor daqueles a quem chagaste. Acrescenta iniquidade à iniquidade deles, e não entrem na tua justiça. Sejam riscados do livro dos vivos, e não sejam inscritos com os justos.” Salmo 69:22-28

    Este Salmo mostra o Senhor na cruz, não sofrendo em conexão com Sua obra expiatória, mas sofrendo a injúria nas mãos dos homens. Ao ser rejeitado, Ele vê a Si próprio injuriado por sete diferentes grupos de pessoas — de sua família aos soldados romanos que O crucificaram (Sl 69:7-21). Consequentemente, o Senhor faz esta oração na qual amaldiçoa (Sl 69:22-28).

    Primeiro, para que os incrédulos judeus fossem cegados por sua própria religião, a qual o Senhor chama de “sua mesa” — o sistema sacrificial com o qual a nação estava em uma comunhão exterior com Deus (Rm 11:25; 2 Co 3:14-15). Em segundo lugar, para que a nação fosse varrida pelos romanos sob o comando de Tito no ano 70 D.C. (Dn 9:26; Mt 22:7). E em terceiro lugar, para que aqueles que fossem mortos em sua condição de incredulidade passassem para uma eternidade de perdição e assim fossem apagados do livro da vida. Essas três coisas se cumpriram pouco tempo depois da morte do Senhor, trazendo um rompimento dos vínculos da nação com Deus, e assim eles foram colocados de lado como nação. O Salmo segue mostrando que isso não seria para sempre.

  • No capítulo 11:1-3 a profecia começa descrevendo uma desolação assustadora da terra, causada por um exército invasor e pela inabilidade do povo de resistir à invasão. Isto é mostrado por meio da figura de um grande “fogo” na floresta que consumiria tudo à medida que passasse pela terra, de norte a sul. Trata-se de uma referência ao futuro ataque do Rei do Norte à terra de Israel (Dn 11:40-42).

    O fogo destruiria os “cedros”, os “ciprestes” e os “carvalhos”. Estas são figuras dos homens, portanto a população seria dizimada. O fogo começaria no “Líbano” (ao norte), e se alastraria rumo ao sul até as planícies cobertas de relva de “Basã”, onde os pastores apascentariam seus rebanhos. Ele continuaria em direção ao sul até a parte baixa do vale do “Jordão” (ao sul) e devastaria também aquela área.
    * * * * *No capítulo 11:4-17 o profeta abre um grande parêntese com os versículos 4 ao 17 explicando a razão desse juízo. É por Cristo, “o bom Pastor” (João 10:11), ter sido rejeitado pela nação e por esta ter recebido o Anticristo, “o pastor inútil” (Zc 11:17). Isto é apresentado aqui para retratar a obra do Espírito no futuro, quando Ele trouxer à consciência dos judeus este duplo pecado.

    Portanto, neste parêntese temos uma retrospectiva para o tempo do primeiro advento de Cristo. Ele começa com o Senhor recebendo Sua comissão vinda de Deus para ministrar à nação. Ele deveria apascentar “as ovelhas da matança” por causa de sua incredulidade. Seus “possuidores” (o império Romano, sob cujo jugo eles estavam na época da primeira vinda do Senhor) não se consideravam “culpados” de tratarem mal os judeus, pois acreditavam que eles mereciam (Zc 11:5). Os judeus infiéis (os Herodianos — Mt 22:16) que se uniram à causa romana usaram da oportunidade para enriquecer. Os “seus pastores” (os principais sacerdotes, escribas, Saduceus e Fariseus) se contentavam em não alterar aquela situação e nada faziam para ajudar a nação. Como consequência da incredulidade do povo e de um total desrespeito pelas reivindicações de Deus, o Senhor disse que não teria “mais piedade dos moradores desta terra” (Zc 11:6), mas os entregaria nas mãos do “rei” (César — João 19:15) e de seu povo (os Romanos) que iriam ferir a terra. Isto aconteceu no ano 70 D.C..

    Enquanto isso o Senhor cumpria o Seu ministério — “Eu, pois, apascentei as ovelhas da matança” (Zc 11:7). Ele acrescenta “as pobres ovelhas do rebanho”. Esta última declaração se refere ao remanescente de judeus crentes em meio à massa de incrédulos. O Senhor falou de dois aspectos de seu ministério messiânico usando a figura de “duas varas”, que eram instrumentos que o pastor usava para apascentar o rebanho. Elas representam o que o Senhor teria feito por Israel se eles O tivessem recebido. A uma vara Ele deu o nome de “Graça”, pois sob o Seu ministério messiânico a nação seria agraciada com as bênçãos mileniais que Ele derramaria sobre o povo (Sl 90:17; Is 55:5; 60:1-3, 13). “Todos estes povos” (os gentios — Zc 11:10) veriam a glória e a beleza repousando sobre Israel e estariam desejosos de se juntarem ao Deus de Israel (Sl 47:9; Zc 2:10-11). A outra vara Ele chamou de “União”, pois iria sanar a brecha entre as duas tribos e as demais dez tribos (“Judá e Israel” — Zc 11:14), unindo-as novamente em uma grande nação (Ez 37:15-28). O Senhor “apascentou” o rebanho tendo em mente estes dois objetivos, todavia não houve resposta do povo, pois eles eram infiéis (Zc 11:7b).

    Irritado com a incredulidade do povo, o Senhor destruiu “os três pastores num mês” (Zc 11:8). Isto é uma referência ao fato de Ele ter exposto as três principais seitas na nação — os Herodianos, Saduceus e Fariseus — quando O confrontaram no Templo (Mt 22:15-46). A tradução correta seria que ele fez isso tudo em um dia do mês. O Senhor decidiu não mais apascentar (alimentar) o rebanho (Zc 11:9). Como consequência a nação ficaria destituída da proteção divina e exposta a seus inimigos. Durante o cerco e queda de Jerusalém no ano 70 D.C. os moribundos morriam e os que pereciam acabariam sendo destruídos pela fome, enquanto o restante do povo se entregaria ao canibalismo.

    O Senhor quebrou a vara “Graça”, o que significa que Seu ministério messiânico para abençoar a nação seria suspenso (Zc 11:10). A promessa de “aliança” (não da aliança Mosaica) para abençoar Israel por intermédio das nações gentias (“todos estes povos”) não se concretizaria naquele tempo. A vara seria quebrada, mas “os pobres do rebanho, que me respeitavam” (os fiéis) receberiam entendimento da razão dessa suspensão em Seu ministério para com Israel (Zc 11:11; Mt 13:110).

    Ao concluir Seu ministério para com a nação, o Senhor disse a eles: “Dai-me o meu salário”, isto é, os três anos e meio que passou pregando, ensinando e apascentando o povo (Zc 11:12). Os líderes O avaliaram em “trinta moedas de prata”. Aquilo era um completo insulto; o preço de um escravo morto! (Êx 21:32). Aquilo mostrava a profundidade da depravação a que a nação havia chegado e revelava os desígnios na nação de matá-Lo. Jeová disse a Ele: “Arroja isso ao oleiro” (Zc 11:13). Por intermédio de Mateus 27:3-10 sabemos que isto foi feito por mãos dos sacerdotes (Judas atirou o dinheiro no templo e os sacerdotes o deram ao oleiro). Usando de ironia, o Senhor chamou aquilo de “belo preço em que fui avaliado por eles”, e seguiu quebrando a outra vara, “União” (Zc 11:14). Isto significava que o Senhor não iria curar a brecha entre “Judá e Israel” naquele tempo.

    A quebra das duas varas significava que o Senhor havia cessado Seu ministério messiânico para com Israel. O fato de elas terem sido quebradas separadamente indica Sua relutância em dissolver seu vínculo com Israel. Todavia, depois de esperar pacientemente por muito tempo (40 anos — da cruz a 70 D.C.) eles foram entregues a uma ação judicial que permitiu que os exércitos romanos destruíssem a cidade e o santuário, e deportassem o povo (Mt 22:7). Portanto, esta profecia também indica que Deus iria romper suas tratativas com a nação por haverem rejeitado a Cristo, e ao fazer assim haviam também rejeitado as bênçãos do reino que poderia ter sido deles. Essa ação de colocar de lado da nação não seria final, como demonstram os próximos capítulos (12-13).

  • “Quando Efraim viu a sua enfermidade, e Judá a sua chaga, subiu Efraim à Assíria e enviou ao rei Jarebe; mas ele não poderá sarar-vos, nem curar a vossa chaga. Porque para Efraim serei como um leão, e como um leãozinho à casa de Judá: eu, eu o despedaçarei, e ir-me-ei embora; arrebatarei, e não haverá quem livre. Irei e voltarei ao meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face; estando eles angustiados, de madrugada me buscarão. Vinde, e tornemos ao Senhor, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida. Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele. Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra”. Oséias 5:13-6:3

    Até aqui vimos as passagens que se referem aos judeus (as duas tribos). A passagem que agora veremos mostra as dez tribos (o reino do norte de Israel), que os profetas identificam como “Efraim”. Existe uma diferença na responsabilidade entre estas duas facções da nação. Os judeus rejeitaram a Cristo e irão receber o Anticristo, enquanto as dez tribos não são culpadas de nenhuma destas coisas. As dez tribos de Israel nem sequer estavam na terra na época em que Jesus veio; portanto elas não podem ser consideradas responsáveis pela rejeição e crucificação de Cristo. Todavia, elas transgrediram a Lei de Deus e mergulharam na idolatria, sendo obviamente culpadas destas coisas. (Os 4:17).
    Esta passagem mostra que o rompimento do Senhor com as dez tribos ocorreu muito antes de Seu rompimento com os judeus. Os exércitos inimigos invadiram a terra e levaram as dez tribos em 721 A.C., enquanto os judeus foram deportados de sua terra no ano 606 A.C. Mas Deus teve misericórdia da casa de Davi e fez com que um remanescente de judeus retornasse nos dias de Jesuá e Zorobabel (Ed 1-2). Eram esses judeus que estavam na terra quando Cristo veio e foi rejeitado. Como consequência eles acabariam sendo destruídos mais tarde, no ano 70 D.C.
    Oséias 5:13-15 — Como consequência do envolvimento deles com a idolatria o Senhor lhes avisou que iria “despedaçar” o reino do norte de Israel. Trata-se de uma referência à remoção da divina proteção, permitindo que seus inimigos invadissem a terra e os destruísse. Então Ele declara “ir-me-ei embora”, ou seja, Deus se afastaria deles. Esta é uma referência ao rompimento de suas tratativas com as dez tribos de Israel. Naquela ocasião o Senhor deu a eles o nome de “Lo-Ami” (“não meu povo” – Os 1:9-10).

    O Senhor disse: “Irei e voltarei ao meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face” (Os 5:15). Esta é a posição que o Senhor assumiu por muitos anos em relação às dez tribos. O capítulo 6 segue para demonstrar que seu rompimento com eles não seria para sempre. Mais uma vez aqui temos uma clara referência ao Senhor suspendendo Suas tratativas com a nação.

  • Este capítulo nos apresenta a declaração de Jacó aos seus doze filhos revelando o futuro deles “nos dias vindouros” (literalmente “nos últimos dias” — Gn 49:1). Quando entendido de modo figurado, suas palavras apresentam uma notável extensão da história relacionada à nação de Israel.

    RÚBEN — Representa os primórdios da história de Israel na terra de Canaã (Gn 49:3-4). Tendo recebido os privilégios de primogênito— “força”, “vigor”, “alteza” e “poder” — estes foram conferidos à nação. Todavia o povo, à semelhança de Rúben, não se esmerou, mas se corrompeu moral e espiritualmente (1 Cr 5:1). Por isso o direito e privilégio de ser a “cabeça” das nações foram tirados de Israel e transferidos aos gentios (Dt 28:13; Dn 2:37). Isso ocorreu por ocasião do cativeiro babilônico (2 Rs 24:1-4).
    SIMEÃO e LEVI — Um remanescente dos judeus foi restaurado à terra nos dias de Esdras e Neemias, e assim como fizeram Simeão e Levi, eles “mataram homens” (Gn 49:5-7). Esta é uma referência ao que fizeram aos Siquemitas (Gn 34:26), mas profeticamente aponta para a morte de Cristo (At 2:23; 3:14-15). Simeão e Levi representam o povo e o sacerdócio se unindo nesse crime nacional que foi a morte de Jesus. Consequentemente Deus diz “eu os dividirei… e os espalharei”. Originalmente isto se referia ao lugar em que seriam colocados entre as tribos de Israel (Josué 21), mas em seu sentido profético representa sua dispersão entre os gentios.
    JUDÁ — Considerando que a nação foi culpada de crucificar seu Messias, o propósito de Deus para com a tribo de Judá, de que reinasse como um “leão” entre as tribos de Israel (1 Cr 5:2), foi anulado e perdeu seu efeito (Gn 49:8-10). Todavia, “o cetro” e o “legislador” não seriam separados de Judá até que viesse “Siló” (Cristo, o “Homem de paz”) e este fosse formalmente rejeitado. Isto significa que os judeus conservariam sua soberania política na terra até depois de Cristo ter sido rejeitado. A retirada do “cetro” e do “legislador” de Judá aponta para quando os judeus, como nação, foram colocados de lado, o que ocorreu literalmente no ano 70 D.C. quando os Romanos destruíram a cidade de Jerusalém e deportaram o povo. Resta uma promessa que ainda está para se cumprir: “a ele [Siló] se congregarão os povos” (veja Zacarias 2:11). Naquele dia futuro Judá se tornará um estado próspero (Gn 49:11-12).
    ZEBULOM — Zebulom e Issacar representam os judeus nos dias atuais, como tendo sido colocados de lado no modo de agir de Deus. Zebulom indica que eles seriam dispersos entre as nações e assim se entregariam ao comércio com os gentios (Gn 49:13). Isto é mostrado no que Jacó diz sobre Zebulom, que ele habitaria “no porto dos mares”. Os “mares” nas Escrituras nos falam dos gentios (Ap 17:15). Além disso, Zebulom seria “como porto dos navios”. Esta é uma referência ao comércio dos judeus com os navios mercantes que viriam a eles para vender seus produtos.
    ISSACAR — Ao longo de sua diáspora os judeus acabaram se conformando à sua sujeição aos gentios e colocaram seu foco em atingir seu objetivo de acumular riqueza (Gn 49:14-15). Isto está indicado na declaração de que eles seriam um “jumento de fortes ossos, deitado entre dois fardos”. Nessa posição degradante eles viram “que o descanso era bom” e aproveitaram ao máximo, servindo “debaixo de tributo” (ou “trabalhando como escravos”).
    — Após a atual dispersão haverá um exercício nacional entre os judeus para retornarem em massa à sua terra natal (Is 18:1-4). Isto acontecerá durante a septuagésima semana de Daniel (Dn 9:27). Nessa ocasião se levantará um falso messias (o Anticristo) que “julgará seu povo” (Gn 49:16). Esse homem terá ajuda satânica e se valerá dela para levar a nação à apostasia (Ap 9:1-11). Dã representa essa corrupção. Como uma “serpente junto ao caminho, uma víbora junto à vereda, que morde os calcanhares do cavalo, e faz cair o seu cavaleiro por detrás”, o Anticristo causará um retrocesso entre os judeus (Gn 49:17). A adoração da Besta e de sua imagem substituirá os sacrifícios judaicos (Dn 9:27; Ap 13:11-18). Um remanescente dentre os judeus não se curvará à idolatria por motivo de consciência e acabará perseguido como consequência disso. Esse remanescente se entregará ao Senhor e clamará a Ele por libertação, o que está representado nas palavras “A tua salvação espero, ó Senhor!” (Gn 49:18).
    GADE — No final, o aflito remanescente judeu sairá da Grande Tribulação vitorioso. A profecia de Jacó a respeito de Gade ilustra isto (Gn 49:19). Isso acontecerá quando o Senhor vier — em Sua vinda manifesta. O remanescente será temporariamente vencido por uma tropa de apóstatas — “uma tropa o acometerá, mas ele a acometerá por fim”. Isto assinala o Senhor voltando a se relacionar com o Seu povo Israel.
    ASER — Após terem experimentado a libertação, Aser representa o fato de que o remanescente de Israel receberá sua herança, “o seu pão será gordo, e ele dará delícias reais” — o que significa grande prosperidade (Gn 49:20).
    NAFTALI — O remanescente liberto experimentará a liberdade como “uma gazela solta” e pronunciará “palavras formosas” de louvor a Deus (Gn 49:21).
    JOSÉ — José e Benjamim são tipos de Cristo. José tipifica Cristo agindo em graça no Milênio e Benjamim representa Cristo agindo em juízo naquele mesmo tempo.
    Israel restaurado será como “ramo frutífero junto à fonte”. Seus “ramos” de bênção correrão “sobre o muro” — alcançando os gentios (Gn 49:22). Ainda continuará a existir o “muro” de separação entre Israel e as nações gentias durante o reino milenial de Cristo, mas a bênção do Senhor sobre Israel será tão grande que eles terão prazer em compartilhá-la com outros. Isso será uma prova de que a restauração de Israel estará completa; eles já não terão preconceito contra os gentios.
    As nações certamente “lhe deram amargura, e o flecharam e odiaram”, mas naquele dia os exércitos de Israel serão “fortalecidos pelas mãos do Valente de Jacó”, e eles usarão de seu poder para serem uma bênção para as nações (Gn 49:23-24). A partir da terra de Israel, Cristo, “o Pastor e a Pedra de Israel”, irá reinar trazendo ao mundo “bênçãos dos altos céus”. Tais bênçãos superarão as de seus ancestrais — “as bênçãos de meus pais” — e se estenderão ao longo do reino de mil anos de Cristo até a “extremidade dos outeiros eternos”, o Estado Eterno (Gn 49:25-26). Bênçãos são mencionadas seis vezes em conexão com José.
    BENJAMIM — No dia milenial ainda haverá juízo sendo executado (Gn 49:27). Nessa época, como “lobo que despedaça”, o Senhor virá sobre os que se rebelarem contra a justiça (Is 32:1; Sl 101:8).
    Temos assim, na profecia de Jacó a respeito de seus filhos, previsões de toda a história de Israel quando a interpretamos na forma de tipos. E mais uma vez podemos ver que a nação seria colocada de lado em um tempo quando seria dispersa entre os gentios e, depois de algum tempo, haveria uma retomada da conexão do Senhor com eles para introduzi-los nas bênçãos prometidas do reino.

    Existem muitas outras profecias no Antigo Testamento que falam das tratativas passadas e futuras do Senhor com Israel, porém elas não indicam um rompimento entre o passado e o futuro. Todavia, quando essas profecias são interpretadas à luz das profecias que acabamos de considerar, fica claro que haveria uma suspensão em certo momento das tratativas de Deus com Israel. Algumas destas passagens são Salmo 110:1-7; Isaías 42:1-9; Isaías 49:3-6; Daniel 7-8; Daniel 8:22-25; 11:35-36; Oséias 2 e Zacarias 9:9-11. Interpretar estas profecias levando em consideração tal interrupção de modo algum compromete o estudo destas passagens.

Os Judeus seriam dispersos debaixo do Juízo governamental de Deus e existiriam por muito tempo como um povo sem país.
Havendo assentado o primeiro “pilar” no fundamento da verdade dispensacional — o fato de que haveria uma interrupção nas tratativas de Deus com Israel — seguimos agora com o segundo “pilar”. Ele tem a ver com o fato de os judeus terem sido dispersos sob o juízo governamental de Deus. Como consequência eles passariam a existir por muitos dias como um povo sem um país. A isto se dá o nome de diáspora. Os judeus continuam sob esse juízo ainda hoje e continuam dispersos pelo mundo. Cerca de quatro milhões de judeus vivem hoje em sua terra na Palestina, mas eles continuam nacionalmente sob aquela repreensão.

  • Se juntássemos as diferentes coisas que as Escrituras dizem que iriam caracterizar Israel em sua dispersão, obteríamos uma imagem composta e exata daquilo que aconteceu à nação durante os últimos dois mil anos. As passagens a seguir indicam essas coisas:
    Salmo 69:22-25“Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha. Escureçam-se-lhes os seus olhos, para que não vejam, e faze com que os seus lombos tremam constantemente. Derrama sobre eles a tua indignação, e prenda-os o ardor da tua ira. Fique desolado o seu palácio; e não haja quem habite nas suas tendas. Pois perseguem àquele a quem feriste, e conversam sobre a dor daqueles a quem chagaste. Acrescenta iniquidade à iniquidade deles, e não entrem na tua justiça. Sejam riscados do livro dos vivos, e não sejam inscritos com os justos.” Salmo 69:22-25

    Como já foi mencionado, estes versículos registram uma oração do Senhor na cruz. Depois de revisar toda a Sua vida como tendo sido uma vida de repreensão e rejeição, Ele lança esta oração imprecatória para juízo da porção incrédula da nação que O havia rejeitado. A mesma passagem que indica que a nação seria cruelmente deportada de sua terra e colocada de lado segundo a maneira de Deus, também nos diz qual seria a condição do povo durante sua diáspora. Eles permaneceriam espiritualmente cegos por um golpe do juízo governamental de Deus (Sl 69:22-23; Rm 11:25; 2 Co 3:14-15). Mas mesmo nessa condição a cegueira seria apenas “em parte” (Rm 11:25); ao longo dos anos alguns judeus foram salvos pela misericórdia de Deus (Hc 3:2; Rm 11:5, 31-32). Assim como Elimas, o mago judeu que recusou o evangelho e tentou impedir que os gentios cressem, a nação tem estado espiritualmente cegada “por algum tempo” (At 13:6-11).

  • “…e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações.” Daniel 9:26

    Isto está se referindo àquilo que aconteceria à cidade de Jerusalém, ao Templo e ao povo, depois que a nação tivesse rejeitado a Cristo, o Messias. As “assolações” da cidade de Jerusalém continuariam “até ao fim”. Assim, a cidade de Jerusalém se tornaria o centro de muitas guerras e disputas políticas. A história nos últimos dois mil anos atesta este fato. W. Scott registra que ao longo dos anos isto é exatamente o que tem acontecido. Jerusalém já foi sitiada 33 ou 34 vezes!

  • “Porque os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, e sem príncipe, e sem sacrifício, e sem estátua, e sem éfode ou terafim.” Oséias 3:4

    Isto indica que eles ficariam sem sua soberania nacional (“sem rei, e sem príncipe”), sem as oferendas (“sem sacrifício”), sem idolatria (“sem estátua… ou terafim”), e sem um sacerdócio funcionando (“sem éfode”). A história dos judeus nos últimos dois mil anos atesta para estes fatos.

  • “Tu nos entregaste como ovelhas para comer, e nos espalhaste entre os gentios. Tu vendes por nada o teu povo, e não aumentas a tua riqueza com o seu preço.” Salmo 44:11-12

    Esta é parte da confissão do remanescente de judeus que nos últimos dias irá eventualmente correr para o Senhor em fé. Eles reconhecem que sua dispersão foi um juízo de Deus por sua infidelidade.

  • “Tu nos pões por opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria daqueles que estão à roda de nós. Tu nos pões por provérbio entre os gentios, por movimento de cabeça entre os povos.” Salmo 44:13-14

    Confissão do remanescente em um dia vindouro que também incluirá um reconhecimento de que eles terão pago o preço por terem pecado, se tornando assim “por escárnio e zombaria” entre as nações e um “opróbrio” e “provérbio”. Esta certamente tem sido a porção dos judeus dispersos; aonde quer que vão eles são desprezados e zombados.

  • “Zebulom habitará no porto dos mares, e será como porto dos navios, e o seu termo será para Sidom. Issacar é jumento de fortes ossos, deitado entre dois fardos. E viu ele que o descanso era bom, e que a terra era deliciosa e abaixou seu ombro para acarretar, e serviu debaixo de tributo.” Gênesis 49:13:15

    Como já foi mencionado, Zebulom e Issacar, em forma de tipo, representam os judeus em nossos dias como tendo sido colocados de lado nos desígnios de Deus. Zebulom indica que eles seriam dispersos entre as nações e deste modo ficariam imersos no comércio com os gentios. Isto está inferido no que Jacó diz de Zebulom, de que ele “habitará no porto dos mares”. O “mar” nas Escrituras nos fala dos gentios (Ap 17:15). Além disso, Zebulom seria também “como porto dos navios”. Isto é uma referência aos judeus negociando com os navios dos mercadores gentios que iriam até eles para vender seus produtos.

    Issacar indica que durante sua diáspora os judeus iriam aceitar sua sujeição aos gentios e transformá-la numa oportunidade de juntar riqueza. Isto é visto na afirmação de que seria “jumento de fortes ossos, deitado entre dois fardos”. Em uma posição de tal degradação “viu ele que o descanso era bom”, aproveitando ao máximo como pôde, e assim “serviu debaixo de tributo”. Os judeus dispersos, ao longo dos anos, se tornaram famosos por seus empreendimentos comerciais.

  • “Eis que todos vós, que acendeis fogo, e vos cingis com faíscas, andai entre as labaredas do vosso fogo, e entre as faíscas, que acendestes. Isto vos sobrevirá da minha mão, e em tormentos jazereis.” Isaías 50:11

    Esta passagem é um registro da rejeição e do cruel tratamento dado a Cristo, o Messias, quando Ele veio em Seu primeiro advento. Isaías 50:10 faz referência à bênção que o remanescente de crentes dentre os judeus teria por causa de sua fé em recebê-Lo como o Messias. Isaías 50:11 nos dá uma triste imagem da porção daqueles que O rejeitaram. Eles seriam privados da luz e direção divinas, e caminhariam à luz de suas próprias “faíscas”, as quais não dariam quase nenhuma luz, e “em tormentos jazereis”. Mais uma vez, esta tem sido a porção da grande massa de judeus por mais de dois mil anos.

    Resumo da Diáspora dos Judeus
    • Salmo 69:22-25 — Eles seriam cegados administrativamente por conta de sua incredulidade.
    • Daniel 9:26 — Jerusalém e o Templo seriam destruídos.
    • Oséias 3:4 — Eles ficariam privados de sua soberania nacional, sacerdócio e sacrifícios.
    • Salmo 44:11-12 — Eles seriam espalhados entre as nações.
    • Salmo 44:13-14 — Eles seriam odiados e escorraçados onde quer que fossem.
    • Gênesis 49:13-15 — Espalhados entre os gentios eles tirariam vantagem de suas habilidades comerciais e se envolveriam no comércio.
    • Isaías 50:11 — Eles seriam privados de luz espiritual para suas vidas e viveriam em muita tribulação e tristeza.

Deus está estendendo seu favor aos Gentios durante a Rejeição Temporária de Israel.
Conforme mencionado, as profecias do Antigo Testamento não chegam ao ponto de indicar a que Deus iria dirigir Sua atenção durante Seu rompimento com Israel. Para isso precisamos buscar nos escritos do apóstolo Paulo, que é o principal mestre da verdade dispensacional. Suas epístolas indicam que Deus estenderia seu favor e privilégio aos gentios por meio do evangelho de Sua graça com o propósito especial de chamar dentre eles uma companhia de crentes para ser a Igreja, que é o corpo e noiva de Cristo. Essa evangelização não é mencionada no Antigo Testamento, embora ela tenha o mesmo caráter daquela que foi prometida no Antigo Testamento concernente à conversão das nações gentias, quando Israel for restaurado e Cristo reinar supremo em Seu reino milenial. Essa nova abordagem voltada aos gentios no tempo presente é o terceiro “pilar” da verdade dispensacional.
As passagens a seguir confirmam este ponto:

  • Nesta passagem Paulo demonstra que existem duas apostasias entre aqueles que foram agraciados com o favor de Deus: a que ocorreu em Israel e a que está atualmente em curso hoje na cristandade professa. Isto enfatiza o já conhecido fato de que sempre que Deus entrega privilégios e responsabilidades nas mãos do homem, este falha em cumprir com suas responsabilidades e perde seus privilégios — seja ele judeu ou gentio.

    Ao responder às objeções que os judeus naturalmente levantariam pelo fato de Paulo ensinar que Israel teria sido colocado de lado como nação, o apóstolo demonstra neste capítulo que a rejeição de Israel não seria total (Rm 11:1-10), e nem final (Rm 11:11-32). Não é total porque Deus continua salvando pessoas daquela nação. Paulo menciona sua própria conversão como exemplo, mostrando que ainda existiria um “remanescente segundo a eleição da graça”. A rejeição também não seria final, pois os profetas do Antigo Testamento declaravam de forma cristalina que Deus voltaria a tratar com Israel para introduzir um remanescente daquela nação na bênção. Ele cita Isaías 59:20-21 como prova (Rm 11:25-27). Deste modo, no versículo 15 Paulo enfatiza que a “rejeição” deles realmente é um fato. Isto corresponde ao que dizem as profecias do Antigo Testamento que já consideramos no primeiro “pilar”. Mas no mesmo versículo ele afirma que no futuro voltará a ocorrer sua “admissão”.

    Paulo usa a figura de uma “oliveira” para ilustrar as tratativas de Deus com Israel e gentios (Rm 11:16-29). A quebra dos “ramos naturais” da árvore significa a remoção temporária de Israel de um lugar de santa associação com Deus. O enxerto dos ramos de um “zambujeiro” ou “oliveira brava” aponta para os gentios sendo introduzidos em um lugar de associação e privilégio com Deus. O aviso que é dado a esses ramos selvagens é que serão cortados se não continuarem em fidelidade para com a bondade de Deus, e isso se refere ao que as Escrituras predizem que irá acontecer à profissão cristã — ela será cortada em juízo por causa da apostasia. O enxerto que voltará a ser feito com seus ramos naturais que tinham sido cortados significa Deus voltando a tratar com Israel para bênção. Esta simples ilustração nos dá uma imagem das maneiras dispensacionais de Deus agir.

    Vários termos e expressões são usados no capítulo para indicar o favor e privilégio que foi estendido aos gentios no tempo presente, sem chegar a falar de novo nascimento e salvação. Paulo fala de “reconciliação do mundo” (uma reconciliação provisional — Rm 11:15), dos ramos sendo “santos” por sua associação com Abraão como “raiz” (santificação relativa — Rm 11:16), e dos ramos participando da “seiva da oliveira” ao serem enxertados nela (Rm 11:17), e deste modo, por meio destas coisas, os gentios desfrutando da “bondade de Deus” (Rm 11:22). Todavia nenhuma destas coisas se refere à salvação vital da alma pela fé e Cristo. Ao invés disso, elas estão se referindo à grande oportunidade e privilégio que foram dados aos gentios no tempo presente. (Se os ramos selvagens enxertados na oliveira significassem a bênção da salvação, então a possibilidade de serem “cortados” significaria a perda da salvação de uma pessoa, o que as Escrituras ensinam ser impossível de acontecer. Tampouco deveríamos pensar que a passagem esteja ensinando que as bênçãos de Israel tenham sido transferidas aos cristãos de alguma maneira espiritualizada).

    Os ramos de oliveira brava se referem à profissão cristã (que é formada em sua maioria por gentios) à qual é dada a oportunidade de ocupar um lugar de favor diante de Deus. Os ramos da oliveira brava não representam a Igreja, mas sim aqueles que professam (e não necessariamente possuem) a fé em Cristo neste Dia da Graça. O assunto da ilustração não é indicar as bênçãos espirituais individuais dos crentes, mas os privilégios espirituais daqueles associados ao Senhor, privilégios estes que foram assim transferidos de Israel aos gentios.

  • Vimos em Romanos 11 que favor e privilégio foram estendidos aos gentios durante o tempo da temporária rejeição de Israel, mas aquele capítulo não apresenta a matéria toda. Não indica a maneira pela qual Deus alcançaria os gentios, ou em que forma de bênção isso seria feito. Como um passo a mais no descortinar das maneiras dispensacionais de Deus proceder, devemos olhar outras epístolas do apóstolo Paulo, em particular a aos Efésios.

  • A Paulo foi dado um ministério especial de “completar a palavra de Deus” (Cl 1:5 – JND), no que diz respeito à revelação dos procedimentos dispensacionais de Deus. A última peça da revelação é chamada de “mistério” (Cl 1:25-26). Efésios e Colossenses são as únicas epístolas que descortinam a verdade do “mistério”.

    Em Efésios 1:8-10 aprendemos que o bom prazer de Deus foi tornar conhecido, no atual Dia de Graça, “o mistério de Sua vontade” para que os crentes no Senhor Jesus tivessem “toda sabedoria e prudência”, ou inteligência, com respeito às maneiras de Deus agir e nos comportássemos adequadamente em relação a isso. O mistério da vontade de Deus tem a ver com o Seu propósito de exibir a glória de Cristo perante o mundo “na dispensação da plenitude dos tempos” (o Milênio) por intermédio de uma companhia especial de crentes chamados pelo evangelho tendo em vista este propósito. Esta companhia especial de crentes é a Igreja, o corpo e noiva de Cristo. Estes crentes no Senhor Jesus têm o lugar de relacionamento de maior proximidade possível que uma criatura poderia ter em relação a Ele. Eles são identificados nesta passagem pela expressão “no Cristo” (Ef 1:10 – JND), o que se refere à união existente entre a Cabeça e os membros do corpo graças à habitação do Espírito Santo. Deste modo todas as coisas naquele dia vindouro da glória do reino serão encabeçadas administrativamente por Cristo e a Igreja.

    O Mistério de “Cristo e a Igreja” (Ef 5:32) revela que a nova ação de Deus voltada para os gentios é algo inteiramente diferente de tudo o que ele já tinha feito antes em Seu modo de agir para com o homem. Colocado de forma simples, Deus está chamando, tanto dentre judeus quanto, particularmente, dentre gentios, crentes no Senhor Jesus para fazer deles uma união viva consigo como membros de Seu corpo pela habitação do Espírito. Esta nova companhia de crentes é uma criação celestial de Deus, com uma origem celestial, bênçãos celestiais, e um destino celestial. Deste modo a Igreja está destinada a reinar com Cristo no céu sobre todo o universo e sobre todas as coisas nos céus e na terra.

    O Mistério não é algo misterioso e difícil de entender; é simplesmente um “segredo” que Deus manteve “oculto desde todos os séculos” (Cl 1:26), mas que agora foi revelado por meio do ministério do apóstolo Paulo (Rm 16:25; Ef 3:5-10; Cl 1:26-27). Ele não está se referindo à vinda do Messias ao mundo em Seu primeiro advento. O Seu nascimento, vida, ministério, rejeição, morte, ressurreição e até mesmo o Seu reino futuro sobre o mundo não são o segredo; estas coisas são todas elas ensinadas claramente no Antigo Testamento. Muitas passagens do Antigo Testamento falam do Messias judeu reinando sobre Israel em um reino futuro, e das nações gentias se regozijando com Israel. Todavia, “O Mistério” vai além e descortina o plano de Deus de ter todo o universo (céus e terra) sob Cristo em Seu reino milenial. E também revela que Ele teria uma companhia ao Seu lado (a Igreja — Seu corpo e esposa) para magnificar a exibição de Sua glória no reino (Jo 17:22-23; 2 Ts 1:10; Ap 21:9-22:5). Além disso, o Mistério revela que não é intenção de Deus ter os céus completamente separados da terra, como são agora. A Sua vontade é que a liderança da administração de todas as coisas nos céus e na terra seja de Cristo e da Igreja (“no Cristo”), de modo que possa existir um sistema unificado de glória celestial e terrena sob Cristo e Sua esposa (Ef 1:10).

    Como já foi mencionado, a intenção de Deus é que os cristãos tenham ciência de qual seja o Seu propósito de exibir Cristo e a Igreja no Milênio. Para isso “ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência; descobrindo-nos o mistério da sua vontade” (Ef 1:8-9). Quando isto é chamado de “o mistério da sua vontade” refere-se ao propósito de Deus de colocar todas as coisas sob a direção de Cristo no futuro milênio. Quando é mencionado “o mistério do Cristo” (Ef 3:4; 5:32; Cl 4:3) refere-se à Igreja sendo associada com Ele naquele dia de exibição.

    O Mistério, portanto, revela exatamente o que Deus tem feito durante o período em que Israel é deixado de lado. Ele está reunindo o material que irá compor esse vaso celestial de testemunho por meio do evangelho da Sua graça. Crentes vindos tanto de entre judeus como de gentios estão sendo salvos hoje e introduzidos na Igreja. Esta verdade é revelada em Efésios 2:1-22 e 3:3-10. Se estudarmos estas passagens atentamente veremos que o atual chamado que Deus faz dos gentios é de certa forma diferente daquele que foi feito conhecido pelos profetas do Antigo Testamento, no que diz respeito à intenção de Deus de abençoar os gentios no reino de Cristo. Isto é significativo e algo que o estudante das Escrituras deveria observar.

  • Nesta passagem Paulo menciona três coisas que são únicas e caracterizam o atual chamado de Deus por meio do evangelho de Sua graça (At 20:24) que claramente o põe à parte de qualquer coisa que havia sido prometida no Antigo Testamento.

  • Primeiro ele diz: “que os gentios são co-herdeiros” nessa coisa nova que Deus está edificando — a Igreja. Outra tradução mais correta diz que “os pagãos são chamados a participar da mesma herança”, indicando existir um chamado especial para tirar, de entre as nações, os crentes que Deus predestinou para compartilharem de um lugar juntamente com Cristo neste algo novo — a Igreja. Este chamado de Deus não está trazendo das nações gentias multidões para Jeová, como foi anunciado no Antigo Testamento para virem a ter um lugar no reinado do Messias sob Israel (Zc 2:11; 8:22-23; Is 11:10; 14:1; 56:3-7; 60:1-5; Sl 22:27; 47:9; 72:10-11). O chamado ainda futuro irá resultar numa conversão exterior das nações gentias, o que acontecerá quando forem a Cristo em Sua glória no reino. Elas farão aliança com o Deus de Israel por medo de serem julgadas; não será necessariamente uma obra de fé em seus corações (Sl 18:44-47; 66:1-3; 68:28-31; Is 60:14), apesar de que muitos dos gentios entre eles irão sinceramente crer (Ap 7:9-10).

    Essa convocação é vista também em Atos 15:3, onde fala da “conversão dos gentios” ou, literalmente, “conversão daqueles dentre as nações”. Como já foi mencionado, não se trata da conversão das nações gentias como um todo — o que ocorrerá no futuro — mas de um chamado especial feito pelo evangelho por meio do qual um seleto número de pessoas de entre os gentios é chamado para fora. Isto é mais uma vez declarado em Atos 15:14, que menciona “como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles [dentre eles] um povo para o Seu nome”.

    Esta obra especial de Deus por meio do evangelho também envolve o chamado de alguns judeus para fora da nação de Israel para fazer parte deste algo novo — a Igreja. Deus está tirando determinados judeus para fora de seu lugar de origem na nação de Israel e os colocando na Igreja. Paulo era um exemplo disto. O Senhor lhe disse: “Livrando-te deste povo [Israel]…”, ou, literalmente, “livrando-te de entre o povo [Israel]” (At 26:17).

    Judeus e gentios, como entidades distintas, continuam existindo na terra enquanto o chamado do evangelho segue sendo feito hoje, e eles continuarão a existir no futuro como grupos separados. Mas agora, como consequência do evangelho, uma terceira entidade tem sido formada — a Igreja de Deus. Esta coisa nova é bem distinta e completamente separada das duas outras, e não deve ser confundida com elas. Esta distinção foi claramente assinalada pelo apóstolo Paulo, ao dizer: “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos [gentios], nem à igreja de Deus” (1 Co 10:32).

    Portanto, na atual dispensação da Graça, Deus está chamando crentes judeus e gentios para fora de suas antigas posições e formando assim algo novo — a Igreja. O próprio significado da palavra Igreja (“Eclésia” em grego) é “chamados para fora” e expressa muito bem este chamado especial de Deus por meio do evangelho. Crentes tirados de entre judeus e gentios agora esperam em Cristo (Ef 1:12-13), antes daquele dia futuro, quando uma multidão formada por um remanescente de Israel e pelas nações gentias, será levada maciçamente a Deus.

    Em segundo lugar, Efésios 3:6 também indica que crentes de entre os gentios formariam “um mesmo corpo” com crentes tirados de entre os judeus. Portanto, o Mistério revela que judeus e gentios que creem no evangelho são transformados em um organismo vivo (“um mesmo corpo”) que funciona para a satisfação de Deus e no qual a própria vida e características morais do Filho de Deus são manifestadas (Cl 1:26-27). A “parede de separação que estava no meio”, entre judeus e gentios, foi agora derrubada na Igreja. Ambos são abençoados de maneira igual em um lugar inteiramente novo diante de Deus, “em Cristo” (Ef 2:14-16). Este “um só corpo” é o resultado do Espírito de Deus habitando nesses crentes e unindo-os a Cristo, “a Cabeça” nos céus (1 Co 12:13; Ef 1:22-23; Cl 1:18). A descida do Espírito Santo no mundo para formar e habitar no corpo de Cristo é chamada de “batismo do Espírito” (Mt 3:11; Mc 1:8; Lc 3:16; Jo 1:33; At 1:5; 11:16; 1 Co 12:13). Este foi um ato corporativo que aconteceu no dia de Pentecostes para os judeus que creram (At 2), e mais tarde na casa de Cornélio para introduzir os gentios (At 10). Assim o batismo do Espírito foi completado.

    Ao contrário do que muitos cristãos evangélicos imaginam os crentes não passam a fazer parte do corpo de Cristo pelo batismo do Espírito — já que a obra do Espírito em batizar foi completada em Atos 2 e Atos 10. Repare com atenção que 1 Coríntios 12:13 diz que “todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos…”, significando que o batismo foi o que formou este “um corpo”. O Espírito de Deus tomou os crentes que estavam naquele cenáculo no dia de Pentecostes e os uniu a Cristo, a Cabeça do corpo nos céus, pelo fato de habitar neles.

    J. N. Darby observa que a ação do Espírito ao batizar em 1 Coríntios 12:13 está no tempo aorista do grego, que tem o significado de algo feito de uma vez para sempre. Isto demonstra que desde então o Espírito não está mais executando essa ação, simplesmente porque a obra de formação do corpo já foi feita. Se o Espírito estivesse batizando hoje, isto significaria que Ele estaria formando cada vez mais corpos. Algo assim não poderia acontecer, pois o Espírito nos diz enfaticamente que “há um só corpo” (Ef 4:4). Mas, se assim é, como poderia Paulo falar de si mesmo e dos Coríntios como sendo batizados pelo Espírito? Eles nem sequer estavam salvos quando o Espírito desceu no dia de Pentecostes. A resposta é que Paulo estava falando de todos os membros do corpo em seu sentido representativo. Ele disse: “Todos nós [os cristãos como um todo] fomos batizados em um Espírito, formando um corpo” — referindo-se à ação passada do Espírito no dia de Pentecostes e na casa de Cornélio.

    Isto é semelhante à incorporação de uma companhia. Ela é incorporada apenas uma vez e, depois disso, cada vez que a companhia contrata um novo funcionário ela não é incorporada outra vez. O novo funcionário é meramente adicionado a uma companhia já incorporada. Do mesmo modo, quando alguém hoje é salvo, ele é acrescentado, pela presença do Espírito em si (“selados” – Ef 1:13) a um corpo já batizado. Não existe um novo batismo para a companhia cristã cada vez que um novo crente é acrescentado ao corpo de Cristo.

    Para ampliar um pouco mais o exemplo, suponha que tenhamos participado de uma das reuniões da diretoria daquela companhia e escutado um dos diretores dizer: “Fomos incorporados há cem anos”. Não teríamos qualquer dificuldade em entender o que ele quis dizer. Ninguém diria: “O que você está dizendo? Nenhum de nós nesta sala tem mais de 60 anos; como você pode dizer que fomos incorporados há cem anos?” Todos nós saberíamos que o diretor estava falando no sentido representativo da companhia. Do mesmo modo, em 1 Coríntios 12:13 Paulo falava daquilo que era verdadeiro a respeito do corpo de Cristo, do qual ele e os Coríntios faziam parte.

    O Antigo Testamento revela que, em Seu reino, Cristo irá reinar sobre Israel e sobre as nações gentias na terra (Sl 93:1; Is 32:1), mas as Escrituras nunca dizem que Ele reina sobre a Igreja, que é o Seu corpo. Este corpo celestial unido a Cristo pela habitação do Espírito é uma criação inteiramente nova de Deus (Ef 2:10) e desfruta de um relacionamento especial com Cristo como Sua noiva e esposa (Ap 19:7; 21:9).

    Um terceiro ponto que Efésios 3:6 indica é que esta companhia de judeus e gentios escolhidos são “co-herdeiros, de um mesmo corpo e participantes da promessa em Cristo”. Esta promessa não é uma referência às que Deus fez aos patriarcas nos tempos do Antigo Testamento. As promessas a Abraão, Isaque e Jacó foram feitas durante o tempo de vida deles, mas esta promessa foi feita antes da fundação do mundo. Trata-se da promessa da “vida eterna”, a qual o Pai fez ao Filho “antes dos tempos dos séculos” (2 Tm 1:9; Tt 1:2). Ele prometeu a Seu Filho que existiram aqueles redimidos por graça, que seriam introduzidos na vida e comunhão que Eles próprios desfrutavam desde a eternidade. Esta é uma bênção distintamente pertencente ao Novo Testamento (Tt 1:2).

    Portanto, aprendemos destas três coisas em Efésios 3:6 que o atual chamado de Deus pelo evangelho de Sua graça é algo totalmente diferente daquilo que foi anunciado nas Escrituras do Antigo Testamento a respeito do propósito de Deus em abençoar Israel e as nações gentias sob Israel.

    Quanto mais estudarmos as diferenças entre as distintas maneiras de Deus tratar com Israel e com a Igreja, mais descobriremos que são coisas tão diferentes quanto giz e queijo. A verdade é que não poderiam existir duas coisas mais distintas, e as características que apresentaremos a seguir confirmam isto.

  • Esta companhia de crentes especialmente “chamados para fora” (a Igreja) é uma criação celestial de Deus. Essas pessoas abençoadas são um povo celestial, em contraste com Israel e os gentios redimidos no futuro reino de Cristo, os quais formam o povo terreno com um destino terreno no dia vindouro. As epístolas do Novo Testamento estão repletas de referências que confirmam o caráter e destino celestiais da Igreja. Os cristãos possuem:
    • “Vocação” ou chamado celestial (Hb 3:1).
    • “Assento” celestial (Ef 2:6).
    • “Imagem” celestial (1 Co 15:48-49).
    • “Bênçãos” celestiais (Ef 1:3).
    • “Casa” celestial (2 Co 5:1).
    • “Cidadania” celestial (Fp 3:20).
    • “Esperança” celestial (Cl 1:5).
    • “Herança” celestial (1 Pe 1:4).
    • “Santuário” celestial (Hb 8:1-2; 9:11; 10:19-21).
    • “Mente” celestial (Cl 3:1-2).
    • “Cidade” celestial (Hb 11:16; 12:22; 13:14).
    • “Luta” celestial contra inimigos espirituais (Ef 6:12).

    A “esperança” da “vocação” da Igreja (Ef 1:18; Cl 1:23, 27; 3:4) é estar em nossa posição celestial numa condição glorificada, a fim de estarmos capacitados a viver nas alturas dos céus (1 Co 15:48-49; 2 Co 5:1-4; Fp 3:21). As Escrituras mostram o contraste disso, já que a esfera de bênção e herança do Israel redimido são terrenas: “Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão na abundância de paz” (Sl 37:11, 22, etc.). Os israelitas não precisarão estar em corpos glorificados para fazerem parte do reino de Cristo na terra.

    Considerando que nossa vocação, porção e destino são celestiais, devemos nos comportar como seres cujos interesses estão nos céus, antes mesmo de termos sido glorificados. Por isso a exortação do apóstolo Paulo aos cristãos é: “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” (Cl 3:1-2).

  • Existem bênçãos especialmente dadas a essa companhia “chamada para fora” (a Igreja), as quais são exclusivas desse grupo de crentes. Nenhum crente nos tempos do Antigo Testamento, ou no futuro período do reino milenial, jamais teve ou terá estas “bênçãos espirituais” (Ef 1:3). Portanto, aqueles que fazem parte da Igreja (os cristãos) foram selecionados dentre todos os filhos de Deus como possuindo um lugar privilegiado diante dEle. Eles foram escolhidos por Deus para ocuparem o lugar mais próximo possível de relacionamento com Cristo que Deus poderia proporcionar (como corpo e esposa de Cristo). Dentre todas as pessoas abençoadas da imensa família de Deus, apenas os cristãos são Seus “primogênitos” (Hb 12:23). O termo “primogênito” refere-se àquilo que é classificado como primeiro e tem preeminência sobre todos os outros (Sl 89:20-27; Jr 31:9; Cl 1:15, 18, etc.).

    Existem bênçãos que pertencem a toda a família de Deus; que são de propriedade comum a todo o Seu povo, seja ele formado pela Igreja ou pelos santos do Antigo Testamento, do milênio etc. Todos estes possuem o novo nascimento, um lugar na família de Deus, comunhão com Deus de acordo com a luz que lhes foi dada, etc. Os cristãos também possuem estas bênçãos, mas possuem ainda muito mais. As bênçãos dos cristãos são de um caráter muito mais elevado e estão fundamentadas na redenção já consumada e na aceitação que o Senhor desfruta à destra de Deus. A posição que o Senhor Jesus ocupa à destra de Deus é indicada nas epístolas de Paulo pela expressão “Cristo Jesus”. Quando as Escrituras dizem “Jesus Cristo” estão se referindo ao Senhor descendo dos céus para fazer a vontade de Deus em cumprir a redenção por meio da morte; quando as Escrituras dizem “Cristo Jesus” elas estão se referindo a Ele ressuscitado e elevado às alturas à destra de Deus.

    O que é maravilhoso na graça de Deus é que os cristãos são mencionados como estando “em Cristo Jesus” — não “em Jesus Cristo”. Isto significa que nossas conexões com Ele não são como as que Ele tinha neste mundo com Israel, mas do modo como Ele está agora, como a Cabeça ressuscitada e ascendida da nova raça na criação (2 Co 5:16-17). Estar “em Cristo” significa que ocupamos o mesmo lugar de aceitação que pertence a Cristo diante de Deus! A mesma medida de Sua aceitação à destra de Deus é a que nos pertence — pois permanecemos no lugar que pertence a Ele diante de Deus (1 Jo 4:17). Olhamos para o alto e vemos um Homem na glória com todo o favor de Deus colocado sobre Ele, e sabemos que esse é também o nosso lugar. Que posição maravilhosa esta em que a graça soberana nos colocou!

    Nós não apenas estamos “em Cristo”, como também todas as bênçãos singulares que pertencem ao cristão são ditas como sendo “em Cristo”. Isto significa que nossas bênçãos são encontradas no Homem que está assentado à destra de Deus. Algumas destas bênçãos são apresentadas a seguir.

    Redenção em Cristo Jesus (Rm 3:24). Significa que compreendemos que fomos resgatados e libertados da condenação que nossos pecados demandavam, do poder do pecado, de Satanás e do mundo. Esta redenção está fundamentada na obra consumada de Cristo e na certeza de estarmos em uma posição diante de Deus onde tais demandas já não têm poder sobre nós.

    Israel, no Antigo Testamento, não possuía tal bênção. Eles sabiam da redenção apenas em um sentido físico, havendo sido redimidos do jugo da escravidão no Egito (Êx 6:6). Nossa redenção é algo espiritual em conexão com a posição que Cristo ocupa nas alturas.

    Perdão de pecados em Cristo (Rm 4:7; Ef 4:32). Isto se refere ao fato de o crente conhecer de forma consciente que foi perdoado de seus pecados por compreender o que Deus fez por meio da obra consumada de Cristo na cruz. O resultado é que sua consciência foi purificada de sua culpa e esta já não o acusa de seus pecados — ao menos naquilo que diz respeito ao seu destino eterno (Hb 9:14). Com base naquilo que Cristo consumou ao fazer a expiação, os crentes compreendem que Deus jamais irá trazer à tona seus pecados para juízo, pois se o fizesse seria injusto, uma vez que Cristo já pagou a dívida total por eles.

    Os israelitas nos tempos do Antigo Testamento não conheciam este aspecto do perdão. A eles era oferecido o perdão governamental, com a condição de apresentarem a Deus oferendas pelo pecado (Lv 4). O perdão governamental ou administrativo é um perdão que é concedido por Deus em função do Seu modo administrativo de agir para com o Seu povo (caso eles tivessem cometido algum pecado), e é baseado no arrependimento que a pessoa demonstra em relação àquele pecado. Trata-se de um perdão conectado apenas à vida aqui na terra e nada tem a ver com o destino eterno daquela pessoa. Os santos do Antigo Testamento não conheciam este aspecto cristão do perdão de pecados (perdão eterno) que o Evangelho da Graça de Deus anuncia. Ele foi primeiramente anunciado pelo Senhor após a redenção ter sido consumada (Lc 24:47). Consequentemente, aqueles que viviam nos tempos do Antigo Testamento não tinham a certeza de seus pecados terem sido perdoados e nem a consciência purificada do modo como os cristãos hoje têm (Sl 25:7, 18).

    Justificação em Cristo Jesus (Rm 4:25-5:1; Gl 2:16-17). A justificação significa que fomos livrados de todas as acusações que pesavam contra nós por termos sido introduzidos em uma nova posição diante de Deus em Cristo. Os cristãos são “justificados em Cristo” (Gl 2:17); o resultado disto é que Deus já não nos enxerga como pecadores. Para que os cristãos possuíssem esta bênção o Senhor precisou morrer e ressuscitar de entre os mortos. O apóstolo Paulo disse que o Senhor “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4:25). Ele também afirmou que o Senhor precisava ser recebido “à direita de Deus” para nos assegurar esta nova posição na presença de Deus — que é aonde a justificação leva o crente (Rm 8:33-34).

    Os santos do Antigo Testamento não poderiam ter tido esta bênção, pois naquele tempo Cristo ainda não havia ressuscitado e nem tinha ascendido à Sua posição diante de Deus nas alturas. Os santos do Antigo Testamento eram considerados justos com base em sua fé — como foi o caso de Abraão (Rm 4:1-3) — mas eles não eram justificados no sentido cristão da justificação.

    O dom da habitação do Espírito em Cristo — Isto tem a ver com o crente receber o Espírito Santo. Também se refere à unção, ao selo e penhor do Espírito. (Rm 5:5; 2 Co 1:21-22; Ef 1:13; 1 Ts 4:8; 1 Jo 3:24). Como consequência os cristãos possuem o Espírito de Deus “neles” e também “com” eles, e isto é algo que durará “para sempre” (Jo 14:16-17).

    Esta é outra bênção que os santos de outras épocas não possuíam, pois Cristo precisava ser primeiro glorificado para que o Espírito pudesse ser enviado (Jo 7:39). O Espírito de Deus descia sobre os crentes no período do Antigo Testamento a fim de capacitá-los para uma determinada obra e depois partir (2 Pe 1:21; Nm 11:17; Jz 14:6 etc.). Mas o Espírito de Deus nunca veio habitar nos crentes naquela época do modo como Ele habita hoje na Igreja.

    Reconciliação em Cristo Jesus (Rm 5:10; Ef 2:13; Cl 1:21). A reconciliação tem a ver com o fato de Deus trazer de volta para Si as Suas novas criaturas em uma nova condição de paz e harmonia (1 Pe 3:18). Isto foi feito para que a comunhão entre Deus e os homens crentes pudesse ser retomada com base na redenção. Como consequência, a comunhão agora entre Deus e os homens redimidos ocorre em um plano muito mais elevado que aquela que Deus tinha com os crentes nos tempos do Antigo Testamento. Agora Deus pode se deleitar na comunhão com Suas criaturas de uma maneira como Ele nunca antes conseguiu desfrutar (Cl 1:21-22), e também de modo a fazer com que os crentes se sintam felizes e confortáveis em Sua presença a fim de poderem se gloriar em Deus (Rm 5:10-11).

    Os santos do Antigo Testamento não possuíam esta bênção. Eles tinham comunhão com Deus, mas não podiam se gloriar em Deus desta maneira, pois não conheciam o perdão e a justificação que fazem parte da grande obra de reconciliação.

    Santificados em Cristo Jesus (Rm 6:19; 1 Co 1:2). Santificação significa separação. No sentido cristão da palavra, ela tem a ver com o fato de o crente ter sido separado pelo novo nascimento (1 Co 6:11; 2 Ts 2:13; 1 Pe 1:2) e pela obra consumada de Cristo (At 26:18; Rm 1:1; 1 Co 1:2, 30; Hb 10:10; 13:12), e o crente estar assim em um lugar santo com Deus. A santificação tem a ver com uma obra vital e interior na alma, pela qual os crentes são feitos santos por terem uma nova vida comunicada a eles. Eles estão assim separados da massa de homens incrédulos que caminha para a destruição eterna (Sl 90:3).

    Israel, como nação, era santificada e, portanto, separada das outras nações da terra (Êx 31:13; 33:16; Dt 32:8; 1 Rs 8:53), mas sua santificação era puramente exterior. Não era o resultado de suas almas terem sido salvas (1 Pe 1:9). Eles deviam se santificar na prática (Êx 19:14 etc.), mas isto tampouco fazia com que tivessem sido separados para a bênção eterna. A santificação “em Cristo” é algo completamente diferente e só pode ser conhecida no Cristianismo.

    Vida eterna em Cristo Jesus (Rm 6:23; 2 Tm 1:1). A vida eterna tem a ver com o fato de o crente possuir vida divina em sua alma, associada a uma compreensão do relacionamento especial que desfruta com o Pai e o Filho através do Espírito Santo (Jo 17:3). Para que o crente tivesse este aspecto da vida divina era necessário que o Filho de Deus tivesse vindo a este mundo para revelar o Pai (Jo 1:18; 14:9), que a redenção tivesse sido consumada (Jo 3:14-15) e que o dom do Espírito de Deus tivesse sido dado (Jo 4:14). A “vida eterna” não indica meramente uma vida divina de duração ilimitada, mas se refere ao caráter dessa vida. Trata-se da própria vida que o Pai e o Filho, juntos, desfrutaram em sua comunhão desde a eternidade passada. É por possuir esta vida que o cristão pode desfrutar de comunhão com o Pai e com o Filho (1 Jo 1:3).

    Os santos do Antigo Testamento tinham vida divina, uma vez que eram nascidos de novo. Portanto eles faziam parte da família de Deus. Todavia, eles não tinham este caráter da vida, pois Cristo ainda não tinha vindo revelar o Pai, e nem a redenção tinha sido consumada ou tampouco o Espírito sido dado. Os santos do Antigo Testamento tinham a esperança de viver para sempre na terra sob o reinado de seu Messias. Daniel chama a isto de “vida eterna” (Sl 133:3; Dn 12:2), mas não se trata da vida eterna como é apresentada no Novo Testamento. Portanto, eles desfrutavam de comunhão com Deus, mas não a comunhão existente entre o Pai e o Filho.

    Libertação em Cristo Jesus (Rm 8:1-2). Por meio “da lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus” o cristão dispõe de uma libertação real do poder da natureza pecaminosa que existe nele. Isto se refere à presença do Espírito de Deus que habita em si e trabalha no crente para anular as inclinações da carne, capacitando-o a viver uma vida santa, a qual é livre da interferência da carne. Na prática, a sua vitória sobre a carne depende de ele viver “para as coisas do Espírito”, que são os interesses de Deus e de Cristo (Rm 8:5-6, 13).

    Os santos do Antigo Testamento também não contavam com esta bênção. Eles permaneciam mais ou menos no estado do homem descrito em Romanos 7:7-25. Eles eram nascidos de Deus, porém não tinham o poder do Espírito trabalhando neles para refrear a carne. Consequentemente eles viviam no temor de que a carne pudesse tomar o controle de suas vidas (Sl 19:12-13 etc.).

    Filiação em Cristo Jesus (Rm 8:14-15; Gl 3:26; 4:5-7). A palavra “filiação” no grego tem o significado de “lugar de filho” (Gl 4:5; Ef 1:5). Como filhos, os cristãos foram colocados no mesmo lugar em que o próprio Filho permanece diante de Deus. Ocupamos um lugar no qual Deus nos fez “agradáveis a Si no Amado” (Ef 1:6). Ocupamos este lugar por causa de nossa conexão com Cristo — o “Filho do Seu amor” (Cl 1:13). Por isso o termo vai muito além de meramente “aceitos” (como está Ef 1:6 na versão inglesa King James) e denota o desfrutar de uma afeição especial vinda do Pai. Por estar no lugar em que Cristo está o cristão permanece diante de Deus em uma posição que está muito acima daquela ocupada por anjos, acima até da posição ocupada pelo arcanjo Miguel! A grande bênção da “filiação” é que desfrutamos:
    • Do lugar de favor do Filho (Ef 1:6).
    • Da vida — a vida eterna do Filho (Jo 17:2).
    • Da liberdade que o Filho tem diante do Pai (Rm 8:14-16).
    • Da herança do Filho (Rm 8:17).
    • Da glória do Filho (Rm 8:18; Jo 17:22).
    Um lugar assim de privilégio na família de Deus não foi dado aos santos do Antigo Testamento. Em Gálatas 4:1-7 o apóstolo Paulo mostra a diferença. Ele dá o exemplo de uma família israelita, assinalando a diferença entre um “menino” e um “filho” na família. Ele indica que aqueles que foram convertidos do Judaísmo por crerem no evangelho são como “meninos” que atingiram certa idade. Eles deixaram a posição de crianças e agora estão na posição de “filhos” na família de Deus. A cerimônia judaica do Bar mitzvah ilustra isto. Em uma família de judeus, quando um menino chega aos treze anos de idade ele é formalmente elevado da condição de criança para a de filho na família, desfrutando então de maior liberdade e privilégios no lar. Essa mudança de posição ilustra o lugar que ocupa o cristão na família de Deus, comparada àquela ocupada pelos judeus nos tempos do Antigo Testamento. Observe a mudança de “nós” para “vós” nos pronomes do versículo 5 para o 6 de Gálatas 4: “Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de [nós] recebermos a adoção de filhos. E, porque [vós] sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”. No primeiro caso, “nós” se refere aos crentes judeus, e no segundo, “vós” aos crentes gentios.

    Herdeiros da herança em Cristo (Rm 8:17; Ef 1:10-11; Gl 3:29). Ao cristão foi dada uma herança que é muito maior que aquela prometida a Israel. A herança do cristão inclui todas as coisas criadas nos céus e na terra. Essa herança é compartilhada igualmente com Cristo, pois Sua herança também nos pertence. A herança em si não é uma bênção espiritual, mas o direito de herança para reinar com Cristo sobre tudo; uma bênção ímpar que pertence apenas aos cristãos. Israel receberá sua herança literal quando tomar posse da terra que foi prometida a Abraão, ou seja, aproximadamente oitocentos mil quilômetros quadrados. A herança do cristão é todo o universo!

    Nova Criação em Cristo Jesus (Rm 8:29; Gl 6:15; 2 Co 5:17). Quando Cristo ressuscitou de entre os mortos Ele foi feito Cabeça de uma nova raça humana (Cl 1:18), à qual pertencemos por sermos do mesmo tipo e substância do próprio Cristo (Hb 2:11-13; Gl 3:29 — “de Cristo”). Sendo assim, somos perfeitamente adequados para sermos Suas companhias eternas nos céus. A formação dessa raça é um trabalho em andamento. Temos a nova vida em nossa alma agora mesmo, e já ocupamos uma nova posição diante de Deus sob Cristo como Cabeça. Mas ainda existe um trabalho de conformidade moral com Cristo que está sendo feito em nós pelo Espírito e ainda não está terminado (2 Co 3:18). Além disso, os nossos corpos aguardam para serem transformados. Na vinda do Senhor (no Arrebatamento) a mudança de Adão para Cristo estará completa. Então “traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:49) e seremos glorificados fisicamente à semelhança de Cristo (Fp 3:21) e moralmente também (1 Jo 3:2).

    Os santos do Antigo Testamento, na posição que ocupavam, não faziam parte desta raça da nova criação, pois não poderia ter existido uma nova raça humana até que Aquele que é a Cabeça dessa nova raça tivesse sido ressuscitado de entre os mortos. Os santos do Antigo Testamento possuíam nova vida e um dia farão parte dessa nova raça no Estado Eterno (apesar de nunca se tornarem parte da noiva de Cristo — Ap 21:2), enquanto os cristãos já fazem parte dessa nova raça agora mesmo como “primícias do Espírito” (2 Co 5:17; Rm 8:23).

    Membros do “Um Só Corpo” em Cristo (Rm 12:5; 1 Co 12:12-13). Os cristãos são membros do corpo de Cristo (Ef 5:23-32). Alguns chamam a isto de “união”. Pelo fato de serem habitados pelo Espírito de Deus os cristãos na terra estão unidos a Cristo. As Escrituras dizem: “Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é [o] Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1 Co 12:12-13). Como regra geral, o termo “o Cristo” nas epístolas de Paulo refere-se à união mística dos membros na terra ligados à Cabeça no céu pela habitação do Espírito.

    Não poderia ter existido uma união com Cristo até que Ele ressuscitasse de entre os mortos e ocupasse Seu lugar nas alturas como Cabeça do corpo. Os israelitas eram membros da família escolhida de Abraão, e abençoados em conexão com este relacionamento, mas eles não possuíam uma união no corpo de Cristo por terem vivido antes de Sua ressurreição de entre os mortos e antes que o Espírito tivesse sido enviado.

  • Com base nestas grandes bênçãos, a Igreja recebeu privilégios muito maiores que os recebidos pelos santos de outras épocas. Damos a seguir apenas três exemplos destes privilégios.

    Acesso ao “Santuário” (Hb 4:14-16; 10:19-22). Os cristãos, por formarem um grupo de sacerdotes celestiais (1 Pe 2:5; Ap 1:6), têm acesso à própria presença de Deus — no mais santo lugar, no santuário celestial (Hb 8:1-5; 9:11). Este é um privilégio que nenhum dos filhos de Arão teve no Judaísmo. O sumo sacerdote do sistema judaico podia entrar no santo lugar do santuário terrestre “uma vez no ano, não sem sangue”, o qual ele espargia sobre o propiciatório (Hb 9:7). Isto demonstrava que “o caminho do santuário”, tal qual o temos no Cristianismo, ainda “não estava descoberto enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo” naquela época (Hb 9:8). O sumo sacerdote só entrava ali uma vez por ano, mas nós entramos no lugar celestial com nossas orações e louvor em qualquer tempo. Além disso, o sumo sacerdote entrava no santo dos santos em tremor e temor, mas nós podemos entrar com santa “ousadia” e “em inteira certeza de fé” (Hb 10:19, 22). Todas as outras pessoas naquele sistema judaico adoravam a Deus de longe, fora do véu, por meio de um sistema de ordenanças envolto em muito ritual. Os cristãos, como um todo, podem se dirigir a Deus com intimidade e entendimento — o que é indicado pelo clamor, “Aba, Pai” (Rm 8:15; Gl 4:6). “Aba” indica intimidade e “Pai” entendimento.

    Discernimento dos propósitos de Deus (Ef 1:8-10). Por serem filhos de Deus, os cristãos foram informados dos segredos do coração de Deus que ficaram escondidos dos santos das épocas passadas (Rm 16:25; Ef 3:2-5; Cl 1:25-27). A intenção de Deus foi que esta privilegiada companhia de filhos (a Igreja) ficasse ciente do Seu propósito eterno. Portanto, foi do agrado do Pai desvendar a nós a verdade do “grande mistério” (Ef 1:4-8; 5:32) que Ele “derramou sobre nós com toda a sabedoria e entendimento” (Ef 1:8 NVI).
    Consequentemente nos foi dado saber o que Ele está fazendo no mundo agora, tendo em vista o mundo vindouro — o Milênio. Ele deu à Igreja um discernimento especial quanto ao Seu plano de exibir publicamente a glória do Seu Filho naquele futuro dia milenial. Assim a Igreja se tornou depositária do conselho de Deus a respeito de Seu propósito para o futuro.

    Este é um tremendo privilégio que os santos do Antigo Testamento não tinham, pois até agora (o Dia da Graça) ele era um “mistério [segredo] que desde tempos eternos esteve oculto” (Rm 16:25). É triste precisarmos admitir que, devido ao estado de ruína no testemunho cristão, e mesmo tendo estas coisas sido reveladas nas Escrituras à Igreja, muitos cristãos não conhecem estas revelações tão maravilhosas!

    Reinar publicamente com Cristo (Lc 22:29; 2 Tm 2:12; Ap 22:5 — “e reinarão para todo o sempre”). Como reis (Ap 1:6), os cristãos têm a perspectiva de reinarem com Cristo no reino milenial. Os santos do Antigo Testamento serão glorificados juntamente com todos os santos celestiais naquele dia (Hb 11:40). Eles estão designados para serem amigos do Noivo (Jo 3:29), mas não tomarão parte na administração do mundo vindouro; eles não reinarão com Cristo. Este é um privilégio muito especial dado apenas à Igreja (Ap 21:9-22:5).

  • Além das bênçãos e privilégios especiais que a Igreja recebeu os cristãos também receberam “grandíssimas e preciosas promessas” (2 Pe 1:4). No Antigo Testamento Abraão e outros receberam grandes promessas, mas o apóstolo Pedro nos diz que “grandíssimas” promessas foram reservadas para aqueles na Igreja. Mais uma vez isto aponta para o fato de a Igreja ter sido escolhida dentre todos os outros grupos de santos e favorecida de maneira especial. A seguir apresentaremos algumas destas promessas.

    Segurança eterna (Jo 10:27-28). Temos a promessa de estarmos eternamente seguros. Os santos do Antigo Testamento não possuíam esta certeza (Sl 51:11, etc.).

    Intercessão de Cristo como Sumo Sacerdote e Advogado (Rm 8:34). Cristo prometeu nos manter na senda da fé de uma maneira tal que os santos do Antigo Testamento nunca conheceram. Temos a Ele intercedendo por nós nas alturas como nosso Sumo Sacerdote em nossa peregrinação espiritual da terra ao céu. Ele é um Homem na glória que caminhou neste mundo e foi tentado (testado) de todas as maneiras que um homem justo poderia ser testado. Por isso Ele conhece, sente e se compadece de nós em cada tribulação que experimentamos em nosso caminho (Hb 4:14-15). Se necessário, Ele também atua como nosso Advogado diante do Pai no caso de falharmos em nosso andar, restaurando-nos assim à comunhão com o Pai (2 Jo 2:1-2). O Senhor não poderia ter sido um Sumo Sacerdote para os santos do Antigo Testamento porque para ser sacerdote alguém precisaria ser um homem e ter experimentado a vida na terra como homem (Hb 5:1-2). Naquele tempo Cristo ainda não havia se tornado um Homem.

    O Arrebatamento (Jo 14:2-3; 1 Ts 4:15-18; 1 Co 15:51-57). Temos a promessa de sermos glorificados como Cristo e levados para o lar no céu no Arrebatamento, sem experimentarmos a morte! É esta a “bem-aventurada esperança” do cristão (Tt 2:13). Os santos do Antigo Testamento não tinham esta promessa dada a eles; nada sabiam sobre este aspecto da vinda do Senhor, e tampouco tinham a esperança da glorificação.
    Em suma, o Senhor prometeu nos manter eternamente seguros, nos mantêm em comunhão Consigo e com o Pai ao longo do caminho da fé, e nos levará para o lar celestial. Estas são promessas maiores que qualquer coisa que o Senhor tenha prometido aos santos do Antigo Testamento.

    A grande conclusão que tiramos de todas estas bênçãos, privilégios e promessas é que a Igreja (os cristãos) foram agraciados com um lugar de especial favor diante de Deus. O apóstolo Paulo chama estas coisas de “riquezas incompreensíveis de Cristo” (Ef 3:8).

  • Enquanto as epístolas apresentam o caráter singular da nova iniciativa de Deus em formar a Igreja, com suas bênçãos, privilégios e promessas especiais, o Evangelho de João e o livro de Atos enfatizam a transição da velha para a nova dispensação. O Evangelho de João nos mostra o embrião do Cristianismo, antes que o próprio Cristianismo e a Dispensação do Mistério começassem de fato. Em quase todos os capítulos deste evangelho há elementos do Cristianismo que são, ora ensinados, ora ilustrados para indicar a mudança dispensacional que estava para acontecer.

    João é o único escritor do Novo Testamento que escreveu depois de a nação de Israel ter sido literalmente colocada de lado, o que aconteceu no ano 70 D.C. Ele escreveu por volta do ano 90 D.C. quando o Cristianismo já estava completamente estabelecido e a nação judaica tinha sido desfeita. Por ocasião de sua redação já não existia mais Judaísmo — a cidade de Jerusalém e o santuário haviam sido destruídos (Dn 9:26; Mt 22:7). O Espírito de Deus guiou João para apresentar a vida do Senhor e o Seu ministério da perspectiva singular de quem olhava para trás através das lentes do Cristianismo. Ao contrário dos outros evangelistas, João tem seu foco em determinadas mudanças dispensacionais no ministério do Senhor que enfatizam o fato de que, no horizonte, já se vislumbrava uma transição do Judaísmo para o Cristianismo.

    À medida que os capítulos vão sendo apresentados percebemos vários elementos e ilustrações do Cristianismo feitas pelo Espírito Santo. Estas características são do Cristianismo original, e não daquele corrompido pelas mãos dos homens. Ao mesmo tempo, diversas características importantes do Judaísmo são claramente deixadas de lado. Por exemplo, as festividades à quais o Senhor compareceu em Jerusalém são chamadas de “páscoa dos judeus” e “festa dos judeus” (Jo 2:12; 5:1; 6:4; 7:2 etc.); elas já não são vistas como Festas de Jeová como eram no passado. Além disso, em João 10:34 e 15:25 o Senhor diz “vossa lei” e “sua lei [deles]”. Aquela era a Lei de Deus, mas agora, em razão do mau uso que os judeus fizeram dela, já não era mais considerada assim. Paulo faz o mesmo em Gálatas 1:13 ao chamar de “Judaísmo” ou “religião dos judeus” o outrora venerado culto a Deus — literalmente “na religião dos judeus”. Repare também que há uma mudança em Mateus 21:13, onde o Senhor diz “Minha casa”, e Mateus 23:38, onde está “vossa casa”. Assim João escreve da perspectiva da antiga dispensação como tendo sido colocada de lado e não sendo mais reconhecida por Deus, até mesmo enquanto o Senhor ministrava na terra.

    • O Evangelho de João começa nos apresentando a Pessoa de Cristo, sobre Quem é fundado o Cristianismo. Após apresentar várias de Suas grandes glórias (Jo 1:1-14), o apóstolo fala de três coisas que caracterizam a dispensação cristã, todas elas resultantes de Cristo haver encarnado, a redenção ter sido consumada, e o Espírito Santo ter vindo:
      • Os homens são agora capazes de conhecer e contemplar a glória do unigênito Filho de Deus (Jo 1:14).
      • A disposição de Deus para com o homem em graça é agora feita conhecida através do evangelho. A “Lei”, outrora dada por Moisés, foi agora substituída por “graça e verdade”, que vieram por meio de Jesus Cristo (Jo 1:15-17).
      • Agora está disponível uma completa declaração de Deus como sendo o Pai (Jo 1:18).

      O apóstolo João registra então alguns incidentes que ocorreram durante os dias do ministério de João Batista e que apontavam para uma mudança de dispensações surgindo no horizonte. Considerando que a antiga ordem de coisas no Judaísmo havia sido corrompida, o batismo de João Batista significava que era preciso uma dissociação moral de tudo aquilo por aqueles que tinham fé, e isso por meio do batismo de arrependimento. Se a nação se submetesse àquele batismo e desse frutos de arrependimento, ela não seria colocada de lado por Deus (Jo 1:19-28). É significativo que João tenha adotado uma posição “além do Jordão” para ministrar o seu batismo. Isso indica uma separação moral do estado de coisas no centro judaico em Jerusalém.

      João Batista é então visto apresentando o Senhor Jesus, “o Cordeiro de Deus” e “Filho de Deus”, a seus próprios discípulos, os quais eram devotos da dispensação passada enquanto aguardavam pelas promessas do reino conforme tinham sido apresentadas pelos profetas do Antigo Testamento. Eles passaram a seguir o Senhor depois disso (Jo 1:29-34). Estes títulos do Senhor coincidem com a revelação da Sua Pessoa na atual dispensação. Por estar em sintonia com os pensamentos de Deus, João Batista se alegrava em passar seus discípulos para o Senhor (Jo 1:35-37). Tal mudança é significativa e aponta a transição para a nova ordem no Cristianismo que estava chegando.

      O apóstolo João passa a mostrar que o próprio Cristo seria o novo Centro e lugar de reunião na nova ordem de coisas. A Sua presença seria conhecida, não no templo de Jerusalém, mas em uma humilde casa onde os crentes estivessem congregados em torno dele (Jo 1:38-42).

    • O milagre da transformação da água em vinho, que ocorreu no casamento em Caná da Galileia, ilustra outra característica da nova dispensação. O “vinho” nas Escrituras costuma representar alegria (Jz 9:13; Sl 104:15). O problema na festa era que o vinho havia acabado. Isto nos fala da antiga ordem de coisas — Israel — que fracassou nas mãos dos homens. Quando o vinho velho acabou o Senhor introduziu o vinho novo, que era melhor. Isto indica que as alegrias espirituais que viriam na nova dispensação seriam superiores àquelas que podiam ser experimentadas na antiga dispensação.

      Nos versículos 13-17 o Senhor expulsou do templo os obreiros corruptos. Aquilo era uma ação simbólica indicando que Deus estava prestes a colocar um fim na ordem corrupta do culto judaico. O Senhor falou então de Sua ressurreição (Jo 2:18-22). Ainda que eles “destruíssem” o Seu corpo por meio da morte, Ele ressuscitaria o “templo do Seu corpo” em “três dias” (Jo 2:19, 21). Portanto a nova ordem que estava para ser introduzida seria fundamentada na ressurreição de Cristo.

    • Nos versículos 9-10 o Espírito de Deus apresenta o assunto da “vida eterna” como sendo a porção daqueles que viriam a receber o Senhor na nova dispensação. Isto é algo que vai além do “nascer de novo” que os israelitas crentes já possuíam e que Nicodemos deveria conhecer por intermédio do profeta Ezequiel. Em essência, ambas as coisas têm a ver com a posse de vida divina, mas, como já foi observado, ter vida eterna é possuir esta vida em uma comunhão consciente com o Pai e o Filho (Jo 17:3). A posse disso exigia que o Filho viesse revelar o Pai (Jo 1:18; 14:9), que a redenção fosse consumada (Jo 3:14-16) e que o Espírito Santo (a “fonte”) viesse habitar no crente (Jo 4:14).

      Estas coisas não eram conhecidas e nem possuídas pelos da antiga dispensação. Portanto, os santos do Antigo Testamento não poderiam ter possuído vida eterna. Eles eram nascidos de novo e por esta razão possuíam vida divina, e agora estariam a salvo com Cristo no céu. Os cristãos são igualmente nascidos de novo, pois é este o meio pelo qual entram no reino de Deus (Jo 3:5), mas possuem algo mais — eles têm aquela vida eterna em um relacionamento consciente com o Pai e o Filho. Esta é a chamada vida eterna. Trata-se de uma bênção celestial e elemento distinto que identifica a nova dispensação. Ao introduzir a vida eterna o Senhor estava demonstrando que as “coisas terrestres” dariam lugar às coisas “celestiais” (Jo 3:12).

    • O Senhor ensinou a mulher à beira do poço três coisas bastante significativas que iriam assinalar a mudança da velha ordem de adoração da antiga dispensação para a nova ordem de adoração no Cristianismo. Isso viria como consequência de os crentes terem a “água viva” do Espírito de Deus habitando neles (a “fonte”) como o poder para a nova adoração (Jo 4:10, 14). A água que sai da fonte tem energia em si mesma e é uma figura do poder do Espírito no crente.

      Primeiro, haveria um novo lugar de adoração que não seria nem “neste monte” (Gerizim), nem em “Jerusalém”. Esses eram lugares na terra, mas as passagens em Hebreus 8:1-2; 9:11, 23-24 e 10:19-22 indicam que o novo lugar de adoração no Cristianismo é no santuário celestial na própria presença de Deus. Portanto o centro de adoração do Judaísmo, um centro geográfico terrestre, deixaria de existir.

      Em segundo lugar, havia uma nova revelação em conexão com a Pessoa a ser adorada. No Judaísmo Deus era conhecido como Jeová e Deus Todo-Poderoso, sendo adorado como tal, mas agora no Cristianismo Ele seria adorado como “o Pai” de nosso Senhor Jesus Cristo. Este é um relacionamento muito mais íntimo com Deus.

      Em terceiro lugar, haveria um novo caráter de adoração. A adoração no Judaísmo era essencialmente terrena e auxiliada por instrumentos musicais físicos, além de ser efetuada por meio de um sistema de rituais e cerimônias. Mas a nova ordem de adoração no Cristianismo seria algo puramente espiritual. Os crentes no Senhor Jesus Cristo iriam adorar o Pai em “espírito” (espiritualmente — Jo 6:63) e em conformidade com a nova revelação da “verdade” que acompanharia a nova dispensação. No Cristianismo oferecemos “sacrifícios espirituais” auxiliados pela presença do Espírito Santo que em nós habita (1 Pe 2:5; Fp 3:3), em contraste com as “várias abluções e justificações da carne” da ordem judaica (Hb 9:10). Isto é feito na própria presença de Deus (Hb 10:19) e trata-se de uma bênção que Israel não teve. Considerando que os cristãos devem adorar “em espírito e em verdade”, podemos permanecer sentados em silêncio enquanto de nossas almas e espíritos sai um genuíno louvor a Deus Pai através do Espírito Santo. Esta é a verdadeira adoração celestial.

      A adoração judaica da antiga dispensação apela para os sentidos humanos, pois ela é um meio terreno e sensual de se aproximar de Deus. Tal adoração é estimulada pelos sentidos, como vemos nos exemplos a seguir:
      • Visão — a grandiosidade do Templo (1 Rs 10:4-5; Mc 13:1; Lc 21:5).
      • Olfato — a queima de incenso que produzia uma atmosfera envolvente (Êx 30:24-38).
      • Paladar — os sacrifícios que eram comidos (Dt 14:26).
      • Audição — a bela música produzida pela orquestra e com a participação do coral (1 Cr 25:1, 3, 6-7).
      • Tato — a participação das oferendas de maneira física, com danças e o levantar das mãos (2 Sm 6:13-14; 1 Rs 8:22).

      É significativo que não encontramos em lugar algum do livro de Atos ou das epístolas evidências de que os cristãos adorassem o Senhor usando rituais ou instrumentos musicais. Nas Escrituras os únicos dois instrumentos que vemos os cristãos usando na adoração são os seus “corações” (Cl 3:16; Ef 5:19) e seus “lábios” (Hb 13:15).

    • A bênção na nova dispensação não seria sobre o princípio das obras para merecer o favor de Deus (como era sob a Lei), mas sobre o princípio da graça e do favor imerecido (Rm 4:4-5). Isto é ilustrado na diferença entre a maneira como a bênção estava disponível aos que estavam à beira do tanque de “Betesda” e o modo como a bênção chegou até o “enfermo” incapaz, que foi curado pelo Senhor.

      A cena à beira do tanque é uma figura do sistema legalista da antiga dispensação (Jo 5:1-4). O tanque tinha “cinco alpendres” que são uma figura dos cinco livros de Moisés. Em tempos determinados um anjo descia e agitava a água, e o primeiro que atravessasse os cinco pórticos e descesse ao tanque recebia a bênção. A bênção estava ali, porém condicionada a algo que precisava ser feito para obtê-la. Isso ilustra o sistema baseado em obras da Lei, que dizia “faze isso, e viverás” (Lc 10:28). Uma pessoa naquele sistema legal precisava guardar cerca de 613 exigências dos cinco livros de Moisés e, se conseguisse, receberia a bênção.

      Em contraste a isso, com a vinda do Filho de Deus (Seu primeiro advento) as bênçãos gratuitas ficariam disponíveis a todos os que cressem, sem exigências legalistas (Rm 4:4-5; 11:6; Ef 2:9; Tt 3:5). Isto é ilustrado no homem impotente sendo abençoado sem ter de vencer os cinco degraus e entrar no tanque (Jo 5:5-16). Durante muitos e longos anos aquele homem lutou para conseguir receber a bênção do tanque, e não foi capaz. Mas com a vinda do Filho de Deus ele não precisou fazer coisa alguma! Isto aponta para o fato de que na nova dispensação seria colocado um fim à guarda da Lei. “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4).

      É significativo que este milagre tenha acontecido no dia de sábado, o que os Fariseus consideravam uma violação daquele dia. Ele sugere que a graça não pode ficar presa ao sistema legal e que o sábado já não mais seria observado na Dispensação da Graça. Cristo “até do sábado é Senhor” (Mt 12:8) e, portanto, maior que o sábado. Ele tinha poder para trabalhar em prol da bênção do homem tanto naquele dia quanto em qualquer outro.

    • João registra um incidente ocorrido junto ao mar de “Tiberíades” (Jo 6:1, 23). Nos outros Evangelhos este mar é chamado “mar da Galileia” ou “lago de Genesaré”, mas quando os romanos invadiram a terra e a tomaram dos judeus mudaram os nomes de muitos lugares como sinal de sua posse e domínio. Ao chamar o mar de “Tiberíades” João reconhece que Deus havia permitido (ou até mesmo “enviado” — Mt 22:7) os romanos para atacarem e destruírem a cidade, o templo e o povo, colocando assim Israel de lado. Neste fato aparentemente insignificante temos outra indicação de que a antiga dispensação havia passado.

      O assunto deste capítulo é o alimento e satisfação das almas famintas. Aqui vemos o comer da Páscoa (Jo 6:4), o comer dos cinco pães e dois peixes (Jo 6:5-14), o comer do Maná (Jo 6:22-50, e o comer da carne e o beber do sangue de Cristo, o Filho do Homem (Jo 6:51-58)). O primeiro caso é uma figura que foi cumprida com a morte de Cristo (1 Co 5:7). O segundo é uma figura de uma das muitas bênçãos que o Senhor iria conceder ao mundo no dia milenial — ou seja, abolir a fome (Sl 132:15; 146:7 etc.). O terceiro (Maná) é um tipo que se cumpriu na vinda do Senhor do céu como o “Pão vivo” (Jo 6:51). Em todas estas coisas vemos Cristo como o cumprimento das figuras e profecias do Antigo Testamento. Isto nos ensina que quando a velha dispensação terminasse e tivesse início a nova dispensação, as Escrituras do Antigo Testamento não seriam esquecidas; elas são a Palavra de Deus e assim devem ser consideradas. Aprendemos também da maneira como o Espírito de Deus aplica as Escrituras do Antigo Testamento, ao fazer referência a elas no Novo Testamento, mostrando que devem ser entendidas por seu ensino de tipos e princípios morais (Rm 15:4; 1 C 10:11).

    • A maior de todas as festas religiosas celebradas pelos judeus era a Festa dos Tabernáculos, uma festa que durava oito dias inteiros. Ela era verdadeiramente o ponto alto de todas as festas que a precediam no sétimo mês de seu calendário. O Senhor esperou até o “último dia, o grande dia da festa” — quando os judeus já haviam experimentado sua religião terrestre em sua totalidade — e então clamou: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” (Jo 7:37). Ele sabia que eles não ficariam satisfeitos com a mera religião — mesmo que fosse uma religião que tivesse sido dada por Deus — se Ele fosse deixado fora dela. A religião sem Cristo é, no máximo, uma religião vazia e só deixa a alma vazia e sedenta.

      O clamor do Senhor nessa ocasião indicava que Ele iria substituir as formas cerimoniais da religião judaica por um relacionamento com Sua própria Pessoa (Cl 2:17). Ele é suficiente para preencher e satisfazer o coração humano. Este fato indica que uma mudança dispensacional estava chegando. João acrescenta que isso ocorreria quando Cristo fosse glorificado e o Espírito Santo fosse dado (Jo 7:39). Estas duas grandes coisas caracterizam o Cristianismo:
      • Um Homem na glória
      • O Espírito Santo enviado a este mundo.

      Estas são verdades cardeais que distinguem a nova ordem celestial na Dispensação do Mistério. Cristo glorificado nas alturas é o centro do novo programa de Deus; não se trata de Cristo na terra como Messias de Israel, como na antiga dispensação. Cristo seria o Foco do crente, e o Espírito Santo habitando nos crentes seria o poder pelo qual as novas alegrias do Cristianismo seriam possuídas e desfrutadas.

    • O tratamento que o Senhor dá à mulher flagrada em adultério ilustra outra característica do Cristianismo (Jo 8:2-11). Sob a Lei uma pessoa assim deveria morrer “sem misericórdia”, executada por apedrejamento (Hb 10:28), mas sob a nova dispensação do Cristianismo havia misericórdia demonstrada na forma de um “tempo” para arrependimento (Ap 2:21). Ao não condenar a mulher naquela ocasião o Senhor não estava indicando que Ele era indiferente ao seu pecado, mas que dava a ela a oportunidade de se arrepender e não pecar mais. Esta é uma característica da presente Dispensação da Graça de Deus. Agora Deus, em Sua misericórdia, é “longânimo” para com todos a fim de que “todos venham a arrepender-se” e sejam assim abençoados mediante a fé no Senhor Jesus Cristo (2 Pe 3:9; At 20:21).

    • Este capítulo ilustra uma progressão de luz que ocorre em todo crente que vem das trevas relativas do Judaísmo para a superioridade da luz do Cristianismo. João registrou esta transição em sua epístola dizendo: “Vão passando as trevas, e já a verdadeira luz ilumina” (1 Jo 2:8).

      O Senhor anunciou que Ele era “a Luz do mundo” (Jo 9:5), mas as trevas espirituais que prevaleciam sobre o povo eram tais que não podiam ver a Luz. A enfermidade do homem deste capítulo, o qual era “cego de nascença”, ilustra isto. O que o Senhor fez por ele mostra a obra de Deus nas almas que as capacita a enxergar a Cristo pelo que Ele é. Ao ver a Cristo como o Filho de Deus aquele homem já não necessitava do modo judaico de aproximar-se de Deus, e demonstrou isso adorando o Senhor fora do templo, isto é, fora do “arraial” (Jo 9:38; Hb 13:13).

      Para que tudo isso ocorresse o Senhor cuspiu na terra e fez “barro”, o que significava a grande verdade de Sua encarnação (Jo 9:6). A saliva que saiu do próprio Senhor, que é Deus, e foi misturada com “o pó da terra”, que nos fala de humanidade (Gn 2:7; 3:19), aponta para o Filho de Deus tornando-se Homem. A aplicação da saliva nos olhos do cego nos fala do poder vivificador de Deus em conceder a vida por meio da qual é ativada a faculdade espiritual para se compreender as coisas divinas (Pv 20:16; At 26:18; Ef 4:17-18). O lavar no “tanque de Siloé (que significa o Enviado)” nos fala de um crente que chega ao entendimento de que o Senhor Jesus é o Enviado do Pai (Jo 9:7). Esta é uma revelação tipicamente cristã.

      Após seus olhos terem sido abertos ocorreu no homem que havia nascido cego uma progressão de luz e entendimento — ele passou do mendigar (Jo 9:8) ao adorar (Jo 9:38). Sua experiência ilustra o processo pelo qual passam os fiéis do antigo sistema legalista ao chegarem ao conhecimento e à liberdade devida ao cristão. Inicialmente tudo o que ele sabia do Senhor era que Ele era “o homem chamado Jesus”, mas ele não sabia quem era aquele Homem ou de onde Ele tinha vindo (Jo 9:11). Depois, ao ser questionado, ele respondeu: “[Ele] é Profeta” (Jo 9:17). Em seguida o homem viu o Senhor como Alguém digno de ter “discípulos” (Jo 9:27-28) e mais tarde disse aos judeus que o Senhor Jesus era um Homem “de Deus” (Jo 9:33). Finalmente ele viu o Senhor como o “Filho de Deus”, o que ele realmente era (Jo 9:35-38). Assim vemos na experiência deste homem uma maravilhosa transição das trevas para a luz. Nesse processo o homem sofreu perseguição dos judeus. Isto demonstra que aqueles que caminham na luz da nova dispensação serão perseguidos pelos que andam de acordo com a ordem da velha dispensação (At 13:50; 14:19; 17:5; 1 Ts 2:14-16; Ap 3:9).

    • Este capítulo enfatiza outro aspecto da transição do Judaísmo para o Cristianismo e enfoca o novo princípio sobre o qual Deus iria reunir o Seu povo.
      O Senhor anunciou que iria tirar Suas ovelhas (os crentes judeus) para fora do “curral” judaico e trazê-las para a gloriosa liberdade de Seu “rebanho” no Cristianismo (Jo 10:16). O curral e o rebanho representam dois princípios de reunião completamente distintos. Ambos mantêm as ovelhas reunidas, mas de maneiras totalmente diferentes. Um curral ou aprisco é uma circunferência sem um centro, enquanto um rebanho é um centro sem uma circunferência. Em um curral as ovelhas são mantidas juntas pela cerca que as circunda, o que nos fala dos princípios restritivos do sistema legalista da antiga dispensação, que mantinha os israelitas juntos em uma posição de separação das nações que os cercavam. Em um rebanho não há necessidade de uma cerca, pois o Pastor no meio das ovelhas exerce atração sobre elas, que por sua vez são atraídas por Ele. Portanto as ovelhas são mantidas juntas, mas sobre um princípio completamente diferente. Isso revela o princípio de reunião no Cristianismo (Mt 18:20). Os cristãos nesta nova ordem de coisas se reúnem para adoração e ministério, não por serem forçados a isso, mas por desejarem estar onde Cristo está no meio.

      Uma vez que os judeus naturalmente iriam se sentir ofendidos caso alguém entrasse em seu curral e levasse algumas ovelhas para fora, o Senhor declarou que quem fizesse isso precisaria ter a qualificação necessária. Ele reconheceu que alguns impostores (“ladrões e salteadores”) poderiam aparecer sem que tivessem as qualificações ordenadas por Deus, mas Suas ovelhas não os seguiriam, “porque não conhecem a voz dos estranhos” (Jo 10:1, 5). Exemplos disso foram “Teudas” e “Judas” (At 5:36-37).

      Todavia, o Senhor veio do modo designado por Deus, o que ele chama de “porta” (Jo 10:2). A porta que dá entrada ao curral, pela qual o Messias deve entrar, é caracterizada pelos profetas do Antigo Testamento.
      • O tempo de Sua vinda (Dn 9:26 e Sl 102:24).
      • O lugar de Sua entrada no mundo (Mq 5:2).
      • Seu nascimento virginal (Is 7:14).
      • O anúncio de Sua vinda (Is 40:3; Ml 3:1).
      • Seu modo de vida (Is 53:3).
      • O caráter do Seu ministério (Is 42:1-3)
      • Sua capacidade de demonstrar “os poderes do mundo vindouro” (Hb 6:5; Lc 7:22; Is 33:24; 35:5-6; Sl 65:6-7; 89-9; 132:15; 146:7-8).
      • Sua apresentação à nação (Zc 9:9).

      O Senhor entrou no curral do Judaísmo (o sistema judaico instituído por Deus por intermédio de Moisés) exatamente em conformidade com estas especificações. Não havia como não perceber que Ele era o Messias de Israel — “o Pastor das ovelhas” (Sl 23:1; 77:15; 78:67; 80:1; 95:7; 100:3; Is 40:11; Ez 34:31; Zc 11:7-9; 13:7). O Espírito de Deus (“o Porteiro”) Se identificou totalmente com o Senhor, descendo do céu sobre Ele na forma de uma pomba (Jo 1:32-34; 6:27; 1 Tm 3:16) e habitando nEle. Assim o Espírito deu testemunho de que o Senhor Jesus era realmente o verdadeiro Pastor de Israel, pois “a Este o porteiro abre” (Jo 10:3). Portanto, o Senhor, sendo Quem ele era, tinha o direito de introduzir esta mudança dispensacional.

      O trabalho do Senhor no curral, que acabou sendo rejeitado (Jo 1:11), era o de atrair o coração das ovelhas a Si, chamando-as “pelo nome” (o que nos fala de intimidade) e guiando-as para fora dali (Jo 10:3). Ao guiar aqueles que eram Seus para fora o Senhor indicava que estava prestes a abandonar toda aquela ordem de culto religioso e levar Suas ovelhas Consigo. Hebreus 13:13 nos diz que Sua atual posição no Cristianismo é “fora do arraial” do Judaísmo — para onde os crentes são também exortados a saírem. O Senhor mencionou que iria usar outros meios de tirar os Seus do curral do Judaísmo — Ele “tira para fora as suas ovelhas” (Jo 10:4). Isso mostra pressão; elas são empurradas para fora. O cego do capítulo anterior teve essa experiência. Ele foi “expulso” do curral; os líderes da nação “expulsaram-no” (Jo 9:34). De uma maneira ou de outra o Senhor estava trabalhando com Suas ovelhas e elas estavam sendo tiradas do curral do Judaísmo para as coisas melhores do Cristianismo.

      Aqueles que escutaram esta alegoria não entenderam seu significado (Jo 10:6). A razão é que eles continuavam no curral judaico e existe certo torpor que é consequência de estar naquele sistema (Hb 5:11). Isso levou o Senhor a falar de uma segunda “porta”. Ele disse: “Em verdade, em verdade vos digo que eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10:7). Ele era a porta de libertação pela qual uma pessoa era trazida para fora do curral do Judaísmo. Ao fazer tal declaração Ele dava a cada judeu crente a garantia de ser tirado do Judaísmo. Antes disso nenhum judeu tinha permissão para abandonar aquela religião ordenada por Deus, mas agora o próprio Deus, na Pessoa do Filho, estava abrindo a porta e garantindo que fossem libertos daquele sistema.

      O Senhor falou então de uma terceira “porta”. Trata-se da porta de entrada na bênção e privilégio cristãos. A entrada a essas coisas também seria por meio dEle. Ele disse: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” (Jo 10:9). Estas bênçãos e privilégios característicos do Cristianismo são:
      • A salvação da alma (Jo 10:9a).
      • A liberdade para a adoração e o serviço — “entrará e sairá” (Jo 10:9b).
      • O alimento espiritual na revelação cristã da verdade — “pastagens” (Jo 10:9c).
      • O desfrutar de “vida… com abundância” — a vida eterna (Jo 10:10).
      • A proteção e cuidado do Pastor (Jo 10:10-15).
      • A união de judeus e gentios em “um rebanho” (Jo 10:16).
      • A segurança eterna — “nunca hão de perecer” (Jo 10:28-29).

      Versículos 10-15 — Uma vez libertadas dos limites do Judaísmo, as ovelhas ficariam sem a proteção do curral, mas isto não significa que Suas ovelhas ficariam sem proteção. O Senhor prometeu que Suas ovelhas, que Ele guiou para fora do curral, seriam cuidadas e protegidas. Como “Bom Pastor” Ele as colocaria sob o Seu divino cuidado. Seu amor e devoção pelo rebanho eram tais que Ele daria Sua vida pelas ovelhas. O Senhor então menciona os pastores mercenários e falsos profetas que atribulam o rebanho. Esses maus obreiros surgiriam no Cristianismo professo se alimentariam dos cristãos e iriam desviá-los. Um “mercenário” é um pastor relapso que irá abandonar o rebanho quando vier o perigo, e um “lobo” (Mt 7:15) é o que irá dividir e espalhar as ovelhas para atender seus interesses pessoais (At 20:29-30). Basta olharmos para a cristandade hoje para vermos isto acontecendo. Muitos líderes estão agindo como “mercenários” e transformando o culto a Deus em negócio (“mercadejando a palavra de Deus” 2 Co 1:17 — RAA). Existem também os “falsos doutores” com caráter de “lobos” (2 Pe 2:1). O Senhor não oculta o fato de que as Suas ovelhas seriam provadas por tais pessoas na esfera cristã, mas no verdadeiro Cristianismo, onde Cristo está no meio do Seu rebanho, Ele iria protegê-las de todos esses assaltos.

      Versículo 16 — O Senhor possuía “outras ovelhas” que Ele iria reunir. Não há qualquer menção de que estas seriam tiradas para fora do curral, portanto isso indica que Ele estaria falando de crentes gentios. Estes, juntamente com Suas ovelhas tiradas do curral, formariam “um rebanho” de crentes judeus e gentios.

      Portanto, as três portas nesta passagem indicam uma mudança dispensacional:
      1. A porta da profecia concernente ao Messias, por meio da qual Cristo entrou no curral judaico (Jo 10:2).
      2. A porta da libertação para fora do Judaísmo, através da qual Cristo levou os Seus para fora do curral (Jo 10:7).
      3. A porta de entrada nas bênçãos e privilégios do Cristianismo através da qual as ovelhas de Cristo podem viver e servir a Deus (Jo 10:9).
    • Encontramos nestes capítulos o registro de Lázaro sendo ressuscitado de entre os mortos e depois sentado em um círculo de comunhão com outros da mesma fé e que tinham seu foco no Senhor. Lázaro saiu da esfera da morte para uma esfera de “verdadeira vida” (1 Tm 6:19 ARA). Isto ilustra outro aspecto da transição do Judaísmo para o Cristianismo.

      A condição de morte na qual Lázaro estava é uma figura da condição da nação de Israel sob a Lei, moral e espiritualmente falando. Todo o sistema da Lei é um “ministério da morte” e um “ministério da condenação” (2 Co 3:7, 9). Todos os que estivessem sob a Lei e não atendessem os seus termos estavam condenados e, em certo sentido, mortos por ela. Esta é exatamente a posição de Israel; toda a nação se encontrava em uma condição de morte diante de Deus. A ressurreição de Lázaro é uma figura da obra do Senhor tirando um remanescente de crentes para fora daquele sistema legalista. Maria e Marta representam as duas partes do remanescente crente que havia naquela época. Maria aguardava em expectativa pela vinda do Senhor (Jo 11:20). Ela representa, entre outros, os “Simeões” e as “Anas” que aguardavam por fé a “redenção de Jerusalém” (Lc 2:25-38). Marta, por sua vez, expressava a fraqueza da fé que também havia entre muitos crentes judeus de sua época. Ela reconhecia o poder do Senhor, mas questionava sua pontualidade e até O culpava por chegar tarde (Jo 11:21). Naquela época muitos crentes estavam assim, cheios de dúvidas (Mt 28:17; Lc 24:13-33; Jo 20:24-31).

      Ao ser recebido, o evangelho não somente concede “vida eterna” para a alma do crente, mas também o coloca em uma esfera de vida na companhia dos santos. Este último aspecto da vida está ilustrado na ceia em que Lázaro é visto depois de ter sido ressuscitado de entre os mortos pelo Senhor (Jo 12:1-3). Ele desfrutava de feliz comunhão na ceia com Maria, Marta e os discípulos, tendo o Senhor no meio deles. Lázaro não apenas recebeu vida em sua alma, mas foi também introduzido em uma esfera de vida entre crentes, o que é uma figura da comunhão cristã à Mesa do Senhor (1 Co 10:16-17).

      Todavia, Lázaro não saiu diretamente da sepultura para a ceia em Betânia. Quando ele saiu da sepultura ele estava com “as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço” e precisava ser solto. Isto nos fala das amarras dos princípios legalistas do Judaísmo que restringem o crente (At 15:10; Gl 4:24-25). As pessoas que eram salvas e tiradas daquele sistema geralmente ficavam limitadas pelos princípios legais que tinham formado suas consciências. Elas costumavam carregar para o círculo da comunhão cristã suas mortalhas, que eram os princípios e práticas legalistas do Judaísmo (At 10:9-16; Rm 14:1-6; Gl 2:11-14). O Senhor ordenou: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11:44). Isto nos fala da obra que o Senhor deu para os Seus servos fazerem (particularmente os apóstolos) nos primeiros dias do Cristianismo. O ministério deles para com aqueles no Judaísmo que eram salvos por meio da pregação do evangelho tinha o objetivo de libertá-los das amarras daquela religião terrena. As epístolas judaico-cristãs (Hebreus, Tiago e Primeira e Segunda Pedro) são um exemplo desse ministério. Aqueles escritores do Novo Testamento trabalharam para libertar os crentes judeus das mortalhas do Judaísmo e estabelecê-los na liberdade cristã.

      Em meio aos eventos relacionados a Lázaro sendo ressuscitado, vemos que Caifás, o sumo sacerdote daquele ano, sem perceber “profetizou que Jesus devia morrer pela nação” (Jo 11:47-54). Ele sugeriu ao conselho que deviam matar o Senhor Jesus, um Homem justo, a fim de preservar, se possível, a posição daquela nação na terra sob o domínio dos romanos. Parafraseando o que disse, “Se este movimento (de pessoas seguindo o Senhor Jesus) continuar haverá uma revolução na terra e os romanos virão e nos matarão a todos”. Ele sugeria que deveriam matar a Cristo, dispersar Seus seguidores e por um ponto final àquele movimento, salvando assim a nação de ser destruída. Ele raciocinava ser melhor “que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação”. Assim, Caifás não tinha qualquer escrúpulo em matar um Homem inocente se fosse para preservar o lugar da nação na terra. Mas Deus interferiu naquilo que disse e ele acabou profetizando contra sua própria vontade o que exatamente iria acontecer na morte de Cristo. O Senhor não apenas morreria pela nação, mas iria também “reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos” (Jo 11:49-53). Isto aponta para a atual obra de Deus por meio do Espírito nesta dispensação cristã trazendo crentes gentios para o rebanho de Deus juntamente com crentes judeus (Jo 10:16).

      Depois de liberto, Lázaro é visto em comunhão com suas irmãs e os apóstolos durante a ceia em Betânia (Jo 12:1-3). Trata-se de uma cena que representa a comunhão e adoração cristãs. Vemos Maria no exercício da liberdade que caracteriza a adoração cristã. Ela não tinha autoridade oficial para agir como sacerdote (como era exigido na religião judaica), todavia aproxima-se livremente do Senhor com seu “arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço” — o que nos fala de adoração. Ela foi criticada por ter derramado o unguento sobre o Senhor. É triste ter de reconhecer que aqueles que, a exemplo de Maria, agirem na liberdade do Espírito na adoração cristã, serão criticados por aqueles cuja mentalidade foi formada pela ordem judaica (Jo 12:4-8). Além disso, os principais sacerdotes decidiram matar Lázaro, depois de este ter sido ressuscitado de entre os mortos (Jo 12:10). Isto demonstra que haverá perseguição contra aqueles que foram libertos das cadeias do Judaísmo e caminham na liberdade do Cristianismo.

    • Havia chegado a hora de o Senhor voltar para o Pai. Antes de partir Ele indicou (simbolicamente) que iria deixar Seu ministério dirigido a Israel, o qual era messiânico e terrestre, para Se ocupar de um novo ministério celestial (Sua advocacia), por meio do qual manteria os Seus em comunhão com Deus durante a Sua ausência (1 Jo 2:1-2). Esse novo ministério que o Senhor estava prestes a assumir representa outra transição da antiga para a nova dispensação.

      Primeiro o Senhor “levantou-se da ceia” onde estavam comendo juntos, e tirou Suas vestes colocando-as de lado (Jo 13:4a). Levantar-se na ceia daquela maneira foi uma ação simbólica indicando que Ele estava prestes a romper Suas associações exteriores com eles no reino como o Messias de Israel.

      Em seguida Ele “tomando uma toalha, cingiu-se” (Jo 13:4b). Isso indicava que no novo lugar, aonde o Senhor se dirigiria nas alturas, Ele assumiria a posição de um Servo e trabalharia para manter o Seu povo em comunhão Consigo.

      Finalmente Ele “deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos” (Jo 13:5). Isso nos fala do uso da “água da Palavra” em sua aplicação no andar do crente. A remoção da sujeira de nossos pés mostra o trabalho do Senhor como nosso Advogado diante do Pai, ao nos exercitar no juízo próprio tendo em vista a santidade de Deus (1 Jo 1:9) e por meio do que somos capacitados a caminhar em comunhão com Ele (Jo 14:21, 23).

      Os resultados do ministério de lavar os pés, praticado pelo Senhor, tinham quatro aspectos:
      1. Desfrutaríamos do Seu amor em comunhão com Ele — “… tens parte comigo” (Jo 13:8-11).
      2. Desejaríamos levar outros a também desfrutarem de Seu amor — “… vós deveis também lavar os pés uns aos outros” (Jo 13:12-17).
      3. Discerniríamos os Seus pensamentos (discernimento espiritual) — “Desde agora vo-lo digo, antes que aconteça” (Jo 13:18-30).
      4. Daríamos ao mundo um testemunho poderoso — “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos” (Jo 13:31-35).
    • No capítulo anterior o Senhor anunciou aos seus discípulos que os deixaria para voltar ao Pai (Jo 13:33-36). Eles evidentemente ficaram atribulados, pois estavam esperando que Ele estabelecesse o reino em poder como Messias de Israel. Aquilo atrapalhava todos os seus planos e esperanças. Uma vez que o Senhor havia sido rejeitado, Ele não estabeleceria o Seu reino naquela ocasião, mas introduziria uma nova ordem de coisas na forma de uma nova dispensação. Para confortar os corações de Seus discípulos o Senhor apresentou a eles não menos que doze coisas que ganhariam na nova dispensação, as quais eram superiores às que tinham na antiga dispensação. A intenção era trazer conforto aos seus corações entristecidos, ao revelar que iriam receber algo melhor. Tudo aquilo seria uma consequência de o Senhor ascender de volta ao Pai nas alturas e enviar o Espírito Santo, duas características singulares do Cristianismo (Jo 7:39). As doze vantagens espirituais seriam:
      1. Eles iriam conhecê-Lo de uma nova maneira como a Cabeça glorificada da nova criação, ao invés de tê-Lo como o Messias de Israel (Jo 14:1).
      2. Eles teriam um lugar preparado para habitarem na casa do Pai nos céus (Jo 14:2-3). Todo judeu fiel esperava por um lugar no reino na terra, mas isto era algo muito superior ao melhor lugar que alguém pudesse ter na terra.
      3. Eles conheceriam o Pai pela posse da vida eterna (Jo 14:4-11; Jo 17:3). O Senhor Jesus é “o caminho” ao Pai, é “a verdade” do Pai, e “a vida” que nos introduz em uma relação de parentesco com o Pai. Mas era necessário que o Pai fosse revelado pelo Filho (Jo 1:18), que a redenção fosse consumada (Jo 3:14-15) e enviasse o Espírito Santo (Jo 4:14).
      4. Eles fariam obras ainda maiores em seu serviço do que o próprio Senhor havia feito (Jo 14:12; At 2:41; 5:15-16).
      5. Eles teriam um novo poder na oração quando se dirigissem a Deus em nome do Senhor (Jo 14:13-14).
      6. Eles teriam a presença e o poder do Espírito com eles de duas maneiras: “convosco” e “em vós” (Jo 14:16-17).
      7. Eles desfrutariam da presença do Senhor em seu meio coletivamente (Jo 14:18). Ele viria a eles (em espírito) quando estivessem reunidos e assim poderiam contar com Sua presença em seu meio (Mt 18:20; Jo 20:19).
      8. Eles viveriam com Sua ajuda como Sumo Sacerdote intercedendo por eles (Jo 14:19; Rm 5:10; Hb 7:25).
      9. Eles desfrutariam de uma nova posição de aceitação diante de Deus em Cristo (Jo 14:20 — “vós em mim”) e o caráter do Senhor seria formado neles pelo Espírito habitando aqui (Jo 14:20 “em vós”).
      10. Eles desfrutariam de comunhão com Ele e com o Pai de uma forma muito mais íntima (Jo 14:21-24).
      11. Eles teriam uma completa revelação da verdade por meio da vinda do Espírito (Jo 14:25-26). Quando o Senhor estava com eles lhes ensinava as coisas concernentes ao reino na terra (“Tenho-vos dito isto”), mas o Espírito revelaria a eles “todas as coisas”, que é a revelação cristã.
      12. Eles teriam a Sua paz com eles quando tivessem de enfrentar a oposição e perseguição (Jo 14:27).
    • Neste capítulo o Senhor falou de Si mesmo como “a videira verdadeira”. Na antiga dispensação Israel era a vinha ou videira de Jeová (Sl 80:8-11; Is 5:1-2), mas eles falharam em produzir fruto para Deus (Jr 2:21; Os 10:1). Agora haveria um novo sistema de produção de fruto que produziria “muito fruto” para Deus (Jo 15:8). Tal mudança assinalava outra característica da transição da antiga para a nova dispensação.

      Na nova dispensação o desejo de Deus é que, mesmo estando o Senhor ausente de Seus discípulos, Seu caráter possa continuar sendo visto neles e por meio deles. Como acontece com os ramos ligados à Videira, Deus gostaria que eles dessem “fruto” durante a Sua ausência, o que significa a reprodução das características morais de Cristo em seu andar e modo de ser. Portanto, eles seriam caracterizados:
      • Pelas graças morais de Cristo. Deus gostaria que no Cristianismo os crentes manifestassem diante do mundo as características de Cristo como mansidão, humildade, bondade, paciência etc. (Jo 15:1-8). O Senhor mencionou três coisas que são essenciais para auxiliar na produção deste fruto nos crentes: a poda ou corte das varas feita pelo Pai (Jo 15:2), a Palavra dada pelo Senhor (Jo 15:3) e o permanecer nEle — que é a proximidade prática e de coração através da comunhão (Jo 15:4).
      • Pelo amor de Cristo (Jo 15:9-10). Eles deveriam continuar no Seu “amor” e assim seriam conhecidos como uma companhia de pessoas que viviam no desfrutar do Seu amor.
      • Pelo gozo de Cristo (Jo 15:11-12). Ele queria que o Seu “gozo” permanecesse neles. As mesmas coisas que faziam dEle um Homem feliz fariam deles (e de nós) discípulos felizes.
      • Pela amizade de Cristo (Jo 15:13-17). Ele gostaria que eles manifestassem diante do mundo que eram Seus “amigos”. O Senhor deu provas de Sua amizade entregando Sua vida por eles (Jo 15:13), revelando a eles os conselhos secretos de Seu Pai (Jo 15:15), prometendo garantir a resposta aos seus pedidos feitos em oração (Jo 15:16). Devemos provar nossa amizade com Ele por meio da obediência (Jo 15:14), produzindo fruto (Jo 15:16) e nos amando uns aos outros (Jo 15:17).
      • Pela rejeição de Cristo (Jo 15:18-27). Eles seriam odiados pelo mundo do mesmo modo como Ele foi odiado, e assim compartilhariam da Sua rejeição e sofrimentos. Alguns sofreriam até mesmo o martírio (Jo 16:1-4).
    • Outra coisa que marcaria a nova dispensação seria a presença do Espírito Santo na terra. A própria presença do Espírito na terra prova que a antiga dispensação foi deixada de lado e teve início a nova dispensação. Nos tempos do Antigo Testamento o Espírito de Deus agiu na terra a partir de Seu lugar de residência nos céus. Ele não habitou na terra até que a redenção fosse consumada e tivesse início o Cristianismo (At 2:1-4; Ef 2:22). A presença do Espírito na terra demonstra este fato diante do mundo de três maneiras:
      1. “Do pecado” — O fato de o Espírito de Deus estar na terra prova a culpa deste mundo do pecado de rejeitar a Cristo, pois para o Espírito estar aqui Cristo precisava ir para o Pai a fim de enviar o Espírito. O fato de ele ter deixado o mundo da maneira como deixou (ao ser morto) aponta para a inegável evidência da culpa que recai sobre este mundo.
      2. “Da justiça” — O fato de o Espírito de Deus estar aqui neste mundo é uma evidência irrefutável de que Deus recebeu a Cristo nas alturas (At 2:33) e que a justiça de Deus assegurou bênção para o homem (Rm 3:21).
      3. “Do juízo” — O fato de o Espírito de Deus estar aqui neste mundo é uma prova de que o mundo e seu príncipe (Satanás) já foram julgados e aguardam a execução da sentença.
    • A última coisa que o Senhor fez em conexão com os discípulos antes de voltar para o Pai foi orar por eles. Esta oração ilustra a atual função do sumo sacerdócio de Cristo que Ele levaria adiante à destra de Deus em favor deles na nova dispensação. Portanto, haveria um novo Sumo Sacerdote ministrando no santuário celestial — o próprio Filho de Deus. Esta é outra característica do Cristianismo que não era conhecida no Judaísmo.
      Duas coisas têm um lugar especial em Seu coração — a glória do Pai e o cuidado para com Seus discípulos. A oração ilustra a atual intercessão que o Senhor Jesus está efetuando em glória nas alturas. Nesta oração Ele não menciona uma palavra sequer sobre os fracassos e falhas daqueles que são Seus, apesar de serem muitas. Ele tampouco pede por riquezas, honras ou influência e sucesso no mundo para eles, porém busca somente o bem e a bênção para os que são Seus.

      O Senhor fez sete pedidos específicos:
      1. Que o Pai pudesse ser glorificado no Filho (Jo 17:1-8).
      2. Que os discípulos fossem guardados em unidade de pensamento, objetivo e propósito (Jo 17:9-11).
      3. Que o Seu gozo fosse completo neles (Jo 17:13).
      4. Que eles fossem guardados do mal (Jo 17:14-16).
      5. Que eles fossem santificados por meio da verdade e assim capacitados para o serviço (Jo 17:17-19).
      6. Que todos os que viessem a crer fossem um em testemunho para que o mundo pudesse conhecer que Ele é o Enviado do Pai (Jo 17:20-23).
      7. Que eles pudessem estar com Ele para poderem contemplar Sua glória (Jo 17:24).
    • Estes dois capítulos apresentam a transição final do Judaísmo para o Cristianismo. O perfeito sacrifício do Senhor como Cordeiro de Deus é visto como o cumprimento de todos os sacrifícios do sistema judaico do Antigo Testamento. Com tal cumprimento os sacrifícios judaicos já não precisariam continuar. Como consequência todo o sistema sacrificial que apontava para a obra consumada de Cristo seria colocado de lado (Hb 10:1-18). Hoje já não há necessidade de uma “oferta pelo pecado” do modo como era na antiga ordem sob a Lei (Hb 10:18).

    • Este capítulo nos apresenta um registro da característica ímpar do Cristianismo: a ressurreição de Cristo. A ressurreição de Cristo permanece como a vitória final de Deus sobre o pecado e a morte, e assinala o início de toda uma nova ordem de coisas no modo de Deus agir. João declara que “viu” três grandes coisas. Essas coisas estabelecem os fundamentos de todas as nossas bênçãos e privilégios cristãos:
      1. A visão de um Salvador morrendo (Jo 19:35).
      2. A visão de um túmulo aberto (Jo 20:8).
      3. A visão do Senhor vivo no meio do Seu povo (Jo 20:20).

      Na primeira, João deu testemunho do sangue da expiação sendo derramado — a base para que os homens fossem abençoados por Deus mediante a fé (1 Jo 1:7).

      Na segunda, João deu testemunho do selo da aprovação de Deus sobre a obra consumada de Cristo na ressurreição do Senhor. Ele declara que “o lenço, que tinha estado sobre a sua cabeça, não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte” (Jo 20:7). Isto é significativo e nos dá uma pista do que viria na Dispensação do Mistério (Cristianismo). O novo vaso de testemunho que Deus iria formar (a Igreja), na figura do corpo de Cristo, seria caracterizado por uma separação física entre a Cabeça e os membros do Seu corpo, todavia eles estariam intimamente conectados pelo Espírito de Deus. O Livro de Atos e as epístolas atestam o fato de que Cristo, a Cabeça, estaria nos céus enquanto os membros do Seu corpo estariam na terra durante o presente Dia da Graça (At 9:4; 1 Co 12:12-13).

      Na terceira visão, João viu o Senhor no meio dos Seus em um novo lugar de reunião para os crentes — “um cenáculo” (aposento superior). O Templo em Jerusalém havia sido o lugar designado por Deus no Judaísmo onde todos os judeus deviam se reunir e adorar a Jeová (Dt 12:11; 16:16-17). Todavia, um pouco antes da morte do Senhor Ele “saiu” do Templo em Jerusalém. Aquela era uma ação simbólica que indicava que Ele estava rompendo o Seu vínculo com toda aquela ordem de coisas do Judaísmo e com aquele lugar de adoração (Mt 23:38-24:1). Daí em diante a Sua presença não seria mais encontrada ali. Quando o Senhor ressuscitou de entre os mortos Ele tornou Sua presença conhecida em um lugar de reunião completamente novo — “o cenáculo”. Este novo lugar de reunião simboliza o novo terreno de reunião no Cristianismo (Lc 22:12; At 1:13; 9:39; 20:8). Algumas coisas que caracterizavam “o cenáculo” eram:
      • Os discípulos se reuniam ali “no primeiro dia da semana” (Jo 20:19a). É significativo que a ressurreição do Senhor e Sua aparição no meio dos Seus (a última tendo ocorrido em dois primeiros dias da semana consecutivos) indica que este novo modo de Deus agir no Cristianismo não estava conectado com o dia comemorativo da antiga dispensação, o Sábado (Êx 20:8; 31:12-17). Isto sugere que o Sábado não seria observado na nova ordem de coisas do Cristianismo (Cl 2:16-17).
      • Eles se reuniam no novo lugar de reunião em separação dos judeus e da ordem judaica, opostas aos princípios e práticas cristãs — “cerradas as portas” para os judeus (Jo 20:19b, Hb 13:10). Portanto era “fora do arraial” do Judaísmo em posição, princípio e prática (Hb 13:13).
      • O Senhor fez Sua presença conhecida “no meio” deles (Jo 20:19c; Mt 18:20).
      • “Paz” e alegria (encorajamento) foram desfrutadas pelos que estavam ali (Jo 20:19-21).
      • A presença do “Espírito Santo” foi conhecida de uma maneira peculiar (Jo 20:22; Fp 3:3).
      • O Senhor comissionou os discípulos com poder para “perdoar” e “reter” pecados no sentido administrativo (Jo 20:23; Mt 18:18-19; 1 Co 5:4).

      Estas coisas caracterizam o Cristianismo. Portanto, este capítulo nos apresenta outra transição — do antigo lugar de reunião no Templo para novo lugar de reunião no cenáculo.

      Maria foi a primeira a ver o Senhor em ressurreição (Jo 20:11-18). Todavia, ela não devia “tocá-Lo” na condição em que Ele estava, pois Ele ainda não tinha “subido” para o Seu Pai (Jo 20:17). Isto significa que apesar de os discípulos terem “conhecido Cristo segundo a carne” como o Messias de Israel, daí em diante eles já não O conheceriam desse modo (2 Co 5:16). Eles deveriam conhecê-Lo de uma maneira completamente nova — como Cabeça da raça de uma “nova criação” (Rm 8:29; Gl 6:15; 2 Co 5:17; Ap 3:14) — no novo lugar de reunião. Suas novas conexões cristãs com Deus Pai em Cristo ressuscitado estão indicadas por Sua declaração a Maria: “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20:17). Os da antiga dispensação não conheciam a Deus como Pai desta maneira.

    • Este capítulo ilustra o chamado e comissionamento do Senhor no serviço cristão. Existe uma notória diferença em relação à antiga ordem de coisas no sistema legal do Judaísmo. Na antiga dispensação os servos eram os Levitas. Eles nasciam segundo suas famílias e eram designados para o serviço, tivessem ou não algum exercício a esse respeito. Mas no Cristianismo os servos de Deus já não viriam de uma determinada linhagem familiar, porém seriam chamados pelo Senhor. O Senhor chama e envia quem Ele quer; Ele os prepara para a obra por meio de suas experiências na escola de Deus. Isto é ilustrado pelo Senhor comissionando Pedro (que antes havia falhado) para um trabalho de pastoreio das ovelhas do Senhor (Jo 21:15-19). João, também, tinha um trabalho a fazer (Jo 21:20-25).

      Sumário da transição em cada capítulo do Evangelho de João
      • Capítulo 1 — De discípulos de João a discípulos do Senhor.
      • Capítulo 2 — Do vinho velho ao vinho novo.
      • Capítulo 3 — Do novo nascimento à vida eterna — das coisas terrenas às coisas celestiais.
      • Capítulo 4 — Da adoração a Jeová em Jerusalém à adoração ao Pai em espírito e em verdade no santuário celestial.
      • Capítulo 5 — Do princípio das obras para receber bênção ao princípio da livre graça em Cristo.
      • Capítulo 6 — Do significado e aplicação literais das Escrituras do Antigo Testamento ao significado e aplicação daquelas coisas como tipos.
      • Capítulo 7 — Das formas de religião exterior à satisfação interior na Pessoa de Cristo.
      • Capítulo 8 — Da misericórdia sob a Lei à chance de arrependimento no Dia da Graça.
      • Capítulo 9 — Das trevas para a luz.
      • Capítulo 10 — Do curral ao rebanho.
      • Capítulo 11-12 — Da esfera de morte para a esfera de vida.
      • Capítulo 13 — Do ministério terrestre de Cristo para Seu ministério celestial como Advogado diante do Pai.
      • Capítulo 14 — De Cristo como Messias do sistema terrestre a Cristo como Cabeça da nova ordem celestial.
      • Capítulo 15 — De Israel, a antiga vinha, a Cristo, a verdadeira Videira.
      • Capítulo 16 — A presença do Espírito no mundo prova que a antiga dispensação foi colocada de lado.
      • Capítulo 17 — Das orações de Cristo na terra como o Messias sofredor às Suas orações nas alturas como nosso Sumo Sacerdote.
      • Capítulo 18-19 — Dos sacrifícios de animais na economia judaica ao único sacrifício do verdadeiro Cordeiro de Deus.
      • Capítulo 20 — De Cristo, o Messias de Israel, a Cristo, a Cabeça da raça da nova criação, e do templo para o cenáculo.
      • Capítulo 21 — De servos levíticos sob as ordenanças judaicas a servos cristãos sob a direção de Cristo.
  • No que diz respeito ao período de tempo do chamado e formação da Igreja, as Escrituras indicam que ela começou com a descida do Espírito Santo vindo do céu no dia de Pentecostes. Aquilo assinalou um novo começo no modo de Deus agir (At 11:15). Não se tratava de um reavivamento em Israel, como aconteceu nos dias de Ezequias e Josias, e nos dias de Esdras e Neemias, mas de algo completamente novo. Este algo novo — a Igreja — foi formado pelo batismo do Espírito Santo (Mt 3:11; Mc 1:8; Lc 3:16; Jo 1:33; At 1:5; 11:16; 1 Co 12:13).

    As Escrituras ensinam que a Igreja não existia antes daquele momento inaugural. Portanto ela não poderia ter existido nos tempos do Antigo Testamento e nem nos dias do ministério do Senhor na terra. Eis quatro provas disto:
    1. O MINISTÉRIO DE CRISTO — Nos dias do ministério terreno do Senhor, Ele ensinou a Seus discípulos que iria edificar a Igreja em algum momento futuro. Ele disse: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16:18). Fica claro que ela não existia quando ele declarou isso.
    2. A MORTE DE CRISTO — Efésios 2:14-16 declara que uma das coisas que caracterizam a Igreja é que “a parede de separação que estava no meio”, entre judeus e gentios, foi removida, e a “inimizade” que existia entre eles foi desfeita. Paulo explica que isto foi feito na morte de Cristo “na cruz”. Isto significa que a Igreja não poderia existir antes de Cristo morrer.
    3. A RESSURREIÇÃO DE CRISTO E SUA ASCENSÃO — Efésios 1:20-23 e Colossenses 1:18 indicam que antes que a Igreja pudesse ser trazida à existência, Cristo, que estava destinado a ser sua Cabeça, precisaria primeiro ressuscitar de entre os mortos e ascender aos céus.
    4. CRISTO ENVIANDO O ESPÍRITO SANTO — 1 Coríntios 12:13 declara que a Igreja foi formada pela descida do Espírito Santo para habitar nessa nova companhia de crentes. Isto não ocorreu antes de Pentecostes.

    Podemos ver destas passagens que havia duas coisas que eram absolutamente necessárias antes que a Igreja pudesse ser trazida à existência (Jo 7:39) e elas comprovam que ela não poderia ter existido no tempo do Antigo Testamento:
    1. Cristo precisaria morrer, ressuscitar de entre os mortos e ascender à destra de Deus como um Homem glorificado (At 1:9-10).
    2. O Espírito de Deus precisaria ser enviado por Cristo das alturas para formar a Igreja — o batismo do Espírito Santo (At 1:5; 11:16).

    Alguns citam Atos 7:38 como prova de que a Igreja de Deus existia no Antigo Testamento. Ali diz: “Este é o que esteve entre a congregação no deserto” [N. do T.: A palavra grega traduzida como “congregação” é “eclésia”, a mesma que em outras partes é traduzida como “assembleia” ou “igreja”]. É verdade que a palavra “igreja” ou “assembleia” é aplicada a Israel neste versículo, mas devemos ter em mente que a palavra original traduzida como “igreja” ou “assembleia” nem sempre é usada nas Escrituras para descrever a companhia celestial e especial de crentes que o evangelho está chamando neste momento. A mesma palavra no idioma original é usada para descrever a confusa multidão de gentios idólatras e furiosos em Atos 19:32, 39, 41. Ninguém ousaria dizer que eles faziam parte da Igreja de Deus só porque a mesma palavra foi usada para descrevê-los! Isto demonstra que uma palavra usada nas Escrituras nem sempre se refere a uma mesma coisa; é o contexto de cada passagem que irá indicar a que ou a quem ela está se referindo. Não se deve confundir a que Estêvão estava se referindo em Atos 7:38. Uma assembleia ou congregação é um coletivo ou grupo de pessoas. No caso de Israel eles eram uma “assembleia” ou “congregação” no Egito (Êx 12:3), e no deserto (At 7:38), e na terra de Canaã (1 Rs 8:5). O uso cristão da palavra em Mateus 16:18 e 18:17, e também nas epístolas, refere-se a uma “assembleia” ou “congregação” ou “igreja” formada por pessoas completamente distintas.

  • Atos dos Apóstolos é um livro de transição que apresenta a movimentação nos desígnios de Deus passando da velha para a nova dispensação. Essa transição é particularmente notada no capítulo 2 com a vinda do Espírito Santo, enquanto Deus ainda não havia colocado Israel formalmente de lado. Deus esperou pacientemente que a nação se arrependesse. Todavia, à medida que o livro vai se desenrolando fica evidente que os judeus não receberiam o testemunho do Espírito por intermédio dos apóstolos. Isso fez com que fosse inevitável a rejeição temporária de Israel.

    Para ilustrar essa transição nos primeiros capítulos de Atos o Espírito de Deus usa de vários momentos em um dia de 24 horas, a fim de indicar figuradamente o fato de que o castiçal do judaísmo estava se apagando e a luz do cristianismo ganhava força. Enquanto os apóstolos pregavam para a nação, é mencionada uma sucessão de cenas em que a luz vai diminuindo, dando a entender que o tempo estava se acabando para a nação. No capítulo 2:15 é mencionada “a terceira hora do dia”. Ela equivale às nove horas da manhã. Então, no capítulo 3:1 é mencionada “a hora nona”, que equivale a três horas da tarde. No capítulo 4:3 lemos que “já era tarde”, que é o anoitecer. Então, no capítulo 5:19, era já “noite”. Não é algo insignificante que o Espírito de Deus tenha registrado isso. Dá a entender que estava se fechando a janela de oportunidade para que a nação se arrependesse e fosse abençoada nacionalmente no reino.

    Deus estava tratando com a nação naquele momento. Mas a Sua extrema paciência chegou ao fim com o apedrejamento de Estêvão. Quando Estêvão olhou para os céus viu o Senhor Jesus “em pé” (At 7:55-56), significando que Ele ainda estava pronto e desejoso de voltar para estabelecer o reino naquele exato momento, caso eles se arrependessem (At 3:19-21). Em paciente misericórdia Deus considerou a rejeição de Cristo pela nação como um mal entendido (At 3:13-17), e deu a eles uma nova oportunidade nos primeiros capítulos de Atos. Mas com o apedrejamento de Estêvão a nação consumou sua completa rejeição a Cristo. O que eles fizeram foi enviar Estêvão para o céu como um mensageiro levando o recado: “Não queremos que este homem seja nosso rei” (Lc 19:14). Mais tarde, quando a epístola aos Hebreus foi escrita, seu autor já não vê Cristo em pé no céu, mas sentado (Hb 1:3; 8:1; 10:12; 12:2). Isto indica que já havia passado o momento para arrependimento que Deus tinha dado à nação.

    Após o sétimo capítulo de Atos Israel é visto já deixado de lado. O evangelho, portanto, é visto sendo levado a todo o mundo. Para indicar isto nos três capítulos seguintes (8, 9 e 10) o Espírito de Deus dá uma amostra daqueles que seriam chamados pelo evangelho, e assim se tornariam parte do novo vaso celestial de testemunho que Deus estava formando — a Igreja. Ali vemos salvas uma pessoa de cada uma das três linhagens que se iniciaram em Noé — “Sem, Cam e Jafé” (Gn 10:1).
    1. No capítulo 8 o eunuco etíope, descendente de Cam, é alcançado.
    2. No capítulo 9 Saulo de Tarso, descendente de Sem, é alcançado.
    3. No capítulo 10 Cornélio, descendente de Jafé, é alcançado.

    É significativo que o Espírito de Deus também mencione uma progressão no aumento da intensidade da luz enquanto o evangelho ia sendo recebido entre os gentios e a nova dispensação prosperava. Primeiro, vemos “uma luz” do céu que resplandeceu em conexão com a conversão de Saulo de Tarso (At 9:3), e ao repetir a história de sua conversão ele disse que era “uma forte luz” (cap. 22:6), para mais tarde acrescentar intensidade ao dizer: “uma luz… mais resplandecente que o sol” (cap. 26:13).

    Também é significativo que por ocasião dessa transição o Espírito de Deus viria a registrar dois milagres no ministério de Pedro em Atos 9:32-43. Os dois incidentes ilustram o trabalho especial dos apóstolos por ocasião da mudança dispensacional. Nesse período Deus usou os Seus servos para remover aqueles que tinham fé do velho sistema e introduzi-los no novo terreno do cristianismo.

    Durante “oito anos” Enéias esteve incapacitado. Isso equivalia a todo o período no qual Deus tinha estado trabalhando para chamar a nação à bênção por meio do ministério do Senhor (3 anos e meio) e pelo ministério do Espírito Santo através dos apóstolos em Atos 1-7 (cerca de 7 anos). A cura de Enéias é uma figura das almas vivificadas que pertenciam à velha dispensação e eram libertadas do jugo do sistema legal (sua cama) e transferidas para a Igreja.

    Dorcas foi identificada por suas obras na antiga dispensação, mas “aconteceu naqueles dias que, enfermando ela, morreu”. Deus usou Pedro para lhe dar vida numa base diferente — um “quarto alto” (vers. 39). O quarto alto significa o terreno celestial que caracteriza o cristianismo (Lc 22:12; At 1:13; 20:8). Dorcas é também uma figura dos santos da antiga dispensação passando daquele antigo terreno para o novo terreno do cristianismo.

    Também é significativo vermos que nestes capítulos Estêvão viu um Homem “no céu” (cap. 7), Saulo de Tarso ouviu uma voz e viu uma luz “do céu” (cap. 9) e Pedro teve uma visão no “céu” e uma voz vinda dali falou com ele (cap. 10). Isto indica que passara a existir um novo centro de operações (o céu) de onde esse novo movimento de Deus seria conduzido.

    A visão dada a Pedro em Atos 10:11-16 confirma isto. Ela enfatiza a origem, caráter e destino celestiais dessa nova ordem de coisas que Deus estava trazendo entre os gentios, a qual era revelada em Mistério. Proveniente do céu “um grande lençol… era baixado à terra pelas quatro pontas”, e nele estava reunida toda sorte de animais impuros. Essas criaturas eram uma figura dos gentios sendo reunidos na Igreja pelo evangelho. O número “quatro” significa universalidade, e aqui indica as várias direções às quais o evangelho foi enviado (Marcos 16:15; Lucas 24:47; Colossenses 1:23). Foi ordenado a Pedro que comesse (uma figura de comunhão) aqueles animais reunidos, pois Deus os havia purificado. É interessante também que aquelas criaturas purificadas estavam todas colocadas em um único recipiente (figura da Igreja), “e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu”. Isto indica que todo esse movimento teria início no céu (nos propósitos e conselhos de Deus) e acabaria no céu, graças à obra de Cristo, à graça de Deus e ao poder de Deus. Isto sublinha o fato de que tudo o que tem a ver com a Igreja é celestial em sua origem e destino.

  • Se, por um lado, o batismo do Espírito (Atos 2 e 10) marca o início da Dispensação do Mistério — embora a verdade revelada no Mistério ainda não fosse conhecida dos crentes naquela ocasião — o término desta dispensação ocorrerá na vinda do Senhor (Arrebatamento). 1 Tessalonicenses 4:16-17 diz: “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor”. Nessa ocasião o Senhor levará a Igreja para fora deste mundo encerrando assim a atual administração do Mistério. O Espírito de Deus também deixará a terra, no sentido do lugar que atualmente ocupa (2 Ts 2:7).

    Em Romanos 11:25 Paulo declara que o final da dispensação ocorrerá quando vier “a plenitude dos gentios”. A palavra “plenitude” poderia ser lida como “conclusão” (T. B. Baines — N. do T.: No inglês “complement” , termo utilizado para uma tripulação completa e necessária para um navio). Ela se refere ao momento quando será atingido o número daqueles que foram escolhidos para fazerem parte da bênção especial estendida aos gentios no chamamento da Igreja. Em outras palavras, quando a última pessoa escolhida para fazer parte da Igreja tiver sido salva o Senhor dará por encerrada a dispensação.

    três coisas que deverão ocorrer no Arrebatamento. O Senhor descerá do céu com:
    1. “alarido”
    2. “voz de arcanjo”
    3. “trombeta de Deus”

    O “alarido” é para acordar os que “morreram em Cristo”. Esses santos que dormem são cristãos que foram salvos durante o período em que o evangelho da graça de Deus foi anunciado neste mundo. Todavia, por terem morrido, suas almas e espíritos subiram para o céu para estarem com Cristo. Podemos chamá-los como a parte da Igreja que dorme. Apesar de seus corpos terem sido levados pela morte, eles continuam sendo considerados como estando “em Cristo”. Na vinda do Senhor esses cristãos terão seus corpos ressuscitados de suas sepulturas no poder da ressurreição e transformados para uma condição gloriosa (1 Co 15:23).

    A “voz de arcanjo” não se refere ao arcanjo Miguel falando, mas trata-se da própria voz do Senhor com poder de arcanjo. Sua voz irá chamar os santos do Antigo Testamento para fora de suas sepulturas.* O Senhor apareceu muitas vezes ao Seu povo da antiguidade como “o Anjo do Senhor”, e irá chamá-los para fora de seus sepulcros com a mesma voz que lhes é familiar. Eles ressuscitarão simultaneamente com os “mortos em Cristo” (Hb 11:40), porém fazem parte de uma diferente classe de justos. Esses santos do Antigo Testamento terão uma porção celestial no reino como amigos do “Noivo” (Jo 3:29), todavia não ocuparão o mesmo lugar de privilégio da noiva — a Igreja. Em Hb 12:23 a distinção entre esses grupos celestiais de crentes é mostrada da seguinte forma: a Igreja é “a igreja dos primogênitos” e os santos do Antigo Testamento são “os justos aperfeiçoados”.

    [*Geo. Davison, “Precious Things”, vol. 4, p. 142; L. M. Grant, “First and Second Thessalonians”, p. 29;
    H. A. Ironside, “Thessalonians”, p. 50; W. MacDonald, “Believer’s Bible Commentary”, p. 2038.]

    A “trombeta de Deus” é o que irá encerrar a atual dispensação com a retirada dos cristãos remanescentes que estiverem vivos na terra. Todos estes três grupos de pessoas serão “arrebatados juntamente” para se encontrarem com o Senhor nos ares.

  • É importante entender que a vinda do Senhor tem duas fases — Sua vinda para os Seus santos e Sua vinda com os Seus santos. Aqueles que adotam a visão dispensacional da Bíblia se referem a estas vindas, respectivamente, como o Arrebatamento e a Manifestação de Cristo. Muitos cristãos (da Teologia do Pacto) confundem os dois eventos. Embora o Senhor venha do céu em ambas ocasiões, o Arrebatamento e a Manifestação de Cristo são coisas distintas.

    [N. do T.: No original deste livro e na versão da Bíblia traduzida por J. N. Darby é utilizada a palavra “appearing”, traduzida aqui como “manifestação”. Dependendo da versão em português da Bíblia a tradução do termo pode variar, como “manifestação”, “esplendor”, “aparecimento” ou “vinda” em passagens como 2 Ts 2:8 e 2 Tm 1:10; 4:1, 8 (ARC e ARA). Neste livro é usado o termo “manifestação” ou eventualmente “vinda de Cristo”]

    • Arrebatamento é quando o Senhor vem para os Seus santos (Jo 14:2-3); a Manifestação de Cristo ocorre mais tarde quando Ele vem com os Seus santos que foram levados à glória no Arrebatamento (Jd 14; Zc 14:5).
    • O arrebatamento poderia ocorrer a qualquer momento, mas a Manifestação de Cristo não acontecerá até cerca de sete anos após o arrebatamento.
    • No arrebatamento o Senhor vem secretamente, num piscar de olhos (1 Co 15:52); em Sua Manifestação Ele vem publicamente e todo olho O verá (Ap 1:7).
    • No arrebatamento Ele vem para libertar a Igreja (1 Ts 1:10); em Sua Manifestação Ele vem para libertar Israel (Sl 6:1-4).
    • No arrebatamento Ele vem nos ares para a Sua Igreja, pois ela é o Seu povo celestial (1 Ts 4:15-18); em Sua Manifestação Ele volta à terra (no Monte das Oliveiras) para Israel, que é o Seu povo terreno (Zc 14:4-5).
    • No arrebatamento é o próprio Senhor que reúne os Seus santos (1 Ts 4:15-18; 2 Ts 2:1), mas em Sua Manifestação Ele envia os Seus anjos para reunir os eleitos de Israel (Mt 24:30,31).
    • No arrebatamento Ele leva os crentes para fora deste mundo, deixando para trás os ímpios (Jo 14:2-3); em Sua Manifestação os ímpios são tirados do mundo para julgamento e os crentes (que tiverem se convertido por meio do Evangelho do Reino que será pregado durante a tribulação) são deixados para desfrutar de bênçãos na terra (Mt 13:41-43; 25:41).
    • No arrebatamento Ele vem para libertar os Seus santos (a Igreja) da ira vindoura (1 Ts 1:10); em Sua Manifestação Ele vem para derramar a Sua ira (Ap 19:15).
    • No arrebatamento Ele vem como o Noivo (Mt 25:6,10); em Sua Manifestação Ele vem como o Filho do Homem (Mt 24:27-28).
    • No arrebatamento Ele vem como a “Estrela da Manhã” que desponta pouco antes de raiar o dia (Ap 22:16); em Sua Manifestação Ele vem como o “Sol de Justiça”, que é o próprio raiar do dia (Ml 4:2).
    • No arrebatamento Ele virá sem quaisquer sinais, pois o cristão anda por fé e não por vista (2 Co 5:7); em Sua Manifestação a Sua vinda será cercada de sinais, pois os judeus pedem sinais (Lc 21:11,25-27; 1 Co 1:22).
    • Nas Escrituras nunca é feita referência ao arrebatamento como um “ladrão de noite”, mas em Sua Manifestação ele é comparado ao “ladrão de noite” (1 Ts 5:2; 2 Pd 3:10; Mt 24:43; Ap 16:15; 3:3).
    • O Arrebatamento fecha a atual dispensação do Mistério (Ef 3:9); a Manifestação de Cristo abre a Dispensação da Plenitude dos Tempos (Ef 1:10).

    A atual dispensação do Mistério começou e irá terminar com uma Pessoa divina vinda do céu. No início “veio do céu um som, como de um vento veemente… e todos foram cheios do Espírito Santo” (At 2:2-4, 33). No final “o mesmo Senhor descerá do céu com alarido” (1 Ts 4:16).

    As duas coisas são mencionadas como ocorrendo em uma fração de segundo. O Espírito Santo veio “de repente” (At 2:2) e o Senhor também virá “num momento”, transformará nossos corpos “num abrir e fechar de olhos” e nos levará para a casa do Pai (1 Co 15:52). Assim a atual dispensação irá terminar tão rapidamente quanto começou.

    Além disso, do mesmo modo como a Igreja começou com “todos concordemente no mesmo lugar” (no cenáculo no dia de Pentecostes — Atos 2:1), ela irá terminar com “todos concordemente no mesmo lugar” (a casa do Pai). É triste reconhecer que, entre os dois eventos e no tempo em que a Igreja esteve na terra não é isto que temos visto. A Igreja falhou terrivelmente em seu testemunho. Ela não foi cheia do Espírito e, como consequência, ao longo de sua história ela acabou dividida e espalhada. Mas na vinda do Senhor a convocação que Ele fará à reunião irá recriar a unidade que tem ficado perdida desde os primórdios da Igreja (1 Ts 4:16). “Nossa reunião com Ele” naquele momento será uma demonstração do poder de Deus que é capaz de reunir o Seu povo para estarem juntos (2 Ts 2:1).

    Estas coisas demonstram que a Igreja, desde o seu início até o seu destino final, é uma criação celestial de Deus. Ela não é uma instituição permanente na terra, apesar de estar atualmente na terra. A Igreja está apenas passando por este mundo em seu caminho para o céu. O Senhor disse: “Não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17:14). Os cristãos são apenas “peregrinos e forasteiros” na terra (1 Pe 2:11). Um “forasteiro” é alguém que não está em sua própria casa, e um “peregrino” é alguém que está a caminho de casa.

O quarto “pilar” da verdade dispensacional é que Deus irá manter Suas promessas a Israel literalmente, e um remanescente de todas as doze tribos será abençoado em sua terra durante o reino milenial de Cristo. Isso acontecerá depois que a Igreja tiver sido levada para o céu e depois de transcorridos os sete anos de Tribulação (a septuagésima semana de Daniel).

ROMANOS 11:26-29

Em Romanos 11:15 Paulo enfatiza que tão certo quanto ocorreu uma “rejeição” de Israel, haverá também uma “admissão”. “Porque, se a sua rejeição é a reconciliação do mundo, qual será a sua admissão, senão a vida dentre os mortos?” (Rm 11:15). Se a sua rejeição foi literal (o que não podemos negar), qualquer um iria logicamente concluir que sua readmissão também será literal.

Nos versículos 25-29 Paulo afirma que depois “que a plenitude dos gentios” tivesse entrado a “cegueira” ou “endurecimento” de Israel terminaria. Isso ocorrerá graças ao “Libertador” (Cristo) vindo de Sião, o qual “desviará de Jacó as impiedades”. Portanto, a nação arrependida será restaurada ao Senhor e “todos” os que são verdadeiramente Israelitas (Rm 9:6-8) serão salvos. Isso corresponde às profecias do Antigo Testamento que indicavam que no futuro Deus voltaria a tratar com um remanescente de Israel, quando então as promessas feitas ao Seu povo terreno (Israel) seriam cumpridas. O apóstolo Paulo confirma isto ao declarar que “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (vers. 29). Arrependimento, como todos sabemos, significa uma mudança de atitude. Deus não se arrependeu ou mudou Suas intenções em relação à Sua promessa de abençoar Israel. Ele não voltará atrás na promessa que fez por Sua Palavra a Abraão e sua família. Deus não apenas lhe fez a “promessa”, como também fez um “juramento”, e por essas “por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação” (Hb 6:13-18).

Existem muitas profecias que prometem que as tribos espalhadas de Israel retornarão à sua terra (Dt 30:1-5; Is 10:20-22; 11:11-13; 26:19; 27:12-13; 35:10; 49:8-26; 66:19-20; Jr 30-33; 46:27-28; Ez 20:34; 34:11-16; 36:16-38; 37:1-28; Dn 12:2; Os. 6:1-3; 14:1-9; Mq 4:6-7; 5:3; Zc. 8:7-8; Am 9:14-15; Sl. 68:22; Sl 107-150 – 5º Livro dos Salmos — particularmente os Salmos 120-134, Sl 122:4; Lv 23:24-25 – “a Festa das Trombetas”). Nessa ocasião Israel será restaurado ao Senhor e um remanescente de todas as doze tribos irá entrar no reino milenial de Cristo.

Na “parábola da figueira” o Senhor ensinou Seus discípulos que antes que chegue a Grande Tribulação e antes que Ele volte para julgar o mundo em justiça, “os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas” (Mt 24:32-35), referindo-Se à figueira (Israel). Isto é, Israel começaria a mostrar sinais de vida antes de dar fruto para Deus. Em Maio de 1948 o estado de Israel reapareceu nos mapas. Esse restabelecimento literal dos judeus nacionalmente em sua própria terra de Israel é inegável. Mesmo que isso tenha acontecido sem que eles tivessem recebido o Senhor Jesus Cristo como seu Messias, os dispensacionalistas veem este fato como um prenúncio da restauração literal e inevitável da nação. Hoje naquela nação “brotam folhas”, mas não haverá fruto para Deus até que sejam restaurados ao Senhor Jesus. Então eles irão, de fato, dizer: “De mim é achado o teu fruto” (Os 14:8).

Estudantes da Bíblia que não entendem o modo dispensacional de Deus tratar com Israel e com a Igreja enfrentam um impasse ao tentarem interpretar o significado da expressão “os últimos dias”. Por exemplo, as Escrituras indicam que Deus visitou o Seu povo terreno Israel nos “últimos dias” na Pessoa do Seu Filho (Hb 1:2), e que Ele morreu e ressuscitou de entre os mortos nos “últimos tempos” (1 Pe 1:20-21). As Escrituras também indicam que Israel será atacado pelo Rei do Norte (Dn 8:19, 23; 11:40-43) e por Gogue (Ez 38:8-13) e será restaurado e introduzido em um relacionamento com o Senhor nos “últimos dias” (Dn 12:1-4; Is 2:2-4; Mq 4:1-2). Se algumas destas coisas já aconteceram há dois mil anos e outras ainda estão para acontecer no futuro, como se pode dizer que todas elas ocorrem nos últimos dias?

As pessoas inventam toda sorte de ideias na tentativa de reconciliar estas coisas. Todavia o problema é resolvido quando entendemos que o chamado da Igreja é uma inserção, um parêntese nos planos de Deus que nada tem a ver com Israel. Se tirarmos de cena o atual chamado da Igreja, no que diz respeito às tratativas de Deus para com Israel a linha do tempo seguirá sem interrupção, da morte e ressurreição do Senhor até a septuagésima semana de Daniel, os sete anos finais de sua história antes do estabelecimento do reino. Quando enxergados assim, a morte de Cristo e também os eventos proféticos relacionados ao ataque a Israel e sua restauração estão todos nos últimos dias.

Como já observamos em nossos estudos do Dispensacionalismo, em um determinado ponto na sequência desses eventos relacionados a Israel Deus voltou Sua atenção para o chamado da Igreja através do evangelho. A Igreja permanecerá na terra no lugar de testemunho até que o Senhor venha para levá-la para o céu no Arrebatamento. A Igreja também tem os seus “últimos dias” de testemunho na terra. Paulo (1 Tm 4:1; 2 Tm 3:1), Pedro (2 Pe 3:3), João (1 Jo 2:18) e Judas (Jd 1:18) falam disso. Os “últimos dias” relacionados à Igreja referem-se mais a um caráter de coisas do que a um momento no tempo, como é no caso de Israel. A razão é que a Igreja é uma criação celestial de Deus que nada tem a ver com a terra, onde se aplicam tempos e estações.

Portanto, as Escrituras indicam que existem dois “últimos dias” diferentes conectados a grupos de pessoas totalmente diferentes. Eles não devem ser confundidos.
* * * * *Resumindo, os quatro “pilares” da verdade dispensacional demonstram que o chamado celestial da Igreja, que ocorre hoje, de modo algum interfere com o plano de Deus de abençoar Israel na terra juntamente com as nações gentias submissas a Israel, conforme fora prometido no Antigo Testamento. Durante o reinado de Cristo na futura Dispensação da Plenitude dos Tempos todas as promessas feitas a Israel se cumprirão literalmente. Portanto, a verdade dispensacional não priva Israel de coisa alguma no que diz respeito às suas aspirações nacionais.

Os próximos dois capítulos contêm vários esboços tirados do Novo e Antigo Testamento que confirmam a ordem dispensacional nos planos de Deus, como já foi mostrado nos dois primeiros capítulos.

Existe muito ensino simbólico nos evangelhos que confirma, amplifica e ilustra o modo dispensacional de agir de Deus, conforme é ensinado pelo apóstolo Paulo. Na verdade poderíamos apontar tantos capítulos para demonstrar isto que fica até difícil saber por onde começar. Vamos selecionar alguns.

três figuras principais que são utilizadas repetidas vezes para indicar uma mudança no modo de agir de Deus neste atual Dia da Graça em que Ele está chamando a Igreja. São elas:
  • Um mar — Grandes volumes de água nas Escrituras simbolizam as nações gentias (Ap 17:16; Sl 65:7; Is 17:12 etc.), às quais o evangelho da graça de Deus está sendo agora enviado para tirar dentre elas um povo para o Seu nome (At 13:26; 15:14).
  • Uma mulher — Nas Escrituras a Igreja é apresentada figuradamente como sendo do gênero feminino. Isto porque ela é vista como a noiva e esposa celestial do Cordeiro, o Senhor Jesus Cristo (2 Co 11:2; Ef 5:23-33; Ap 19:6-8; 21:9).
  • Um gentio — Já que a Igreja é composta principalmente por gentios crentes, o Espírito de Deus usa com frequência um gentio para fazer referência à Igreja (At 15:14).

No Novo Testamento a maior parte destes elementos figurativos dispensacionais é encontrada no Evangelho de Mateus, e é bem apropriado que esta linha de ensino esteja naquele Evangelho. Os judeus — para quem o evangelho de Mateus foi escrito — ocupavam um lugar de favor diante de Deus, por isso precisavam entender e se preparar para a mudança dispensacional que estava chegando por a nação ter rejeitado a Cristo.

Na verdade essa rejeição não ocorreu durante a vida e ministério do Senhor. Todavia, considerando que “conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” (At 15,18), Deus previu o inevitável. Sendo assim, o Espírito de Deus, que inspirou Mateus ao escrever o Evangelho, o levou a reunir os eventos que iriam ilustrar a mudança dispensacional no modo de Deus agir. Aquele que é instruído na verdade irá enxergar estas figuras dispensacionais em quase todos os capítulos.

  • O Senhor desceu “do monte” para encontrar as multidões e foi imediatamente confrontado com um cenário de pecado, enfermidade e dor (vers. 1). Isto denota a triste condição das coisas neste mundo por ocasião do primeiro advento do Senhor. Achegou-se a Ele “um leproso” que estava ciente de sua doença e queria ser limpo. Sua fé era evidente, pois ele chamou a Jesus de “Senhor” e prestou a Ele uma homenagem digna de um rei (vers. 2 — no original “prostrou-se” como se faz diante de um rei – N. do T.). Assim ele reconhecia a Cristo como Rei de Israel — que é o tema básico do Evangelho de Mateus. O leproso é uma figura do remanescente de crentes que receberam o Senhor quando Ele veio à Sua nação — como Pedro, Tiago, João, Maria, Marta etc. Toda a nação deveria ter tido a mesma atitude do leproso para com o Senhor.

    O Senhor limpou o leproso e o enviou “ao sacerdote” (que devia ser quem declarara que aquele homem era homem imundo — Levítico 13) “para lhes servir de testemunho” (vers. 3-4). Os Rabis acreditavam, e com razão, que apenas Jeová poderia curar um leproso (Nm 12:13-15; 2 Rs 5:14; Sl 103:3 etc.), portanto aquilo seria um testemunho inegável à nação de que Jeová havia realmente visitado o Seu povo na Pessoa de Cristo. A missão do leproso enviado aos sacerdotes é uma figura da missão dos discípulos do Senhor que Ele enviou aos judeus para testificarem que Ele viera para lhes trazer salvação e bênção (Lc 9:1; 10:1).

    Todavia, os sacerdotes não receberam o testemunho do leproso. Isto fica evidente por não existir menção deles se regozijando e correndo receber o Messias. Ao invés disso o texto não faz qualquer menção de alguma iniciativa da parte deles; evidentemente eles não ligaram para o fato de o leproso ter sido curado. Isto aponta para a total infidelidade dos judeus por ocasião da primeira vinda do Senhor. A nação não queria recebê-Lo como seu Rei.

    Nos versículos 5-13 a narrativa sofre uma mudança brusca. Somos apresentados a uma cena onde um “centurião” romano (um gentio) recebeu bênção em sua casa por ter exercido uma fé simples no fato de Jesus ser “Senhor”. Seu servo tinha uma forma debilitante de paralisia, o que é uma figura da condição impotente dos pecadores neste mundo que estão “fracos” (Rm 5:6). Todavia, ele foi “curado” pelo poder de Deus.

    É significativo que o Senhor tenha realizado este milagre de curar o servo paralítico à distância — sem visitar a casa do centurião. Isto nos fala do caráter da bênção que está sendo hoje derramada sobre os gentios pelo evangelho, numa época em que Cristo está ausente. Como o centurião chamou a Jesus de “Senhor”, os crentes hoje tirados de entre os gentios estão sendo introduzidos na bênção da salvação simplesmente por reconhecerem por fé que Jesus é “Senhor” (Rm 10:9). O meio pelo qual a bênção foi comunicada foi a “Palavra” (vers. 8), que é o que Deus está usando hoje para salvar os homens (At 13:26; 2 Ts 3:1; 2 Tm 4:2).

    Esta mudança na narrativa — da bênção que alcança um gentio — indica a mudança que ocorreu no modo dispensacional de agir de Deus. Como consequência do fracasso dos judeus em reconhecerem a Cristo como seu Rei de direito, Deus os colocou de lado temporariamente e está agora alcançando o mundo gentio para tirar dele um povo para o Seu nome no presente Dia da Graça (At 15:14).

    Depois que tiver “entrado a plenitude dos gentios” (Rm 11:25), representada pela cura do servo do centurião, o Senhor tomará um remanescente de Israel e o introduzirá na bênção. Isto está ilustrado na cena em que a sogra de Pedro se levanta depois de ter estado “acamada e com febre” (vers. 14-15). É o que acontecerá na segunda vinda do Senhor (Sua Manifestação), quando nascerá “o Sol da justiça, e cura trará nas suas asas” (Ml 4:2). Imediatamente após a restauração de sua saúde, a sogra de Pedro “levantou-se, e serviu-os”. Isto revela que quando Israel for restaurado naquele dia ainda futuro, o povo será um instrumento da bênção de Deus para o mundo. Eles serão chamados de “ministros de nosso Deus” (Is 61:6).

    Digno de nota é que o Senhor “tocou” o leproso (vers. 3), e “tocou” a sogra de Pedro (vers. 15) mostrando assim Sua presença pessoal tanto em Seu primeiro quanto segundo adventos. Mas o Senhor não teve um contato pessoal com o servo gentio paralisado, cuja bênção foi recebida entre esses dois adventos. A bênção chegou a ele quando o Senhor estava distante. Como já foi mencionado, isto ilustra o modo como a bênção é dispensada por meio da Palavra de Deus ao mundo gentio na época atual, quando Cristo está ausente.

    Apos curar a sogra de Pedro tem início um novo dia — “chegada a tarde” é quando o dia começa segundo o calendário judaico. A bênção então saiu através do Senhor em todas as direções, não tendo ficado limitada à família de Pedro. Isto nos fala do tempo do reino milenial de Cristo, quando a bênção sairá por todo o mundo. Os “endemoninhados” foram libertos do poder de Satanás pelo Senhor que expulsou os “espíritos” maus. Isto indica Satanás sendo preso e lançado no abismo, juntamente com seus emissários, no início do dia milenial (Is 24:21; Ap 20:1-3). O Senhor também “curou todos os que estavam enfermos”. Isto nos fala, em forma de figura, da cura que acontecerá em escala mundial de todas as enfermidades e será a característica do Milênio (Sl 103:3; 146:8; Is 33:24; 35:5-6).

  • Um “chefe” veio ao Senhor Jesus e O “adorou” (vers. 18 — no original “prostrou-se” como se faz diante de um rei – N. do T.), reconhecendo-O verdadeiramente como o Rei de Israel. Sua profunda preocupação era com sua “filha” que havia falecido. Ele tinha fé que o Senhor poderia ressuscitá-la de entre os mortos pela imposição de Suas mãos sobre ela. Este homem é uma figura do remanescente de judeus por ocasião da primeira vinda do Senhor, os quais pela fé estavam “esperando a consolação de Israel” e a “a redenção em Jerusalém” (Lc 2:25, 38). Sua filha representa o que Israel é para o coração de Deus — “a filha de Sião” (Sl 9:14 etc.). A nação estava verdadeiramente em um estado de morte moral e espiritual, e assim necessitava de restauração. Assim como este homem buscou o Senhor para ressuscitar sua filha de entre os mortos, o mesmo acontecerá com aqueles que naquela época verdadeiramente tinham fé e esperavam “que fosse ele o que remisse Israel” (Lc 24:21). Eles O buscavam para curar, abençoar e fazer reviver a nação como um todo.

    Respondendo ao clamor do homem, o Senhor levantou-Se e foi ao encontro da menina (vers. 19). Enquanto o Senhor caminhava em direção à casa onde jazia a menina, Ele foi abordado por “uma mulher que havia já doze anos padecia de um fluxo de sangue”. De acordo com a lei cerimonial sua enfermidade a tornava impura e, portanto, desqualificada para se aproximar de Deus no templo. Sua doença é uma figura dos gentios em sua condição natural, os quais estão desqualificados para a presença de Deus por causa da impureza do pecado. A mulher demonstrou ter uma fé simples no Senhor e “tocou a orla de sua roupa”, sendo assim “curada”. Sua cura é uma figura dos gentios no atual Dia da Graça que estão sendo abençoados sobre o princípio da fé. Este evento, intercalado na narrativa que fala da ressurreição da filha de Jairo, é uma figura do chamado celestial da Igreja que é uma inserção que tem por objetivo chamar um povo principalmente dentre os gentios (At 15:14).

    Os versículos 23-26 retomam a narrativa sobre a filha de Jairo. Isto aponta para a retomada das tratativas do Senhor para com Israel no futuro. Quando o Senhor chegou à casa de Jairo o estado era de confusão, “vendo os instrumentistas, e o povo em alvoroço”. Isto ilustra o estado de coisas existente na terra de Israel quando o Senhor retornar para voltar a tratar com o povo por ocasião de Sua segunda vinda — a Manifestação. O Anticristo terá feito o seu trabalho maligno e o povo ali estará imerso em imensas trevas e muita confusão (Is 8:19-22; Mt 24:29). Apesar de todo o “alvoroço” que havia na casa de Jairo, alguns ali “choravam muito e pranteavam” (Mc 5:38). Isto aponta figurativamente para o pranto de arrependimento do remanescente de judeus (Zc 12:9-14).

    Na casa de Jairo havia também os que não acreditavam que o Senhor pudesse fazer qualquer coisa pela menina morta, e em sua incredulidade eles “riam-se dele” (vers. 24). Essas pessoas são uma figura dos judeus apóstatas na terra, que estarão cheios de incredulidade e por isso serão excluídos do reino — do mesmo modo como estes aqui foram postos fora da casa. O Senhor então tomou a mão da menina e a ressuscitou de sua condição de morte. Esta é uma figura da ressurreição nacional de Israel (Is 26:19; Ez 37:1-14; Dn 12:2-3).

    A partir daí “espalhou-se aquela notícia por todo aquele país”. Isto aponta para a glória milenial do Senhor que será espalhada por toda a terra em um dia ainda futuro (Is 11:9; Hc 2:14). A dupla enfermidade da nação, como “cega” (Sl 69:23; Is 6:9-10, Jo 12:37-41) e “surda” (Is 42:19) será curada pelo Senhor naquele dia. Isto é ilustrado pelo fato de o Senhor abrir os olhos dos dois cegos que o reconheciam como o “Filho de Davi” — outra referência a Ele como Rei de Israel. A cura do homem mudo atende à necessidade da nação de ser capaz de falar e louvar a Deus (vers. 27-31). Estas duas coisas caracterizam a nação por ocasião de sua restauração. Eles verão a Cristo como seu Messias e Rei, e verdadeiramente louvarão a Deus por Sua maravilhosa providência em graça para com eles (Is 29:18). A cena se encerra com uma figura milenial da verdade do reino sendo ensinada (Is 2:3; Mq 4:2) e com o Senhor Jesus “curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo” (vers. 35-36).

  • Capítulo 10 — Os últimos dois versículos do capítulo 9 pertencem ao assunto deste capítulo. Nos capítulos 8 a 9, após demonstrar “as virtudes do século futuro” (Hb 6:5), que provavam que o Senhor tinha o poder de introduzir o reino conforme previram os profetas do Antigo Testamento, Ele assumiu o Seu lugar de direito como o “Senhor da Seara” (cap. 9:38). Agindo como Administrador da convocação do reino, Ele enviou os Seus arautos (os doze apóstolos) para anunciarem que o Rei estava presente. Se o povo O recebesse Ele introduziria o reino de acordo com as profecias dos Profetas.

    O capítulo 11 apresenta os resultados do anúncio do Rei à nação. Ele mostra que a mensagem não foi recebida pelo povo e, por isso, o Senhor foi rejeitado. Eles não O queriam como seu Messias e Rei. Isto é visto no fato de que eles não quiseram receber o ministério de João, o qual apresentava Cristo à nação (João 1:6-9, 29, 35), nem tampouco receberam o ministério do Senhor e de Seus apóstolos (cap. 11:1-19). Consequentemente, o Senhor pronunciou um juízo sobre a nação, e especialmente sobre aqueles que tiveram a oportunidade de testemunhar da maior parte dos milagres feitos entre eles — “Corazim”, “Betsaida” e “Cafarnaum” (cap. 11:20-24). O Senhor aceitou Sua rejeição como vinda de Seu Pai, que está acima de todas as coisas, e disse: “Sim, ó Pai, porque assim Te aprouve” (cap. 11:25-27). Ele então chamou um remanescente de crentes para fora da massa de incrédulos com a intenção de guiá-los a algo completamente novo nos desígnios de Deus, o que estava prestes a ter início. Ele disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (cap. 11:28-30). Ele não estava dizendo isso a incrédulos que precisavam ser convertidos (como os evangelistas costumam tomar a liberdade de usar a passagem na pregação do evangelho), mas a crentes fiéis na antiga dispensação que estavam sobrecarregados por tentarem guardar todas as determinações da Lei e as tradições dos patriarcas. Eles eram encorajados a seguir o Senhor na senda da fé tomando sobre eles o Seu “jugo” (os novos princípios do reino), por meio do qual encontrariam “alívio” ou “descanso” do fardo que era guardar a Lei.

    Nos capítulos 12-13 o Senhor é visto rompendo Suas ligações com a nação. Isto está indicado por uma série de afirmações e ações simbólicas. Neste ponto do Evangelho de Mateus o Espírito de Deus reúne determinados eventos para demonstrar a mudança que estava ocorrendo nos desígnios dispensacionais de Deus. Algumas coisas são mencionadas para indicar o inevitável rompimento das tratativas do Senhor para com Israel e o início de sua ação em alcançar os gentios.

    Existem doze indicadores que apontam para esta mudança dispensacional:

      Primeiro, são apresentados dois incidentes nos quais o Senhor parecia violar a Lei do Sábado (cap. 12:1-13). Na verdade os judeus haviam interpretado Seus atos como transgressão da Lei, quando na realidade o que havia sido violado eram apenas as tradições dos Fariseus. Não existe em qualquer passagem das Escrituras qualquer coisa que proíba pessoas famintas de arrancarem algumas espigas de trigo e comê-las no Sábado, e nem na Lei havia qualquer coisa contra executar atos de misericórdia no Sábado. Ao violar as tradições dos Fariseus relacionadas ao Sábado (as quais os judeus consideravam mais importantes que a Lei), o Senhor estava indicando que o Seu vínculo com a nação estava rompido, vínculo este do qual a Lei era o selo. (Êx 31:16-17).

      Ao responder a crítica dos Fariseus o Senhor apontou para a ocasião quando os homens de Davi estavam famintos e o sacerdote deu de comer a eles o “pão sagrado” (1 Sm 21:1-6). O sacerdote agiu assim porque quando eles chegaram era hora de substituir o pão, e tendo em vista o fato de que o pão novo estava santificado “nos vasos” e pronto para ser colocado no forno, enquanto o pão velho já era considerado “pão comum”. O ato de tirar o pão velho representava o fim da velha ordem sob o rei Saul; sua substituição pelo pão novo apontava para a nova ordem que viria com Davi. Já que Davi, o rei ungido de Deus, foi rejeitado, as reivindicações da Lei concernentes às coisas santas tinham “de algum modo” caducado. Isto tem um significado na forma de tipos. As coisas em Israel dos dias do Senhor também passavam por uma transição. O Senhor usou este incidente para ilustrar que, uma vez que Ele, “o Filho do Homem” (título que Ele assume em Sua rejeição) que “até do sábado é Senhor”, fora rejeitado, as reivindicações do Sábado já não valiam.

      A segunda coisa que indicava que o Senhor estava rompendo Suas ligações com Israel é que a partir deste capítulo Ele Se afasta do povo várias vezes. Nestes capítulos transicionais do Evangelho vemos várias vezes algo como: “E, partindo dali…” ou “retirou-se dali” (cap. 12:9, 15: 13:1, 53; 14:13; 15:21, 29; 16:4 etc.).

      Um terceiro indicador é que o Senhor passava a “recomendava-lhes [aos discípulos] rigorosamente que o não descobrissem” ou revelassem que Ele era o Messias de Israel (cap. 12:16; 16:20; 17:9 etc.). Ele indicava assim que cancelaria a comissão que havia sido dada a eles para convocar Israel para o reino. (Isto não ocorreu realmente até Estêvão ter sido apedrejado pelos líderes da nação em Atos 7). Ao fazer isso o Espírito de Deus cita Isaías 42:1-3 como um anúncio formal de que a “voz” já não seria ouvida “pelas ruas” (cap. 12:14-21). Isto significa que a pregação e apresentação pública do reino já não seriam mais oferecidas à nação; tal missão estava sendo encerrada. A citação de Isaías 42 acrescenta: “até que ponha na terra a justiça; e as ilhas [gentios] aguardarão a Sua lei”. Isto demonstra que o cessar da apresentação do reino a Israel não seria final, mas ficaria postergado “até” outra ocasião.

      A quarta coisa é que a narrativa do Evangelho de Mateus já não afirma que “é chegado o reino dos céus” como tinha sido nos capítulos anteriores (cap. 3:2; 4:17; 10:7). A expressão “o reino dos céus” continua sendo usada, mas já não diz que “é chegado”.

      O quinto indicador de que o assunto estava encerrado para a nação (ao menos temporariamente) é que os líderes responsáveis em Jerusalém atribuíram o ministério do Senhor a Satanás, selando assim sua própria perdição (cap. 12:22-37). Com isso eles estavam pedindo que fosse lançado juízo sobre eles. O espírito que levou a nação a crucificar o Senhor fica evidente nas acusações dos Fariseus. O Senhor declarou que o pecado deles era uma “blasfêmia contra o Espírito”. Algo assim não poderia ser perdoado — nem naquela geração e nem na geração vindoura. Portanto, o juízo teria de cair sobre a nação.

      Uma sexta coisa que demonstra que o Senhor havia encerrado sua missão de apresentar o reino a Israel naquela ocasião é vista em Sua recusa de dar aos escribas e Fariseus (os líderes) quaisquer “sinais” adicionais de que Ele era o Messias, e isto por causa da incredulidade deles (cap. 12:38-45). Exigir outro sinal quando tantos sinais já haviam sido dados era claramente um insulto à demonstração das “as virtudes do século futuro” (Hb 6:5) que Ele lhes tinha dado. Implicava que faltaria a Ele as credenciais de Messias. Assim, depois da cura do homem com a mão mirrada (cap. 12:10-13), vemos claramente um fim nos milagres que haviam sido feitos diante da porção responsável da nação. O Senhor retirou-se para as regiões além da Galileia e continuou a fazer milagres ali, pois as pessoas naquela área ainda não O tinham rejeitado formalmente (cap. 14:15-21; 15:21-39; 17:14-21).

      Uma sétima evidência de que o Senhor iria encerrar suas conexões com a nação é vista em Sua recusa em atender aos pedidos de “Sua mãe e Seus irmãos” (cap. 12:46-50). Ele já não iria reconhecer Seus vínculos naturais. Isto significava o rompimento de Suas ligações naturais e de seu relacionamento com a nação — inclusive com os membros de Sua própria família.

      No capítulo 13 há uma oitava evidência. O Senhor levantou-se e saiu “da casa” (vers. 1). Esta foi mais uma ação simbólica demonstrando que as conexões exteriores que tinha com a nação seriam rompidas. Ele assumiu uma nova posição assentando-se “junto ao mar” (compare com Atos 10:6), o que representa Suas intenções de alcançar os Gentios nesta nova empreitada nos caminhos de Deus.

      A nona evidência é que haveria uma nova seara cultivada na lavoura de Deus pelo semear da “semente” da Palavra de Deus nos corações dos homens (Lucas 8:11), por meio da qual haveria fruto para Deus (cap. 13:1-9, 19-23). Portanto, Ele já não buscaria fruto na seara de Deus segundo a antiga ordem de Israel.

      A décima evidência é vista no fato de o Senhor ter adotado um novo método de ensino em Seu ministério (cap. 13:10-17). Deste ponto em diante no Evangelho de Mateus Ele usa “parábolas”. Antes disso Ele não usava, mas falava claramente ao povo. Todavia, após ser rejeitado Ele adota este novo método de ensino. O uso de parábolas não era para ajudar as massas a entenderem a verdade, mas tratava-se de uma ação governamental visando esconder a verdade delas por causa de sua incredulidade. Mas ao mesmo tempo seria dado conhecer a verdade àqueles que tinham fé (os discípulos). Eles entenderiam o significado das parábolas. É feita citação de Isaías 6:9 para confirmar que Deus tiraria dos judeus a verdade, pois eles “fecharam seus olhos” em incredulidade.

      A décima primeira evidência é que “o reino dos céus” ganharia um novo significado. A partir de então ele teria um lado místico (cap. 13:11). Os “mistérios” concernentes ao reino seriam explicados aos discípulos nas parábolas que se seguiriam falando do reino (cap. 13:24-30, 31-32, 33, 44, 45-46, 47-50; 18:23-35; 20:1-16; 22:1-14; 25:1-13). Estas dez parábolas tem sido chamadas de “similitudes” do reino, pois todas começam com a frase: “O reino dos céus é semelhante a…”.

      A décima segunda evidência de que a nova dispensação estava chegando é que novas revelações seriam feitas em conexão à nova fase do reino em mistério. Algumas coisas que tinham sido deixadas secretas desde a fundação do mundo seriam agora descortinadas (cap. 13:35).

    * * * * *Como já foi mencionado, o Espírito de Deus escreveu o Evangelho de Mateus com estas imagens dispensacionais entretecidas no texto para ilustrar a transição (do judaísmo para o cristianismo) que, segundo os desígnios de Deus, estaria chegando após a morte e ressurreição do Senhor. A nova rejeição é registrada no Livro de Atos dos capítulos 8 ao 28 e continua nos dias de hoje. Ela é prefigurada no ministério do Senhor em Mateus 13. O Senhor voltaria ao céu, passando pela cruz, e a responsabilidade do “reino dos céus” seria dada aos homens. Considerando que se tratava de uma ordem de coisas totalmente nova, ela necessitava de alguma explicação adicional. Portanto, a partir do capítulo 13 em diante o Senhor ensina os discípulos acerca das novas características do reino dos céus nas parábolas chamadas de “similitudes”.

    Nas três primeiras similitudes no capítulo 13:18-33 o Senhor mostra que quando o evangelho fosse levado, como tem sido feito no período atual, haveria uma mistura de pessoas que seriam introduzidas no reino — algumas seriam crentes reais, mas outras meros professos. Estas parábolas enfatizam o que Satanás está fazendo para anular a obra de Deus no evangelho por meio da introdução de pessoas (“joio”), espíritos malignos (“aves do céu”) e más doutrinas (“fermento”).

    As três similitudes seguintes (vers. 44-50) identificam o que Deus está fazendo no reino apesar do trabalho de Satanás. Ele está assegurando um “tesouro”, uma “pérola de grande valor” e peixes “bons”. Estas coisas se referem àqueles que compõem a Igreja.

    As quatro últimas similitudes no Evangelho (cap. 18; 20; 22; 25) enfatizam que o que nós deveríamos estar fazendo no reino. Deveríamos ser cuidadosos em conservar um estado de espírito correto em relação ao Senhor e a nossos irmãos temendo o juízo governamental de Deus (Mt 18:23-35). Deveríamos estar servindo na vinha do Senhor sem competição, ciúme ou queixa (Mt 10:1-16). Deveríamos estar espalhando o evangelho por todo o mundo (Mt 22:1-14). E deveríamos estar esperando pela volta iminente do Senhor (Mt 25:1-13).

    Estas similitudes descrevem coisas que se sucederiam no reino durante o período da ausência do Senhor, até o momento em que Ele voltaria (a Manifestação) na “consumação do século” (Mt 13:37-43). Todavia, essas coisas não chegam longe o suficiente para contemplarem “o século futuro” — o Milênio — quando estará em vigor a “dispensação da plenitude dos tempos”. Todavia, estas imagens projetam o fato de que existiria uma mudança dispensacional no modo de Deus agir, passando da Lei para a Graça.

  • Este capítulo começa com o Senhor sendo rejeitado, e isto fica evidente pelo fato de Seu precursor e arauto, João Batista, ter sido morto (vers. 1-12). Depois de ter sido rejeitado o Senhor foi para um lugar deserto onde continuou seu ministério para as multidões (vers. 13-14).

    Naquele lugar de desterro o Senhor “curou os seus enfermos”. Isso dava testemunho ao fato de que Deus havia realmente visitado o Seu povo na Pessoa do Messias, pois as Escrituras afirmam claramente que quando Ele viesse para estabelecer o Seu reino as curas generalizadas seriam um de seus feitos notórios a todos (Sl 103:3; Is 33:22-24; 35:1-7). Outra característica notável do reino do Messias como é apresentado no Antigo Testamento é que ninguém seria pobre ou passaria fome. Ele fartaria “de pão os seus necessitados” e seria aquele que “que dá pão aos famintos” (Sl 132:15; Sl 146:7; Am 9:13). O Senhor demonstrou isto ao alimentar os cinco mil que estavam com ele no deserto, confirmando assim que Ele tinha poder para estabelecer o reino conforme prometido pelos Profetas (vers. 15-21). Portanto, durante o ministério terreno do Senhor eles “provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro” (Hb 6:5). Foi dado a eles uma amostra das coisas que caracterizariam o reino, caso eles O recebessem.

    Todavia, esta passagem de Mateus 14 não registra qualquer indício de que o povo apreciasse o que o Senhor tinha feito, e tampouco houve qualquer reconhecimento de que Ele seria verdadeiramente o Messias de Israel. A narrativa nada fala neste sentido, ilustrando assim a infidelidade da nação e sua recusa em reconhecê-Lo como o Messias deles. Foram recolhidas “doze alcofas cheias” como uma abundância que seria guardada para ser usada no futuro (vers. 20). Isto sugere que o Senhor ainda não tinha desistido da nação de Israel. Aquilo que abundou seria usado no futuro quando Ele voltasse para tratar com o remanescente crente; naquele dia haveria um cesto da bênção de Deus para cada uma das doze tribos.

    Por não existir qualquer reação da parte do povo naquela ocasião o Senhor dispensou a multidão (vers. 22-23). Isto ilustra o endurecimento de suas relações com a nação que seria temporariamente deixada de lado. Os doze apóstolos foram então colocados no “barco” e enviados “para o outro lado” do mar. Isto significava uma nova abordagem de Deus no testemunho cristão do tempo presente. O barco sendo enviado através do mar é uma figura do testemunho cristão saindo em meio aos gentios (At 15:14). Os apóstolos que entrarem no barco representam o remanescente crente de judeus que foram tirados do judaísmo e introduzidos na Igreja (At 2:41; 4:4; 5:14; 6:7; Rm 11:5; Gl 6:16). Enquanto isso o Senhor “subiu ao monte para orar, à parte”. Isto significa a ascensão do Senhor à glória para assumir Sua atual função de Sumo Sacerdote em oração intercessora a favor daqueles que são Seus neste mundo (Rm 8:34; 7:25).

    A jornada dos discípulos no barco até o outro lado foi feita à noite (vers. 24-25). Isto corresponde ao fato de os homens maus terem expulsado o Senhor, que é “a luz do mundo” (Jo 9:4-5) deixando este mundo em um estado de trevas morais e espirituais. Além disso, durante o tempo da ausência do Senhor, longe de Seus discípulos, uma grande tempestade se abateu sobre o barco. Isto fala da tentativa de Satanás de destruir o testemunho cristão. O “vento”, que “era contrário”, aponta para o fato de que Satanás bombardearia a Igreja com más doutrinas (Ef 4:14; 2 Pe 2:1). Todavia, perto do fim da jornada, “à quarta vigília da noite”, a qual se estende até o amanhecer, os discípulos viram o Senhor vindo em direção a eles! (vers. 25:26). Isto aponta para o despertamento ocorrido no testemunho cristão nestes últimos dias. Há cerca de 180 anos o mundo cristão tomou consciência da realidade de que o Senhor estava para voltar em breve. A verdade do Arrebatamento foi recuperada naquela ocasião. A iminência disso cativou a muitos, fazendo com que deixassem de lado os interesses e bens mundanos para servirem o Senhor com propósito de coração. Isto tem sido chamado de “clamor da meia noite” (Mt 25:6).

    Pedro ficou tão impressionado com a vinda do Senhor em direção a eles que saiu do barco para ir ao encontro do Senhor (vers. 28-29). Isto é uma figura do testemunho remanescente que se formou naquela ocasião (no século 19). Cristãos de várias denominações saíram de suas associações denominacionais formais e começaram a congregar ao nome do Senhor Jesus somente; eles não tinham o suporte de qualquer sistema religioso, mas confiavam simplesmente no Espírito de Deus em todas as questões concernentes à adoração e ao ministério da Palavra. No que diz respeito a estas coisas, eles trilharam o caminho que só pode ser trilhado por fé.

    Mas Pedro tirou seus olhos do Senhor e começou a olhar para as ondas, passando a afundar (vers. 30). Se Pedro, ao caminhar sobre as águas, representa os primeiros dias do testemunho remanescente do século 19, Pedro afundando nas águas representa estes últimos dias. O problema foi que Pedro estava tentando fazer algo que ele já estava fazendo, porém sem olhar para o Senhor — e tal coisa não poderia ser feita. De igual modo irmãos em nossos dias estão aprendendo que não são capazes de seguir em frente na condição de um testemunho remanescente (isto é, fazendo o que os irmãos fizeram no passado) sem a energia espiritual e a fé que eles tinham. Todavia, quando Pedro começou a afundar ele fez a coisa certa ao clamar: “Senhor, salva-me!” (vers. 30). Isso é tudo que podemos fazer hoje — precisamos coletivamente clamar ao Senhor para salvar o testemunho dos santos congregados ao Seu nome (Mt 18:20). A única coisa encorajadora a respeito do afundamento de Pedro e de ter pedido por socorro ao Senhor é que imediatamente o Senhor encontrou-Se com os discípulos e a jornada chegou a fim! (vers. 31-33). Quando vemos as coisas afundando é um sinal de que a volta do Senhor está próxima. Possamos, portanto, ficar encorajados com isso.

    Ao chegarem ao outro lado do lago vemos uma cena de bênção generalizada na terra de Genesaré. Trata-se de uma figura da bênção milenial que ocorrerá após a Igreja ter terminado seu curso neste mundo e um remanescente de Israel ter sido restaurado ao Senhor. “Os homens daquele lugar o conheceram” (vers. 34-36). Isto aponta para o fato de que no dia milenial “a terra se encherá do conhecimento do Senhor” (Is 11:9). Além disso, Israel sob a Nova Aliança terá um conhecimento íntimo do Senhor. “E não ensinará mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: Conhecei ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor” (Jr 31:34). Todos na terra de Genesaré foram abençoados. “Trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos… e todos os que tocavam [o Senhor] ficavam sãos” (vers. 36).

  • A insistência dos líderes da nação em encontrarem alguma falta no Senhor provava que seus corações estavam determinados a rejeitá-Lo como Messias de Israel (vers. 1-2). Eles consideraram uma ofensa Ele e Seus discípulos não lavarem as mãos, pois estariam transgredindo “a tradição dos anciãos”, que eram meros ensinos rabínicos que eles próprios tinham inventado, e não determinações bíblicas como as existentes na Lei de Moisés. Contrapondo suas tradições humanas o Senhor lhes perguntou a razão de transgredirem “o mandamento de Deus” — a verdade das Escrituras (vers. 3-6). Ao fazer tal pergunta o Senhor mostrava o quanto os judeus haviam se afastado da verdade da Palavra de Deus. Eles eram meticulosos em guardar suas próprias regras e regulamentos criados por homens, mas não tinham escrúpulos em transgredir a Lei de Deus!

    Sendo assim o Senhor repreendeu a hipocrisia dos fariseus (vers. 7-9) e em seguida apresentou à multidão a verdade acerca do lavar (vers. 10-11). Ele também informou Seus discípulos de que já que aqueles líderes que representavam a nação não tinham sido “plantados” por Deus, eles seriam “arrancados” e perderiam seu lugar de privilégio (vers. 12-13). Isso apontava para o tempo em que a nação seria colocada de lado. Enquanto isso o Senhor chamava Seus discípulos para se separarem deles, dizendo, “deixai-os” (vers. 14).

    Considerando que o ensino do Senhor era tão contrário a tudo o que eles tinham ouvido até ali, Pedro pede uma explicação (vers. 15-20). O Senhor aproveitou a oportunidade para ensinar Seus discípulos que era o coração do homem, e não suas mãos, que necessitava ser limpo, pois estava cheio de pecado e corrupção.

    Depois de declarar a verdade, o Senhor partiu dali e “foi para as partes de Tiro e de Sidom.” (vers. 21). “Tiro e Sidom” eram regiões habitadas pelos gentios (Atos 21:3). O Senhor não foi propriamente àquele território, mas “para as partes de Tiro e de Sidom”, isto é, aos seus arredores (conforme comenta J. N. Darby em nota em sua tradução da Bíblia). Mais uma vez esta era uma ação simbólica que indicava que o Senhor iria deixar de ministrar a Israel e se voltaria para os gentios. Isso se deu no ponto mais extremo da terra em relação a Jerusalém, a cerca de 160 a 200 quilômetros de distância daquela cidade, e sugere que a vocação presente do evangelho para o mundo gentio seria levada, seu caráter (que é celestial) o mais distante possível das tratativas terrenas feitas por Deus para com Israel.

    Diante da incredulidade dos judeus (vers. 1-20) somos apresentados à fé de uma mulher gentia (vers. 21-28). Que revigorante contraste! Uma “mulher cananeia” (povo que havia sido destinado à total destruição em Deuteronômio 7:1-2) aproximou-se do Senhor por fé e recebeu uma bênção! Sob a Lei aquele povo era para ter sido destruído, mas sob a graça há salvação para eles! Ao escrever o Evangelho de Mateus o Espírito de Deus coloca estes eventos em ordem para indicar como Deus faria para alcançar os gentios quando Cristo fosse rejeitado por Seu povo (Atos 15:14).

    Em sua ignorância a mulher assumiu uma posição judaica na tentativa de obter bênção, ao identificar o Senhor como “filho de Davi” (vers. 22-24). Mas enquanto estava nesse terreno o Senhor “não lhe respondeu palavra”. Existe também aí uma lição simbólica. O Senhor estava indicando que a bênção já não seria dada com base no judaísmo, pois a “religião dos judeus” (Gl 1:14 – Versão King James) seria logo colocada de lado quando o evangelho da graça de Deus fosse levado aos gentios (Os 3:4). Portanto, todo aquele que quisesse se aproximar de Deus nessa perspectiva do judaísmo não seria recebido. Quando Israel for restaurado no futuro (quando buscarem a “Davi, seu Rei”, conforme Oséias 3:5), eles serão abençoados pela fé sobre um terreno judaico. Isso incluirá gentios que “abraçarem” a Nova Aliança (Is 56:3-8). No momento atual o sistema judaico não é um meio pelo qual Deus abençoe os homens.

    A fé da mulher não se deu por vencida, por isso ela clamou, “Senhor, socorre-me!” (vers. 25-28). Sobre esse terreno havia bênção, pois as Escrituras afirmam: “Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” (Rm 10:12-13). “Todo aquele” inclui os gentios. Consequentemente, o Senhor elogiou sua fé, dizendo: “Grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas.” (Mt 15:28).

    Depois disso o Senhor retornou à terra de Israel (“ao pé do mar da Galileia”) onde abençoou as multidões que se aproximaram dele (vers. 29-31). A bênção foi ministrada de quatro maneiras: aos “cochos”, “cegos”, “mudos” e “aleijados”, tendo sido todos curados. O número quatro nas Escrituras tem o sentido de universal (por exemplo, “desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” em Mateus 24:31, “os quatro cantos da terra” em Apocalipse 71, etc.). A cura que sai em todas as quatro direções representa a bênção de caráter mundial que haverá durante o Milênio.

    Naquele mesmo lugar o Senhor também alimentou uma companhia de “quatro mil” (vers. 32-39). Mais uma vez o número “quatro” é usado e aponta para a bênção universal. O Senhor usou “sete” pães para alimentar a multidão, e sobraram “sete” cestos. A palavra “cesto” aqui é “spuris” no original e indica um recipiente bem maior que o “cesto” de Mt 14:20, que no original é “kophinos”, um cesto pequeno. Nas Escrituras o número sete representa a perfeição e indica que haverá perfeição na bênção derramada sob o reinado de Cristo durante o Milênio. Portanto, haverá saúde, prosperidade e bênção espiritual para todo o mundo durante o reinado público de Cristo.

  • Os líderes dos judeus (“fariseus” e “saduceus”) se unem para confrontar o Senhor quanto ao Seu Messianismo (cap. 16:1-4). Eles manifestavam a falta de fidelidade existente na nação por ocasião da primeira vinda do Senhor. Eles eram capazes de “discernir a face do céu”, mas não conseguiam discernir “os sinais dos tempos”. Como havia sido previsto por seus profetas, na “plenitude dos tempos” (Gl 4:4) Deus havia visitado o Seu povo enviando o Messias, mas por cegueira e incredulidade eles não perceberam (Is 53:2). Consequentemente o Senhor anunciou que não daria a eles nenhum outro sinal, indicando assim que Seu testemunho Messiânico para a nação estava encerrado. Então Ele “deixando-os, retirou-Se”. Mais uma vez isso era uma ação simbólica indicando que Ele estava prestes a romper suas conexões com a nação.

    Então o Senhor levou “seus discípulos para o outro lado” do mar da Galileia (Mt 16:5-12). A jornada pelo mar indicava a nova direção que Deus estava prestes a tomar em Seus planos de alcançar os gentios, dos quais o mar é uma figura (Ap 17:15). Naquela ocasião o Senhor advertiu Seus discípulos para que se separassem dos corruptores princípios e práticas (“fermento”) da porção incrédula da nação.

    Quando eles chegaram “às partes de Cesaréia de Filipe” (uma colônia romana na terra de Israel), o Senhor começou a ensinar Seus discípulos da novidade que estava prestes a introduzir — “a Igreja” (Mt 16:13-20). É significativo que o Senhor tenha levado Seus discípulos para uma região de gentios a fim de ensinar estas coisas a eles. Trata-se do ponto mais distante da terra em relação a Jerusalém, e isto sugere que para alguém compreender corretamente a verdadeira natureza da vocação da Igreja é preciso que haja uma separação prática de tudo aquilo que represente Jerusalém em termos de um sistema de adoração (o “arraial” de Hebreus 13:13). O Senhor anuncia que iria edificar a “Igreja” sobre o fundamento da confissão acerca dele de que era “o filho do Deus”. Ele também admoestou Seus discípulos para que cessassem sua missão de dizer à nação “que ele era Jesus, o Cristo” (ou o “Messias”, conforme João 1:41).

    Então o Senhor anunciou que, depois de rejeitado, iria morrer pelas mãos “dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas” (Mt 16:21-23). Aprendemos em outra parte que a obra que Ele estava prestes a cumprir sobre a cruz fazendo a expiação seria o meio de bênção generalizada para os homens. Além do mais, Ele anunciou que a senda do discípulo que se propusesse a segui-Lo como um Salvador rejeitado seria, no momento presente, a senda dos fiéis (Mt 16:24-26). O Senhor terminou Seu discurso falando de Sua vinda como “o Filho do Homem” e do estabelecimento do “Seu reino” (Mt 16:27-28). Estas coisas apontam para o Milênio que virá após o presente período.

    O Monte da Transfiguração no capítulo seguinte (17) nos dá uma visão prévia do reino milenial vindouro de Cristo. As palavras “seis dias depois” vistas à luz de 2 Pedro 3:8 e do Salmo 90:4 sugerem que a manifestação da glória da vinda do reino de Cristo acontecerá depois da história de 6 mil anos do homem na terra.

    “Moisés e Elias” com o Senhor no monte representam as duas classes de santos celestiais no reino — os ressuscitados e os levados vivos para a glória no Arrebatamento (vers. 1-13). Os três apóstolos (“Pedro, Tiago e João”) receberam um lugar de proximidade do Senhor e representam o remanescente de judeus. Os outros apóstolos, ao pé do monte, representam o remanescente das dez tribos de Israel. A “multidão” e particularmente “um homem, pondo-se de joelhos diante dele”, aproximando-se por fé, representa as nações gentias que se prostrarão diante de Cristo, o Rei (Sl 18:44; 66:3; 72:11; 81:15). Tudo isso compõe uma imagem das várias classes de santos celestiais e terrenos no reino. Digno de nota aqui é que eles não são um grupo indistinto de pessoas (como ensina a Teologia do Pacto), mas são grupos separados de pessoas e distinguidos assim.

    O Senhor libertou o filho daquele homem do “demônio, que saiu dele, e desde aquela hora o menino sarou” (Mt 17:14-21). Isso aponta para a derrota de Satanás, quando o Senhor lançar a ele e a seus anjos no abismo (Is 24:21-22; Ap 20:1-3). O menino curado é uma amostra da cura e bênção que o Senhor trará a todo o mundo (Ml 4:2).

    A cena final do capítulo 17 traz Pedro lançando o anzol “ao mar” e pescando um peixe com uma moeda em sua boca (vers. 24-27). Isto representa a nação de Israel durante o milênio valendo-se da “abundância do mar”. As nações gentias de boa vontade pagarão tributo a Israel por causa da “glória do Senhor” que repousará sobre eles. “Então o verás, e serás iluminado, e o teu coração estremecerá e se alargará; porque a abundância do mar se tornará a ti, e as riquezas dos gentios virão a ti.” (Isaías 60:5 etc.).

  • Esta passagem começa com o Senhor apresentando-Se à nação como o Messias, em conformidade com o que havia sido dito pelo profeta Zacarias naquilo que costuma ser chamado de uma “Entrada Real” em cena. Em Mateus 21:5 o Espírito Santo cita Zacarias 9:9, dizendo: “Eis que o teu Rei aí te vem, manso, e assentado sobre uma jumenta, e sobre um jumentinho, filho de animal de carga.”. Mas ele omite a palavra “salvação” (ou “salvador” ou “vitorioso”, dependendo da versão). A razão disso é que naquele momento não haveria salvação para a nação, uma vez que Ele tinha sido rejeitado. Após a multidão ter ficado de certo modo animada no capítulo 21:1-11, as pessoas acabam manifestando sua incredulidade ao perguntarem “Quem é este?” (vers. 10). Isto demonstra que a nação, como um todo, não conhecia o tempo de sua visitação por Jeová na Pessoa de Cristo (Lc 1:78; 19:44).

    No dia seguinte o Senhor demonstrou que, se eles O tivessem recebido, Ele purificaria a nação e começaria a “regeneração” (Mt 19:28) pela purificação do templo expulsando os mercadores (Mt 21:12-16). A reação dos judeus a isso foi de indignação. O Senhor então os deixou e pronunciou uma maldição contra a “figueira” que encontrou no caminho, pois ela não tinha fruto e “não achou nela senão folhas” (Mt 21:17-22). Aquilo era uma ação simbólica indicando que a nação (a “figueira”) seria amaldiçoada por não dar fruto para Deus, e isto ficou evidente pela rejeição que Ele sofreu dos líderes. Usando de uma outra figura para a nação de Israel o Senhor falou aos discípulos do “monte” que seria “precipitado no mar”. Aquilo indicava que a nação seria dispersa entre os gentios, pois o mar é uma figura dos gentios (Ap 17:15).

    Questionado pelos líderes eclesiásticos quanto à Sua autoridade para ensinar no templo, Ele respondeu com três parábolas que expunham a condição da nação (Mt 21:23-27). A parábola dos “dois filhos” (Mt 21:28-32) ilustra o comportamento da nação sob a Lei. Havia evidentemente duas partes da nação: o primeiro filho representava aqueles que se rebelaram contra os mandamentos dados por Moisés, porém se arrependeram depois. Estes seriam os publicanos e pecadores que se aproximavam do Senhor para ouvi-Lo (Lc 15:1). Eles formavam a porção menor da nação. O segundo filho manifestou uma hipócrita pretensão de obedecer, porém não era real. Ele representava os escribas e fariseus, que apresentavam um grande teor de profissão religiosa, porém sem arrependimento.

    A parábola dos lavradores maus (Mt 21:33-46) ilustra o comportamento da nação sob o ministério dos profetas, incluindo João Batista e o próprio Cristo. Eles rejeitaram os profetas e mataram seu Messias (1 Ts 2:15). Consequentemente a vinha seria entregue a “a outros lavradores” que produzissem “frutos” para Deus. Estes representam o remanescente restaurado de Israel no futuro, o qual produzirá fruto daquela vinha para Deus (Os 14:4-9).

    A parábola das bodas do filho do rei (Mt 22:1-14) ilustra o comportamento da nação sob o ministério dos apóstolos antes e depois da cruz. Dois convites são feitos às pessoas, mas esbarram em uma aberta rejeição à graça de Deus. O primeiro indica o chamado feito à nação antes da cruz (vers. 3); o segundo indica o chamado feito após a cruz — com “bois e cevados já mortos” (vers. 4-6). É então derramado juízo sobre o povo e o rei envia exércitos para destruírem a cidade. Isto, como sabemos, cumpriu-se no ano 70 D.C. por meio de Tito e do exército romano (vers. 7).

    Um terceiro convite é enviado a outros que antes não tiveram oportunidade. Isto aponta para o chamado dos gentios pelo Evangelho da Graça de Deus (vers. 8-10). Muitos responderam ao chamado e foram recebidos, “tanto maus como bons”. Isto se refere à mistura de povos introduzidos na profissão cristã; há aqueles na cristandade hoje que têm uma fé genuína e aqueles que apenas professam ser crentes. O resultado é que muitos convidados foram às “bodas”, apesar de nem todos serem genuínos. Então chega o momento quando “o rei, entrando para ver os convidados, viu ali um homem que não estava trajado com veste de núpcias”. Esse foi tirado fora para receber juízo. Isto indica o juízo discriminatório que ocorrerá por ocasião da Manifestação de Cristo (Mt 13:37-43; 24:39-41).

    Esta última parábola não chega a falar da restauração do remanescente de Israel no futuro, como faz a parábola anterior, pois a ênfase do ensino do Senhor neste momento de Seu ministério era deixar claro para os líderes responsáveis dos judeus o solene fato de que a nação estava para ser colocada de lado por eles O terem rejeitado.

  • Durante a Ceia da Páscoa, que é uma festa judaica para o povo terreno de Deus, Israel, o Senhor fez uma pausa para introduzir algo novo — “a Ceia do Senhor”, como nós a conhecemos no cristianismo (1 Co 11:20) — após a qual eles retomaram a Ceia da Páscoa. Este incidente é rico de significado dispensacional.

    Existe uma progressão na luz que é derramada e na aplicação do ato de partir o pão nas Escrituras. Inicialmente este era um costume judaico que as famílias observavam em memória de algum finado ente querido. Eles “partiam o pão” como recordação daquela pessoa (Jr 16:7). Mais tarde o Senhor introduziu um novo aspecto do partir do pão na noite em que foi traído. Ele estava prestes a ser condenado à morte e queria que Seus discípulos se lembrassem dele daquela maneira em especial (vers. 26-28). Este memorial tinha uma característica distintamente judaica agregada a ele, pois Israel ainda não tinha sido formalmente colocado de lado e o reino continuava a ser oferecido à nação. O remanescente de discípulos judeus, que aguardava pelo estabelecimento do reino, devia recordar o seu Messias daquela nova maneira. Mas então, após o Espírito de Deus ter descido e formado a Igreja (o corpo de Cristo), e Israel ter sido oficialmente colocado de lado, o apóstolo Paulo apresentou o partir do pão na configuração cristã que lhe é própria. Agora o partir do pão é um ato pelo qual os cristãos, como membros do corpo de Cristo, podem expressar sua comunhão no corpo repartindo o pão (1 Co 10:16-17; 11:23-26). A Igreja fazia assim no primeiro dia da semana, o Dia do Senhor (At 20:7).

    O que precisamos enxergar aqui em Mateus 26:17-30 é que o Senhor apresentou a Ceia do Senhor em meio à observância da Ceia da Páscoa. A Ceia do Senhor estava inserida na Ceia da Páscoa que já estava sendo celebrada. Isso era significativo e apontava para o fato de que a ordem judaica seria temporariamente suspensa para dar lugar à ordem cristã. Depois que o Senhor e Seus discípulos comeram a Ceia, em conexão com Sua morte, eles retomaram a Ceia da Páscoa cantando “um hino”“O Grande Hallel”. Este hino consiste nos Salmos 113 a 118. A retomada da celebração da Páscoa indica que a ordem judaica voltaria a ser observada em um tempo futuro. Não deveríamos menosprezar esta sequência de eventos; ela está bem de acordo com o tema do Evangelho de Mateus, que apresenta os desígnios dispensacionais de Deus.

  • A história do bom Samaritano é precedida por um doutor da Lei de Moisés que pergunta ao Senhor o que seria exigido de um judeu para que fosse abençoado por Deus dentro daquele sistema judaico. O Senhor lhe respondeu apontando para a guarda dos mandamentos. Em seguida contou a parábola do Samaritano. O “homem” que “descia… de Jerusalém para Jericó” ilustra a trajetória descendente dos judeus em seu fracasso em cumprir a Lei. A nação havia se apartado da presença de Deus (representada por Jerusalém) e seguia em direção ao juízo sob uma maldição de Deus (representada por Jericó — Js 6:26). Os judeus haviam sido subjugados pelo poder do mundo gentio que deixara a nação como um homem “meio morto”. Naquela condição caída sua religião não podia ajudá-los. Isto é representado pelo “sacerdote” e pelo “levita” que não ajudam o homem caído à beira do caminho. A Lei não podia ajudar aqueles que eram incapazes de fazer o que ela ordenava.

    O “Samaritano” que apareceu em cena para resgatar aquele homem é uma figura do Senhor Jesus Cristo. A razão de o Senhor ter usado aquele termo para descrever a Si mesmo indica que Ele aceitava o fato de ter sido rejeitado pelo povo, pois os judeus desprezavam os samaritanos. Todavia, Ele resgatou o homem indo até ele e derramando “azeite e vinho”. Isto representa o Senhor ministrando as bênçãos da salvação por intermédio do Espírito Santo a um remanescente da nação que tinha crido nele. O Samaritano então levou o homem, não de volta a Jerusalém, mas a uma “estalagem”, que é uma figura da assembleia. Trata-se de uma figura adequada da Igreja, pois uma estalagem é um lugar de repouso temporário para os viajantes, e a Igreja é apresentada nas Escrituras como uma companhia de peregrinos de passagem por este mundo. O homem levado à estalagem ilustra o fato de que, por ocasião da primeira vinda do Senhor, um remanescente de crentes da nação de Israel seria levado à assembleia (Rm 11:6; Gl 6:16).

    Na estalagem o homem recebeu ajuda, alimento e comunhão para atender suas necessidades. Isto representaria o cuidado pastoral que deve ser ministrado aos novos convertidos na assembleia (At 20:28). Após deixar o homem aos cuidados do “hospedeiro” (uma figura do Espírito Santo trabalhando por intermédio dos santos na assembleia), o Samaritano pagou pela estadia do homem com “dois dinheiros”, prometendo “voltar”. Isto sugere que o período que ele ficaria fora seria de dois dias, pois naquela época um dinheiro era o salário de um dia (Mt 20:2). Interpretando os dois dias com a ajuda do Salmo 90:4 e de 2 Pedro 3:8 temos uma pista de que a ausência do Senhor duraria dois mil anos, após a qual Ele voltaria no Arrebatamento. Embora esta parábola não faça muito mais do que mostrar a retomada das tratativas do Senhor para com Israel, ela certamente indica a mudança dispensacional da Lei para a Graça.

  • No capítulo 15 do Evangelho de Lucas vemos outro esboço ou resumo dispensacional. O capítulo é uma parábola com três partes. A primeira parte ilustra o ministério do Senhor aos judeus por ocasião de Seu primeiro advento (Lc 15:3-7). Por ter sido rejeitado pela nação o Senhor deixou “no deserto as noventa e nove” (Lc 15:4) e foi atrás das “ovelhas perdidas” (Mt 15:24). O fato de ter deixado a maior parte da nação exposta aos seus inimigos foi um ato de juízo por O terem rejeitado. Depois de encontrar a ovelha perdida, o Senhor foi para Sua casa e se alegrou com Seus “amigos e vizinhos” (Lc 15:5-6). Isto representa o Senhor voltando para o lar no céu (após a cruz) e Seu regozijo juntamente com os que estavam ali (os anjos e os santos do Antigo Testamento), pois um remanescente de crentes dentre os judeus havia sido salvo por graça por intermédio de Seu ministério. A grande massa dos judeus “no deserto”, sem proteção divina, acabou eventualmente destruída pelos romanos no ano 70 D. C. Assim a nação foi colocada de lado.

    Na segunda parte da parábola vemos uma “mulher” que mora numa “casa” onde não há homem (Lc 15:8-10). Ela é uma figura daqueles que compõem a Igreja, e moram hoje na casa de Deus numa época em que o Senhor está ausente. O fato de esta parte da parábola nos apresentar uma mulher imediatamente após o Bom Pastor ter partido para o lar no céu, rejeitado pela grande massa dos judeus, indica uma mudança dispensacional que ocorreu no tempo presente nas tratativas de Deus.

    A mulher recebeu a responsabilidade de manter a casa enquanto seu Senhor está fora. Isto pode ser visto pelo fato de ela ter recebido “dez dracmas” ou moedas de prata. (Dez é o número que nas Escrituras denota responsabilidade). Considerando que a prata representa a redenção, isto indica que a divulgação do evangelho foi entregue nas mãos dos cristãos (Lc 24:47). O fato de a mulher ter perdido uma moeda de prata na casa indica que ela falhou em sua responsabilidade. Além disso, considerando que a casa precise ser varrida, isto nos mostra que ela tem sido uma péssima dona de casa. Estas coisas sugerem a ruína do testemunho cristão (2 Tm 2:20). O fato de existirem almas perdidas na casa de Deus nos dias de hoje é certamente sinal de ruína! Todavia, a mulher partiu para a ação, com exercício de coração e energia, a fim de encontrar a moeda perdida. Isto talvez represente um reavivamento do testemunho do evangelho nos últimos séculos da história da Igreja. O acender da “candeia” indica que isso iria ocorrer durante a noite da ausência do Senhor, quando as trevas prevaleceriam em toda a casa.

    A terceira parte da parábola mostra um pai que tinha “dois filhos” (Lc 15:11-32). Um era pródigo e, por sua própria culpa, acabou em “uma terra longínqua”. Ele é uma figura dos judeus rebeldes que não quiseram fazer a vontade de Deus e, como consequência, acabaram dispersos por toda a terra, distantes da terra de Israel.

    No país distante o filho errante enfrentou “uma grande fome”. Isto nos fala dos sofrimentos e disciplinas impostas por Deus para humilhar os judeus e produzir arrependimento neles. Mas, ao invés de o filho voltar ao seu pai, ele persistiu em seu caminho de rebelião no país distante. Para aliviar a pressão imposta pela fome “chegou-se a um dos cidadãos daquela terra”. Isto representaria as conexões impuras que os judeus mantiveram com os gentios durante a diáspora, numa tentativa de melhorar seu padrão de vida e reduzir suas aflições. Eventualmente, quando os judeus forem vistos na Grande Tribulação (em seus últimos dias), essas pressões e sofrimentos chegarão a um ponto tal que um remanescente finalmente será levado ao arrependimento. Isto é ilustrado pelo filho que cai em si e volta para seu pai. O remanescente de judeus arrependidos será perdoado e recebido pelo Senhor naquele dia futuro, e eles serão abençoados no reino quando este for estabelecido em poder.

    O “filho mais velho” representa uma classe dentre os judeus que exteriormente e na sua profissão religiosa não se distanciou do Pai (Lc 15:25-31). Ao longo da história eles têm sido conhecidos por se manterem separados dos gentios, mas infelizmente não têm qualquer fé ou amor pelo Senhor Jesus Cristo. Foi a essa classe de judeus que o Senhor se referiu, quando disse: “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.” (Mt 15:8-9). Aqueles eram os escribas e fariseus daqueles dias, mas formam uma “geração” de judeus que continuou até os dias de hoje (Mt 12:42). Eles pertencem à mesma classe de judeus apóstatas que nos últimos dias irá receber o Anticristo.

    Quando o pai soube que o filho mais velho não iria entrar e participar das festividades que o filho mais novo desfrutava, fez uma súplica especial a ele, mas todos os seus esforços para atrair o filho mais velho foram rejeitados. Seu pai lhe disse: “Todas as minhas coisas são tuas” (Lc 15:31). No que se refere a bênçãos terrenas, Deus teria dado aos judeus tudo o que fora prometido à nação no Antigo Testamento, mas eles não quiseram receber nas condições estabelecidas por Deus: receber o Senhor Jesus Cristo como seu Messias. Por isso aqueles judeus incrédulos serão deixados do lado de fora quando o reino de Cristo começar de forma manifesta e em poder.

  • Após apresentar o Senhor Jesus Cristo em Sua deidade (vers. 1-4), o apóstolo João registra que a condição do povo era tal que não o tinham visto pelo que Ele era. “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (vers. 5). Conhecendo a condição do homem, Deus enviou um mensageiro (João Batista) para anunciar a vinda da “Luz” ao mundo (vers. 6-9). Isso causou, da parte do povo, uma aberta rejeição ao Senhor (vers. 10-11), exceto em alguns poucos que eram nascidos de Deus (vers. 12-13). Aqueles que tinham fé viram “a sua glória” e receberam “da sua plenitude”, experimentando assim a “graça e verdade” que Ele trouxe ao homem (vers. 14-18).

    Os líderes dos judeus, porém, manifestaram sua ignorância e incredulidade ao questionarem o ministério de João Batista e o testemunho do Senhor (vers. 19:28). O trabalho de João era preparar o povo para receber o Senhor batizando-os com o batismo de arrependimento, mas eles “rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele” (Lc 7:30). Portanto era inevitável que a nação fosse colocada de lado por Deus, e que a antiga dispensação desse lugar a algo novo.

    Com tal mudança no horizonte, João encaminhou seus discípulos a Cristo, a quem eles viriam a seguir (vers. 29-51). Essa transferência de discípulos de João para Cristo representa a mudança dispensacional que iria ocorrer. A narrativa passa então a mencionar uma série de coisas que representam os elementos do cristianismo — indicando claramente o que estava por vir. É feita referência ao Senhor Jesus como “o Cordeiro de Deus”, o que aponta para Sua obra na cruz (vers. 29, 35; 1 Pe 1:19; Ap 5:6), “o Filho de Deus”, que seria o Objeto do testemunho na nova dispensação (vers. 34; At 9:20; Rm 1:3), e o “Cristo” que aponta para Sua ressurreição (vers. 41; At 2:36). Há também menção ao batismo do “Espírito Santo”, pelo qual Deus formou a Igreja e reuniu os crentes no corpo de Cristo (vers. 32-33; 1 Co 12:13)). É feita também referência ao lugar de habitação de Cristo na terra, o que aponta para a Igreja como casa de Deus (vers. 38-39; Ef 2:21-22). Finalmente vemos que havia entre os discípulos um exercício de saírem para levar outros a Cristo, o que ilustra a obra do evangelho (vers. 40-42, 45-50). Estas coisas marcam a presença do cristianismo na nova dispensação.

    É significativo que estas coisas sejam mencionadas como tendo acontecido em dois dias consecutivos (vers. 29 e 43). (A expressão “outra vez” no versículo 35 indica que isso aconteceu no mesmo dia como no versículo 29). Se interpretarmos estes dois dias à luz do Salmo 90:4 e de 2 Pedro 3:8 — passagens das Escrituras que falam de um dia para Deus representar 1000 anos — teremos uma forte indicação de que o atual Dia da Graça seria de aproximadamente 2000 anos.

    Então, no capítulo 2, ocorreu um casamento em Caná no “terceiro dia”. Isso prefigura a reunião de Israel com o Senhor quando o povo for restaurado a Ele em um dia vindouro (Os 2:16; Is 54:4-7; 62:4-5). Nas bodas o Senhor criou um “vinho novo” para todos os que estavam ali, o que nos fala do gozo que o Senhor irá trazer à terra naquele dia milenial.

  • Quando o Senhor soube que havia sido rejeitado pelos líderes em Jerusalém, “deixou a Judeia, e foi outra vez para a Galileia” (Jo 4:1-3). Em figura essa saída da Judeia é outra ação simbólica do Senhor que denota o rompimento dele com a nação por o terem rejeitado. Sua intenção era a de continuar Seu ministério na região norte (Galileia) passando “por Samaria”, que ficava na região central da terra (Jo 4:4-6). A rota usual para os judeus que viajavam da Galileia era contornando Samaria, o que tornava a viagem mais longa, pois os samaritanos eram um povo gentio e considerado impuro pelos judeus. Por causa disso “os judeus não se comunicam com os samaritanos” (Jo 4:9). Desnecessário é dizer que tal atitude do Senhor, de passar por Samaria, não era algo normal para um judeu fazer, mas o Senhor fez. Isto está registrado nas Escrituras para mostrar (de forma dispensacional) que quando fosse rejeitado Ele iria visitar os gentios com o evangelho e introduzir na bênção muitos dentre as nações (At 15:14). Portanto a obra do Senhor em Samaria neste capítulo é uma figura do atual testemunho da graça de Deus entre os gentios.
    O Senhor se fez conhecido à mulher de Samaria, e ela recebeu a Ele por fé como o “Messias” (Jo 4:7-26). Então Ele revelou a ela as mudanças que estavam para acontecer, a saber, o fim da adoração judaica em Jerusalém (Hb 13:13) e a introdução de uma nova ordem de adoração do “Pai em espírito e em verdade” (Jo 4:21-24) — algo que iria marcar o Cristianismo. Em seguida a mulher foi aos homens da cidade e testificou: “Porventura não é este o Cristo?” (Jo 4:29). Isso despertou o interesse naqueles da cidade de Samaria e muitos creram no Senhor Jesus como “o Salvador do mundo” (Jo 4:42). Eles insistiram com o Senhor para que ficasse com eles, “e ficou ali dois dias” (Jo 4:42). Mais uma vez, à luz do Salmo 90:4-5 e 2 Pedro 3:8, isso aponta figuradamente para o intervalo atual de dois mil anos durante o qual os judeus têm sido colocados de lado nos desígnios de Deus. “E dois dias depois partiu dali, e foi para a Galileia” (Jo 4:43), onde retomou o Seu ministério entre os judeus na extremidade norte da terra (Jo 4:43-44). Isto nos fala da retomada das tratativas do Senhor com os judeus em um dia ainda vindouro. Nessa ocasião “os galileus o receberam” (Jo 4:45; Sl 110:3). Isso nos fala de um remanescente da nação recebendo o Senhor no futuro. É significativo que o Espírito de Deus faça uma correlação dos eventos na parte final deste capítulo com o que o Senhor fez em “Caná da Galileia, onde da água fizera vinho” (Jo 4:46). Como já foi observado, o incidente de transformar água em vinho, que aconteceu no “terceiro dia” (Jo 2:1), é uma figura milenial. Como já foi mencionado, Oséias 6:2 nos diz que no “terceiro dia” (falando figuradamente) o Senhor iria “ressuscitar” a nação de Israel, isto é, realizaria sua ressurreição e restauração como nação (Is 26:19; Ez 37; Dn 12:2). A restauração do filho de um nobre que estava à morte ilustra essa bênção futura reservada para o remanescente de Israel (Jo 4:46-54).

  • Mais uma vez o Senhor é visto sendo rejeitado pelos judeus que tentavam apedrejá-lo até a morte (Jo 10:19-38). “Ele escapou-se de suas mãos, e retirou-se outra vez para além do Jordão” (Jo 10:39-42). Longe deles, muitas pessoas creram nele e foram abençoadas. Esta é apenas mais uma figura do Senhor interrompendo suas tratativas com Israel por causa da incredulidade e rejeição deles. É significativo que Ele tenha permanecido naquele lugar por “dois dias” (Jo 11:6). Como já foi observado, isto nos fala do atual tratamento do Senhor para com a Igreja nos últimos dois mil anos (Sl 90:4; 2 Pe 3:8).

    No capítulo 11 Lázaro é visto na condição de morte. Trata-se de uma figura da condição de Israel como nação aos olhos de Deus (Ez 37:1-2). Maria e Marta em sua aflição representam o fiel remanescente judeu no dia vindouro que irá clamar pela vinda do Senhor (Sl 6:3-4 etc.). Após “dois dias” o Senhor foi ao lugar onde Lázaro estava e o ressuscitou. Esta é uma figura do Senhor voltando a tratar com Israel no futuro — sua ressurreição nacional (Ez 37:3-14; Dn 12:2-3). Quando o Senhor chegou até Lázaro, nos é dito que este estava morto há “quatro dias” (Jo 11:17, 39). Isto sugere que toda a história de Israel aos olhos de Deus — desde o tempo de Abraão até o presente — tem sido essencialmente uma história de desconexão com o Senhor. Abraão viveu a cerca de dois mil anos antes de Cristo. Daquela época até a segunda vinda de Cristo (Sua manifestação) para ressuscitar Israel seriam aproximadamente quatro mil anos, ou “quatro dias”.

    No capítulo 12, após Lázaro ter sido ressuscitado, o Senhor subiu a Jerusalém e os gentios (“gregos”) aproximaram-se dele (Jo 12:12-22). Naquela ocasião as multidões clamavam: “Hosana! Bendito o Rei de Israel que vem em nome do Senhor”, e “eis que o teu Rei vem assentado sobre o filho de uma jumenta”. Trata-se de uma figura do Milênio, quando Israel e as nações gentias irão de bom grado reconhecer a Cristo como o Rei (Zc 2:11; Sl 47:9).

    A ordem dispensacional nestes capítulos é clara:
    • Capítulo 10 — A formação do “um só rebanho” no cristianismo.
    • Capítulo 11 — Israel é restaurado, conforme a figura da ressurreição de Lázaro.
    • Capítulo 12 — O Senhor cavalga até Jerusalém como o Messias, enquanto os gentios buscam conhecê-Lo.
  • Nas três manifestações finais do Senhor ressurreto no Evangelho de João encontramos outra figura dos desígnios dispensacionais de Deus. A primeira destas cenas aparece no cenáculo ou andar superior (Jo 20:19-23; At 1:13; 20:8). Trata-se da cena que representa a assembleia cristã. Observamos nelas diversos elementos que identificam o verdadeiro cristianismo:
    • Eles estão congregados “no primeiro dia da semana” (Jo 20:19; At 20:7; 1 Co 16:2).
    • Eles mantêm sua separação dos judeus (Judaísmo) — “cerradas as portas” (Jo 20:19; Hb 13:10).
    • O Senhor foi visto “no meio” (Jo 20:19; Mt 18:20).
    • Ele ministrou “paz” e felicidade a eles (Jo 20:19; 1 Ts 1:6).
    • Eles foram comissionados a pregar o evangelho — “Eu vos envio a vós” (Jo 20:21; Lc 24:47).
    • Eles receberam o “Espírito Santo”, por meio do qual estavam conectados com o Senhor em vida ressurreta (Jo 20:22; 1 Ts 4:8).
    • Eles receberam poder para “perdoar” e para “reter” pecados na esfera administrativa (Jo 20:23; 1 Co 5:4, 12-13; 2 Co 2:6-11).

    A segunda cena, em conexão com Tomé, representa a conversão do remanescente judeu em um dia vindouro (Jo 20:24-31). Enquanto os dez apóstolos experimentavam a maravilhosa experiência de virem o Senhor em seu meio, Tomé estava ausente e permanecia na incredulidade. Tomé disse “de maneira nenhuma o crerei” (Jo 20:25). Ele é uma figura dos judeus atualmente; enquanto os cristãos estão desfrutando de suas bênçãos com Cristo, os judeus estão fora de tudo isso em uma cega incredulidade.

    Após oito dias o Senhor apareceu mais uma vez no meio dos Seus e mostrou Suas mãos e Seu lado a Tomé, dizendo a ele: “Não sejas incrédulo, mas crente” (Jo 20:27). De maneira similar o Senhor aparecerá para o remanescente de judeus e mostrará a eles as marcas do Seu sofrimento e morte. Deus irá então derramar sobre eles “o espírito de graça”, e eles olharão para Ele, “a quem traspassaram” (Zc 12:10; Jo 19:37). Quando Tomé viu a evidência da morte do Senhor, exclamou a Ele: “Senhor meu, e Deus meu!” (Jo 20:28). O remanescente de judeus fiéis no futuro irá reconhecer o Senhor da mesma maneira, dizendo, “Eis que este é o nosso Deus, a quem aguardávamos, e ele nos salvará; este é o Senhor” (Is 25:9).

    A terceira cena ocorre no mar de Tiberíades. Trata-se de uma figura do remanescente de Israel sendo restaurado ao Senhor, e então sendo usado para levar bênção às nações gentias durante o Milênio (Jo 21:1-25). Ela começa com Pedro e os discípulos que foram pescar no mar, e passam pela experiência de testemunharem do poder e graça do Senhor manifestados a eles por meio de uma enorme quantidade de peixes. Trata-se de outra figura da manifestação do Senhor aos judeus em Sua vinda. Então eles, assim como João aqui, dirão: “É o Senhor!” (Jo 21:7a; Is 25:9). E, assim como Pedro, que se lançou ao mar para chegar até o Senhor, o remanescente será atraído ao Senhor (Jo 21:7b; Os 6:1). “Os outros discípulos”, que são uma figura do remanescente das dez tribos, seguiram Pedro até onde o Senhor estava. Eles trouxeram com eles “a rede cheia de peixes” que haviam tirado do mar. Isto é uma figura da conversão dos gentios no início do Milênio (Ap 7:9; Is 60:1-16; Zc 8:23). O número de peixes que havia na rede era de “cento e cinquenta e três” (Jo 21:11). É interessante e significativo que a espécie humana aparentemente foi dividida em 153 tribos e povos e nações, como está registrado nos primeiros capítulos de Gênesis. Mas aqui vemos uma figura de todas aquelas nações e tribos sendo colocadas sob o domínio do Senhor (Sl 47:9; Zc 2:11).

    Então o Senhor restaurou publicamente a Pedro e o comissionou para um trabalho a ser feito com Suas ovelhas (Jo 21:15-19). Isto nos fala do Israel restaurado sendo usado pelo Senhor para apascentar e ensinar as nações (Is 2:3; 61:6). Prefigura também a obra de Israel no dia milenial.
    * * * * *Assim, nestes muitos esboços extraídos dos Evangelhos temos uma abundância de ilustrações figuradas que confirmam o modo dispensacional de Deus agir. Esta não é, de maneira nenhuma, uma lista completa desses esboços, pois poderiam ser acrescentados outros.

Além do grande número de esboços no Novo Testamento que mostram a ordem dispensacional no modo de Deus agir, existem também muitas figurs no Antigo Testamento que confirmam a mesma coisa. Essas imagens em forma de tipos foram escritas centenas — às vezes até milhares — de anos antes de as mudanças dispensacionais terem ocorrido na história. Elas dão testemunho do grande fato de que “Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” (At 15:18).

O conjunto de figuras do modo dispensacional de Deus agir que estamos prestes a analisar não contradiz o fato de que a verdade do Mistério não é ensinada no Antigo Testamento. Estes esboços são figuras ilustrativas, e não um ensino direto.

Nos capítulos 21 a 25 de Gênesis, “Abraão” é um tipo de Deus; “Sara” um tipo de Israel em conformidade com os propósitos de Deus; “Isaque” um tipo de Cristo; “Agar” um tipo de Israel segundo a carne; e “o filho de Agar” (Ismael) um tipo dos judeus incrédulos.

  • A história começa com Sara dando à luz a Isaque “ao tempo determinado” (Gn 21:1-3). Isto nos fala da vinda de Cristo “vindo a plenitude dos tempos” (Gl 4:4). A reação a esse grande evento teve um duplo aspecto:
    • Regozijo da parte dos da casa de Abraão que apreciaram a chegada de seu filho (Gn 21:6-8).
    • Zombaria da parte do filho de Agar que não gostou da chegada do filho de Abraão (Gn 21:9).

    Isto nos fala da grande divisão que ficou evidente entre os judeus quando Cristo veio e Se manifestou como seu Messias; um remanescente de judeus O recebeu, mas a maioria O rejeitou (João 7:40-44; 9:16; 10:19-21).

    Como consequência da zombaria contra Isaque, Sara, agindo com o discernimento da mente de Deus, disse a Abraão: “Ponha fora esta serva e o seu filho” (Gn 21:10). Isto nos fala da necessidade de o incrédulo Israel ser colocado de lado. “E pareceu esta palavra muito má aos olhos de Abraão”, mostrando assim que Deus não tinha prazer em colocar Israel de lado (Gn 21:11). Todavia, era assim que devia ser. Por conseguinte, Abraão levantou-se cedo e deu a Agar e seu filho uma provisão de pão e água, “e despediu-a” (Gn 21:12-14). Isto nos fala em figura do que aconteceu a Israel. Eles tinham sido removidos de sua terra e espalhados entre as nações. O “odre de água” iria significar a porção limitada da Palavra de Deus concedida a Israel — as Escrituras do Antigo Testamento. (Na Bíblia, a água potável é uma figura da Palavra de Deus — Ef 5:26).

    As ações de Agar no deserto nos falam, em figura, da parte que cabe aos judeus nos dias de hoje. A “água” da Palavra foi “consumida” — no que tange a uma aplicação literal disso ao sistema terreno do judaísmo. As ofertas, rituais e cerimônias determinadas por Moisés já não têm relevância. O “menino”, lançado “debaixo de uma das árvores”, nos fala da nação em sua diáspora, quando foi espalhada para fora da vista, havendo perdido sua independência nacional na terra de Canaã (Gn 21:15). Então Agar foi e sentou-se e chorou, mas em seu triste apuro não há qualquer menção de ela ter se voltado para Deus. Assim é a condição atual dos judeus espalhados.

    O que aconteceu em seguida a Agar e seu filho mostra que Deus ainda não desistiu da nação de Israel (Gn 21:17-21). Isto representa o que Ele irá fazer com um remanescente dessa nação em um dia futuro. A “voz do menino” foi ouvida por Deus. Isto nos fala do clamor do remanescente no futuro período da Tribulação (Sl 6, etc.). O menino não estava morto como Agar imaginava, e do mesmo modo haverá vida em um remanescente da nação. Além do mais, Deus falou a Agar e “abriu-lhe Deus os olhos”. Ela recebeu a promessa de que o menino se tornaria uma “grande nação” no futuro. Uma esposa seria tirada do Egito para ele, o que nos fala das nações gentias convertidas se relacionando com o Israel restaurado num tempo vindouro (Sl 57:9; Is 14:1; 19:24-25; Zc 2:11; 8:22-23).

    Na última figura encontrada no capítulo alguns gentios (“Abimeleque com Ficol”) se dirigem a “Abraão” e desejam fazer uma “aliança” com ele (Gn 21:22-34). Abraão fez um concerto com eles, o que aponta para o fato de que no pacto de Deus haverá lugar para que os gentios sejam abençoados em relação ao Senhor no Milênio (Is 56:3-8). Tudo isso aconteceu em “Berseba”, que significa “poço do juramento” (Gn 21:31-32) e nos fala da promessa de Deus em abençoar as nações gentias em sua relação com Israel no futuro.

  • Este capítulo mostra que Cristo (representado por Isaque) seria rejeitado pelos judeus incrédulos (Ismael), resultando em sua crucificação, e que Deus usaria essa mesma ocasião para cumprir o maior ato de graça da história da humanidade — a realização da expiação para a glória de Deus e bênção dos crentes.

    O capítulo apresenta as coisas predominantemente do lado de Deus na cruz. Abraão levou seu filho Isaque a um lugar no “Monte Moriá” onde tentou oferecê-lo como sacrifício. Isto é um tipo do grande sacrifício de Cristo realizado no Calvário (Ef 5:2; Hb 7:27; 9:26; 10:10, 12). Embora Abraão não tenha realmente matado Isaque, o Novo Testamento enxerga este incidente na forma de um tipo ou figura, como se Abraão tivesse consumado seu ato, e Deus o tivesse ressuscitado de entre os mortos (Hb 11:17-19). O lugar onde Abraão fez o sacrifício era o mesmo onde Cristo viria a morrer muitos anos depois! O Calvário fica no monte Moriá, onde a cidade de Jerusalém foi construída (2 Cr 3:1; Hb 13:12). Trata-se do mesmo local onde outro significativo sacrifício foi feito por Davi, o qual também tipifica o grande sacrifício de Cristo (1 Cr 21:18-30; 2 Cr 3:1). Isso demonstra que Deus tinha aquele local especial diante de Si muito tempo antes de Seu Filho morrer ali.

    No fato de Abraão e Isaque irem “ambos juntos” ao “lugar” (Gn 22:3, 4, 9, 14; Lc 23:33) temos uma figura do Pai e do Filho indo juntos ao Calvário onde Cristo viria a morrer. Ao contrário de Isaque, que não sabia onde estava o carneiro para o holocausto (Gn 22:7-8), o Senhor Jesus sabia o que lhe esperava em Jerusalém (Lc 9:31; 12:50). A menção do “fogo” e do “cutelo” indica dois aspectos da cruz (At 2:23). O “cutelo” fala da morte de Cristo na mão de ímpios (At 3:14-15); o “fogo” (uma figura do juízo de Deus) fala do fato de Cristo ter levado sobre o Seu próprio corpo no madeiro os nossos pecados sob o juízo de Deus.

    Existem três expressões relacionadas à “lenha” que Isaque carregava para o lugar do sacrifício. A madeira é extraída das árvores, e árvores aparecem ao longo das Escrituras como representação da humanidade. Primeiro, Abraão “cortou lenha” (Gn 22:3). Isto nos fala do fato de um corpo humano ter sido “preparado” por Deus para o Senhor Jesus a fim de Ele vir ao mundo e ser um sacrifício (Hb 10:5). Segundo, Abraão tomou “a lenha do holocausto, e pô-la sobre Isaque seu filho” (Gn 22:6). Isto nos fala da encarnação de Cristo. Houve um momento na história deste mundo quando Cristo tomou a humanidade em Sua Pessoa e Se tornou Homem (Lc 1:31-35). Terceiro, quando Abraão e Isaque chegaram ao lugar que Deus havia indicado, a lenha foi tirada de Isaque e colocada sobre “o altar”. Em figura isso nos fala do momento em que Cristo entregou à morte a Sua vida como Homem para a glória de Deus (Ef 5:2).

    Não lemos de qualquer objeção ou resistência da parte de Isaque; a narrativa nada diz a respeito. Esse silêncio indica de forma maravilhosa a perfeita submissão do Senhor Jesus à vontade de Seu Pai. Ele disse: “Não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26:39). E também, “não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18:11).

    Neste ponto o tipo ou figura falha, como costuma acontecer com todos os tipos e figuras, no sentido de que aqui Deus proveu um substituto para Isaque na forma de “um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato” (Gn 22:10-14), já que não havia ninguém que poderia assumir o lugar de Cristo ao fazer a expiação por nossas vidas. O carneiro é um tipo de Cristo. Ser “travado pelos seus chifres” nos fala da devoção de Cristo à vontade de Deus que O levou à morte. Nas Escrituras os “chifres” nos falam de força — a força de Seu amor a Deus (João 14:31) e a força de Seu amor por nós (João 13:1). Foi esse grande amor que manteve Jesus na cruz. Abraão chamou aquele lugar “Jeová-Jiré”, que significa “o Senhor proverá”. Isto ilustra o fato de que a cruz é o lugar onde Deus fez provisão para os homens serem salvos pela fé. É significativo que após o carneiro ter sido oferecido em sacrifício já não encontramos Isaque no texto até ele ser visto unido com sua noiva (Gn 24:62-67). Portanto, o tipo ou figura indica que ao morrer Cristo seria removido da vista de todos neste mundo, mas um dia Ele seria, em ressurreição, publicamente ligado à Igreja, Seu corpo e noiva.

    Após o carneiro ter sido oferecido Deus falou da grande bênção que viria à semente de Abraão — “as estrelas do céu” e “a areia que está na praia do mar” (Gn 22:15-19). Isso aponta para o fato de que, como consequência da obra consumada de Cristo na cruz, muitas vidas seriam abençoadas. O capítulo termina com a linhagem de “Naor”. É significativo o fato de as Escrituras mencionarem “Betuel”, o oitavo filho, do qual veio “Rebeca” (Gn 22:20-24). Rebeca estava destinada a ser a futura esposa de Isaque. Ela é um tipo bem conhecido da Igreja. Oito é um número que significa nova criação. O fato de ela vir do oitavo filho aponta para a verdade de a Igreja fazer parte da nova criação (2 Co 5:17; Ef 1:10; Hb 2:11-13).

  • Este capítulo está relacionado à morte e sepultamento de Sara. Como já mencionado, ela é um tipo de Israel. Sua morte é significativa no panorama dispensacional. Deus estava prestes a chamar Rebeca e introduzi-la em um relacionamento com Isaque (cap. 24), mas não estariam as duas mulheres coexistindo na casa de Abraão. Sara, portanto, morreu antes, e então Rebeca foi chamada. Isso nos ensina que o modo de Deus agir com Israel e com a Igreja não é algo simultâneo. Também nos mostra que Israel e a Igreja não são uma única e mesma coisa, mas duas diferentes ordens de povos abençoados. (Isto é algo que os teólogos do Pacto fariam bem em perceber). Fica claro, portanto, que Deus não tinha a intenção de que Judaísmo e Cristianismo convivessem ao mesmo tempo em uma forma de cristianismo semi-judaico (Jo 4:21-23; Hb 13:10).

  • No capítulo 22 Isaque desaparece da narrativa, mas neste capítulo descobrimos que ele voltou de Moriá para a casa de Abraão. Isto apontaria para a ressurreição e ascensão de Cristo à glória da casa de Seu Pai, onde Ele está no presente momento sentado à destra de Seu Pai (Jo 14:2; At 2:32-33).

    O assunto deste capítulo é assegurar uma esposa para Isaque. O que não é usual a respeito disso é que Isaque não deveria ir e obter uma esposa para si, mas isso seria feito pelo “servo” de Abraão. Isto é pleno de significado em um contexto dispensacional. Este homem sem nome que foi enviado por Abraão para conseguir Rebeca é um tipo do Espírito Santo. O fato de o servo de Abraão não ter nome está em conformidade com muitos outros tipos do Espírito Santo nas Escrituras. Muitas vezes Ele é visto como uma Pessoa sem nome trabalhando nos bastidores (Rt 2:6; Lc 10:35; 14:21-24; 22:11 etc.). Trata-se de uma descrição adequada ao papel do Espírito nesta dispensação. Ele não atrai atenção para Si, mas emprega Suas energias em nos levar a Cristo (Jo 16:13-14).

    Os primeiros nove versículos do capítulo 24 de Gênesis tipificam as Pessoas divinas reunidas para deliberarem o chamado da Igreja. Como já vimos no capítulo anterior sobre o ensino de Paulo, esse chamado é um “mistério” que esteve “escondido em Deus”, e que não foi revelado até que o Espírito viesse e o revelasse aos apóstolos (Rm 16:25; Ef 3:3-5, 9; Cl 1:26). A jornada do servo à Mesopotâmia representa a vinda do Espírito (Gn 24:10-14). A conversa inicial do servo com Rebeca representa a obra do Espírito nas almas (Gn 24:15-17). O presente dado a Rebeca, um “pendente” ou brinco para suas orelha e “pulseiras” para suas mãos, representa o anseio do Espírito em conquistar os ouvidos e as mãos do crente para Deus (1 Co 6:20). A partir do momento em que o servo conquistou a atenção da família de Betuel ele passou a contar uma história maravilhosa, a qual contém muitos elementos do evangelho da graça de Deus (Gn 24:33-49). Ele lhes fez saber que seu senhor era uma pessoa muito rica e que havia legado tudo o que possuía ao seu único filho (compare com João 3:35). O servo também explicou que havia sido enviado por Abraão para conseguir uma esposa para seu filho (compare com Efésios 5:25-32), e que o filho de Abraão iria compartilhar com ela as riquezas que seu pai lhe havia dado (compare com Efésios 1:11; Romanos 8:17, 32). Ele também explicou como tinha sido dirigido por Deus para encontrar Rebeca. Isso nos fala dos inescrutáveis caminhos de Deus em encontrar, ao longo do tempo, aqueles que foram eleitos antes da fundação do mundo (Rm 11:33-36; Ef 1:4).

    Quando ficou acertado que Rebeca seria a esposa de Isaque, o servo apresentou “jóias de prata e jóias de ouro, e vestidos” e os deu a Rebeca para confirmar o que fora acertado (Gn 24:50-53). Isso representaria o selo do Espírito (Ef 1:13), pois estas três coisas nos falam de redenção, justiça divina e de uma adequada condição moral para Cristo, e são coisas que passam a pertencer aos cristãos quando são salvos. O servo “também deu coisas preciosas” ao irmão e mãe de Rebeca. Isso nos fala das muitas bênçãos visíveis que todos na cristandade podem desfrutar em razão de o Espírito Santo estar na casa de Deus. Depois disso o servo e os da família de Betuel “comeram e beberam” (Gn 24:54). Isso nos fala da “comunhão do Espírito” (Fp 2:1) e da “comunhão do Espírito Santo” (2 Co 13-14). Logo no dia seguinte o servo quis iniciar sua jornada de volta à casa de Abraão levando Rebeca consigo. Isso mostra o grande desejo do Espírito de levar os cristãos a Cristo em glória. Trata-se de uma jornada moral e espiritual envolvendo o distanciar do coração e alma do crente deste mundo, aproximando suas afeições de Cristo.

    A mãe e o irmão de Rebeca queriam que ela ficasse com eles por um ano inteiro, e só depois partissem com o homem (Gn 24:54-55). Isso nos fala da interferência da natureza no chamado de Deus. O servo disse: “Não me detenhais”, o que demonstra que qualquer atividade neste sentido entristece e extingue o Espírito Santo (Ef 4:30; 1 Ts 5:19). Rebeca concorda em partir com o servo para ser a esposa do homem que ela nunca havia encontrado. (Compare com 1 Pedro 1:8). É com base em suas palavras — “Irei” — que o servo parte imediatamente e leva Rebeca a Isaque (Gn 24:57-61). Ao longo do caminho Rebeca podia desfrutar das jóias que havia recebido como “penhor” daquilo que a esperava quando chegasse à casa de Isaque (Ef 1:14; 2 Co 1:22).

    Os “camelos” foram fornecidos pelo servo para carregá-la. Isso nos fala das necessidades naturais que temos na vida sendo atendidas pelas misericórdias de Deus — coisas materiais que precisaremos para nossa vida no deserto. Isaque aguardava por sua noiva (Gn 24:62-63), e Cristo também aguarda pacientemente para ter Sua Igreja consigo no lar (2 Ts 3:5). Chegou o momento quando Isaque “levantou os seus olhos” (Gn 24:63) e “Rebeca também levantou seus olhos” (Gn 24:63), e seus olhares se encontraram pela primeira vez! O resultado disso foi que Rebeca “desceu do camelo”. Nada é dito de seus pés tocarem o solo, apesar de sabermos que foi assim. Isso nos fala do chamado do Arrebatamento, que é um chamado elevado. H. E. Hayhoe costumava dizer: “Aquele é o momento para o qual todos os outros momentos foram feitos”.

    Em seguida nós os vemos unidos em matrimônio, e Isaque levou Rebeca “para a tenda de sua mãe Sara” (compare com Apocalipse 19:7-9). Ao enfatizar que Sara e Rebeca são duas pessoas completamente diferentes o Espírito de Deus está chamando nossa atenção para o fato de Deus ter dois relacionamentos completamente diferentes com o Seu povo. Dos tipos apresentados nestes capítulos fica evidente que Sara representa Israel e Rebeca a Igreja. Os teólogos do Pacto não conseguem enxergar isto, e em essência procuram fazer dessas duas mulheres uma mesma pessoa.

  • Então “Abraão tomou outra mulher; e o seu nome era Quetura”. Essa mulher não era da linhagem familiar de Abraão, como tinha sido Sara (Gn 20:12), portanto era uma gentia. Isso indica que após a Igreja ser chamada para o lar no céu Deus irá estabelecer um relacionamento com os gentios. As Escrituras proféticas indicam que isso irá acontecer no Milênio (Ap 7:9-17). Os filhos que Quetura deu a Abraão nos falam das “muitas nações” que serão abençoadas por Deus nesse tempo (Zc 2:11, etc.). É digno de nota que esses filhos foram abençoados por lhes terem sido dados “presentes”, todavia não foram tão abençoados quanto Isaque, a quem “Abraão deu tudo o que tinha” (Gn 25:5). Considerando que somos co-herdeiros com Cristo (Rm 8:17), isso demonstra que Cristo e a Igreja têm uma porção e bênção especiais, distintas do restante da família de Deus.

    Resumindo, temos uma maravilhosa ordem de eventos nestes capítulos que, quando tomados figurativamente, revelam os caminhos dispensacionais de Deus.
    • Capítulo 21 — Isaque (Cristo) nasce neste mundo e é rejeitado por Ismael (os judeus incrédulos) que tinha sido consequentemente afastado da casa de Abraão.
    • Capítulo 22 — Isaque é colocado sobre o altar como um sacrifício e desaparece da narrativa — uma figura da morte de Cristo.
    • Capítulo 23 — Sara (Israel) é sepultada e deixada fora de vista.
    • Capítulo 24 — Rebeca (a Igreja) é chamada pelo servo de Abraão (o Espírito Santo) e levada a Isaque, com quem ela se casa.
    • Capítulo 25 — Depois dessas coisas Abraão entra num novo relacionamento com Quetura (as nações gentias durante o Milênio) e o resultado é que há muita bênção para aqueles que são o resultado desse relacionamento.
  • Nesta série de capítulos “Jacó” é um tipo de Cristo. Ele saiu da casa de seu pai para um país distante — “Padã-Arã” — (Gn 28). Trata-se de uma figura de Cristo vindo de Seu Pai para este mundo em Seu primeiro Advento. Jacó saiu da casa de seu pai por dois motivos: primeiro, por causa de pecado (Gn 27), e segundo, para buscar uma esposa (Gn 28:15) — as mesmas duas razões pelas quais o Senhor veio a este mundo. A diferença principal é que Jacó saiu da casa de seu pai por causa de seu próprio pecado, mas Cristo não tinha pecado.

    Capítulo 29 — Quando Jacó foi para o país distante ele viu “Raquel” no campo. Ela é um tipo de Israel (os judeus) com quem o Senhor buscou um relacionamento quando veio da primeira vez a este mundo. Apaixonado por ela, Jacó concordou em comprá-la por meio de seu próprio trabalho. Trata-se de uma figura do trabalho que o Senhor empregou na cruz a fim de poder ter a Israel em um relacionamento consigo sobre o terreno da redenção.

    Quando chegou a hora de Jacó receber Raquel, seu pai Labão o enganou, de modo que ele não a recebeu, mas sim a “Lia” em seu lugar (Gn 29:21-30). Lia é um tipo da Igreja. Deus providencialmente permitiu que isso acontecesse a Jacó de modo que pudéssemos dispor de um prenúncio de Suas maneiras de tratar com Israel e com a Igreja. Nisso temos o relato das maneiras dispensacionais de Deus agir. Quando o Senhor veio ao mundo pela primeira vez fez isso para Israel (Raquel), a quem ele amou, mas quando esta lhe foi recusada ele recebeu a Igreja (Lia) em seu lugar, para que pudesse ter uma esposa. Então, após Jacó ter recebido a Lia, ele recebeu Raquel. Isso aponta para quando vier a “plenitude dos gentios” e se completar o chamado da Igreja (Rm 11:25). Deus irá trazer Israel ao Senhor, de modo que Ele possa tê-la como Sua noiva e esposa terrenal (Os 2:6-17; Is 62:4-5).

    Portanto, Jacó teve duas esposas: Lia (a Igreja), recebida antes, mesmo que ele tivesse se aproximado inicialmente de Raquel (os judeus). Se, por um lado, o ventre de Lia era frutífero para gerar filhos (Gn 29-32-35), o ventre de Raquel era estéril (Gn 29:31). Isso representa a época atual, indicando que, enquanto a Igreja está atualmente produzindo fruto para Deus, Israel está estéril (Os 3:4; Mt 21:19-21; Lc 13:6-10). Em algum momento mais tarde Deus abriu a madre de Raquel e ela começou a ter filhos.

    É significativo que Lia tenha tido sete filhos (um número que significa inteireza ou perfeição) antes que Raquel começasse a se esforçar para gerar seus filhos (Gn 30:22; 35:16). O esforço de Raquel é uma figura das provas futuras que aguardam Israel na Tribulação (Is 66:7-8; Jr 30:6-7; Mq 4:9-10; 5:3; 1 Ts 5:3). Isso demonstra que a Igreja irá terminar seu curso e testemunho de gerar fruto neste mundo antes que Israel (na verdade os judeus) passe seu tempo de esforços na Grande Tribulação, que irá resultar na produção de fruto para Deus (Is 54:1). Ficamos maravilhados com a precisão e beleza desses tipos! (Sl 119:161).

  • “José” (ou “Zafenate-Panéia”, que significa “Salvador do mundo” cf. nota na Bíblia de J. N. Darby) é uma bem conhecida figura do Senhor Jesus Cristo. Ele foi rejeitado por seus irmãos (uma figura dos irmãos judeus do Senhor) quando foi até eles levando uma mensagem de seu pai (Gênesis 37). Como consequência dessa rejeição por seus irmãos, José foi levado para o exterior para viver entre os gentios (Gênesis 39-41). Depois de ter sido levado para o Egito (figura do mundo), houve um período de bênção naquela terra, seguido por um período de fome. O período de prosperidade representa o tempo presente da “dispensação da graça de Deus” (Ef 3:2). O período de fome representa o tempo futuro da Tribulação que virá e que se seguirá ao Dia da Graça.

    Repare que enquanto José era como um desconhecido para seus irmãos (o que é típico dos judeus), ele recebia uma noiva gentia, “Azenate”, a qual lhe foi dada no tempo de abundância (Gn 41:45). Ela é uma figura da Igreja, composta predominantemente de gentios (At 15:14). Azenate foi introduzida em sua casa para compartilhar de sua posição real no trono do Egito antes que começasse o período de fome. Isso aponta para o fato de que a Igreja será levada para o lar na glória (no Arrebatamento) antes do início do tempo da Tribulação.

    Quando chegou o período de fome, José se esforçou para restaurar seus irmãos a si mesmo (Gn 42-45). Do mesmo modo Cristo irá tratar com Israel (particularmente os judeus) durante o período da Tribulação para restaurá-los a Si. Estêvão declarou: “E na segunda vez foi José conhecido por seus irmãos” (At 7:13). É digno de nota que José tenha restaurado primeiro seus irmãos a si, os mesmos que lhe haviam rejeitado antes; eles são um tipo do remanescente judeu (Gn 45). José então passou a reunir a família toda a si (Gn 46). Estes são uma figura das dez tribos de Israel que serão restauradas ao Senhor após os judeus terem sido restaurados (Mt 24:30-31). José, tendo Azenate ao seu lado, reinou então sobre o Egito (que é uma figura do mundo) com todos os seus irmãos (Gn 47). Isso é uma figura da “dispensação da plenitude dos tempos” (o Milênio) quando todas as coisas ficarão sob a administração de Cristo e da Igreja (Ef 1:10). O Israel restaurado terá um lugar proeminente na terra nesse tempo (Gn 47:6) com os gentios sendo abençoados por eles (N. do T.: É Jacó quem abençoa a Faraó, não o contrário — Gn 47:7). Mais uma vez estes capítulos nos dão outra figura inegável que ilustra as maneiras dispensacionais de Deus.

  • Moisés é outra figura do Senhor Jesus Cristo (Dt 18:15). Ele foi o libertador escolhido por Deus para os filhos de Israel que estavam sob a escravidão de Faraó no Egito (Êx 3:10; At 7:35). Faraó, o governante do Egito, é uma figura de Satanás — o deus e príncipe deste mundo. Moisés sentia por seu povo e queria que fosse libertado. Quando foi a eles da primeira vez e demonstrou que poderia eliminar seus opressores e libertá-los de sua escravidão, seus esforços foram mal entendidos por seus irmãos. Eles disseram: “Quem te constituiu príncipe e juiz?” (At 7:35; Êx 2:14). Consequentemente eles não o aceitaram como seu libertador. Isso é uma figura da rejeição do Senhor por parte dos judeus em sua primeira vinda (Jo 1:11). O que eles disseram foi, em essência, “Não queremos que este reine sobre nós” (Lc 19:14).

    Tendo sido assim rejeitado, Moisés rompeu seus vínculos com seus irmãos e deixou o Egito. Considerando que o Egito é uma bem conhecida figura do mundo, isso nos fala de Cristo deixando este mundo. Ele disse: “Deixo o mundo, e vou para o Pai” (Jo 16:28). Moisés foi para a terra de Midiã, onde viveu por quarenta anos (Êx 2:11-4:19). Naquele tempo recebeu uma esposa gentia — “Zípora” (Êx 2:21). Ela é outra figura da Igreja. Zípora deu um filho a Moisés, e eles o chamaram de Gérson, que significa “Um estrangeiro aqui”. Isso tipifica o fruto de uma comunhão prática com Cristo que nos torna estrangeiros celestiais neste mundo (1 Pe 2:11).

    Após muitos anos Deus enviou Moisés de volta aos filhos de Israel, os quais sofriam sob seus opressores gentios (uma figura do “tempo dos gentios” — Lc 21:24; Êx 3:10; 4:19). Moisés se apresentou a seus irmãos que uma vez lhe haviam rejeitado (Êx 4:29-31). Isso é uma figura do Senhor retomando suas tratativas com a nação de Israel. Naquela ocasião Deus começou a derramar juízo sobre o Egito na forma das dez pragas (Êx 7:1-12:36). Essas pragas são uma figura dos juízos que cairão sobre este mundo durante a Tribulação. Deus preservou milagrosamente os israelitas em meio a todos aqueles juízos, o que foi um sinal da confirmação que Deus lhes dava de que estava trabalhando a favor deles (Sl 78:43; 105:27; Êx 73; 8:22-23). Isso nos fala de como Deus irá preservar um remanescente de Israel durante a Tribulação (Ap 7:1-8).

    Após os juízos terem caído sobre o Egito, Moisés tirou Israel daquela terra libertando-os de Faraó e dos egípcios no Mar Vermelho (Êx 14). Naquela ocasião eles cantaram seus louvores de gratidão ao Senhor (Êx 15). Isso nos fala da salvação do remanescente de Israel e a ação de graças que se seguirá. Então, logo depois, Jetro, o midianita, foi a Moisés e aos filhos de Israel e reconheceu que Deus estava com eles (Êx 18). Isso é uma figura do Milênio, quando os gentios reconhecerão o Deus de Israel como Deus deles também (Zc 2:11; 8:22-23, etc.). Mas onde estava Zípora enquanto os juízos caíam sobre o Egito? Ela não estava na terra! Moisés a tinha enviado de volta para a terra de Midiã antes que os juízos caíssem (Êx 18:1-2). Ela não aparece em cena até depois de todos os juízos terem caído sobre a terra do Egito e os filhos de Israel serem libertados. Semelhantemente, a Igreja não aparecerá publicamente até que a Tribulação tenha terminado, quando o Senhor irá exibir Sua noiva para o mundo no Milênio (2 Ts 1:10).

  • A ordem como a expiação era aplicada à casa de Arão e à casa de Israel reflete a ordem dispensacional de Deus. Arão e sua família formam um bem conhecido tipo de Cristo e da Igreja. Eles permaneciam diante de Deus como uma família de sacerdotes durante a economia mosaica. De maneira similar, os cristãos formam uma companhia de sacerdotes que permanecem diante de Deus hoje no santo dos santos (1 Pe 2:5; Ap 1:5-6; Hb 10:19-22). A casa de Israel é uma figura da nação de Israel que será introduzida na bênção na Manifestação de Cristo.

    Arão foi escolhido dentre o povo e a obra de fazer a expiação foi entregue em suas mãos (Lv 16:1-4). Ele é uma figura de Cristo. A fim de cumprir essa grande obra, Arão precisava remover suas vestes de “glória e ornamento” que ele normalmente vestia (Êx 28), e vestir um conjunto especial, uma “túnica santa de linho”. Isso nos fala de Cristo, que deixou de lado a glória da Sua divindade e veio ao mundo como um Homem (Fp 2:6-7). A túnica santa de linho nos fala da pureza e perfeição da Pessoa de Cristo e, portanto, de estar Ele apto a levar sobre si o pecado.

    Duas cerimônias distintas eram conduzidas por Arão naquele dia. Primeiro, ele fazia a expiação por sua própria casa (Lv 16:5-14), e depois fazia expiação pela casa de Israel (Lv 16:15-22). As duas partes da expiação (propiciação e substituição) podem ser vistas também aqui — em conexão com a casa de Arão e a casa de Israel. Isso é visto no local onde o sangue era colocado (Lv 16:14-15). Em ambos os casos ele era colocado “sobre” o propiciatório. Isso nos fala da propiciação, que é a parte que tem a ver com Deus na expiação (Rm 3:25; Hb 2:17; 1 Jo 2:2; 4:10). Então o sangue era borrifado sobre o chão “diante” do propiciatório. Isso nos fala da substituição, a qual representa a parte que tem a ver com o crente nessa grande obra (Is 53:5-6; 1 Pe 2:24; 3:18 — “o justo pelos injustos”).

    Sem entrarmos em outros detalhes desta maravilhosa figura, vamos observar que a expiação era feita primeiro a favor da família de Arão, e depois era feita a favor da casa de Israel. O fato de as cerimônias serem feitas separadamente tem um significado dispensacional. Isso nos ensina que a Igreja desfruta da expiação antes do remanescente de Israel. Não estamos dizendo que Cristo irá fazer uma expiação duas vezes; a obra que Ele consumou na cruz aconteceu de uma vez por todas. Todavia, a aplicação de Sua obra expiatória, no que diz respeito a esses dois grupos, ocorre separadamente, indicando que existe uma ordem dispensacional nas maneiras de Deus agir. Se a Igreja e Israel fossem um só povo de Deus (como pensam alguns), então não haveria necessidade de Arão passar duas vezes pelo processo de aplicação do sangue.

    Depois de Arão ter completado o trabalho, ele entrava no santuário, e desaparecia da vista do povo (Lv 16:23-24). No “santo dos santos” ele despia suas vestes de linho e colocava seus vestidos de glória e ornamento. Em figura, isso nos fala da ascensão de Cristo à presença de Deus no santuário celestial (At 1:9; Hb 4:14; 8:1-2) e sendo glorificado ali (1 Pe 1:21; Hb 2:9). Então, após ter ficado no santuário por algum tempo, Arão saía para ser visto pelo povo novamente, e lhes dirigia em adoração a Deus (Lv 16:24-34). Naquele momento a casa de Israel afligia suas almas em arrependimento (Lv 16:29). Isso tipificava o que irá acontecer a Israel no futuro. Cristo voltará do céu à vista de todos (Ap 1:7) e o remanescente de Israel irá se arrepender e entrar nos benefícios da obra expiatória de Cristo (Zc 12;10-13:1).

    A ordem dos eventos neste capítulo dá claramente suporte ao tema dispensacional que pode ser encontrado ao longo de todas as Escrituras.

  • Este capítulo nos apresenta uma figura indubitável das maneiras dispensacionais de Deus, e muitos livros e artigos já foram escritos neste sentido. Há sete festas anuais descritas no capítulo que prenunciam eventos que vão da cruz de Cristo à vinda do reino de Cristo. São elas:
    1. “Páscoa” — representa a morte de Cristo (1 Co 5:7)
    2. “Festa dos Pães Asmos” — representa a comunhão prática em santidade na comunidade dos crentes (1 Co 5:8)
    3. “Festa das Primícias” — representa Cristo ressuscitado e assunto à glória (1 Co 15:23)
    4. “Festa de Pentecostes” — representa a Igreja sendo formada em um corpo pela descida e habitação do Espírito (At 2:1)
    5. “Festa das Trombetas” — representando Israel sendo reunido de entre as nações após sua dispersão na época atual (Mt 24:31)
    6. “Dia da Expiação” — representa o arrependimento de Israel diante de Deus (Zc 12:9-14; Sl 51)
    7. “Festa dos Tabernáculos” — representando a bênção milenial da terra no reino de Cristo (Sl 72).

    As quatro primeiras festas já se cumpriram; as últimas três estão por se cumprir. Todas as festas, exceto as duas do meio, eram celebradas em dias específicos do calendário judaico. Elas correspondem à ordem judaica das coisas em que os tempos e as estações são observados (Gl 4:9-10). As duas festas do meio (“Festa das Primícias” e “Festa do Pentecostes”) deviam ser guardadas no primeiro dia da semana — mas nenhuma data específica do calendário era mencionada. Elas tipificam a atual Dispensação do Mistério (o Dia da Graça), que é um chamado celestial de Deus que não tem conexão com o tempo ou com a terra. O fato de elas serem celebradas no primeiro dia da semana claramente aponta para a ordem cristã de coisas na Igreja. Como já mencionado, essas festas nos falam de Cristo subindo aos céus e enviando o Espírito de Deus para formar a Igreja. Estas são as duas características distintas do cristianismo (Jo 7:39). Esses dois primeiros dias da semana se destacam visivelmente do restante dos dias de festa e tipificam o atual Dia da Graça.

  • Esta passagem tem a ver com o homicida e as cidades de refúgio. Todavia, ela não começa falando deles, mas começa no versículo 15 do capítulo 18 com a promessa de Deus levantar “um Profeta” no meio da nação de Israel (Dt 18:15-22). Esse Profeta é o Senhor Jesus Cristo (Lc 7:16; Jo 1:21; 6:14; At 3:23; 7:37). É dada grande ênfase às “palavras” de Deus como estando “em Sua boca” (Jo 7:16-17; 8:47; 17:8) e na necessidade que o povo tem de recebê-las.

    Então, no capítulo 19, o assunto muda: somos apresentados à provisão que Deus fez para o Seu povo no caso de um homem matar acidentalmente outro. Isso foi dado a Israel tendo como figura do homicídio de Cristo. Havia “três cidades” a oeste do Rio Jordão (Dt 19:2) e “três cidades” a leste (Dt 19:3), indicadas como lugares de refúgio para onde um homicida poderia fugir e ficar protegido. Essas cidades são uma figura da provisão que Deus fez para os judeus que mataram a Cristo. As seis cidades de refúgio são uma figura dos seis aspectos da segurança que o evangelho anuncia em Cristo. Cada cidade nos fala de um diferente aspecto da bênção que temos em Cristo.

    Uma estrada bem definida, “o caminho” (Dt 19:3), devia ser preparado para cada cidade a fim de que o homicida pudesse alcançá-la em segurança. Além disso, cada cidade ficava situada numa colina para que o lugar de refúgio pudesse ser facilmente visto por todos (Js 20:7-8). O fato de o homicida ter de “fugir” (Js 20:3) indica que havia um elemento de urgência envolvido nisso. Se um homicida atrasasse sua fuga, “o vingador do sangue” (Dt 19:6) poderia alcançá-lo. Isso aponta para o fato de que aqueles que entendessem sua culpa na morte de Cristo (isto é, os judeus arrependidos) deviam imediatamente se valer da salvação disponível no Cristo ressuscitado antes que o julgamento caísse sobre aquela nação culpada (Hb 2:3). Nos primeiros capítulos do Livro de Atos, Pedro e os outros apóstolos indicavam ao povo judeu o caminho da salvação como um antítipo das cidades de refúgio — Cristo na glória (At 2-7). Um remanescente de judeus creu na mensagem e fugiu refugiar-se em Cristo, que havia entrado nos céus como o “precursor” (At 2:21, 41; 4:4; 5:14; Hb 6:19-20).

    Havia apenas uma condição que o homicida precisava cumprir a fim de garantir seu refúgio — ele precisava ter matado o outro “por engano” (Dt 19:4). Na lei não havia misericórdia para aqueles que pecassem intencionalmente (Dt 19:11-13; Nm 15:30-31; Hb 10:28). Isso cria um enorme problema para os judeus, pois eles mataram a Cristo sabendo exatamente quem Ele era. Eles disseram “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo.” (Mt 21:37-39). Eles até chegaram ao ponto de lançarem sobre si mesmos uma maldição assumindo completa responsabilidade por Sua morte, quando disseram: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.” (Mt 27:25). Todavia, nas instruções da lei concernentes aos votos ou promessas, havia uma provisão para a anulação e votos feitos de modo inconsequente (Nm 30). Uma mulher que fizesse um voto poderia ter seu marido ou pai anulando seu voto, se este o fizesse no dia em que ouvisse do voto. Uma mulher nas Escrituras frequentemente tipifica o povo do Senhor — seja Israel (Ez 16), seja a Igreja (Ef 5:31-32). Neste caso, os judeus estavam exteriormente nesse tipo de relacionamento com o Senhor (apesar de alheios a Ele naquela ocasião), e Ele, portanto, tinha o poder de anular o voto deles no dia em que soube de seu voto. O Senhor fez exatamente isso quando foi pregado na cruz, ao dizer: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lc 23:34). Naquela declaração o Senhor transformou o arrogante pecado deles em um pecado de ignorância, e isso abriu a porta para que eles pudessem ser perdoados (Lv 4:2; Nm 30:8).

    Pedro mencionou isso em sua pregação aos judeus, quando disse: “Irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos príncipes.” (At 3:17). Ele prosseguiu dizendo aos judeus que seus pecados seriam “apagados” se eles se arrependessem e fossem a Cristo pela fé (At 3:19). Em suma, ele estava indicando a eles o antítipo das cidades de refúgio. A porta para a segurança tinha sido escancarada para aquela nação culpada. Mas ainda assim é bem solene vermos que havia um preço a ser pago pelo homem que anulasse o voto da mulher, pois diz que “ele levará a iniquidade dela” (Nm 30:15). Ela podia ser perdoada, porém ele precisaria pagar o preço desse perdão. Isso aponta em figura para os sofrimentos expiatórios de Cristo, que pagou o preço para que os judeus fossem perdoados. As Escrituras dizem: “O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos… pela transgressão do meu povo ele foi atingido.” (Is 53:6, 8; 1 Pe 2:24).

    O significado de cada cidade indica algum aspecto de bênção espiritual que o crente tem em Cristo:
    • “Quedes” ou “Quedesh” significa “santidade”. O crente é visto como tendo sido lavado e feito santo aos olhos de Deus (Ef 1:4; Cl 1:22).
    • “Siquém” significa “ombro”. Isto nos fala da eterna segurança do crente em Cristo (Jo 10:28-29).
    • “Hebrom” sinifica “comunhão”. Isto nos fala do relacionamento e comunhão com Deus nos quais o crente é introduzido (1 Jo 1:3-4).
    • “Bezer” significa “baluarte”. Isto nos fala da proteção que o crente possui na armadura de Deus, pela qual fica protegido dos ataques espirituais do inimigo (Ef 6:10-17).
    • “Ramote” significa “lugares elevados”. Isto nos fala de nossa posição de aceitação em Cristo nas alturas (E 2:6).
    • “Golã” significa “regozijo”. Isto nos fala do gozo e alegria que o crente tem em Cristo (1 Pe 1:8).

    Os versículos 11 ao 13 de Deuteronômio 19 indicam que se o homicídio tivesse sido deliberado, constituindo-se em assassinato, não haveria perdão para o culpado. Ali diz: “Mas, havendo alguém que odeia a seu próximo, e lhe arma ciladas, e se levanta contra ele, e o fere mortalmente, e se acolhe a alguma destas cidades, então os anciãos da sua cidade mandarão buscá-lo; e dali o tirarão, e o entregarão na mão do vingador do sangue, para que morra.”. Isso se refere à parte da nação que não iria a Cristo e acabaria assumindo sua culpa da morte dele. Ao se recusarem a aceitar o perdão disponível para o homicida — quer eles tenham entendido isso, quer não — eles estavam assumindo a posição de assassinos de Cristo. Para eles não haveria misericórdia. O voto que a nação fez muitos anos antes continuaria valendo (Mt 27:25); para eles só restaria o juízo (Sl 69:22-28).

    Esta figura não vai tão longe ao ponto da retomada das tratativas de Deus com Israel no futuro, mas ao menos demonstra como Israel foi colocado de lado e a introdução de algo novo em Cristo — a Igreja.

  • Este capítulo trata do caso de um assassinato de autoria desconhecida na terra (Dt 21:1-9). Em situações assim o princípio da proximidade devia ser aplicado pelos anciãos de Israel para determinar qual cidade seria responsável em cuidar do assunto. Ao medirem “a distância até as cidades que estiverem em redor do morto”, a cidade mais próxima ficaria responsável. Os anciãos daquela cidade eram convocados a cuidar da provisão que Deus fazia para casos assim, e dessa forma se inocentarem do assassinato.

    O homem morto é uma figura do assassinato de Cristo pelos judeus (At 3:14-15; 1 Ts 2:15). Neste caso a cidade tida por responsável é Jerusalém, pois Cristo foi crucificado “próximo da cidade” (Jo 19:20; Hb 13:12). Uma “novilha… que não tenha trabalhado nem tenha puxado com o jugo” devia ser morta em sacrifício para tirar “o sangue inocente” do meio deles (Dt 21:3-4, 9). Este é outra figura da morte de Cristo. Portanto, existem duas figuras da morte de Cristo aqui:
    • “Um morto” tem a ver com a parte do homem na morte de Cristo — assassinato (Dt 21:1-2).
    • “A novilha degolada” tem a ver com a parte de Deus da morte de Cristo — a qual foi necessária para fazer expiação pelo pecado a fim de que os pecadores pudessem ser salvos (Dt 21:6).

    O lado da cruz que concerne ao homem produziu culpa, mas o lado da cruz que concerne a Deus pode levar embora a culpa.

    Pelo fato de a novilha não ter trabalhado e nem puxado jugo ela é uma figura de Cristo que nunca esteve sob a influência ou controle do homem em nenhum aspecto de sua vida. A novilha precisava ser sacrificada em um “vale áspero” (Dt 21:4 – Almeida Corrigida) onde havia “águas correntes” (Almeida Atualizada). Isso é uma figura da graça de Deus que corre através deste mundo áspero e sobrecarregado de pecado. Os anciãos podiam alegar ignorância do mal com base no sacrifício da novilha. Eles podiam lavar “as suas mãos sobre a novilha degolada no vale” com a água do regato, e assim “o sangue” do homem assassinado lhes seria expiado. No caso específico dos judeus isso era exatamente o que eles não poderiam fazer. Eles não podiam se valer da provisão que Deus tinha feito para eles em graça na morte de Cristo. Isso foi omitido no caso deles na pregação dos apóstolos, mas a massa da nação rejeitou aquele testemunho (At 2:38; 3:19; 5:30-31).

    Em Deuteronômio 21:10-14 o assunto do capítulo muda repentinamente. Supõe-se que uma batalha tivesse sido lutada contra os “inimigos” de Israel e uma vitória conquistada. Essa vitória é uma terceira figura da morte de Cristo neste capítulo. Ela tipifica Sua vitória sobre o pecado, Satanás e a morte através de Sua morte e ressurreição (Hb 2:14-15). “Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro” (Ef 4:8). Assim o Senhor colocou os crentes em sujeição a Si mesmo, os mesmos que antes eram escravos de Satanás (Lc 11:21-22).

    Dentre os cativos havia “uma mulher formosa” que alguém poderia desejar tomar “por mulher”. Essa mulher gentia é uma figura da Igreja, que nos é apresentada aqui após Israel ter sido colocado de lado. A mulher devia rapar ou cortar tudo o que indicasse suas conexões passadas com a idolatria etc., de modo que ficasse pronta para seu novo marido. Não era algo que alguém fizesse por ela, mas ela deveria fazê-lo por si mesma. Isto nos fala do juízo próprio que os cristãos devem exercitar quando são salvos. Tudo o que é pecaminoso e contaminante que existia anteriormente em nossa vida deve ser julgado e eliminado (2 Co 7:1). Ela devia despir “o vestido do seu cativeiro” e chorar “a seu pai e a sua mãe um mês inteiro”, antes de poder ser tomada por esposa. Isso nos fala em figura de todo o período de tempo desde quando a Igreja foi chamada pelo evangelho até o dia em que for levada para o lar na glória, por ocasião da vinda de Cristo no Arrebatamento.

    A narrativa acrescenta que pode existir uma possibilidade de a mulher não agradar a seu marido e ele a deixar (Dt 21:14). Isso sugere que a porção apóstata da cristandade será abandonada pelo Senhor e eventualmente cuspida de Sua boca (Ap 3:16).

    Deuteronômio 21:15-17 continua o assunto, falando agora de um homem com “duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem despreza” . Estas correspondem à Igreja (a amada) e a Israel (a desprezada) no tempo presente. Mas quando chegar a hora de receber a herança, “ao filho da desprezada reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver”. Isso nos fala da bênção de Deus sobre o remanescente de Israel em um dia vindouro quando Cristo retornar para tomar posse da herança. Naquele dia o Senhor reconhecerá “o direito da primogenitura” em Israel, e introduzirá na bênção um remanescente da nação (Êx 4:22).

    Em Deuteronômio 21:18-23 ocorre outra mudança de assunto. Nos versículos finais do capítulo temos instruções dadas a respeito de um filho rebelde que não age corretamente. Ele é uma figura do Israel apóstata que num dia vindouro irá se recusar a abandonar seu pecado e fazer a vontade de Deus. O jovem rebelde não deveria ser poupado, mas entregue aos juízes e executado. Portanto estes dois jovens do final do capítulo de Deuteronômio 21:17-18 representam duas porções de Israel no futuro — o remanescente que será abençoado com uma “dobrada porção” e os apóstatas que serão julgados. Naquele dia “o Senhor julgará o Seu povo” (Sl 135:14; 50:4). Aqueles que se mostrarem incrédulos serão julgados no lagar do juízo do Senhor. A “vinha da terra” será atirada “no grande lagar da ira de Deus” (Ap 14:19).

  • Esta passagem tem a ver com matrimônio e divórcio. Ela supõe o caso de “um homem” tomar para si “uma mulher”, porém “não achar graça em seus olhos, por nela encontrar coisa indecente”. Isso é uma figura do Senhor que tomou para Si a nação de Israel à semelhança de um matrimônio (Dt 7:6-8 Ez 16:1-14). Todavia, considerando que Israel se entregou à impureza da idolatria, o Senhor deu a ela uma “carta de divórcio” (Is 50:1) e declarou: “Ela não é minha mulher, e eu não sou seu marido” (Os 2:2). Dessa forma a nação foi colocada de lado.

    Então diz que “se ela, pois, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem”, isso pode se referir a Israel colocando-se sob o poder de outras coisas, isto é, do mundo, da carne e do diabo, no tempo de sua diáspora. Também diz que “seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a tomá-la, para que seja sua mulher”. Isso nos fala do Israel apóstata, que foi colocado de lado e não será novamente recebido para bênção, pois para a apostasia não existe caminho de volta (Hb 6:4-6). No futuro o Senhor irá receber um remanescente de Israel, mas esses não serão a geração incrédula e desprovida de fé que foi colocada de lado.

    Então, no versículo 5, é mencionado o homem “recém casado”. Isso aponta para a nova iniciativa do Senhor quando Israel foi colocado de lado. Essa nova esposa é uma figura da Igreja. Ali diz que ele “não sairá à guerra, nem se lhe imporá qualquer encargo; por um ano ficará livre em casa e promoverá felicidade à mulher que tomou.” O Senhor está hoje cumprindo esse período de “um ano”, por assim dizer. Ele não está saindo “à guerra” e executando Seus juízos como um guerreiro contra Seus inimigos, algo que as Escrituras proféticas dizem que Ele fará em Sua Manifestação (Is 42:13; Ap 19:11). Tampouco vemos o Senhor publicamente lidando com o governo deste mundo (Is 9:6). O principal interesse de Cristo é promover “a felicidade” daqueles que tomou para serem Sua esposa. Ele está no momento engajado em ministrar às afeições de Sua Igreja (Jo 15:9; Ef 5:25-26; compare com Rute 2:13: “me consolaste e falaste ao coração de tua serva”).

    No versículo 7 o assunto muda e passa a considerar “um homem” que roubou ou sequestrou “um dentre os seus irmãos, dos filhos de Israel”, e fez dele mercadoria vendendo-o como escravo. Isso aponta para o fato de que, após o Senhor levar Sua Igreja para o lar na glória, “o homem de pecado” (o Anticristo) se levantará na terra de Israel e roubará os corações das multidões dos judeus (Jo 5:43; 2 Sm 15:1-5). O Anticristo fará com que sejam vendidos à Besta e à adoração de sua imagem — “a abominação desoladora” (Ap 13:11-18; Dn 12:11; Mt 24:15). O juízo é pronunciado sobre o “ladrão” e sabemos que isso virá sobre o Anticristo na Manifestação de Cristo. O Anticristo, juntamente com a pessoa da Besta, será tomado e lançado vivo no lago de fogo (Ap 19:20).

    Os versículos 8 e 9 falam da “praga da lepra”. Considerando que isto vem após a passagem que fala do Anticristo e do que ele fará, estes versículos se referem (dispensacionalmente) à praga da apostasia que se espalhará pela terra de Israel nessa ocasião como consequência do ensino maligno do Anticristo (Mt 24:29; 2 Ts 2:9-12); Ap 8:8-12; 9:1-11). A passagem diz que se algo assim ocorresse na terra, eles deveriam “fazer conforme” ao que havia sido mandado na Lei concernente à lepra — o que significava colocar o leproso fora do arraial (Lv 13:46; Nm 5:1-3). Isso aponta para o juízo que os anjos executarão ao colocarem fora “do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade” (Mt 13:41). Isso também acontecerá na Manifestação de Cristo.

    Então, nos versículos 10 ao 16 o assunto é como o homem “pobre” deve ser tratado — com graça e bondade. Dispensacionalmente, o pobre nos fala do remanescente perseguido de judeus crentes que irá confiar no Senhor naquele dia vindouro (Sl 9:18; 10:2, 8-10; 12:5; 14:6; 35:10; 37:14; 40:17; Mt 5:3, etc.). Eles serão introduzidos na bênção após o Senhor ter tratado com a Besta e o Anticristo.

    Os versículos 17 ao 22 encerram o capítulo com a misericórdia sendo estendida ao “estrangeiro” que entrar na terra e se identificar com os filhos de Israel. Isso demonstra que o povo de Deus não deverá se opor aos gentios que quiserem viver entre eles. Profeticamente isso nos fala dos gentios que se unirão ao Senhor e ao Seu povo Israel (S 47:9; Is 56:3-8; Zc 2:11). Deus irá agir em bênção para com as nações que se submeterem ao Senhor Jesus Cristo no Milênio.

    Mais uma vez este capítulo nos dá uma figura típica da ordem dispensacional das maneiras de Deus em tratar com Israel e a Igreja.

  • Davi é um tipo de Cristo. Ele era o rei de Israel por direito (1 Sm 16:13), mas Absalão se levantou e por meio de seus estratagemas levou a nação a rejeitar a Davi. Do mesmo modo Satanás levou os judeus a rejeitarem a Cristo (Jo 8:44; Lc 22:53). Em rejeição, Davi deixou a cidade de Jerusalém e a terra da Judeia cruzando o ribeiro de Cedrom, indo a “um lugar distante” (2 Sm 15:17). Isso representa o Senhor suspendendo temporariamente suas tratativas com Israel e voltando ao Seu Pai (Jo 16:28). Durante o tempo da rejeição de Davi muitos gentios se identificaram com ele (2 Sm 15:18-22; 17:27-29). Isso nos fala da fé que tem sido encontrada entre os gentios nos dias de hoje durante o chamado da Igreja (At 13:48; 15:14; 28:28; Ef 2:11-13). Seguir a Davi, que foi rejeitado, significa terem de compartilhar de sua rejeição (2 Sm 15:22-17:29). De modo similar, o Senhor disse: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim… Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.” (Jo 15:18, 20).

    Davi aguardou por sua oportunidade de retornar a Jerusalém e colocar as coisas em ordem em Israel. Chegou o momento quando aconteceu uma grande batalha, e os homens de Davi venceram os homens de Absalão, e Absalão foi morto e seu corpo lançado “numa grande cova” (2 Sm 18:17). Isso é uma figura de Satanás sendo lançado no “abismo” (Ap 20:1-3). Enquanto se preparava para retornar à terra de Israel, Davi enviou mensageiros diante de si para provocar o povo tendo em vista o fato de que estava para retornar (2 Sm 19:13). Isso é uma figura dos mensageiros do Evangelho do Reino sendo enviados pelo Senhor para pregar à nação, anunciando que o Rei está voltando (Mt 10:23; 24:14). Isso “moveu o coração” dos “homens de Judá” e fez com que eles pedissem que Davi voltasse: “Volta tu com todos os teus servos” (2 Sm 19:14). Isso ilustra a fé do remanescente judeu em um dia vindouro que irá clamar, “Volta-Te, Senhor, livra a minha alma” (Sl 6:4; 80:14; 90:13 etc.).

    “Então o rei voltou, e chegou até ao Jordão; e Judá veio a Gilgal, para ir encontrar-se com o rei”. Isso ilustra a vinda de Cristo — a Manifestação. É significativo que o povo foi a “Gilgal” encontrar-se com Davi, pois Gilgal nos fala de julgamento próprio (Josué 5). Isso aponta para o fato de que quando o Senhor aparecer, os judeus prantearão em arrependimento ao vê-Lo (Zc 12:9-14). Davi foi recebido pelo povo e então passou a reinar sobre eles como seu rei de direito. Seu reino, e de seu filho Salomão, são uma figura de Cristo reinando no Milênio — primeiro com o Rei guerreiro e depois como o Rei de paz.

  • O livro de Ester começa com Israel vivendo em uma terra estrangeira como consequência do juízo de Deus sobre eles. Isso tipifica Deus colocando de lado os judeus após terem rejeitado e crucificado o Senhor Jesus Cristo.

    O rei Assuero, que governava sobre o mundo de então “desde a Índia até Etiópia” (Et 1:1) é uma figura de Deus que governa sobre o mundo inteiro a partir dos bastidores (Dn 4:17).

    O primeiro capítulo, portanto, nos dá uma imagem do que Deus está fazendo hoje no tempo em que Israel foi colocado de lado. O rei Assuero (tipificando Deus) fez “um banquete a todos… desde o maior até ao menor” (Et 1:1-5). Isso é uma figura da grande festa que Deus tem provido para toda a humanidade no evangelho de Sua graça (Lc 14:16). O objetivo da festa de Assuero era “mostrar as riquezas da glória do seu reino, e o esplendor da sua excelente grandeza”. Do mesmo modo o evangelho nos fala da glória de Deus e das “abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.” (Ef 2:7-8). Assim como a festa de Assuero durou “por muitos dias”, Deus tem estendido o convite para Sua festa por muitos dias — cerca de dois mil anos até agora! Os convidados que aceitaram o convite do rei Assuero e foram à sua festa foram chamados de “nobres e príncipes”. De igual modo, aqueles que aceitam o convite de Deus para o banquete do evangelho são igualmente feitos “reis e sacerdotes” (Ap 1:6).

    Durante a festa o rei proveu “leitos de ouro e de prata” para os convidados descansarem (Et 1:6-8). A prata e o ouro nas Escrituras são símbolos de redenção e justiça divina. Essas coisas dão ao crente um lugar de descanso na salvação e, consequentemente, ele tem paz com Deus e descanso em sua alma (Mt 11:28). Na festa havia também lindos “pendentes” coloridos para o deleite dos convidados. Eles ficavam suspensos do alto por “argolas de prata” e eram uma figura das bênçãos celestiais dos cristãos, que são suas através da redenção (Ef 1:3). Além do mais, o rei serviu aos convidados “muito vinho real”. Isso nos fala do gozo que Deus dá àqueles que recebem e creem no evangelho de Sua graça (Jz 9:13; Sl 104:15; 1 Ts 1:6).

    A rainha gentia “Vasti”, que desfrutava de um lugar muito privilegiado no reino por estar associada publicamente ao rei, foi também convidada para a festa. Seu papel seria contribuir para a glória do rei exibindo ao povo a sua beleza. Mas quando ela foi chamada, “recusou vir”, pois seu coração estava cheio de orgulho e rebeldia (Et 1:9-12). Ela gostava da posição que tinha de estar publicamente associada ao rei, mas não queria nada com sua festa. Vasti é uma figura da Igreja professa, que foi exteriormente identificada com Deus diante do mundo, porém sem possuir uma fé genuína (Ap 18:7).

    No último dia da festa (Et 1:5, 10) a rebeldia de Vasti atingiu o ponto máximo e por causa de sua desobediência e por se negar a se apresentar de uma maneira que pudesse glorificar o rei, ela foi destituída de seu lugar como rainha (Et 1:13-22). Isso é um prenúncio do que irá acontecer à cristandade professa e apóstata no final do Dia da Graça. Quando o Senhor vier (no Arrebatamento) Ele irá destituir publicamente a cristandade ao deixar para trás aqueles que eram meros professos. Ele irá “cuspir” a coisa toda de Sua boca (Ap 3:16). Assim a cristandade será “cortada” e deixada de lado nas tratativas de Deus (Rm 11:17-22). Do mesmo modo como Vasti experimentou “o furor do rei Assuero” (Et 2:1), a cristandade apóstata será julgada por Deus na Manifestação de Cristo.

    O exercício no capítulo 2 de Ester é o de encontrar alguém para ficar no lugar de Vasti. No processo de se buscar uma que pudesse assumir esse lugar é que Ester entra em cena (Et 2:1-7). Ela é uma figura do remanescente judeu que irá se tornar o foco da atenção de Deus depois que a falsa Igreja tiver sido julgada. Isso indica a retomada das tratativas de Deus para com Israel. Por ser órfã, Ester não tinha qualquer suporte neste mundo, e isso descreve muito bem o caráter necessitado dos judeus durante os longos anos de sua diáspora. Eles estarão totalmente privados de Deus. Ester havia sido adotada e criada por Mardoqueu, seu primo. Ele é um tipo de Cristo, que irá cuidar providencialmente do remanescente judeu.

    Antes que Ester pudesse ser introduzida num relacionamento com o rei ela precisava passar por uma purificação (Et 2:8-14). Isso nos fala dos exercícios pelos quais o remanescente judeu terá de passar durante a Grande Tribulação. Durante aquele período eles serão purificados e tornados aptos para receber seu Rei (Dn 12:10; Ml 3:2-4; Zc 13:9). Durante o tempo da purificação de Ester, Mardoqueu não se comunicou abertamente com ela porque seus dias de purificação ainda não tinham terminado. Todavia, ele mantinha grande interesse nela e passava todos os dias pelo lugar onde ela estava para saber a respeito dela. Do mesmo modo, durante a Grande Tribulação, Cristo não se comunicará diretamente com o remanescente judeu, mas irá observar seu progresso com grande interesse (Is 8:17; 18:4; 54:8; Ct 5:6; Gn 42:7; 23-24; 43:30). Ele fará isso até que a obra de arrependimento e purificação tenha sido completada no remanescente, quando então Ele Se revelará a eles (Gn 45).

    No capítulo 3 o rei Assuero promoveu no reino a Hamã, o agagita, e deu a ele “um assento acima de todos os príncipes”. Hamã, que era um adversário dos judeus, é um tipo do Anticristo. Sua promoção no reino prenuncia o tempo quando Deus irá permitir que o Anticristo venha a alcançar um lugar de proeminência e poder na terra. Hamã usava de sua posição para sua própria exaltação e exigia que todos se prostrassem diante dele em reverência. Do mesmo modo o Anticristo irá exigir a adoração de todos (2 Ts 2:3-4). Todavia, Mardoqueu se recusava a prostrar-se diante de Hamã (Et 3:2). Isso trouxe à tona o ódio de Hamã, e ele decidiu “destruir a todos os judeus, o povo de Mardoqueu, que havia em todo o reino de Assuero” (Et 3:5-15). Isso é um prenúncio da terrível perseguição que o Anticristo irá promover na Grande Tribulação em seus esforços para exterminar os judeus tementes a Deus. Hamã tinha dez filhos que aparentemente lhe ajudavam em sua causa (Et 5:11, 14; 9:7-10). Eles são, talvez, um tipo da confederação de dez nações da Europa Ocidental chamada “a Besta”, que irá ajudar o Anticristo a colocar em prática sua perseguição contra o remanescente fiel. O rei deu a Hamã seu “anel”, autorizando-o a levar adiante seu plano maligno (Et 3:10). Isso nos fala de Deus permitindo que o Anticristo promova sua perseguição do remanescente por um tempo determinado. Ele fará assim para testar a realidade da fé do remanescente e aperfeiçoar Sua obra neles.

    No capítulo 4, por causa dos ímpios desígnios de Hamã, a vida dos judeus estava em grande risco. Isso produziu muito pranto e lamento em cada província o império (Et 4:1-3). Trata-se de uma figura da tristeza e profundo exercício de alma que o remanescente judeu experimentará durante a Grande Tribulação. Mardoqueu também “vestiu-se de saco e de cinza, e saiu pelo meio da cidade, e clamou com grande e amargo clamor”. Isso ilustra os sentimentos de Cristo. Ele irá sentir a mais profunda simpatia por todos daquele remanescente que irão passar pelo período de tribulação (Is 63:9). O livro dos Salmos ilustra particularmente os sofrimentos de Cristo em Sua empatia para com o remanescente.

    Sentindo o terrível apuro de seu povo, Ester é encorajada a “que fosse ter com o rei, e lhe pedisse e suplicasse na sua presença pelo seu povo” (Et 4:4-9). Todavia, isso era algo que ela nunca tinha feito antes e temia fazer, pois ninguém podia se aproximar da presença do rei de vontade própria sem ser condenada à morte. Todavia, a lei Persa permitia que o rei estendesse o “cetro de ouro” para a pessoa, o que representa a graça divina, de modo que essa pessoa pudesse viver e não morrer. Isso nos fala da divina graça sendo estendida ao homem (Et 4:10-11). Mardoqueu falou a Ester (por intermédio de “Hatá”) e insistiu com ela para que se aproximasse do rei, pois esse era o único meio de livramento de seu povo (Et 4:12-14). Então, após muita oração e jejum, Ester decidiu se dirigir ao rei (Et 4:15-17). De igual maneira o remanescente, depois de um grande exercício de alma, irá se aproximar de Deus pela fé.

    No capítulo 5 Ester se aproximou do rei “ao terceiro dia”. Isso é uma figura o remanescente judeu, quebrantado e aflito, se aproximando de Deus em oração e súplicas, e obtendo graça em um tempo de grande tribulação. É notável que isso tenha acontecido no terceiro dia. O número três, nas Escrituras, fala de ressurreição (Jn 1:17; 2:10; Mt 12:40; Hb 11:19), e aponta como figura para a ressurreição nacional de Israel (Dn 12:1-2; Ez 37). Nessa ocasião Deus irá intervir a favor do remanescente judeu e trazer livramento a eles (Os 6:2).

    No capítulo 6 o rei viu que era a hora de exaltar publicamente a Mardoqueu e exibi-lo diante de todo o povo em “veste real” e portando a “coroa real”. Isso é uma figura do que acontecerá na Manifestação de Cristo: Deus irá exaltá-Lo publicamente e exibi-Lo diante do mundo na glória do Seu reino (2 Ts 1:10).

    No capítulo 7 o plano maligno de Hamã foi descoberto e ele foi executado. Isso nos fala do Anticristo que será removido de repente de seu posto e destruído quando Cristo vier (Ap 19:20).

    No capítulo 8 a casa de Hamã (sua propriedade) foi dada a Ester e ela, por gratidão, entregou tudo a Mardoqueu. Isso é uma figura dos judeus naquele dia entregando a Cristo o lugar que pertence a Ele por direito (Sl 110:3). Então “tirou o rei o seu anel, que tinha tomado de Hamã e o deu a Mardoqueu.” (Et 8:2). Isso nos fala de Deus dando a Cristo aquele lugar de governo e autoridade na terra que o Anticristo havia usurpado. Compare com Isaías 22:15-25. “Então Mardoqueu saiu da presença do rei com veste real azul-celeste e branco, como também com uma grande coroa de ouro, e com uma capa de linho fino e púrpura” (Et 8:15). Isso é uma figura de Cristo em sua glória oficial do reino. Como consequência os judeus tiveram “alegria, e gozo, e honra”, e isso, evidentemente, se refere ao gozo do remanescente no dia de seu livramento (Et 8:16-17). Nessa ocasião “muitos, dos povos da terra, se fizeram judeus”. De igual maneira, no futuro Milênio “muitas nações se ajuntarão ao Senhor” (Zc 2:11; 8:23; Sl 47:9).

    No capítulo 9 Mardoqueu instituiu uma “festa” (chamada “Purim”) na qual os judeus “descansaram” em todas as províncias do reino. Eles trocaram presentes uns com os outros e tiveram grande alegria, jejuaram e se regozijaram. Isso nos fala do descanso milenial que prevalecerá naquele dia na terra.

    No capitulo 10 “impôs o rei Assuero tributo sobre a terra, e sobre as ilhas do mar” (Et 10:1). Isso nos fala de todas as nações sendo tributárias de Israel (Is 60:5-6, 16; 61:6; Sl 72:10). Nessa ocasião o rei fez “o relato da grandeza de Mardoqueu” (Et 10:2). Isso se refere à exaltação universal de Cristo. Mardoqueu passou o restante de seus dias “procurando o bem do seu povo, e proclamando a prosperidade de toda a sua descendência” (Et 10:3). Isso nos fala e Cristo devotando Suas energias para a bênção de todos em Seu reino milenial.

    O ponto que não queremos deixar passar ao considerarmos estes detalhes é o das figuras que são típicas das mudanças dispensacionais nos desígnios de Deus. Elas começam com Israel como tendo sido colocado de lado por causa de sua infidelidade (Et 1:1-2), e Deus (Assuero) buscando então o favorecimento dos gentios (Et 1:3-9). Quando a cristandade (Vasti) fracassa (Et 1:10-22), Deus passa a lidar com os judeus e levanta deles um remanescente (Ester) para usufruir das bênçãos do reino — embora sejam prejudicados por um curto período de tempo pelo estratagema de Hamã (o Anticristo) (Et 2-10).

  • A história de Jonas é uma bem conhecida figura dos desígnios dispensacionais de Deus. Jonas havia sido escolhido e agraciado com “a Palavra do Senhor” (Jn 1:1). De maneira similar, a nação de Israel foi favorecida com “os oráculos de Deus” (Dt 7:6-8; Rm 3:1-2). A intenção de Deus era que Jonas fosse um vaso de testemunho para os gentios (Jn 1:2). Igualmente a nação de Israel havia sido chamada para ser o vaso de Jeová de testemunho na terra (Dt 32:8; 1 Cr 22:5; Rm 2:17-20).

    Todavia, Jonas se rebelou — e o mesmo fez Israel. Este povo desobedeceu ao Senhor e por isso falhou em representá-Lo diante do mundo (2 Cr 36:14-21; Is 52:5; Ez 36:20; Rm 2:24). A desobediência de Jonas o levou a “fugir” da terra de Israel e acabar sendo lançado ao “mar” (Et 1:3-15). Isso nos fala da nação de Israel afastando-se de Deus e consequentemente sendo dispersa entre os gentios, dos quais o mar é uma figura.

    Quando Jonas foi lançado ao mar, os marinheiros gentios a bordo do navio “temeram, pois, … ao Senhor com grande temor; e ofereceram sacrifício ao Senhor, e fizeram votos” (Jn 1:16). Isso nos fala da obra do Senhor entre os gentios hoje por meio do evangelho. Muitos se converteram a Deus através do evangelho neste tempo presente em que Israel foi colocado à parte. O apóstolo Paulo confirmou isso, ao dizer: “Pela sua queda veio a salvação aos gentios” (Rm 11:11).

    Enquanto isso Jonas passava por dificuldades no ventre do grande peixe no meio do mar. Isso nos fala das tribulações que o povo judeu tem experimentado desde a época em que foram dispersos entre os gentios. É bastante significativo que Jonas tenha se voltado ao Senhor no terceiro dia com orações e súplicas (Jn 1:17-2:1) e foi consequentemente libertado (Jn 2:10). Isso aponta para o que acontecerá a Israel. Oséias 6:2 diz: “Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele.”. Se lermos o Salmo 90:4 e 2 Pedro 3:8, que indicam “que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia”, poderemos interpretar os “dois dias” como indicando que os judeus não retornarão ao Senhor até depois que o atual Dia da Graça tiver expirado, o qual é de aproximadamente dois mil anos.

    O capítulo 2 registra a oração de Jonas no terceiro dia. Ela na verdade tipifica o clamor do remanescente durante a Grande Tribulação. E, assim como aconteceu com Jonas, quando os judeus se voltarem ao Senhor isso resultará em seu livramento. Isso é ilustrado pelo momento em que “falou… o Senhor ao peixe, e este vomitou a Jonas na terra seca” (Jn 2:10).

    No capítulo 3 Jonas foi outra vez comissionado a testificar aos gentios, e estava desejoso de pregar a mensagem que o Senhor queria que pregasse. Isso é uma figura de Israel tendo o desejo de ser usado pelo Senhor (Sl 110:3) e, deste modo, enchendo a terra com o conhecimento do Senhor (Sl 34:11-18; Sl 66:5, 16; Is 11:9; Hb 2:14). Muitos gentios se voltaram ao Senhor através do testemunho de Jonas (Jn 3:5-10). Isso nos fala da conversão dos gentios em um dia vindouro, que acontecerá como resultado do testemunho de Israel (Sl 47:9; Is 45:14; 60:1-14; Ap 7:9).

    O capítulo 4 ilustra o ajuste pelo qual Israel deverá passar naquele dia, para que não mais sejam preconceituosos em relação aos gentios. Isso é importante para que Israel e as nações gentias habitem juntas em paz no reino milenial de Cristo.

    * * * * *Ao analisarmos o material precedente, abordamos os quatro grandes pilares da verdade envolvida no Dispensacionalismo. Também apresentamos um grande número de evidências desta verdade, tanto do Novo quanto do Antigo Testamento. Tendo tantos esboços das Escrituras diante de nossos olhos atestando os desígnios dispensacionais de Deus, nos surpreende que possam existir cristãos que não aceitam a verdade dispensacional. O número de referências na forma de figuras é grande demais para que tivesse sido mero fruto da imaginação. Elas chegam a somar uns cem capítulos de nossa Bíblia!

Como mencionado na Introdução, a maior oposição à verdade dispensacional vem da Teologia do Pacto. Em muitos aspectos essas duas teologias são antagônicas. A Teologia do Pacto é um método de interpretação da Bíblia que está reconquistando a aceitação no mundo cristão atual à medida que declina o entendimento da verdade dispensacional. Dizemos “reconquistando” porque antes de Deus ter dado ao mundo cristão uma completa redescoberta da verdade dispensacional nos anos 1800, a Teologia do Pacto era aceita como a interpretação bíblica ortodoxa pela maior parte da cristandade. Muitos no século 19 viram o erro dessa interpretação e a deixaram de lado. Mas é triste admitir que a verdade dispensacional esteja mais uma vez a caminho de ser deixada de lado nestes dias, e entre os cristãos tem havido uma volta do interesse na Teologia Reformada, que inclui este método pactual de interpretação.

Independente da popularidade da Teologia do Pacto, ela está repleta de erros. Se não fosse pelo fato de tantos cristãos estarem adotando esse erro nem estaríamos preocupados com isso. Todavia, a maior parcela da profissão cristã tem aceitado a Teologia do Pacto no todo ou em parte. Portanto sentimo-nos na responsabilidade de humildemente apontar os erros deste sistema de interpretação, na esperança de que as pessoas sejam libertas dele.

  • A primeira questão é: “O que é a Teologia do Pacto?”. Colocada de forma simples, trata-se de um sistema de interpretação bíblica que enxerga as promessas e profecias do Antigo Testamento como tendo sido cumpridas nos dias de hoje na Igreja. Já que essas coisas não podem ser provadas como tendo acontecido de forma literal, os teólogos do Pacto inventaram um falso princípio de interpretação conhecido como “espiritualização”. Por meio dele assumem que certas declarações nas promessas e profecias do Antigo Testamento já foram ou estão sendo cumpridas hoje espiritualmente ou alegoricamente, ao invés de literalmente.

    Este método de interpretação da Bíblia é chamado de teologia do “Pacto” por ser supostamente baseado nos pactos ou alianças das promessas feitas por Deus a Abraão, Moisés, Davi etc. Ela é construída também sobre dois pactos fictícios que não são mencionados nas Escrituras — o Pacto ou Aliança da Graça e o Pacto ou Aliança das Obras.

    A origem desse sistema pode ser traçada até os primeiros séculos da história da Igreja, quando homens como Agostinho ensinavam algumas dessas coisas. Seus ensinos foram mais tarde transformados em um sistema de doutrina e popularizados pelos reformadores nos anos 1500. Portanto, ela é às vezes também chamada de “Teologia Reformada”, embora suas origens sejam bem anteriores à Reforma Protestante. Trata-se de um método errôneo de interpretação que tem levado muitos amados cristãos a acreditarem em uma porção de coisas que são contrárias às Escrituras.

  • É meio difícil definir exatamente o que todos os teólogos do Pacto sustentam doutrinariamente porque existem algumas variações entre eles. O que vem a seguir é uma declaração genérica do que eles acreditam:

    Os santos do Antigo Testamento, os cristãos e os santos do futuro milênio seriam todos um único povo de Deus, e estariam igualmente abençoados sobre uma mesma base sem distinção, e todos eles seriam a noiva e esposa de Cristo. Os teólogos do Pacto não creem que existirá uma companhia celestial de santos glorificados e abençoados, distinta daqueles abençoados por Deus na terra durante o reino de Cristo. Ao invés disso, todos os de todas as eras que têm fé seriam reunidos em um único povo, e este iria herdar a terra e viver nela juntos durante o Estado Eterno. Todas essas pessoas abençoadas são consideradas como a Igreja. Portanto a Igreja (na ideia deles) é algo que teria começado lá atrás no Antigo Testamento. E a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes (Atos 2) teria sido meramente um reavivamento ocorrido dentro da Igreja.

    No que concerne ao reino de Cristo, alguns teólogos do Pacto são Amilenistas (ou Amilenialistas) e outros Pós-milenistas ou (Pós-milenialistas). Ambos acreditam que estaríamos vivendo agora mesmo no tempo do reino público de Cristo, isto é, naquilo que os dispensacionalistas chamam de “Milênio”. Os Amilenistas ensinam que não haverá um reino literal de Cristo! Ao invés disso eles creem que o reino só existe como algo místico ou espiritual no qual estaríamos vivendo agora. Para eles os eventos proféticos registrados no livro de Apocalipse já teriam acontecido ou estariam acontecendo nos dias de hoje, porém de uma maneira espiritual. Eles creem que o Senhor não irá voltar à terra no sentido literal (o Arrebatamento), mas que Sua vinda seria algo espiritual que ocorre quando o crente morre. No momento da morte o Senhor viria (em espírito) e levaria a alma do crente para o céu. Portanto, a vinda do Senhor já teria acontecido milhares de vezes e continuaria a acontecer sempre que um crente morresse!

    Os Pós-milenistas, por sua vez, acreditam que o Senhor voltará literalmente, mas que isso não é algo iminente. Isso só aconteceria após os cristãos terem evangelizado suficientemente e convertido o mundo a Cristo. Portanto, eles acreditam que o mundo será endireitado pela influência do evangelho, ao invés do juízo, como ensinam as Escrituras (Is 26:9), e que isso iria então se transformar no reino de Cristo. Além disso, acreditam que a Igreja já teria passado pela Grande Tribulação, a qual eles creem ter ocorrido na época da destruição de Jerusalém por Tito e pelos romanos no ano 70 da era cristã. Portanto, a Grande Tribulação não iria acontecer no futuro. Eles ensinam que quando Senhor vier, tanto o Arrebatamento quanto a Manifestação irão acontecer ao mesmo tempo. O Senhor iria ressuscitar os mortos — justos e injustos ao mesmo tempo — levando os justos (com os santos vivos) entre nuvens para se encontrarem com o Senhor nos ares. Ele então os traria diretamente de volta à terra e estariam com o Senhor enquanto Ele julgasse os ímpios que Ele teria também ressuscitado nessa ocasião. Os teólogos do Pacto não percebem que haverá uma seção celestial no reino para os santos glorificados quando Cristo reinar publicamente (Dn 7:18, 22, 27; Mt 13:43).

    No que diz respeito ao atual chamado do evangelho, a Teologia do Pacto confunde o Evangelho da Graça de Deus com o Evangelho do Reino. A consequência é o erro de “reinalizar” a Igreja. A Igreja e o reino são vistos como uma coisa só, e consequentemente, Cristo é chamado de Rei da Igreja e dizem que Ele irá reinar sobre ela. Por considerarem Israel como sendo a Igreja no Antigo Testamento, e a Igreja como o Israel no Novo Testamento, eles acreditam que os cristãos deveriam guardar a Lei. Por isso transmutam falsamente o Sábado para o Dia do Senhor, e insistem que os cristãos devem “observar” e “guardar” o Dia do Senhor como se fosse o Sábado. Como consequência disso, também não veem nenhum problema em adotar métodos e princípios judaicos de adoração que Israel usava nos tempos do Antigo Testamento.

    A Teologia do Pacto ensina também que as promessas para Abraão se cumpriram hoje na Igreja, e que a “nova aliança” ou “novo pacto” que o Senhor prometeu fazer com Israel teria sido feita com a Igreja, pois em seu modo de pensar a Igreja seria o Israel espiritual (Jr 31:31-34).

    Quando você dá um passo para trás e observa isso como um todo, pode até perguntar: “Quem é que iria acreditar numa coisa assim?”. A resposta é vista na figura, ou seja, a maior parte das organizações eclesiásticas cristãs atuais professa essa teologia como parte de sua declaração denominacional de fé!

Com frequência tem sido declarado que um dos testes mais simples para toda doutrina é saber se ela exalta a Deus e ao Senhor Jesus Cristo. Toda sã doutrina, evidentemente, faz isso. Todavia, a Teologia do Pacto não passa neste teste. Além do mais, quando examinada à luz das Escrituras, percebemos que alguns dos princípios básicos da interpretação Bíblia (Hermenêutica) são violados. Quando essas interpretações são analisadas do ponto de vista de suas conclusões lógicas elas se mostram bastante problemáticas. Os pontos a seguir demonstram como esse ensino não exalta a Deus e ao Senhor Jesus Cristo, e até mesmo se opõe a vários princípios fundamentais da interpretação da Bíblia.

  • A Teologia do Pacto REBAIXA o Carater de Deus
    O primeiro e mais importante ponto é que este sistema de ensino rebaixa o caráter de Deus. Deus é mostrado como se tivesse iludido os filhos de Israel ao levá-los a acreditar que haveria um reino literal no futuro, quando segundo essa teologia Deus nunca teria intencionado que isso viesse a existir para eles. E ao longo dos anos Deus não teria sequer tentado corrigir suas falsas expectativas. Desse modo Deus é apresentado como fazendo promessas enganosas que Ele nunca tinha a intenção de cumprir. Isso é rebaixar o caráter de Deus e comprova que a Teologia do Pacto não poderia ser de Deus.

    Deus disse exatamente o que queria dizer, e quis dizer exatamente o que disse — literalmente (Nm 23:19). Quando o Senhor apareceu aos Seus discípulos em ressurreição e eles Lhe perguntaram: “Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?”, Ele não negou que iria restaurar o reino literalmente conforme esperavam. Ele simplesmente disse: “Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder.” (At 1:6-7). O Pai tinha reservado o Seu tempo para introduzir o reino com as bênçãos que o acompanhavam conforme prometera e de forma literal, mas isso aconteceria em algum momento mais tarde. Se não fosse para existir o reino literal o Senhor certamente teria corrigido as expectativas de seus discípulos naquele momento, mas Ele não tentou fazer isso, indicando que suas expectativas eram corretas. O erro deles estava na interpretação do momento em que essas coisas aconteceriam, e o Senhor em graça fez a devida correção.

  • A doutrina da Teologia do Pacto priva o Senhor Jesus da exibição da glória do Seu reino neste mundo (Hc 2:14; 2 Ts 1:10; Ap 1:7), e priva a Deus Pai da satisfação de ver Seu Filho publicamente inocentado no lugar onde Ele foi desonrado (Jo 5:23).

  • O ensino da Teologia do Pacto negligencia as Escrituras que declaram abertamente que o presente chamado da Igreja pelo evangelho, o Mistério revelado, era desconhecido pelos santos do Antigo Testamento (Rm 16:25-26; Ef 3:3-10; Cl 1:25-27). Os teólogos do Pacto dizem que a Igreja era conhecida pelos profetas do Antigo Testamento, que teriam profetizado acerca dela. Mas isso é uma clara negação das patentes declarações das Escrituras de que eles não sabiam nada a respeito. Isso era um “mistério” que estava “oculto” daqueles que viveram nas eras passadas, e que foi revelado somente quando o Espírito de Deus veio habitar na terra na Igreja quando esta foi formada.

    A Teologia do Pacto desconsidera as muitas passagens das Escrituras que falam da verdade dispensacional, conforme discorremos nos capítulos anteriores. A clara evidência dos desígnios dispensacionais de Deus cobre mais de cem capítulos da Bíblia!

  • Esse sistema de ensino posterga ou atrasa a vinda do Senhor, e isso abre a porta para todos os tipos de coisas negativas que impactam a vida do crente de maneira prática (Mt 24:48).

  • A nova Teologia do Pacto rebaixa a Igreja da posição que ela ocupa de uma entidade celestial, com bênçãos distintas que só pertencem a ela (Ef 1:3), à mesma condição dos santos mileniais na terra. As Escrituras ensinam que a Igreja é verdadeiramente uma entidade distinta dentre os grupos de pessoas abençoadas no sistema da graça. Ela é chamada de “igreja dos primogênitos” (Hb 12:22-23). Primogênito é um termo que aponta para aquilo que ocupa o primeiro lugar e de preeminência entre os outros santos de Deus.

    Como já foi mencionado, aqueles que compõem a Igreja são vistos como “filhos” na casa de Deus, enquanto o santo do Antigo Testamento é visto como “menino” e “servo” na casa (Gl 4:1-7). O costume do lar judeu de celebrar um “bar mitzvá” ilustra essa diferença (N. do T.: “bar mitzvá” significa “filho do mandamento” e é também o nome da cerimônia de passagem, quando o menino é considerado adulto e responsável diante de Deus).

    Além disso, Apocalipse 19 mostra a “esposa” do Cordeiro como distinta de outros santos celestiais, que são “aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro”, que compõem o “amigo do Noivo” (Jo 3:29). Sendo a esposa, ela ocupa um lugar especial em relação ao Cordeiro, ao contrário dos outros que não têm esse privilégio. As Escrituras declaram que Deus terá muitas famílias de seres abençoados no céu e na terra, tendo diferentes relacionamentos com Ele — eles não são todos um grupo só (“toda a família nos céus e na terra” em Efésios 3:15 tem o sentido de cada família). Mas nenhum deles ocupa um lugar de favor e proximidade de Cristo como os cristãos que são membros do Seu corpo (Ef 5:23-32).

  • A doutrina da Teologia do Pacto priva o remanescente de Israel de sua herança em sua terra. Ela rouba deles sua esperança nacional. As Escrituras afirmam que a herança de Israel não será retida para sempre. Apesar de seu fracasso, eles receberão uma herança literal em sua terra, “porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rm 11:29).

  • Esse sistema de ensino se desvia dos verdadeiros princípios da exegese bíblica e supõe que por existirem coisas do Antigo Testamento que são citadas pelo Espírito Santo no Novo Testamento, isso significaria que elas teriam se cumprido nos dias atuais na Igreja. Isso é assumir algo que o Espírito de Deus não tinha a intenção de dizer.

    Na verdade, como regra geral, quando uma passagem do Antigo Testamento é citada no Novo Testamento na forma de um cumprimento, isso será informado. Mas quando o Espírito de Deus cita uma passagem do Antigo Testamento no Novo Testamento, porém não diz que se trata de seu cumprimento, faz isso meramente para mostrar o caráter de algo, ou então que o princípio envolvido coincide com os desígnios morais de Deus. Compare João 19:36 com 19:37; Atos 1:16, 20 com Atos 2:16-21; Atos 13:27 com Atos 13:47 etc. A Teologia do Pacto não observa este princípio ao interpretar as Escrituras e infere coisas a partir de várias passagens que não foram citadas com esse objetivo, chegando assim a conclusões errôneas como resultado disso.

    Os teólogos do Pacto também são, com frequência, inconsistentes em seu método de “espiritualizar” as Escrituras. Eles ensinam que as profecias do Antigo Testamento se cumprem alegoricamente nos dias de hoje na Igreja. Todavia muitas passagens do Antigo Testamento se cumpriram literalmente. Isso é impossível de se negar. Tome, por exemplo, as maldições e juízos pronunciados sobre Israel. Se eles não andassem de acordo com suas responsabilidades em seu relacionamento com Deus, conforme ditadas pelas alianças, eram avisados de que seriam destruídos por seus inimigos e levados cativos de sua terra. Essas coisas efetivamente aconteceram; as dez tribos foram levadas para a Assíria e as duas tribos para Babilônia. Além disso, as profecias relacionadas à primeira vinda do Messias — Seu nascimento virginal, Sua vida e ministério, Sua rejeição, Sua morte e ressurreição etc. — foram todas cumpridas literalmente. Os teólogos do Pacto admitem isso.

    Sendo assim, os teólogos do Pacto ensinam que somente algumas profecias do Antigo Testamento se cumpriram de forma alegórica! Mas isso deixa o estudante sério da Bíblia na incerteza. Qual parte da Bíblia deve ser tomada literalmente e qual parte alegoricamente? E que autoridade ele teria para selecionar e escolher uma e não outra? Os teólogos do Pacto dirão que as bênçãos devem ser tomadas alegoricamente, mas que os juízos são literais. Todavia, com que autoridade das Escrituras eles fazem essa distinção qualificadora? Se fosse para ser assim, por que Deus não nos disse isso em Sua Palavra?

    Quando examinamos esta ideia (as bênçãos do Antigo Testamento sendo cumpridas de forma alegórica, porém os juízos de forma literal) descobrimos que muitas vezes tal ideia não tem consistência. Muitas das bênçãos prometidas a Israel foram cumpridas literalmente! Por exemplo, as bênçãos de Deuteronômio 27-31 se realizaram nos dias de Josué e novamente nos dias de Davi e Salomão. Além disso, as bênçãos prometidas de restaurar os filhos de Israel do cativeiro — caso eles se humilhassem — se cumpriram literalmente nos dias de Esdras e Neemias. E mais uma vez os teólogos do Pacto são forçados a admitir isso. Portanto, os parâmetros desse método de interpretação não são seguidos por seus próprios interpretadores. E por que deveríamos pensar que algumas partes do Antigo Testamento se cumprem de forma espiritual ou alegórica quando Deus já nos mostrou como pretende cumprir essas coisas pelo fato de ter cumprido muitas delas de forma literal? Era de se esperar que, se Ele começou agindo dessa maneira, irá continuar a cumprir as profecias que ainda restam de forma literal.

    A interpretação ortodoxa cristã da Bíblia vê um cumprimento literal da Bíblia. Isso não significa que toda palavra ou frase encontrada na Bíblia seja literal, mas o cumprimento dessas coisas é literal. O Espírito de Deus usa muitas figuras e símbolos na Palavra de Deus; não são coisas literais, mas simbolizam coisas que são literais. Por exemplo, as Escrituras falam do “sol” não brilhar e das “estrelas” caindo do céu (Mt 24:29). Isso não poderia ser tomado literalmente. A maioria das estrelas são milhares de vezes maiores que a terra, e se uma delas caísse na terra esta seria imediatamente destruída. Estas coisas obviamente são simbólicas. Elas têm o objetivo de representar que a grande apostasia que o Anticristo irá introduzir resultará na supressão da luz divina (o sol) e da verdade para os homens, e que muitos líderes dentre os homens (as estrelas) irão sucumbir nessas trevas espirituais e abandonar seu conhecimento de Deus. Estas são coisas literais que irão acontecer.

    Os teólogos do Pacto não veem problema em inferir coisas das Escrituras para fazê-las encaixar em sua interpretação. Chamamos a isso de “fator de correção arbitrária”. Um exemplo disso é a invenção dos termos “Pacto das Obras” e “Pacto da Graça” — dos quais as Escrituras não fazem qualquer menção. Eles também dizem que a “nova aliança” (ou “novo pacto” ou “novo concerto”, dependendo da tradução) foi feito no tempo presente com a Igreja. Todavia não existe nada nas Escrituras que ensine isso. Cada vez que é mencionada a Nova Aliança ou Pacto as Escrituras declaram que não é algo que foi feito agora, mas algo que será feito no futuro. O Senhor diz, “estabelecerei uma nova aliança” e não “estabeleci uma nova aliança”. Além do mais, quando essa aliança ou pacto for feita as Escrituras dizem claramente que será “com a casa de Israel e com a casa de Judá” — não com a Igreja (Hb 8:8-12). (Em contraste, as bênçãos cristãs são, via de regra, vistas como possessão presente dos crentes — Ef 1:3-14; “fomos feitos…” — enquanto as bênçãos para Israel na profecia são futuras). O apóstolo Paulo confirma isso declarando que “as alianças” e “as promessas” pertencem aos seus conterrâneos. Ele qualifica com exatidão quem são eles, não deixando qualquer margem para dúvida, ao dizer: “meus parentes segundo a carne, que são israelitas” (Rm 9:3-4). Isso jamais poderia ser interpretado como uma companhia de crentes espirituais dos dias de hoje que tenham sido chamados dentre os gentios, como ensinam os teólogos do Pacto.

    Os teólogos do Pacto rejeitam a ideia de que as promessas feitas a Israel no Antigo Testamento devam ser tomadas literalmente porque a Epístola aos Hebreus demonstraria (segundo sua maneira de pensar) que aquelas coisas tiveram seu cumprimento em coisas espirituais que agora temos no cristianismo. É verdade que a maneira de se aproximar de Deus no Antigo Testamento — por meio de formas, cerimônias e rituais — cedeu lugar a um “novo e vivo caminho” no cristianismo, e que esse novo caminho é uma ordem de coisas espirituais, não literais (Hb 10:19-22). O autor da epístola deixa bem claro que toda aquela ordem exterior de adoração encontrada no Antigo Testamento deve ser entendida figuradamente no cristianismo (Hb 9:9). Todavia muitos capítulos nessa epístola mencionam também que existem coisas que ainda estão por se cumprir em conexão com Israel, as quais são distintas das coisas espirituais que temos no cristianismo. São coisas literais. Portanto, a própria epístola aos Hebreus, que os adeptos da Teologia do Pacto tentam usar na tentativa de provar que não haverá nada de literal se cumprindo para Israel no futuro, diz sim que haverá.

    Por exemplo, em Hebreus 4 o autor menciona que “resta ainda um repouso para o povo de Deus” (Hb 4:9). Isso se refere a algo que irá ocorrer depois que terminar o tempo do cristianismo na terra. Tem a ver com um dia futuro quando o Senhor introduzirá o Seu povo em seu descanso final. Além disso, os capítulos 5-7 falam do sacerdócio de Cristo sendo segundo a ordem de “Melquisedeque”. Este é um aspecto futuro e milenial de Seu sacerdócio, quando Ele irá reinar como rei e sacerdote, e um remanescente de Israel será abençoado por Ele (Zc 6:13; Sl 110:1-4). No capítulo 8 o autor de Hebreus mostra que a Nova Aliança será estabelecida “com a casa de Israel e com a casa de Judá”. O Senhor insiste que isso ainda não foi feito, mas que é algo que irá fazer no futuro (“Estabelecerei…” Hb 8:8-12).

    Além disso, Hebreus 9 menciona dois “tempos” distintos que não devem ser confundidos — “o tempo presente” (Hb 9:9) e “o tempo da correção” (Hb 9:10). O tempo atual tem a ver com o cristianismo hoje, mas o tempo de corrigir todas as coisas tem a ver com a nova organização da terra no reinado público de Cristo. O versículo 11 segue falando “dos bens futuros”. Isso não poderia estar se referindo ao cristianismo, pois ele tinha acabado de explicar no versículo 9 que as coisas cristãs são coisas para “o tempo presente”. Esses bens futuros são as bênçãos de Deus para Israel em um dia vindouro. O capítulo 10 menciona o Novo Pacto ou Aliança mais uma vez, e deixa claro que é algo que Ele ainda fará com Israel no futuro (“Esta é a aliança que farei com eles depois daqueles dias” Hb 10:16). No capítulo 12 temos a promessa de que o Senhor irá abalar “não só a terra, senão também o céu” (Hb 12:26-29), o que se refere ao tempo quando Seus juízos cairão sobre a terra. Sabemos das Escrituras dos Profetas que essas coisas serão entendidas por Israel quando eles forem restaurados ao Senhor e abençoados em Seu reinado público.

    O ponto que queremos frisar em tudo isso é que ainda existe algo que virá para Israel no futuro. Portanto, enquanto a Epístola aos Hebreus ensina que o cristianismo é uma aproximação espiritual e celestial de Deus pelo Espírito Santo, isso não significa que as bênçãos literais prometidas a Israel sejam nulas e sem efeito.

    É inconsistente para os teólogos do Pacto ensinarem que o Antigo Testamento deve ser interpretado num sentido alegórico ou espiritual que teria se cumprido no cristianismo de nossos dias, pois quando se chega à eclesiologia da Teologia do Pacto (a doutrina e prática da igreja) eles adotam em muitas maneiras a ordem literal e exterior da adoração de Israel como padrão para seus cultos de adoração! Se tudo era para ser “espiritualizado” agora no cristianismo, por que adotam tantas dessas coisas literais e as incorporam em sua adoração cristã?

    A seguir temos uma lista de algumas coisas que as igrejas que seguem a Teologia do Pacto emprestaram do judaísmo do Antigo Testamento e praticam literalmente.
    • Templos e catedrais literais como lugares de adoração.
    • Uma casta especial de homens para oficiarem em favor da congregação.
    • Instrumentos musicais para auxiliar na adoração.
    • O uso de um coral.
    • O uso de incenso para criar uma atmosfera espiritual.
    • Vestes religiosas para os “Ministros” e membros do coral.
    • Um altar literal (não sacrificial).
    • A prática do dízimo.
    • Observância de dias santos e festas religiosas.
    • Registro dos nomes e censo da congregação.

    É verdade que muitas dessas práticas judaicas foram alteradas para serem adaptadas ao contexto cristão, mas elas continuam trazendo os paramentos do judaísmo.

    Outro exemplo de como a Teologia do Pacto se afasta dos sãos princípios da exegese bíblica está na inversão do significado de “Israel” do Antigo para o Novo Testamento. Isso causa uma ruptura na revelação progressiva da verdade nas Escrituras. Outro grande princípio da interpretação da Bíblia — que estudantes da Bíblia fariam bem em observar — é que novas revelações nunca contradizem as revelações já dadas. Um conceito no Antigo Testamento não pode ser usado para significar o oposto no Novo Testamento, caso contrário a Bíblia estaria cheia de contradições. À medida que as Escrituras iam sendo escritas, Deus dava uma medida adicional de luz em certos assuntos, mas essas novas revelações nunca contradiziam as anteriores. As Escrituras desdobram a verdade como um prédio que está sendo construído; primeiro é lançado o alicerce, depois é acrescentada uma estrutura etc. Uma coisa é construída sobre a outra, e cada nova coisa adicionada não destrói o que veio antes. Portanto, não pode ser (como supõe a Teologia do Pacto) que a nação de Israel, que é algo literal no Antigo Testamento, perca sua literalidade no Novo Testamento.

    O Israel literal do Antigo Testamento não se transforma alegoricamente na Igreja do Novo Testamento. Quando a ideia é colocada à prova descobrimos que não encontra sustentação nas Escrituras. No livro de Atos Israel continua sendo chamado como a nação literal de Israel em contraste com os gentios — e isso foi depois de a Igreja ter sido estabelecida (At 3:12; 4:8, 10; 5:21, 31, 35; 21:28). Romanos 9-11 confirma isso. O termo “Israel” é usado em diversas ocasiões nesses capítulos para os descendentes naturais de Abraão (“parentes” de Paulo “segundo a carne”), mas nunca para uma companhia de pessoas chamadas dentre os gentios. Além disso, se aquilo que os teólogos do Pacto ensinam concernente a Israel fosse verdade, então a oração de Paulo por Israel não faria sentido: “O bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação” (Rm 10:1). Por que iria ele orar para que cristãos fossem salvos (caso a Igreja fosse Israel) se já estão salvos? Além do mais, se Israel e Igreja são uma mesma companhia de pessoas, não haveria necessidade de Paulo fazer distinção entre ambos, como ele faz em 1 Coríntios 10:32, onde diz: “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus.”. Estas passagens provam que a palavra “Israel” não teve seu significado alterado no Novo Testamento; ela continua a ser usada para os descendentes naturais de Abraão, mesmo depois de a Igreja ter começado. E as Escrituras tampouco chamam a Igreja de “novo Israel”, como os teólogos do Pacto tomam a liberdade de fazê-lo.

    Estas coisas são “non-sequitur”. Um “non-sequitur” é quando uma conclusão não decorre de premissas estabelecidas. Trata-se de um salto na lógica do raciocínio de alguém que acaba concluindo algo que não pode ser fundamentado. Por exemplo, “Sou um homem da raça humana, e como nessa raça os homens envelhecem e seus cabelos ficam grisalhos, e quanto mais velhos mais grisalhos ficam, PORTANTO sou mais velho que o José porque meu cabelo é mais grisalho que o dele”. Mas uma conclusão assim não é correta, pois José é vinte anos mais velho que eu, apesar de seu cabelo continuar preto. É triste afirmar, mas a Teologia do Pacto está marcada por esses non-sequitur em suas interpretações equivocadas das Escrituras.

    A maneira correta e adequada de se manusear as Escrituras é demonstrada pelo apóstolo Paulo. Como vemos em Atos 17:2, ele discutia “com base nas Escrituras” (NVI) ou “tirando argumentos das Escrituras” (Tradução Brasileira). Ele não argumentava introduzindo pensamentos nas Escrituras com noções preconcebidas, mas tirava seus pensamentos de dentro das Escrituras.

  • A Teologia do Pacto desafia a lógica em muitas de suas interpretações. Quando submetidas à lógica muitas de suas “espiritualizações” não fazem sentido. Não importa a maneira que você escolhe para interpretar algumas das coisas que eles ensinam — alegoricamente, espiritualmente etc. — seria bem difícil convencer alguém de que isso é mesmo verdade. Por exemplo, os teólogos do Pacto nos dizem que já estamos agora mesmo no reino público de Cristo. Mas as descrições que as Escrituras fazem de Seu reino em poder indicam que Cristo irá governar com vara de ferro (Ap 2:27), e que a justiça irá encher o mundo todo (Is 32:1-19). Além disso, Satanás e seus anjos caídos serão aprisionados no abismo e não conseguirão sair para enganar as nações (Is 24:21-22; Ap 20:1-3). Acrescente-se a isso que o juízo será executado a cada manhã contra os que pecarem (Sl 101:8; Sf 3:5), e também que o reino animal, os leões e ovelhas, se deitarão juntos etc. (Is 11:6; 65:25 etc.).

    Será que devemos crer que a justiça reina neste mundo hoje? Ao contrário, a injustiça está em todo lugar! Será que Satanás hoje se encontra mesmo aprisionado? Seu trabalho maligno pode ser visto em cada nação e modo de vida. Será que o juízo realmente cai sobre os que praticam o mal a cada manhã com atestam as Escrituras? (Os teólogos do Pacto poderão “espiritualizar” isto, mas então estariam indo contra seu ensino que afirma que no Antigo Testamento os juízos são literais). E o que dizer do reino animal vivendo em paz? Se eles dizem que o leão e a ovelha estão deitados juntos hoje espiritualmente, o que isso poderia significar?

  • A Teologia do Pacto destrói os tipos e figuras das Escrituras. Ela descarta como mera ficção a beleza das figuras dispensacionais, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, que mostram o afastamento temporário de Israel e a presente interposição do chamado celestial da Igreja, antes de Deus retomar suas tratativas com o remanescente de Israel para introduzi-los nas bênçãos do reino milenial. Essas figuras representativas cobrem mais de cem capítulos de nossa Bíblia!

  • A Teologia do Pacto quebra a ordem dos eventos proféticos. Exceto, talvez, pela vinda do Senhor e pela condenação final dos ímpios no lago de fogo, ela nos diz que as profecias do Antigo Testamento e do livro de Apocalipse já se cumpriram! Portanto não existiria um período de sete anos de Tribulação por vir, nenhum Armagedom etc.!

    Outro exemplo dessa confusão é a ideia de que quando o Senhor vier, o Arrebatamento e a Manifestação ocorreriam ao mesmo tempo. Todavia as Escrituras indicam que isso é impossível, já que existem muitas coisas que devem ocorrer entre o Arrebatamento e a Manifestação. O Senhor deve primeiro nos levar para a casa do Pai (Jo 14:2-3), e nos fazer assentar à Sua mesa e nos servir com felicidade celestial (Lc 12:37). Ele irá então assumir Seu lugar no Tribunal de Cristo e revisar a vida de cada um (2 Co 5:10, etc.). Depois disso haverá um tempo de adoração ao redor do trono no céu, e lançaremos nossas coroas aos Seus pés (Ap 4-5). Em seguida acontecerão as bodas do Cordeiro (Ap 19:7-8) e então a ceia que se segue (Ap 19:9). Essas coisas seriam impossíveis de acontecer no curto espaço de tempo que a interpretação da Teologia do Pacto sugere.

    Além disso, se a vinda do Senhor para julgar “os vivos e os mortos” (2 Tm 4:1; 1 Pe 4:5) ocorresse no final do reino de Cristo, quando a Igreja tivesse supostamente convertido o mundo todo a Deus, quem dentre os vivos seria julgado nessa ocasião?

    É difícil de acreditar, mas os teólogos do Pacto acham que a profecia já se cumpriu de alguma forma mística ou espiritual! Como poderiam eles explicar, em um sentido espiritual, o Anticristo sentando-se no templo e declarando ser Deus? (2 Ts 2:3-4). E como poderiam eles interpretar espiritualmente a volta das tribos de Israel à sua terra e fazer com que isso signifique algo lógico? (Dt 30:1-5; Is 10:20-22; 11:11-13; 26:19; 27:12-13; 35:10; 49:8-26; 66:19-20; Jr 30-33; 46:27-28; Ez 20:34; 34:11-16; 36:16-38; 37:1-28; Dn 12:2; Os. 6:1-3; 14:1-9; Mq 4:6-7; 5:3; Zc 8:7-8; Am 9:14-15; Sl 68:22; Sl 120-134; Lv. 23:24-25 – “a Festa das Trombetas”). Poderíamos fazer ainda muitas outras perguntas para enfatizar este ponto.

Os teólogos do Pacto também confundem o reino com a Igreja, e consequentemente usam frases sem fundamento bíblico, como “O reino da Igreja”. Todavia, o reino não é sinônimo da Igreja pelas seguintes razões:
  1. Primeiro, o reino em mistério abrange um período de tempo maior que o da Igreja na terra. Ele é mais longo em sua duração, tendo iniciado dez dias antes do início da Igreja, quando o Senhor voltou para o céu (Lc 19:12; At 1:9-11). E também irá continuar na terra depois que a Igreja tiver sido levada para o céu (no Arrebatamento) até o final do período de sete anos de Tribulação.
  2. Segundo, o reino é mais extenso que a Igreja, no que concerne aos que participam dele. Como temos visto, o reino no momento atual possui tanto “joio” (meros professos) como “trigo” (verdadeiros crentes), enquanto a Igreja é constituída apenas de crentes verdadeiros. As pessoas podem se associar a uma assim chamada “igreja” denominacional e terem seus nomes no rol de membros, mas se não tiverem sido verdadeiramente salvas pela fé em Cristo elas não fazem parte da verdadeira Igreja de Deus. Portanto é possível que alguém esteja no reino, mas não na Igreja.
  3. Terceiro, Cristo é Rei em Seu reino e nós somos seus servos, mas as Escrituras nunca dizem que Ele seja Rei da Igreja. Ele é Cabeça da Igreja e os crentes são membros do Seu corpo (1 Co 12:12-13; Cl 1:18).
  4. Quarto, Mateus 16:19 nos diz que Pedro recebeu “as chaves do reino dos céus”. Essas não são as chaves da Igreja, mas do reino. Elas são o batismo e o discipulado. Por meio destas duas coisas é que uma pessoa entra no reino de forma exterior. Mas para entrar na Igreja de Deus — o corpo de Cristo — ela deve nascer de Deus e ser selada com o Espírito Santo (Jo 3:5; 1 Co 12:12-13; Ef 1:130.
  5. Finalmente, na comunhão da Igreja devemos excluir o fermento por meio da excomunhão da pessoa ou pessoas nas quais for encontrado pecado (1 Co 5:11-13). No reino dos céus (em mistério) os que fazem o mal e o fermento não são removidos, mas é permitido que sigam adiante “até à ceifa” (Mt 13:28-30).

Existe algo mais que precisa ser colocado diante de nossos leitores nesta exposição da Teologia do Pacto. Precisamos examinar algumas das passagens das Escrituras que os teólogos do Pacto dizem terem se cumprido hoje na Igreja, e mostrar como foi que eles chegaram às suas interpretações errôneas. Essas passagens são encontradas no livro de Atos e nas epístolas, e são citações das Escrituras do Antigo Testamento. Um olhar mais apurado irá demonstrar que elas não são um cumprimento daquelas profecias do Antigo Testamento, mas foram citadas apenas para mostrar que o caráter de algo que ocorreu na Igreja está em conformidade com a maneira de Deus lidar com os homens, isto é, o objetivo foi mostrar que Deus mantém seus padrões morais.

A maioria desses erros de interpretação ocorre por quem não “maneja [gr.: ‘disseca’] bem a palavra da verdade” (1 Tm 2:15), e isola um versículo ou parte de um versículo fazendo sua “particular interpretação” (2 Pe 1:20) que não se encaixa no restante das Escrituras. Somos alertados pelo apóstolo Pedro que viriam aqueles que se levantariam na profissão cristã e seriam “indoutos e inconstantes” na verdade, que “torcem” os ensinos das Escrituras (1 Pe 3:15-16). “Torcer” significa deformar, enrolar ou desviar-se do significado ou uso correto. Isto é exatamente o que os teólogos do Pacto têm feito com muitas passagens do Novo Testamento a fim de fazê-las encaixar em seu sistema errôneo de ensino. Homens assim podem até possuir uma coleção de diplomas na parede, mas são bem “indoutos” (2 Pe 3:16), como pessoas que “aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade” (2 Tm 3:7).

Se a doutrina do Pacto fosse verdade, existiria na Palavra de Deus um lugar especialmente designado para ensinar essas coisas aos cristãos. Considerando que não estamos falando aqui de alguma pequena nuance no entendimento, mas de todo um sistema de ensino que diz respeito a muitas coisas envolvidas na compreensão de alguém do programa de Deus para o futuro deste mundo, Deus teria devotado ao menos uma epístola no Novo Testamento para tratar do assunto. Existiria um lugar nas Escrituras onde a comunidade cristã ficaria bem informada de que não haveria uma restauração literal de Israel, e que Israel teria se transformado na Igreja, que não haveria um reino milenial por vir etc. Mas não encontramos nada disso em nossa Bíblia, e nem podemos encontrar, pois se trata de um erro.

O melhor que os teólogos do Pacto podem fazer para dar suporte ao seu sistema de ensino da Palavra de Deus é apontarem para uma frase isolada de Paulo ou de algum outro autor do Novo Testamento. Mas invariavelmente são versículos obscuros e isolados, ou partes de versículos. E se eles não nos deixaram claro seu significado, não é provável que alguém pudesse usá-los para construir seus próprios pensamentos. Isso mostra claramente que a Teologia do Pacto é uma “particular interpretação” (2 Pe 1:20). Isto deve servir de alarme para o estudante consciencioso da Bíblia.

Como contraste, temos demonstrado nos capítulos iniciais deste livro que a verdade dispensacional é exposta à exaustão no Novo Testamento e ilustrada em muitas figuras do Antigo Testamento. Existe uma tão grande abundância de evidências da ordem dispensacional do programa de Deus nas Escrituras que é de surpreender que alguém pudesse querer contestar.

As páginas a seguir apresentam alguns exemplos desses erros de interpretação que são tirados de versículos isolados e obscuros do Novo Testamento.

  • Os teólogos do Pacto ensinam que a promessa que Deus fez a Abraão — de que pessoas de “todas as famílias da terra” seriam abençoadas como “filhos” de Deus mediante a fé (Gn 12:1-3; 13:14-16; 15:5-6) — estaria se cumprindo hoje. Por conseguinte, os cristãos seriam israelitas espirituais. Os versículos que usam do Novo Testamento para supostamente provar isso são apresentados nos próximos tópicos.

    “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti. De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão.” Gálatas 3:7-9, 29

    Segundo entendemos, nas Escrituras os cristãos nunca são chamados de “filhos” de Abraão. Aqueles de quem Paulo está falando nesta passagem — que são abençoados “da fé” — são crentes descendentes de Abraão (Jo 8:39) e gentios crentes no reino milenial de Cristo. Dizer que Gênesis 12:1-3; 13:14-16; 15:5-6 se referem a cristãos é o mesmo que dizer que a Igreja é mencionada no Antigo Testamento, o que as Escrituras (e os Dispensacionalistas) negam categoricamente. “Todas as famílias da terra” (Gn 12:3) e “os gentios” (Gl 3:8) são gentios que serão abençoados com Israel no futuro. Esses não poderiam ser a Igreja, pois estão designados como “famílias da terra” e a Igreja, como já observamos, é uma companhia especial de crentes cuja origem e destino são celestiais. Além disso, a expressão “…são benditos com o crente Abraão” (Gl 3:9) demonstra que está falando de uma bênção terrena, pois as bênçãos que foram prometidas a Abraão e sua família eram terrenas.

    Paulo corrigiu esse equívoco dos Gálatas a respeito de quem seria a “semente” ou “descendência” de Abraão em Gênesis 13:15 e 22:18, mostrando que não se trata dos descendentes naturais de Abraão, mas do próprio “Cristo” (Gl 3:16). Ele toma o cuidado de indica que, quando a promessa foi feita, era para a “semente” (singular) de Abraão, não para suas “sementes” (plural). A ausência da letra “s” muda totalmente o significado. Portanto, Gênesis 13:15 e 22:18 se referem ao Senhor Jesus Cristo que viria da posteridade de Abraão. Ele é um descendente direto de Abraão (Mt 1:1; Lc 3:34). Não saberíamos disso lendo o relato em Gênesis, mas o Espírito de Deus nos mostrou isso aqui em Gálatas 3:16. O ponto a ser observado na passagem é que Deus prometeu abençoar “todas as nações” ou “famílias da terra” (judeus e gentios igualmente) “da fé”, ou sobre o princípio da fé. É a única maneira de pessoas serem abençoadas, sejam israelitas, gentios ou cristãos. Todavia, o povo em particular ao qual o apóstolo está se referindo ao ilustrar seu argumento é aquele formado pelos israelitas e gentios redimidos que entrarão no reino milenial.

    Paulo segue falando do lugar especial de bênção que os cristãos têm (como parte da Igreja) na última porção de Gálatas 3, em contraste com Israel e os santos do milênio. O versículo 26 declara que os cristãos são “filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus”. A distinção entre crentes judeus e gentios nessa nova posição desaparece, o que já não é o caso com os santos terrenos no Milênio. Na Igreja de Deus “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3:28). Como já observado em um capítulo anterior, a expressão “em Cristo” denota a posição do cristão diante de Deus no Cristo ressuscitado. Ela significa literalmente ocupar o lugar de Cristo diante de Deus. Mas existe algo mais, e isto pelo fato de o cristão fazer parte dessa raça de homens da nova criação sob Cristo, e é o que o versículo 29 declara, ou seja, que o crente também é “de Cristo”. Isto significa que na nova criação somos da mesma substância de Cristo. Somos “todos de um” juntamente com Ele, sendo do mesmo tipo que ele, e assim somos Seus “irmãos” (Hb 2:11-12; Rm 8:29). O ponto que Paulo quer frisar aqui é que, uma vez que Cristo é a “semente” ou “descendência” de Abraão (Gl 3:16), e nós estamos “em Cristo” e somos “de Cristo”, somos também “semente de Abraão” em virtude de nossa vívida união com Cristo. Somos semente ou descendência de Abraão por meio de nossa conexão com Cristo. É apenas neste sentido que Abraão poderia ser visto como “pai de todos os que creem” (Rm 4:11).

    Portanto, os judeus e gentios que irão crer e herdar a terra são “filhos” de Abraão, mas os cristãos são “semente” ou “descendência” de Abraão. Os judeus e gentios terrenos “são benditos com o crente Abraão” (Gl 3:9), mas os cristãos são abençoados “com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1:3). Como já observado, estas são duas esferas totalmente diferentes de bênção — uma terrenal e a outra celestial.

    É verdade que Paulo usa a palavra “descendência” (ou semente) num sentido literal em Romanos 9:7 e 2 Coríntios 11:22 para designar os descendentes naturais de Abraão, mas em Gálatas 3 ele usa a palavra para falar de Cristo, e de todos os que estão “em Cristo” e são “de Cristo”.

  • “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.” Romanos 2:28-29

    Esta passagem tem sido usada para dizer que os cristãos seriam judeus espirituais, por ter ocorrido neles uma obra interna de fé em suas almas. Essa ideia equivocada resulta de se tirar os versículos de seu contexto. Trata-se de um exemplo clássico de não “manejar (gr. “dissecar”) bem a palavra da verdade” (2 Tm 2:15). A compreensão do esboço básico da epístola aos Romanos e de suas várias seções corrigiria esse equívoco num instante. Tal compreensão iria mostrar que nesta parte Paulo não está falando de cristãos, mas de judeus em sua configuração natural como judeus na economia judaica. Ele não introduz aqui as bênçãos do evangelho e a salvação da alma mediante a fé (mencionadas no capítulo 1:16), o que só fará ao chegar aos capítulos 3:21-5:11. Nesta seção anterior da epístola (Rm 1:18-3:20), onde nosso texto é encontrado, o apóstolo está mostrando a total depravação de toda a raça humana. Ele enxerga a raça humana como estando em três classes — o gentio degradado (Rm 1:19-32), o gentio culto (Rm 2:1-16), e o judeu esclarecido (Rm 2:17-3:8). Paulo conclui que todos os três estão necessitados de salvação (Rm 3:9-20). Então, nos capítulos 3:21-5:11, ele introduz o remédio de Deus que é encontrado no evangelho, recontando as muitas bênçãos que este assegura àquele que crê.

    Romanos 2:28-29 se encaixa em um lugar da epístola onde Paulo está demonstrando que, mesmo tendo sido os judeus favorecidos por estarem “exteriormente” conectados com Abraão, e por possuírem “os oráculos de Deus” (as Escrituras do Antigo Testamento), e também por possuírem uma religião dada por Deus (o judaísmo), se não tivessem fé ao praticarem aquela religião, os seus privilégios e a circuncisão de nada adiantariam no que diz respeito ao seu destino eterno. Portanto, os israelitas que viveram nos tempos do Antigo Testamento, precisavam ter fé — precisava ter existido uma obra “no interior” de suas almas — a fim de ter algum significado para Deus. O ponto que Paulo tentava frisar era que ser judeu exteriormente não era suficiente.

    As pessoas acham que esta passagem esteja ensinando que todo cristão é um judeu, mas na verdade o que ela está ensinando é que nem todo judeu é judeu! Um verdadeiro judeu na religião dos judeus deveria ter fé (Rm 9:6-8). Como mencionado, o evangelho e as bênçãos que este oferece e pelo qual uma pessoa se torna cristã, nem sequer entra no assunto de Paulo até ele chegar ao capítulo 3:21. Até esse ponto da epístola ele está estabelecendo a necessidade do judeu de ir a Cristo e ser salvo. Portanto, Romanos 2:28-29 não está sequer falando de cristãos. Entender o contexto da passagem esclarece esse equívoco imediatamente.

  • “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne.” Filipenses 3:3

    Os teólogos do Pacto acreditam que, uma vez que a palavra “circuncisão” aparece nesta passagem aplicada a cristãos, isso provaria que os cristãos seriam judeus espirituais. O problema aqui está em não entender a palavra “circuncisão”, que é usada de diferentes maneiras nas Escrituras. É verdade que ela é também usada para se referir a israelitas naturais (At 10:45 11:2; Rm 15:8; Gl 2:7-9; Cl 4:11; Tt 1:10), mas esta não é a única maneira como a palavra é utilizada. Por exemplo, em Colossenses 2:11 ela se refere à morte de Cristo na cruz. A passagem diz: “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo”. Circuncisão significa “cortar fora”. Neste caso ela se refere a Cristo sendo cortado fora na morte (Is 53:8). E na passagem em questão (Fp 3:3) ela é usada para descrever aqueles (cristãos) que aceitaram o fim da primeira ordem do homem segundo a carne na morte de Cristo.

    O apóstolo estava alertando os Filipenses contra os que haviam entrado na profissão cristã e estavam promovendo o primeiro homem sob a lei. Eram mestres judaizantes, os quais ele chamou de “concisão” (Fp 3:2 JND ou “falsa circuncisão” ARA). A palavra “concisão” significa “não cortar fora”. O apóstolo está fazendo um apelo condizente com aqueles judaizantes que promoviam uma linha de ação que essencialmente ia contra cortar fora a primeira ordem do homem segundo a carne. Ao contrário deles, Paulo identifica os cristãos como “circuncisão”, pois o cristianismo normal inclui aceitar o fim do homem segundo a carne na morte de Cristo. Ao usar o termo “circuncisão” Paulo estava falando figuradamente do terreno no qual o evangelho coloca o crente, como tendo dado um fim à primeira ordem do homem. Seu argumento era que se os cristãos aceitassem o que a “concisão” (os mestres judaizantes) estava oferecendo, acabariam negando o verdadeiro terreno do cristianismo. Paulo jamais poderia estar dizendo que os cristãos são judeus, pois ele ensinava ampla e exaustivamente que os cristãos não são nem judeus, nem gentios (Gl 3:28; Cl 3:11).

  • “E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus.” Gálatas 6:16

    O termo “Israel de Deus” (Gl 6:16) é usado pelos seguidores da Teologia do Pacto como prova de que os cristãos seriam israelitas espirituais. Isso é mais uma vez uma mera menção feita por Paulo que precisa ser colocada no contexto a fim de ser corretamente entendida. Tirar três ou quatro palavras de um versículo e construir em torno delas uma doutrina não passa de uma fraca teologia.

    O que então quer dizer esta frase? Ela se refere àqueles da nação de Israel (israelitas de nascença) que foram salvos pela graça de Deus e agora são parte da Igreja (Rm 11:5). O artigo “e” na frase “e sobre o Israel de Deus” distingue os crentes judeus dos que pertencem à companhia dos cristãos. Paulo faz menção deles no final da epístola porque o cerne de suas observações ao longo da carta tinha sido de reprimenda aos cristãos por estarem adotando a Lei de Moisés e introduzindo princípios legalistas no cristianismo. Ele queria que fosse demonstrada uma “misericórdia” especial para com seus conterrâneos (judeus convertidos) que tinham antecedente israelita. Se por um lado não havia desculpa para cristãos gentios por natureza adotarem a Lei, Paulo queria que os santos das assembleias da Galácia fossem pacientes com aqueles dentre eles que tinham ascendência judaica e demoravam a abandonar as amarras do judaísmo. Ele sabia que não era fácil para quem tinha sido criado naquele sistema deixar de lado tudo de uma só vez (Lc 5:39), e por isso era preciso demonstrar paciência para com eles (Rm 14:1-6). A epístola aos Hebreus é testemunha disso.

  • Deus prometeu abençoar os gentios por meio de um chamado evangelístico (Is 42:1-8; 49:3-8; 52:7; 55:1-5). Os teólogos do Pacto nos dizem que aquela promessa está se cumprindo hoje no chamado do Evangelho da Graça de Deus (At 20:24). As passagens do Novo Testamento que usam para tentar provar isso são Atos 13:46-47, 2 Coríntios 6:2 e Romanos 10:15.

    ATOS 13:46-47 — Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios; porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te pus para luz dos gentios, A fim de que sejas para salvação até os confins da terra.”

    Paulo e Barnabé estavam pregando o evangelho da graça de Deus aos judeus e prosélitos gentios em Antioquia da Pisídia. Mas quando os judeus rejeitaram a mensagem, Paulo citou Isaías 49:6, discernindo daquela passagem o que ele e Barnabé deveriam fazer naquela situação — o objetivo era alcançar os gentios com aquela mensagem de graça.

    Os teólogos do Pacto nos dizem que Atos 13:47 seria o cumprimento de Isaías 49:6 pois esta passagem é citada em Atos. Todavia, como já mencionamos, existe uma regra geral de que quando uma profecia do Antigo Testamento se cumpre no tempo do Novo Testamento o texto diz que é isso que está acontecendo. Todavia, não existe tal declaração em Atos 13:47. Dizer que se trata de um cumprimento da profecia quando o Espírito Santo não faz menção a isso é violar um dos princípios básicos de interpretação bíblica. Além disso, Isaías 49:6 não está falando de evangelistas cristãos recebendo um chamado para pregar o Evangelho da Graça de Deus aos gentios, e nem está falando do remanescente de judeus fiéis que no futuro receberão um chamado para pregar o Evangelho do Reino aos gentios. Um exame atento da passagem mostrará que ela tem a ver com uma palavra de encorajamento ao Senhor Jesus quando Ele foi rejeitado por ocasião de Sua primeira vinda (Is 49:4-5). Quando os judeus O rejeitaram, Deus prometeu a Jesus que em um dia futuro Ele não apenas seria recebido pelos preservados”, que constituirão o remanescente de judeus, mas também pelas dez tribos de Jacó”. E mais que isso, o Senhor seria uma bênção para milhões de gentios” que seriam introduzidos no reino nessa ocasião. (Ap 7:9). A passagem em Isaías indica que os judeus e as dez tribos devem ser restauradas ao Senhor antes que a bênção à qual Isaías estava se referindo em conexão com os gentios fosse realizada por eles. Isso obviamente ainda não aconteceu. Isso mostra que o que Isaías estava dizendo não poderia ser a mesma coisa que está acontecendo hoje na pregação do Evangelho da Graça de Deus. O chamado atual é algo diferente, ainda que esteja alinhado com o modo de proceder de Deus. É por isso que Isaías é citado aqui em Atos 13.

    Paulo estava apenas fazendo uso de Isaías 49:6 (que textualmente se refere ao Senhor Jesus) para sua própria senda de serviço. Da passagem ele extraiu o ensino de que deveria ir aos gentios com o Evangelho da Graça de Deus porque os judeus haviam voltado suas costas para sua mensagem. Paulo acreditava que o Senhor lhe havia enviado neste sentido, considerando o princípio que está envolvido naquele versículo.

    • “Porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação”.

      Os teólogos do Pacto nos dizem que, por Paulo haver citado Isaías 49:8 em 2 Coríntios 6:2 em conexão com a pregação do evangelho nestes tempos da era cristã, isso provaria (para eles) que Isaías 49 estaria se cumprindo hoje, e que a bênção prometida para os gentios em Isaías 49 estaria sendo realizada em nossos dias em algum sentido espiritual por aqueles que creem.

      Volto a repetir que o Espírito de Deus não diz que este versículo é um cumprimento, portanto aventurar-se a dizer que é não passa de uma afirmação infundada. A passagem em Isaías 49:9 não está falando do chamado de Deus para obreiros cristãos pregarem o evangelho. Isaías estava falando profeticamente do encorajamento dado por Deus ao Messias de Israel (o Senhor Jesus) quando Ele foi rejeitado em Sua primeira vinda (Is 49:4; Jo 1:11). Deus prometeu a Ele naquela ocasião que Sua oração concernente à salvação de Israel seria ouvida em “tempo aceitável” (Is 49:8) — o que ocorrerá em Sua segunda vinda — na Manifestação de Cristo (Sl 110:3). Aquele dia será um “dia da salvação” para o remanescente de Israel. Deus irá operar para sua bênção e prometeu assistir o Senhor nessa realização. Paulo faz uma aplicação a partir de Isaías 49:8 para encorajar cristãos a se ocuparem em servir no tempo presente quando o Evangelho da Graça de Deus está sendo pregado. O ponto que Paulo quer ressaltar é que podemos contar com a assistência de Deus nesta obra de modo similar (compare com Marcos 16:20). Ele coloca diante dos olhos dos coríntios a passagem como um encorajamento para eles se envolverem no “ministério da reconciliação” (2 Co 5:18-20) “na qualidade de cooperadores” (2 Tm 6:1 ARA) com ele e Timóteo.

      Portanto, o “dia da salvação” ao qual Isaías estava se referindo não é este presente dia da salvação, mas um tempo futuro em conexão com a bênção de Israel. Todavia, o princípio contido no versículo é válido para todas as épocas, pois Deus está profundamente interessado em alcançar os gentios com o evangelho, tanto agora como num dia vindouro. Por esta razão a passagem é mencionada em 2 Coríntios 6.

    • “E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas”.

      Os teólogos do Pacto dizem que, uma vez que Isaías 52:7 (que tem a ver com a salvação e bênção de Israel) é citado neste versículo de Romanos 10 em conexão com a pregação do evangelho hoje, então isso provaria que aqueles que creem no evangelho hoje se tornam israelitas espirituais.

      Volto a repetir que Romanos 10 não declara que Isaías 52:7 estaria se cumprindo nos dias de hoje. Paulo citou o versículo do Antigo Testamento para mostrar que é um privilégio anunciar “o evangelho” e trazer “alegres novas” de salvação para o povo. As boas novas mencionadas em Isaías 52:7 são aquelas que os arautos judeus irão anunciar em um tempo futuro ao povo que tiver sido deixado na terra de Israel após o Rei do Norte a ter devastado (Dn 11:40-42). Sua mensagem será que o Messias voltou e está prestes a estabelecer Seu reino em justiça, e assim salvar Seu povo de seus inimigos que terão destruído sua terra. Paulo estava fazendo uma aplicação daquele versículo de Isaías, pois, independente de ser cristã a mensagem que anuncia as boas novas da obra consumada de Cristo na cruz ou, no caso dos judeus, as boas novas de que Cristo terá voltado para estabelecer Seu reino, em ambos os casos deve ser considerado um privilégio poder anunciá-las.

  • Deus prometeu fazer uma “nova aliança” ou concerto com Israel sobre o princípio da graça, da qual os gentios poderiam se beneficiar e ser abençoados (Jr 31:31-34; Is 56:1-7). Os teólogos do Pacto nos dizem que essa aliança foi inaugurada pelo Senhor na Última Ceia (Mt 26:28), e que tem sido feita hoje com todos aqueles que Ele redime com Seu “sangue”. Considerando que os cristãos são redimidos com o sangue de Cristo (1 Pe 1:18; 1 Jo 1:7; Ap 1:5), eles concluem que a Nova Aliança, Pacto ou Concerto foi feito com os cristãos, isto é, com a Igreja. Além disso, já que o apóstolo Paulo afirma que ele e seus colaboradores eram “ministros de um novo testamento” (2 Co 3:6), isso confirmaria (na ideia deles) que a Nova Aliança realmente teria sido feita com a Igreja. Vamos examinar mais de perto estes versículos.

    MATEUS 26:28 — “Porque isto é o meu sangue; o sangue do novo testamento (ou nova aliança), que é derramado por muitos, para remissão dos pecados.”

    Não há qualquer menção aqui de que o Senhor tendo inaugurado a Nova Aliança nessa ocasião. Tampouco Paulo mencionou qualquer coisa sobre ela estar sendo inaugurada quando ele citou as palavras do Senhor em 1 Coríntios 11:24-25. E nem o Senhor disse que a aliança estaria sendo feita com todos os que Ele iria redimir com Seu sangue. Trata-se de um caso evidente de inferir coisas no texto que simplesmente não estão ali. Tais suposições são um exemplo de como os teólogos do Pacto constroem premissas falsas e, a partir delas, tiram conclusões equivocadas.

    O Senhor não estava falando de fazer a Nova Aliança naquela ocasião, mas sim de derramar Seu “sangue” de modo que a aliança pudesse ser feita em algum momento no futuro, sem que Ele especificasse quando. Ao beberem do cálice em recordação na festa que o Senhor estava instituindo, Ele queria que os discípulos se lembrassem do custo da redenção deles — que é representado pelo sangue. Seria válido perguntar: “Então por que razão o Senhor mencionou a Nova Aliança naquele momento?”. Porque a Ceia foi originalmente estabelecida como uma festa de recordação para Seus discípulos judeus que estavam aguardando pelo estabelecimento do reino na terra. Para isso era preciso que fosse feita uma Nova Aliança. As bênçãos do reino, prometidas no Antigo Testamento, seriam cumpridas para Israel como consequência de sua restauração ao Senhor e da celebração de uma Nova Aliança com eles. Ao mencionar “o sangue do novo testamento (ou aliança)” o Senhor estava prometendo que a aliança seria feita, mas sem especificar quando. Se o fundamento para a aliança ou pacto tinha sido estabelecido no derramar de Seu sangue, os discípulos podiam descansar assegurados de que essa aliança seria feita em algum momento. Isso dava aos discípulos uma esperança certeira.

    Naquela ocasião o cristianismo ainda não tinha começado. A Ceia não tinha sido introduzida na esfera cristã até que Israel tivesse sido formalmente colocado de lado (Atos 7). Foi só então que o apóstolo Paulo ensinou o significado do “paõ” como representando o corpo místico de Cristo (1 Co 10:16-17).

    • “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.”

      Considerando que o apóstolo Paulo declara que ele e seus colaboradores eram “ministros de um novo testamento” ou “aliança”, os seguidores da Teologia do Pacto dizem que isso prova que a Nova Aliança foi feita com a Igreja. Paulo era um cristão vivendo em tempos cristãos e ministrando a cristãos as coisas da Nova Aliança. Na mente dos seguidores da Teologia do Pacto nada poderia ser mais conclusivo.

      Os teólogos do Pacto, porém, não perceberam que a mesma passagem na qual Paulo diz “ministros de um novo testamento” ele qualifica essa declaração acrescentando “não da letra, mas do espírito”. Isto é significativo. A “letra” da Nova Aliança será realizada com Israel. Ela se refere ao cumprimento literal de suas condições em um dia futuro quando um remanescente será salvo e introduzido no reino. O “espírito” da Nova Aliança, por outro lado, se refere ao princípio da graça sobre a qual as bênçãos da aliança são dadas aos crentes. O “espírito” da aliança pode ser aplicado a todos os que são ou serão abençoados por Deus em graça — inclusive a Igreja. Paulo ministrava o “espírito” da Nova Aliança entre cristãos ao ensiná-los que as bênçãos espirituais da aliança pertenciam a eles por graça, sem que eles estivessem formalmente incluídos nelas. As três grandes bênçãos espirituais da Nova Aliança são:
      • A posse da vida divina (Hb 8:10).
      • Um relacionamento consciente com o Senhor (Hb 8:11).
      • O conhecimento de que os pecados estão perdoados (Hb 8:12).

      Estas bênçãos da Nova Aliança não são exclusivamente para o Israel redimido; cristãos e gentios convertidos também desfrutarão delas durante o Milênio. Nas epístolas aos Romanos, Colossenses e Efésios o apóstolo Paulo desvenda nossas bênçãos distintas como cristãos — o escopo dessas bênçãos é muito mais elevado em caráter e substância. Essas coisas são exclusivamente cristãs, e são ditas como estando “em Cristo” — o Salvador ressuscitado assentado à destra de Deus — e são feitas nossas pela habitação do Espírito Santo (Rm 3:24; Ef 4:32; Gl 2:16-17; 2 Co 1:21-22; Ef 2:13; 1 Co 1:2; Rm 6:23; Rm 8:1-2; Gl 3:26; Ef 1:10-11; Gl 6:15; Rm 12:5). (Isso foi mencionado no capítulo dois). Os cristãos compartilham das bênçãos da Nova Aliança com toda a família e Deus, sem estarem formalmente sob a Nova Aliança. Eles são nascidos de novo (1 Pe 1:23; 1 Jo 5:1); eles estão em um relacionamento consciente com Deus, sendo filhos em Sua família (Jo 1:12; 1 Jo 3:1) e conhecem o perdão de pecados (At 13:38; 1 Jo 2:12).

      Em 2 Coríntios 3:6 Paulo acrescenta: “a letra mata”. Se ele (ou nós) aplicasse a Nova Aliança conforme a letra, ela destruiria o caráter celestial da vocação cristã e a distinção entre Israel e a Igreja. Portanto, o evangelho pregado no cristianismo, não é a Nova Aliança, mas é conforme a ordem da Nova Aliança, que é graça.

      Romanos 9:3-4 declara nitidamente a quem “as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas” pertencem — a Israel, não à Igreja. Caso alguém tenha entendido errado a quem Paulo estava se referindo, ele qualifica sua observação dizendo “meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne; que são israelitas”. Ao dizer “segundo a carne” ele os identifica como descendentes naturais de Abraão. Repare isto cuidadosamente: a epístola aos Romanos foi escrita cerca de 30 anos depois da formação da Igreja, todavia Paulo declara que a aliança e as promessas, etc., ainda pertenciam a Israel segundo a carne — elas não tinham sido transferidas para a Igreja. Se tal coisa tivesse ocorrido, Paulo teria mencionado aqui. Ninguém de sã consciência poderia deduzir disso que Paulo estaria se referindo aos fictícios “israelitas espirituais” que seriam os cristãos que os teólogos do Pacto inventaram.

      Além disso, a vocação celestial da Igreja deveria mostrar que as Alianças não se aplicam a ela. As Alianças têm a ver com aterra e com um povo terreno; a Igreja é algo celestial que pertence ao céu.

    • “Repreendendo-os, lhes diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, em que com a casa de Israel e com a casa de Judá estabelecerei uma nova aliança, não segundo a aliança que fiz com seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; como não permaneceram naquela minha aliança, eu para eles não atentei, diz o Senhor. Porque esta é a aliança que depois daqueles dias farei com a casa de Israel, diz o Senhor; porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; e eu lhes serei por Deus, e eles me serão por povo; e não ensinará cada um a seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior. Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais.”

      Os teólogos do Pacto acreditam que seja significativo que quatro epístolas do Novo Testamento mencionem a Nova Aliança — e Hebreus menciona os seus termos em detalhes. Para eles isso provaria que a Nova Aliança teria sido feita nestes tempos cristãos com a Igreja, pois as epístolas foram escritas a cristãos. Todavia, nenhuma das quatro passagens das epístolas diz qualquer coisa sobre a aliança estar sendo feita com a Igreja (os cristãos). Ao contrário, Romanos 11:27 e Hebreus 8:8 nitidamente declaram que ela será feita “com a casa de Israel e com a casa de Judá”. Além disso, Hebreus 8 declara que a aliança ainda não foi feita com ninguém — nem com Israel e nem com a Igreja! O verbo está no futuro, ao indicar, “estabelecerei…”. Não diz “estabeleci…”, pois como regra geral, as bênçãos para Israel são declaradas como algo ainda futuro. É como o Senhor indica, ao dizer, “estabelecerei…”. Em contraste, as bênçãos cristãs são mencionadas no tempo presente — “temos…”. Uma leitura cuidadosa de Hebreus 8 indica que a aliança ainda não tinha sido feita com Israel na época em que a epístola foi escrita, isto é, na era cristã. A leitura desatenta da passagem faz com que os seguidores da Teologia do Pacto a distorçam para dizer que foi feita com a Igreja. Este é um exemplo de se torcer as Escrituras, que significa desviá-las de seu significado ou do uso para o qual foram designadas. (2 Pe 3:15-16).

      O foco do ensino na epístola está em mostrar que a primeira aliança é agora velha e “perto está de acabar” (Hb 9:13), e por isso não é aplicável a cristãos que possuem “um novo e vivo caminho” de se aproximarem de Deus com base na obra consumada de Cristo (Hb 10:19-2). O objetivo de mencionar a “nova aliança” no texto de Hebreus estava em mostrar que a antiga aliança iria acabar. Este é o raciocínio: se existe uma nova aliança a ser feita, então fica claro que a velha deve desaparecer — e com ela toda a ordem de coisas que lhe pertencia. Portanto, o objetivo de falar da Nova Aliança em Hebreus não foi para ensinar que ela teria sido feita com a Igreja, mas para demonstrar que a primeira ordem de coisas debaixo da antiga aliança tinha sido agora colocada de lado. A epístola toda gira em torno do estabelecimento deste fato.

      A razão de ela ser chamada de “nova” aliança implica que seria feita com aqueles que tinham a velha aliança. Por exemplo, você não iria procurar alguém com quem nunca firmou nenhum contrato e dizer “Vamos fazer um novo contrato”. Para poder fazer um “novo” contrato com alguém seria necessário ter antes feito um contrato prévio. É óbvio que a Nova Aliança será com aqueles que tiveram a velha (Rm 9:4; Ef 2:12). A Igreja nunca esteve debaixo da velha aliança em nenhum sentido; ela nem sequer existia quando a velha aliança foi feita! Sendo assim, com base em quê poderia existir uma “nova” aliança com a Igreja?

    • “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados. E também o Espírito Santo no-lo testifica, porque depois de haver dito: Esta é a aliança que farei com eles depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis em seus corações, e as escreverei em seus entendimentos; acrescenta: E jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades.”

      Pode-se argumentar que, apesar de Hebreus 8 não afirmar que a Nova Aliança seja feita com cristãos, Hebreus 10 certamente o faz. Isso é verdade até onde o assunto for sua aplicação. Como já foi mencionado nos comentários de 2 Coríntios 3:6, os cristãos desfrutam das bênçãos da Nova Aliança sem estarem sob a Nova Aliança, pois o sangue que irá purificar o remanescente de Israel de seus pecados é o mesmo sangue que foi derramado para os cristãos. Sendo assim, nós, à semelhança deles, temos o testemunho do Espírito naquilo que Ele escreveu na Palavra de Deus em conexão com o perdão de nossos pecados. Portanto, a expressão “jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades” pode ser aplicada a todos os filhos de Deus que por fé descansam na obra consumada de Cristo. Apesar de ela poder ser aplicada a cristãos, a interpretação estrita da passagem de Jeremias 31:34 se refere ao Israel redimido. “Eles”, em Hebreus 10:16, se refere a Israel, não aos cristãos.

      O versículo 9 deste capítulo 10 de Hebreus diz, “Tira o primeiro, para estabelecer o segundo”. Repare mais uma vez que não diz que Ele tenha estabelecido o segundo, mas que Ele tem a intenção de fazer isso em algum momento no futuro. Vivemos em um tempo entre as duas alianças; o chamado da Igreja é um parêntese celestial em meio às tratativas de Deus com Israel.

    • Os Evangelhos, o Livro de Atos, as Epístolas e o Apocalipse formam uma divisão em nossas Bíblias chamada de “Novo Testamento”. Já que no grego é usada uma mesma palavra para “testamento”, “pacto”, “concerto” ou “aliança”, os teólogos do Pacto apontam para este título como outra ‘prova’ de que a “Nova Aliança” teria sido feita com os cristãos.

      Certamente esta parte da Bíblia é chamada assim, mas quem lhe deu este nome? Não foi Deus, mas os homens. O título não é inspirado. Por ocasião de sua tradução os homens colocaram este título por estarem sob a influência do próprio ensino que estamos expondo aqui. Nós chamamos essa parte de “Novo Testamento” porque este foi o nome convencionalmente aceito para esta parte da Bíblia, mas não é um título correto de maneira alguma.

      Querer usar o título “Novo Testamento” como argumento para apoiar a Teologia do Pacto não é a melhor estratégia para aqueles que professam esse erro. A posição dos teólogos do Pacto é que não existiria uma distinção entre Israel e a Igreja. Eles acreditam que Israel seria a Igreja no Antigo Testamento e que a Igreja seria Israel no Novo. Para serem coerentes com essa posição eles deveriam insistir que a Bíblia não poderia ter duas partes distintas, pois enxergam o cristianismo apenas como a fase final do judaísmo do Antigo Testamento. Em certa medida qualquer um que faça distinção entre o Antigo e o Novo Testamento é um dispensacionalista!

    • Será que o derramar do Espirito sobre Israel, prometido no Antigo Testamento, se cumpriu na Igreja?
      Deus prometeu derramar Seu Espírito sobre toda carne que confessa o nome do Senhor (Jl 2:28-32; Is 44:1-3; Ez 36:27). Os teólogos do Pacto nos dizem que isso se cumpriu na formação da Igreja.

      ATOS 2:14-21 — Esta passagem tem sido apresentada na tentativa de provar que a profecia de Joel 2 se cumpriu na Igreja atual. Todavia o apóstolo Pedro não disse que o que aconteceu naquele dia tenha sido o cumprimento da profecia de Joel. Ele disse “isto é o que foi dito pelo profeta Joel”. Era algo no caráter do que tinha sido dito. Afirmar que se tratou do cumprimento da profecia é inferir da passagem algo que não está ali.

      Existe outra razão pela qual sabemos que aquela profecia não se cumpriu. As coisas previstas em Joel 2 em conexão com o derramar do Espírito não aconteceram. Os judeus não foram atacados pelo invasor do norte e não tiveram a intervenção do Senhor para serem libertados do destruidor. Além do mais, Joel disse que naquele dia os judeus na terra se voltariam em massa para o Senhor e a nação seria restaurada a Ele. Nada disso aconteceu.

      Os cristãos são as “primícias do Espírito”, sendo hoje habitados pelo Espírito Santo (Rm 8:23; At 5:32; Rm 5:5; 1 Ts 4:8; Tg 4:5) antes da época quando o Espírito será derramado sobre toda carne, como declara Joel.

    • O templo que o Senhor prometeu construir no Antigo Testamento teria sido construído espiritualmente hoje na Igreja?
      Deus prometeu construir outra casa para Israel — além dos templos que Salomão e Zorobabel construíram — no qual os gentios teriam um lugar (2 Sm 7:12-13; Is 56:3-7; Am 9:11-12; Zc 6:12-15). Os teólogos do Pacto nos dizem que essa promessa se cumpriu na Igreja. As passagens das Escrituras que utilizam na tentativa de provar isso são:

      1 PEDRO 2:5“Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo”. Considerando que Pedro diz que os crentes hoje são “casa espiritual”, os teólogos do Pacto se acham na liberdade de afirmar que esta seja a casa que Deus prometeu construir para Israel.

      Que os cristãos são vistos como casa espiritual de Deus hoje ninguém iria negar (At 4:11; Ef 2:20-22; 1 Pe 2:5-7), mas onde terão os seguidores da Teologia do Pacto conseguido autoridade para dizer que a casa da qual Pedro estava falando seria aquela que Deus prometeu construir para Israel? Eles certamente usaram o matemático “fator de correção” para chegarem a essa conclusão. É verdade que Pedro estava escrevendo para seus compatriotas que eram judeus, mas eles tinham sido salvos para fora daquela posição e agora faziam parte da Igreja de Deus.

      É verdade que uma “casa espiritual” tem sido edificada nos dias de hoje em Cristo, mas não é verdade que esta casa seja aquela que Deus prometeu construir para Israel quando o reino milenial for estabelecido.

      • “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens”. Os teólogos do Pacto assumem a partir desta afirmação que Deus já não irá habitar em um templo literal, como Ele fez antes no Antigo Testamento. Por conta disso acreditam que seria um erro pensar que Deus iria edificar um templo físico para a nação de Israel.

        Paulo não estava dizendo que Deus jamais voltaria a ter Sua presença conhecida em um templo literal, mas que agora, neste tempo presente, quando o cristianismo está exercendo seu papel, Deus não está reconhecendo quaisquer lugar físico de habitação sobre a terra — nem em Jerusalém, nem em qualquer templo pagão. Ezequiel 43:1-5 declara que a presença do Senhor voltará a preencher o novo templo que será construído no Milênio.

        Surpreende-nos que os teólogos do Pacto possam achar que Ezequiel 40-48 — que dá instruções detalhadas para a construção de outro templo e do lugar de Israel em sua terra — poderia se referir à Igreja. Ezequiel 38-39 indica que antes de ser construído, Israel será atacado por um inimigo do “extremo norte” (“Gogue”, que é a Rússia), o qual o Senhor irá destruir. Considerando que uma pessoa é feita parte da Igreja — a casa de Deus (1 Tm 3:15) — quando crê no evangelho, a quem exatamente Gogue iria atacar? Estariam os teólogos do Pacto dizendo que, uma vez que o ataque ocorre antes de a casa ser construída, seria esse contra os que ainda não foram salvos? Como o inimigo poderia saber quais indivíduos neste mundo iriam crer no evangelho para atacá-los?

        Deveria estar claro para todos que o Israel literal não se converteu ao Senhor Jesus Cristo, e nem foi ainda atacado por Gogue (Rússia). Portanto, os eventos dos últimos capítulos de Ezequiel devem estar todos no futuro. Além disso, se os teólogos do Pacto realmente acreditam que Ezequiel 40-48 seja uma descrição da Igreja (em algum sentido espiritual), como é que eles interpretam todas aquelas dimensões físicas dadas nos mínimos detalhes nesses capítulos? Se alguém permitisse que sua imaginação se esticasse ao ponto de “espiritualizar” essas coisas, elas acabariam se tornando irreais e absurdas. Os últimos capítulos do livro de Ezequiel lançam os teólogos do Pacto num enigma que eles gostariam de não ter de solucionar.

      • AMÓS 9:11-12“Naquele dia tornarei a levantar o tabernáculo caído de Davi, e repararei as suas brechas, e tornarei a levantar as suas ruínas, e o edificarei como nos dias da antiguidade; para que possuam o restante de Edom, e todos os gentios que são chamados pelo meu nome, diz o Senhor, que faz essas coisas.”

        Considerando que Tiago citou esta passagem em conexão com os gentios sendo salvos e introduzidos na Igreja, mais uma vez costuma-se pensar que aquela edificação do tabernáculo de Davi seria algo espiritual e não literal.

        Tiago não disse que isso era o cumprimento de Amós 9, mas o que ele disse foi: “… e com isto concordam as palavras dos profetas” (At 15:15). Este é mais um exemplo de não se ler uma passagem em seu contexto. A razão pela qual Tiago citou Amós 9 foi para mostrar que aquilo se enquadrava na maneira de Deus agir, no sentido de que a bênção deveria alcançar os gentios sem exigir que eles fossem circuncidados. Era este o tópico das discussões deles. Tiago citou Amós 9 do modo como está na versão Septuaginta, que diz: “Para que o restante dos homens busque ao Senhor, e todos os gentios, sobre os quais o meu nome é invocado” (At 15:17). Isso demonstra que as nações que confessarem o nome do Senhor no Milênio não precisarão ter a circuncisão imposta sobre elas. Tendo isso em vista, Tiago deu sua opinião sobre o assunto. Se a circuncisão não será exigida dos gentios naquele dia futuro, então eles não deveriam impor isso sobre os crentes gentios hoje no Dia da Graça. Tiago meramente aplicou o princípio da passagem de Amós 9 para a situação que se apresentava ali, pois “com isto concordam” (At 15:15). Isso trouxe luz quanto ao modo de agir em relação à circuncisão dos gentios, e “pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja” (At 15:22).

        SALMO 118:22“A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina”. Considerando que este versículo foi citado por Pedro em Atos 4:11 e em 1 Pedro 2:7 os seguidores da Teologia do Pacto concluem que ele esteja falando da Igreja.

        Todavia, não por isso que Pedro citou o Salmo 118. Ele citou para mostar que Cristo seria rejeitado pelo Seu povo antes de ser recebido por eles.

      • “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina”. Considerando que este versículo foi citado por Pedro em Atos 4:11 e em 1 Pedro 2:7 os seguidores da Teologia do Pacto concluem que ele esteja falando da Igreja.

        Todavia, não por isso que Pedro citou o Salmo 118. Ele citou para mostrar que Cristo seria rejeitado pelo Seu povo antes de ser recebido por eles.

        Seria a Igreja o Reino Milenial de Cristo hoje?

        Deus prometeu estabelecer Cristo no trono de Davi, onde Ele reinaria sobre todas as nações em Seu reino (2 Sm 7:13-18; Jr 33:15-17; Sl 110:1; Lc 1:30-33). Considerando que hoje Cristo está sentado no trono de Deus (At 2:30-36; Hb 10:12-13) os teólogos do Pacto concluem que Ele estaria atualmente reinando em Seu reino. Por isso acreditam que nós estaríamos no período que os dispensacionalistas chamam de “Milênio” nos dias de hoje — com a diferença de sua duração ser de muito mais que mil anos. Eles insistem que esse reino não é visível e nem literal, por causa do que o Senhor disse: “O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós.” (Lc 17:20-21). Apesar de Apocalipse 20:4 dizer que “viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” eles interpretam esses mil anos no sentido alegórico.

        Este é mais um caso de “non-sequitor”. Ele mistura verdade e erro, levando a conclusões equivocadas. É verdade que hoje Cristo está sentado no trono de Deus, e é verdade que Ele já “recebeu” Seu reino (Lc 19:12, 15), e também que os cristãos estão nesse reino agora (Cl 1:13). Todavia, os teólogos do Pacto erram por não enxergarem que o reino possui duas fases. O Senhor ensinou que, uma vez que fosse rejeitado, o reino passaria primeiro para uma fase mística, antes que ocorresse uma manifestação pública dele (Mt 13:10-17; 37-43). Na mesma passagem em que o Senhor ensinou que o reino não viria naquela época “com aparência exterior”, Ele também ensinou que haveria um tempo quando o reino do “filho do Homem” seria “revelado” em “Seu dia” do modo como os judeus esperavam por ele nas profecias do Antigo Testamento (Lc 17:22-37; Dn 7:13-14). Hoje o reino se encontra em sua fase mística, mas quando Cristo se manifestar em poder e juízo ele estará em seu estado manifesto, e todos o verão pois então será algo literal. Estas duas fases podem ser identificadas pela letra “M”.

        O reino em mistério (Mt 13:11).
        O reino em manifestação (1 Jo 3:2).

        As fases podem ser também identificadas pela letra “P”.
        O reino em paciência (Ap 1:9).
        O reino em poder (Mc 9:1).

        Portanto, existe uma fase presente e uma fase futura do reino dos céus. Das trinta e três vezes que a expressão “reino dos céus” é usada nas Escrituras, vinte e quatro se referem ao reino em sua fase mística presente; as outras nove tem a ver com o reino e sua manifestação pública e futura. Como foi observado nos esboços dispensacionais em Mateus, a manifestação pública do reino, prometida pelos profetas do Antigo Testamento, está presentemente em suspenso e não será estabelecida até um dia futuro (isto é, no Milênio).

        Cada uma dessas fases do reino dos céus tem seu ponto de partida. A parábola em Lucas 19:11-12 indica isso. A fase do mistério começou quando o Senhor Jesus Cristo ascendeu aos céus depois de Sua morte e ressurreição. É o que indica a parábola em Lucas 19:11-12. Ele é visto no “homem nobre” (o próprio Senhor) viajando para um “país distante” (o céu) e recebendo “um reino” (At 1:9-11; Sl 110:1). Mais tarde o homem nobre voltou para a prestação de contas de seus servos, aos quais haviam sido confiadas certas responsabilidades, e recompensou aqueles que foram fiéis. Isso acontecerá no Arrebatamento. O servo que demonstrou não ter fé — e provou isso escondendo sua “mina” na terra — foi julgado (Lc 19:20-27). Isso acontecerá àqueles no reino que não tiverem fé por ocasião da Manifestação de Cristo, quando os anjos sairão para arrancar esses de entre os justos (Mt 13:38-42; 24:37-41). Assim, o ponto de partida do reino em sua forma manifestada em poder e glória (conforme é apresentado no Antigo Testamento) ocorrerá na Manifestação de Cristo (Dn 2:35; 7:13-14; Ap 11:15).

        O reino atualmente possui um caráter de mistério por não parecer que existe um reino manifesto. Pelo que se pode ver exteriormente nada indica que Deus esteja agindo neste mundo. O reino existe no presente momento em uma forma mística ou misteriosa pois:

        Ele não possui um Rei visível.
        Ele não possui uma sede geográfica na terra.
        Ele não possui quaisquer fronteiras nacionais.
        A maioria dos que professam fazer parte dele não reconhecem a autoridade do Rei e vivem como se não existisse um Rei.

        Independente destas particularidades, a fé enxerga o Rei (o Senhor Jesus Cristo) em Seu trono hoje em Seu reino. Como bons súditos em um reino, a fé leva o crente a viver em conformidade com os princípios de Sua Palavra — conforme é dada no Sermão da Montanha (Mt 5-7) — até que o reino passe à sua fase manifesta. Deve ser observado que ainda não é feita referência ao Senhor como estando em Seu trono em sua fase de manifestação pública (Ap 3:21); Ele está no momento presente assentado no trono de Seu Pai (Sl 110:1; Hb 10:12).

        Tanto os teólogos do Pacto como os Dispensacionalistas concordam neste atual aspecto místico do reino, mas os teólogos do Pacto não enxergam o que se segue a isso. Todavia, ao crerem que não haverá um reino literal de mil anos ainda futuro cria mais problemas e questões do que os teólogos do Pacto gostariam de ter para lidar. Como já mencionado, tal ideia desafia a lógica quando consideramos que muitas das interpretações da Teologia do Pacto são obtidas por meio de conclusões lógicas. Por exemplo, se já estivermos no reino (milenial) agora, como se interpretar espiritualmente as muitas descrições do reino nas Escrituras sem cair em algo por demais fantasioso — e até risível. Não importa a maneira que alguém decida interpretar essas descrições do reino de Cristo — alegórica ou espiritualmente — elas não fazem qualquer sentido. Seria difícil convencer alguém de que isso seja realmente verdade. Este é um aspecto da Teologia do Pacto que seus teólogos preferem não tocar, pois suas interpretações “espiritualizadas” beiram o ridículo.

        Os teólogos do Pacto também fazem uso de Gálatas 4:4-5, juntamente com Efésios 1:10, para dar suporte à ideia de que a Igreja está presentemente no reino público de Cristo (isto é, o Milênio). Gálatas 4 fala da vinda do Senhor Jesus (Seu primeiro advento) na “plenitude do tempo” (Gl 4:4 ARA) e Efésios 1 fala de todas as coisas estando sujeitas a Ele em Seu reino na “dispensação da plenitude dos tempos”. Ao juntarem as duas expressões os teólogos do Pacto vêm com a ideia de que o reino de Cristo começou quando Ele veio ao mundo em Seu primeiro advento. Portanto, esse reino estaria seguindo seu curso desde então — o que significaria estarmos nesse reino agora.

        Todavia, a “plenitude do tempo” (Gl 4:4 ARA) no singular e a “plenitude dos tempos” no singular são duas expressões diferentes que se referem a duas coisas diferentes. Dizer que o reino de Cristo começou quando Ele nasceu neste mundo não faz sentido. De que maneira aquele bebê na manjedoura de Belém teria estabelecido publicamente Seu reino sobre todo o mundo do modo como Efésios 1:10 apresenta? Efésios 1:10 diz que Cristo irá “fazer convergir” todas as coisas nos céus e na terra. Ele irá reconciliar moral e espiritualmente céus e terra sob Sua administração (Cl 1:20). Isso não aconteceu quando o Senhor nasceu neste mundo, e ainda não aconteceu! Os céus e a terra não estão reconciliados de maneira nenhuma. A terra hoje se encontra em feroz rebelião contra os céus e contra Aquele assentado ali (Sl 2:1-3). “A dispensação da plenitude dos tempos” (Ef 1:10) obviamente se refere a uma administração futura de Cristo que ainda não foi estabelecida.

        Os teólogos do Pacto costumam negar a verdade do mistério que esteve escondido nos tempos do Antigo Testamento.

      • “Mas, alcançando socorro de Deus, permaneço até ao dia de hoje, dando testemunho, tanto a pequenos como a grandes, nada dizendo, senão o que os profetas e Moisés disseram haver de acontecer”.

        Aqui Paulo diz que sua pregação consistia em nada dizer senão aquilo que os profetas e Moisés haviam escrito. Para os teólogos do Pacto esta afirmação prova que Paulo não ensinava uma nova doutrina, como a que os Dispensacionalistas dizem que ele ensinou concernente ao Mistério.

        Ora, se o que os teólogos do Pacto estiverem dizendo for verdade, então as Escrituras se contradizem, pois Paulo afirma claramente em Romanos 16:25, Efésios 3:5 e Colossenses 1:26 que a verdade contida no Mistério era algo que não havia sido revelado no Antigo Testamento. Considerando que as Escrituras não se contradizem, a afirmação que Paulo fez a respeito do rei Agripa deveria significar alguma outra coisa. Um olhar atento da passagem mostra que ele estava se referindo ao seu primeiro ministério de testemunhar e pregar o evangelho (At 20:24-25; Rm 16:25a; Ef 3:8; Cl 1:23). Ele não estava falando de seu segundo ministério que envolvia revelar a verdade do Mistério (At 20:27; Rm 16:25; Ef 3:9-10; Cl 1:24-27).

        Se acompanharmos o que Paulo disse a Agripa, veremos que ele estava se referindo apenas ao seu ministério do evangelho. Ele qualificava sua observação, ao dizer “que o Cristo devia padecer, e sendo o primeiro da ressurreição dentre os mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios.” (At 26:23). Essas coisas concernentes ao Messias de Israel tinham sido com toda certeza declaradas na Lei e nos Profetas, e eram as que Paulo proclamava “a toda criatura que há debaixo do céu” (Cl 1:23). Nesse ministério evangélico ele não se desviou de pregar somente aquelas coisas, “nada dizendo, senão o que os profetas e Moisés disseram haver de acontecer” (At 26:22). Por outro lado, seu ministério de ensino, no qual o Mistério é descortinado, foi dirigido apenas a crentes (At 20:27; Cl 1:25). São coisas como ‘segredos de família’, que Paulo não proclamou a incrédulos como Agripa (Mt 7:6), e por isso ele não fez referência àquela linha de ensino em seu testemunho diante do rei.

      • “…o mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas”.

        Os teólogos do Pacto colocam seu foco nas palavras “como agora tem sido” desta passagem, e insistem que a verdade do Mistério era conhecida nas outras épocas, mas não “como agora tem sido”. Eles acham que aquelas coisas teriam sido reveladas nos tempos do Antigo Testamento, mas simplesmente não teriam sido entendidas por aqueles que viveram então (1 Pe 1:9-12).

        Todavia, esta interpretação do versículo 5 contradiz o resto do contexto, que segue dizendo que a verdade do Mistério estava oculta “desde os séculos” ou princípio do mundo (Ef 3:9). Portanto, ela não era conhecida dos santos do Antigo Testamento. Se os santos do Antigo Testamento a conhecessem — mesmo que fosse apenas um pouco — ela não estaria oculta, e esse silêncio concernente ao Mistério, do qual Romanos 16:25 fala, não teria existido.

        O erro vem de um simples equívoco na interpretação das sutilezas da linguagem. Paulo estava usando a frase “como agora tem sido” com a finalidade de comparar duas coisas — a ausência do conhecimento concernente ao Mistério da parte daqueles vivendo “noutros séculos” e aquilo que “agora tem sido revelado” por intermédio dos apóstolos e profetas do cristianismo. Costumamos igualmente utilizar a palavra “como” com o mesmo objetivo quando comparamos coisas. Podemos falar de uma coisa como oposta a outra coisa. Isto não significa que as coisas que estamos comparando sejam iguais, mas sim que são opostas. As palavras “como agora tem sido” poderiam ser interpretadas de uma ou outra maneira, mas à luz de passagens como Romanos 16:25, Efésios 3:9 e Colossenses 1:26 — que declaram que a verdade do Mistério estava escondida — a única maneira lógica de isso ser interpretado é no sentido de um contraste. Portanto é um erro achar que Paulo quis dizer que os santos de outras épocas tivessem uma revelação parcial das coisas que estavam escondidas no Mistério.

      • “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé”.

        Os teólogos do Pacto apontam para a declaração “pelas Escrituras dos profetas” para mostrar que as coisas reveladas no Mistério encontram-se nas Escrituras do Antigo Testamento. Eles acreditam que os “profetas” aos quais Paulo se referia eram os profetas do Antigo Testamento.

        Todavia não seria possível Paulo estar se referindo aos profetas do Antigo Testamento ali, pois ele tinha acabado de dizer no versículo 25 que essa linha de verdade havia sido mantida oculta (ou “silenciosa” na versão JND) daqueles da época do Antigo Testamento. Por isso ele só poderia estar se referindo aos escritos proféticos que teriam sido produzidos em algum momento após o Antigo Testamento ter sido completado. Estas seriam as Escrituras proféticas do Novo Testamento que estavam para ser escritas. A passagem poderia ser melhor traduzida como “por proféticas Escrituras” ao invés de “pelas proféticas Escrituras”, que aponta para o fato de que estes escritos não devem ser confundidos com as escrituras proféticas do Antigo Testamento. Infelizmente confundi-las é exatamente o que os teólogos do Pacto têm feito.

  • Apresentamos agora a nossos leitores algumas considerações práticas para que possam ponderar na presença do Senhor quanto à seriedade desse erro.

    Podemos ficar tentados a achar que a Teologia do Pacto não seja importante por não causar uma diferença real na vida prática de alguém. Todavia, isto não é verdade. Para andarmos corretamente devemos crer corretamente, pois nossa doutrina afeta nosso andar. Uma doutrina errada leva a uma prática errada. Paulo escreveu: “Evita os falatórios profanos [má doutrina], porque produzirão maior impiedade [práticas ruins].” (2 Tm 2:16). Semelhantemente, a boa doutrina leva a boas práticas. Paulo também escreveu: “Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade…” (1 Tm 6:3 ver também Tt 1:1). Portanto nos sentimos na incumbência de avisar cada cristão de que essas más doutrinas do Pacto terão um sério impacto negativo na vida de cada um, caso as sigam com convicção. A seguir damos alguns exemplos:

    Primeiro, em Efésios 1:8-10 lemos que Deus tem prazer em levar os cristãos a uma comunhão inteligente com Ele próprio no que diz respeito aos Seus planos visando a glorificação pública de Seu Filho em duas esferas — nos céus e na terra. Todavia os seguidores da Teologia do Pacto não podem ter uma comunhão inteligente com Deus no que diz respeito ao Seu programa presente e futuro de glorificar publicamente Seu Filho, por crerem em algo totalmente estranho a isso.

    Em segundo lugar, ao negarem que o Senhor pode voltar a qualquer momento (no Arrebatamento), como fazem os seguidores da Teologia do Pacto, eles levam os crentes a se acomodarem à terra se tornando mundanos (Mt 24:48-49).

    Em terceiro lugar, o fato de acreditarem que as condições do reino milenial, conforme apresentadas pelos profetas do Antigo Testamento, seriam criadas pelos esforços do evangelismo cristão (e não pelo juízo conforme afirmam as Escrituras, por exemplo, em Isaías 26:9), pode levar os crentes a se envolverem com a política e a melhoria dos programas seculares em seus esforços de endireitar o mundo e ajudar a estabelecer o reino em justiça. O resultado disso é que a ocupação dos cristãos acaba sendo com a terra.

    Em quarto lugar, a Teologia do Pacto ofende e enfurece os judeus, fazendo com que se oponham ao evangelho da graça de Deus, pois essa teologia apresenta o evangelho como algo que tira de Israel sua esperança nacional de uma herança literal em sua terra prometida. Isso só dificulta ainda mais alcançar os judeus hoje com o evangelho. Apesar de nada poder impedir a soberania de Deus em salvar almas, humanamente falando somos responsáveis de não por tropeço diante do cego (Lv 19:14). Por outro lado, a verdade dispensacional não interrompe o plano de Deus de abençoar Israel em sua herança terrena. Ela nada tira deles, no que diz respeito às suas esperanças nacionais. Aqueles daquela nação que se converterem pelo Evangelho do Reino no futuro receberão literalmente a herança terrena prometida no Antigo Testamento. (Evidentemente aqueles dentre os judeus que hoje crerem no evangelho serão feitos membros do corpo de Cristo, a Igreja, e receberão uma “porção” celestial em Cristo, o que é melhor — At 26:18; Ef 1:3; Cl 1:12).

  • A Teologia do Pacto costuma ser encontrada em um contexto de outras doutrinas e praticas errôneas.
    Uma última coisa que é preciso levar em consideração é que a Teologia do Pacto é quase sempre encontrada entre cristãos que não estão bem esclarecidos em uma série de outras doutrinas bíblicas. Aqueles que detêm esses erros da Teologia do Pacto são quase sempre deficientes em eclesiologia (doutrina e prática da Igreja), escatologia (eventos proféticos), e alguns dogmas de soteriologia (verdades a respeito da salvação e suas bênçãos). Um exemplo destes últimos é que muitos seguidores da teologia do Pacto negam que o crente tenha duas naturezas. É verdade que alguns dispensacionalistas também trazem alguma deficiência em outras doutrinas bíblicas, mas isso é mais acentuado com aqueles que detêm uma interpretação das Escrituras baseada na Teologia do Pacto.

    Todo cristão precisa considerar a razão pela qual deveria aceitar aquilo que os teólogos do pacto ensinam sobre o assunto que temos considerado neste livro, considerando o fato de serem deficientes em muitas outras doutrinas bíblicas. Apenas isto já deveria deixar um cristão sincero de sobreaviso. As Escrituras dizem, “Examinai tudo. Retende o bem.” (1 Ts 5:21). A verdade é que os teólogos do Pacto estão errados a respeito de Israel, e eles estão errados a respeito da Igreja de Deus. Cerca de 70% das Escrituras falam de Israel, e apenas 10% ou 15% falam da Igreja. Isto significa que se as pessoas estiverem erradas a respeito de Israel e da Igreja elas estão erradas a respeito da maior parte da Bíblia!

Cremos que nosso trabalho está terminado no que diz respeito a este assunto. Encomendamos este trabalho na mãos de Deus para que Ele use como quiser. Cremos que Deus irá fazer dele uma bênção para nossos leitores. Apresentamos o que a verdade dispensacional é, e demonstramos que isso está de acordo com as Escrituras. Também demonstramos que a Teologia do Pacto é um sistema de interpretação que não está em conformidade com as Escrituras. Na verdade ele chega a fazer uma séria corrupção da Palavra de Deus. Ao expor seu erro buscamos fazê-lo com sinceridade e amor. O resto fica nas mãos do Senhor, pois somente Ele pode aplicar a verdade nas almas.
Nossa oração é que todo verdadeiro crente venha a ter um “coração honesto” (Lc 8:15) que possa receber a verdade conforme apresentada pelas Escrituras. O Espírito de Deus é o Mestre que está acima de todos, e Ele pode e irá aplicar estas coisas nas almas desejosas de aprender (Jo 7:17; 16:13). Que Deus possa abençoar Sua Palavra (Is 55:11).

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