A Ordem de Deus

Para os Cristãos Congregarem. Para Adoração e Ministério.
A Resposta Bíblica à Ordem Eclesiástica Tradicional. (PDF)

Título: God’s Order (quarta edição: Julho-2010).
Autor: Bruce Anstey.
Tradução: Mário Persona (http://aordemdedeus.blogspot.com.br).

 Índice 
Apresentação
Prefácio

Denominacionalismo – Uma Ordem de Deus ou dos Homens?
Um desafio ao fundamento bíblico do cristianismo denominacional
“Podemos fazer qualquer coisa que não tenha sido definida nas Escrituras?”
Precisamos desaprender algumas coisas

A Ruína do Testemunho Cristão
As “segundas” epístolas
O testemunho de Paulo
O testemunho de Mateus
O testemunho de Pedro
O testemunho de João
O testemunho de Judas
O testemunho do Senhor
O contraste entre o “um só corpo” e as muitas seitas
Terminologia convencional versus terminologia bíblica
Estado de espírito – O pré-requisito necessário para se aprender a verdade
  1. Passar um tempo na presença do Senhor em comunhão com Ele
  2. Ter o desejo de fazer (praticar) a vontade de Deus
  3. Ter o exercício espiritual de aplicá-la a si mesmo a fim de aprender a Verdade
  4. Ter inteireza de coração para reconhecer a Verdade quando esta é apresentada
Não somos chamados a consertar a ruína do testemunho

Um Chamado à Separação
Por que nos separarmos?
Os três tipos de mal existentes na cristandade
O remanescente de judeus que partiu da Babilônia
Sete desculpas para não se separar dos sistemas denominacionais
  1. “Não devemos julgar outros cristãos!”
  2. “Separar-se é não demonstrar amor!”
  3. “Nossa igreja esta crescendo!”
  4. “Deus esta usando as denominações!”
  5. “Posso ser muito útil permanecendo onde estou em minha denominação!”
  6. “Não devemos deixar a nossa congregação!”
  7. “Separar-se de outros cristãos destrói a unidade do Espírito”
Separar-se não significa isolar-se
Mais luz!

A Qual Igreja Devo Ir?
O padrão da igreja apostólica
A igreja não aparece no Antigo Testamento
Para o cristão o Antigo Testamento é um livro de tipos e figuras
O judaísmo não é um padrão para a adoração cristã
Igrejas de pedras e tijolos – ajudam ou atrapalham o evangelho?
O cristianismo é tipicamente celestial
O Verdadeiro Cristianismo está “Fora do Arraial”
A Adoração Cristã é em “Espírito e Verdade”
Sacrifícios Espirituais ou um ‘Ministério de Música’?
Vinho novo em recipientes novos
Os cristãos devem se reunir em nome do Senhor Jesus para adoração e ministério…
A prática bíblica para cristãos congregados para adoração e ministério
Consequências práticas de se abandonar as “quatro âncoras”
Três ou quatro coisas tangíveis no cristianismo

Quem Deveria Liderar a Congregação?
O sacerdócio de todos os crentes
A diferença entre sacerdócio e dom
A diferença entre habilidade e dom
O que é ministério?
O ministério na igreja
A assembleia local necessita de todos os dons em seu meio
O Espírito de Deus deveria usar para falar quem Ele quisesse
Os dons devem ser regidos pelo amor e pelo discernimento
A assembleia deve guardar a sã doutrina
“Quer dizer que vocês não acreditam que devemos ter um pastor?”
Títulos lisonjeiros
A eleição de um “Pastor”
O Senhor da seara dirige os dons
Não é correto contratarmos um servo de Deus
Como os servos do Senhor devem ser mantidos financeiramente?
Organizações para-eclesiásticas — Auxilio ou empecilho ao evangelho?
Resumo dos principais erros do sistema clerical
O que pensam disso os “Pastores” e “Ministros”?

A Administração Local na Igreja
Anciãos, Presbíteros [Bispos] e Guias
Diáconos
A escolha dos anciãos
Hoje não existem apóstolos para ordenar anciãos e diáconos
Três qualificações para o apostolado
Existem anciãos hoje?
Hoje não ha’ mais ordenação
“Mas na Bíblia as pessoas eram ordenadas!”
A imposição de mãos
Coleta ou dízimo?
Disciplina na Igreja
Recepção – Uma responsabilidade da assembléia local
Quem decide quem deveria estar em comunhão?
Seria suficiente o testemunho pessoal?
Colocando a profissão de fé da pessoa à prova
Exclusivo demais!
A responsabilidade individual
Cartas de recomendação

A Esfera de Ministério das Irmãs
O ministério das irmãs
Três razões pelas quais as irmãs ocupam um lugar de subordinação no cristianismo
“Mas a Bíblia diz que as mulheres devem orar e profetizar!”
“Mas não devemos fazer distinção entre homem e mulher na igreja!”
“Mas aquelas coisas se aplicavam apenas a Corinto!”
“Mas não queremos afugentar as pessoas do cristianismo!”
“Isso é coisa do velho Paulo!”
Cobertura para a cabeça
“Cobrir a cabeça era um costume cultural antigo que não deve ser considerado hoje”
“Mas o cabelo da mulher é o seu véu!”
“Levando o Seu vitupério”

Conclusões
“Deveríamos iniciar uma comunhão crista em conformidade com estes princípios bíblicos?”
O terreno do “um só Corpo”
Cabe a cada crente hoje buscar a comunhão do testemunho existente da verdade do “um só Corpo”
Outra seita?
“Vocês acham que são os únicos que estão certos!”
Um apelo

Vídeos (somente áudio)

 Apresentação 
Há alguns anos li o livro “God’s Order”, escrito por Bruce Anstey, um irmão canadense com o qual tenho comunhão por estarmos congregados somente ao nome do Senhor Jesus, ele no Canadá e eu no Brasil. O que chamou minha atenção foi que o autor conseguia colocar em ordem os principais tópicos que todo cristão sincero deveria buscar nas Escrituras para saber se está congregado segundo a ordem estabelecida por Deus, ou se apenas segue tradições criadas por homens.

O livro em inglês está agora na quarta edição, e recebi do autor autorização para traduzi-lo para o português. A fim de assumir um compromisso comigo mesmo de dedicar algum tempo à tradução, decidi criar este blog. Um blog público é uma excelente forma de eu me lembrar de que há pessoas esperando por novos trechos do livro, e isso me motiva a continuar traduzindo.

Espero que o livro “A Ordem de Deus” seja de auxílio para muitos irmãos e irmãs em Cristo, e também se transforme em um instrumento a mais para glorificar a Deus, que não apenas “quer que todos os homens se salvem”, mas também que “venham ao conhecimento da verdade” 1 Tm 2:4.

Mário Persona (contato@mariopersona.com.br).

 Prefácio 

◄))) Este livro tem por objetivo exaltar o Senhor Jesus Cristo, e estabelecer o fato de que a Palavra de Deus deve ter a supremacia sobre quaisquer ideias e tradições humanas. Confiamos que estas páginas não apenas resultarão em glória e honra ao nosso Senhor Jesus Cristo, como também serão para bênção dos filhos de Deus.

Ao longo das páginas deste livro procuramos apontar, com fidelidade e cremos que também com amor, a falta de fundamento bíblico para a ordem de governo e prática tradicionalmente aceita entre os cristãos professos. Ao mesmo tempo nosso objetivo é apresentar princípios bíblicos da ordem estabelecida por Deus para o funcionamento de uma assembleia cristã. Não temos a intenção de denegrir qualquer uma das denominações existentes na cristandade ou os cristãos associados a elas. Não tivemos por objetivo fazer uma análise crítica das várias denominações religiosas existentes no cristianismo professo apenas pela crítica em si mesma, mas para apontar os erros do sistema como um todo. Nosso grande desejo é tornar conhecida a ordem bíblica dada por Deus para os cristãos se congregarem para adoração e ministério da Palavra, de maneira que todos os que tiverem tal exercício possam conhecer esse padrão em sua simplicidade. Confiamos que nas muitas coisas que comentamos aqui possa ficar notório o nosso genuíno amor e preocupação para com toda a família de Deus.

O autor não reivindica para si a originalidade da verdade que está compilada aqui. Estas coisas têm sido escritas e ensinadas por irmãos por mais de 150 anos. Nesta obra procuramos meramente fazer uma nova apresentação dessas verdades. Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas utilizadas na edição em Português foram extraídas da Bíblia traduzida por João Ferreira de Almeida em suas versões Fiel, Revista e Corrigida, e Revista e Atualizada.

Encomendamos agora o leitor ao Senhor e à verdade que está aqui compilada. Nossa oração é que cada cristão que vier a ler este material será honesto, espiritual e maduro o suficiente para reconhecer a verdade que é aqui apresentada. Que Deus possa nos dar graça para cumprirmos a Sua vontade.

 Denominacionalismo – Uma Ordem de Deus ou dos Homens? 

◄))) Todos os cristãos, em maior ou menor medida, buscam na Palavra de Deus (a Bíblia) o caminho da salvação, mas parece que são muito poucos os que, após terem sido salvos, buscam na Palavra para saber como o Senhor gostaria que se reunissem para a adoração e o ministério da Palavra. Apesar de todos acreditarem que só existe uma forma de serem salvos, muitos consideram que deve ficar a critério de cada um escolher como devem adorar.

No cristianismo de nossos dias, parece que os cristãos estão agindo como os filhos de Israel no tempo dos Juízes: “Cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos” (Jz 17:6; 21:25; Dt 12:8; Pv 21:2). Como resultado disso, existe hoje uma imensa variedade de opiniões sobre a adoração cristã, e boa parte conflitante entre si. Ao longo dos anos a maioria dos cristãos tem adorado cada um à sua maneira ou segundo um estilo peculiar às suas preferências pessoais e afiliação denominacional. Por gerações os cristãos têm literalmente aceitado o que a tradição legou à igreja sem questionar. Na verdade, a maioria acha que é assim que Deus quer que seja.

Será que Deus se importa com a maneira como o Seu povo O adora, ou o modo como se reúnem para o ministério da Palavra? Será que Ele tem uma opinião a respeito deste assunto? Já é hora de voltarmos aos fundamentos do cristianismo e buscarmos novamente nas Escrituras o que Deus tem a dizer sobre o assunto da ordem na igreja. Já que ela é a “igreja de Deus” (At 20:28), certamente Ele deve ter algo a dizer sobre o modo como os cristãos devem adorar. Cremos que o padrão para a adoração cristã e o ministério da Palavra, e também para o governo da igreja, estejam na Bíblia, mas parece que a maioria dos cristãos perdeu isto de vista.

Já que devemos estar “sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em [nós]” (1 Pd 3:15), precisamos ser capazes de dar uma resposta vinda da Palavra de Deus quanto à razão de adorarmos do jeito que o fazemos. Sendo assim, será que podemos apontar a autoridade das Escrituras para o modo como nos reunimos como cristãos para a adoração e o ministério da Palavra? Ou será que estamos apenas seguindo as tradições dos homens?

A fim de estimular nossos pensamentos ao longo destas linhas, faremos algumas perguntas como um desafio a todos os crentes quanto à autoridade bíblica da sua forma de adoração. As perguntas a seguir não têm por objetivo criticar a ordem adotada pela igreja dos dias atuais na adoração e ministério da Palavra, mas sim estimular nossos pensamentos quanto a qual seria realmente a ordem estabelecida por Deus.

 Um desafio ao fundamento bíblico do cristianismo denominacional 
1) Que autoridade nos dá a Palavra de Deus para estabelecermos igrejas denominacionais ou não denominacionais em meio ao testemunho cristão, quando as Escrituras condenam a criação de seitas e divisões entre os crentes? (1 Co 1:10; 3:3; 11:18-19)

2) Com que autoridade vinda de Deus os cristãos denominam suas assim chamadas “igrejas” como Presbiteriana, Batista, Pentecostal, Aliança, Cristã Reformada, Anglicana etc., quando não há na Bíblia instruções para nos reunirmos em qualquer outro nome além do nome do Senhor Jesus Cristo? (Mt 18:20; 1 Co 5:4)

3) Com que autoridade os cristãos denominam seus grupos eclesiásticos em honra de proeminentes e dotados servos do Senhor, como Luterana (Martinho Lutero), Menonita (Menno Simons), Metodista-Wesleyana (John Wesley) etc., quando as Escrituras denunciam a formação de grupos de cristãos em torno de um líder na igreja? (1 Co 1:12-13; 3:3-9)

4) Que autoridade os homens receberam de Deus para estabelecerem essas igrejas segundo distinções nacionais, como “Igreja da Inglaterra”, “Irmãos Menonitas Chineses”, “Igreja Ortodoxa Grega”, “Batista Filipina”, “Igreja de Deus Alemã” etc., quando as Escrituras nos dizem que não existem distinções nacionais ou sociais na igreja de Deus? (Cl 3:11)

5) Que autoridade têm os cristãos para ornamentarem seus lugares de adoração à semelhança do tabernáculo e do templo da ordem judaica do Antigo Testamento? Muitas desses edifícios, chamados de “igrejas”, são ornamentados com ouro e outros materiais preciosos. Muitos desses edifícios, chamados “igrejas”, têm um altar. Outros têm partes do prédio destacadas como sendo mais sagradas do que outras. Que autoridade têm os cristãos para emprestarem coisas assim do judaísmo, quando a Bíblia indica que o cristianismo não é uma extensão da ordem judaica, mas possui um caráter totalmente novo de aproximar-se de Deus? (Hb 10:19-20; 13:13; Jo 4:23-24)

6) Acaso existe qualquer fundamento na Palavra de Deus para a existência de campanários, cruzes e outras coisas que são construídas nessas assim chamadas “igrejas”?

7) Será que existe qualquer base na Palavra de Deus para chamar esses edifícios de “igrejas”? A definição bíblica de “igreja” é de uma reunião de crentes que, pelo evangelho, foram chamados para fora, tanto dentre os judeus como dentre os gentios, e são unidos em um único corpo a Cristo, sua Cabeça no céu, pela habitação do Espírito Santo. (At 11:22; 15:14; 20:28; Rm 16:5; 1 Co 1:2; Ef 5:25)

8) Que autoridade as Escrituras dão para se colocar um homem na igreja (chamado de Ministro ou Pastor) para “conduzir” a adoração? As Escrituras ensinam que o Espírito de Deus foi enviado ao mundo para guiar a adoração cristã (Fp 3:3; Jo 4:24; 16:13-15). A Bíblia indica que é o Senhor, por intermédio do Espírito, quem preside na assembleia dos santos e dirige os procedimentos do modo como Lhe apraz. (1 Co 12:11; Fp 3:3)

9) Com que autoridade das Escrituras os cultos de adoração nessas igrejas são organizados com antecedência? Em algumas se costuma distribuir um programa descrevendo a ordem como se dará a adoração naquele dia em particular.

10) Com que autoridade das Escrituras esses cultos nas igrejas são chamados de “adoração”, quando eles geralmente constituem de apresentações musicais e de um homem ministrando um sermão?

11) Que autoridade o Novo Testamento dá para se utilizarem instrumentos musicais na adoração cristã? A adoração cristã é aquela produzida no coração pelo Espírito de Deus, e não por meios mecânicos através de mãos humanas. (At 17:24-25)

12) Com que autoridade das Escrituras são repetidas orações escritas previamente e impressas em livros de oração durante as reuniões da igreja? A Bíblia diz que não deveríamos usar de vãs repetições em nossas orações, mas que estas deveriam ser nossas próprias palavras saídas do coração. (Mt 6:6-8; Tg 5:16; Sl 62:8)

13) Que autoridade há para se ensaiar os Salmos nos chamados “cultos de adoração”, quando os Salmos expressam os sentimentos de pessoas que não estavam sobre um fundamento cristão e nem conheciam os privilégios cristãos?

14) Por que a maioria das igrejas celebra a ceia do Senhor uma vez por mês ou a cada 3 meses, quando o costume da igreja nas Escrituras, inicialmente estabelecido pelo ministério de Paulo, era de se partir o pão a cada dia do Senhor? (At 20:7)

15) Que autoridade há nas Escrituras do Novo Testamento para se designar um coro de cantores treinados para ajudar na adoração cristã?

16) Que autoridade há nas Escrituras para o uso de vestimentas especiais durante os cultos de adoração cristã? Os corais costumam estar vestidos assim e dependendo do lugar o Ministro também usa uma vestimenta característica.

17) Que autoridade têm essas igrejas para permitir que mulheres preguem e ensinem publicamente, quando a Bíblia diz que o papel das irmãs não é uma atuação pública na igreja, seja na administração, seja no ensino e pregação? As Escrituras dizem que elas devem permanecer em silêncio na assembleia. (1 Co 14:34-38; 1 Tm 2:11-12)

18) Que autoridade há para as mulheres dessas igrejas orarem e profetizarem (ministrarem a Palavra) com suas cabeças descobertas, quando a Palavra de Deus diz que deveriam cobrir a cabeça? (1 Co 11:1-16)

19) Que autoridade as Escrituras dão para permitir que apenas certas pessoas (como o Pastor ou Ministro) se ocupem do ministério da Palavra de Deus? Por que não há liberdade nessas igrejas para todos os que forem capacitados ministrarem guiados pelo Espírito? A Bíblia ensina que quando os cristãos se reúnem em assembleia, todos (os varões) devem ter liberdade para ministrar conforme o Senhor guiá-los por intermédio do Espírito. (1 Co 12:6, 11; 14:24, 26, 31)

20) Que autoridade as Escrituras dão para apoiar a ideia de que uma pessoa precisa ser ordenada para estar no ministério? Não existe na Bíblia um pastor, mestre, evangelista, profeta ou sacerdote que tenha sido ordenado para pregar ou ensinar! As Escrituras ensinam que o simples fato de uma pessoa possuir um dom espiritual é sua garantia para usá-lo! (1 Pd 4:10-11)

21) Que autoridade as Escrituras dão para fundamentar a ideia de que existem hoje no mundo homens que teriam poder para ordenar outros? Onde eles conseguiram tal poder?

22) Acaso existe qualquer autoridade para dar a pessoas títulos de “Pastor” (por exemplo, “Pastor João”), quando nas escrituras esse dom nunca foi atribuído a alguém como um título?

23) Onde nas Escrituras existe autoridade para se fazer de um homem um Pastor de uma igreja local quando as Escrituras nunca falam do dom de pastor como um ofício local? (Ef 4:11)

24) Com que autoridade das Escrituras os assim chamados Ministros se denominam a si mesmos “Reverendo”, quando a Bíblia diz que “Reverendo” é o nome do Senhor? (Sl 111:9 – versão inglesa) Alguns clérigos adotam o nome “Padre” (“Pai”), apesar de as Escrituras deixarem claro que não deveríamos chamar ninguém de “Pai”! Outros adotam o título de “Doutor” (que significa ‘mestre’ ou ‘instrutor’ em latim) quando as Escrituras também dizem para não procedermos assim. (Mt 23:8-10)

25) Seria a escolha de seu “Pastor” ou “Ministro” por uma igreja uma prática com base nas Escrituras? O procedimento usual é que o candidato a “Pastor” seja convidado por uma igreja para ter a oportunidade de provar que é qualificado para o posto ministrando alguns sermões. Se a sua pregação for aceitável, então a igreja (geralmente através de um corpo de diáconos) irá elegê-lo para ser seu “Pastor” local. Estaria este procedimento de acordo com a Palavra de Deus?

26) Onde nas Escrituras há autoridade para essas igrejas escolherem seus anciãos? Não existe na Bíblia uma única igreja que tenha escolhido seus anciãos.

27) Com que autoridade das Escrituras as igrejas tornam alguns dias “santos” e observam festas cristãs como Sexta Feira Santa, Dia de Todos os Santos, Quaresma, Natal etc.? As Escrituras dizem que o cristianismo não tem nada a ver com épocas e dias especiais. (Gl 4:10; Cl 2:16)

28) Que autoridade das Escrituras têm aqueles que ministram nos púlpitos dessas igrejas para ensinar doutrinas erradas como Teologia do Pacto, Amilenialismo, Segurança Condicional, Purgatório, Absolvição, Guarda da Lei etc.?

29) Acaso existe autoridade das Escrituras para se promover reuniões de “Testemunho”, onde um homem se levanta e diz para a audiência como ele foi salvo, geralmente descrevendo sua vida passada de pecados?

30) Que autoridade há no Novo Testamento para se recolher dízimo (10% de nossa receita) da audiência, quando o dízimo é claramente uma lei Mosaica dada para Israel? (Lv 27:32, 34; Nm 18:21-24)

31) Onde há nas Escrituras base para campanhas para se levantar fundos e pedir doações de audiências mistas de salvos e perdidos nessas igrejas? A Bíblia indica que os servos do Senhor não tomavam “coisa alguma” das pessoas deste mundo que não eram salvas, quando pregavam o evangelho a elas. (3 Jo 7)

32) Seriam os seminários e escolas bíblicas o modo de Deus preparar um servo para o ministério? Conceder e receber diplomas e títulos (como Doutor em Divindade) seria uma prática fundamentada nas Escrituras? A Bíblia diz que não devemos dar títulos honoríficos uns aos outros. (Jó 32:21-22; Mt 23:7-12)

33) Será que existe qualquer fundamento na Palavra de Deus para essas igrejas enviarem Ministros e Pastores para um determinado lugar para executarem uma obra para o Senhor? Costumamos ouvir comentários como, “o Pastor fulano foi enviado por tal organização”. As Escrituras mostram que Cristo, a Cabeça da igreja e Senhor da seara, é quem envia os Seus servos para a obra que preparou para eles, por meio da direção do Espírito, e que a igreja deve tão somente reconhecer isso estendendo ao servo a destra à comunhão. (Mt 9:38; At 13:1-4; Gl 2:7-9).

34) Onde nas Escrituras vemos a ideia da igreja ser uma organização que ensina? Costumamos ouvir pessoas dizendo, “Nossa igreja ensina que…” Na Bíblia não vemos a igreja ensinando, mas sendo ensinada por indivíduos que são levantados pelo Senhor. (At 11:26; Rm 12:7; Ap 2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22; 1 Ts 5:27).

 Podemos fazer qualquer coisa que não tenha sido definida nas Escrituras? 
Alguns cristãos respondem a estes questionamentos argumentando que se a Palavra de Deus não trata especificamente de algo ou não o proíbe, então Deus não vê problema nisso. Eles acham que se a Bíblia não abordar diretamente o assunto de como os cristãos deveriam se reunir para adoração e ministério, então isso ficaria à escolha e gosto de cada um. Consequentemente, não veem nada de errado em implementar no cristianismo coisas que não estejam na Bíblia.

Tal posição exime a igreja de nossos dias da responsabilidade pelo atual estado de coisas. Todavia, esse argumento está completamente equivocado, pois a Bíblia aborda sim a questão de como os cristãos devem se reunir para adoração e ministério. O ideal de Deus pode ser claramente encontrado na Bíblia. Talvez o padrão para a adoração e ministério cristão seja tão simples que as pessoas acabam passando por cima dele e achando que ele não exista. Boa parte da ordem tradicional do governo da igreja, que é encontrada no cristianismo denominacional hoje, não apenas carece de fundamento na Palavra de Deus — na verdade, ela chega até a contradizer o que Deus estabelece em Sua Palavra.

Além disso, não se trata de um princípio sadio raciocinar sobre o que não está na Bíblia para aprendermos a vontade de Deus a respeito de qualquer assunto (2 Tm 1:7). Em essência, o que se está insinuando é que “Podemos fazer o que quisermos na adoração e ministério, desde que não seja proibido pela Bíblia”! Isto não faz sentido. Faz-nos lembrar do que um irmão de boas intenções, mas equivocado, disse certa vez: “Na Bíblia existem mais entrelinhas do que linhas”! Certamente esta não pode ser uma maneira sadia de buscarmos a vontade de Deus sobre qualquer assunto. Se aplicarmos o mesmo princípio sobre outros assuntos que dizem respeito à doutrina e prática cristãs, não haveria limites para o número de situações em que poderíamos aplicar um raciocínio assim. A verdade concernente a um assunto em particular seria imediatamente perdida. Na verdade, é justamente isso o que está acontecendo de uma maneira geral com a própria questão de como os Cristãos deveriam se reunir para a adoração e ministério da Palavra. A razão de Deus nos dar a Sua Palavra foi para que conhecêssemos a Sua vontade (1 Co 2:12-13). Se existe uma prática louvável para nós, esta é “buscar” a verdade em Sua Palavra e procurarmos, por Sua graça, praticá-la (Pv 25:2; At 17:11-12). O hábito do apóstolo Paulo era de discutir “sobre as Escrituras”, isto é, a partir delas. (At 17:2); ele não introduzia nelas os seus pensamentos. Isto mostra que jamais temos o direito de inserir nossos próprios pensamentos na Palavra de Deus, tentando fazer com que ela diga algo que nós queremos que diga.

T. B. Baines disse, “Ou Deus estabeleceu uma ordem para a assembleia, ou Ele deixou para o homem fazer isso segundo a sua própria vontade. Se Ele estabeleceu uma ordem, todos ficam claramente obrigados a ela, e qualquer distanciamento dessa ordem é um ato de desobediência”. Se buscarmos honestamente a vontade de Deus, a única maneira lógica de obtermos ajuda sobre este assunto seria voltarmos à Palavra de Deus e, por assim dizer, começarmos do zero, dizendo, “Que tal não fazermos coisa alguma em nossa adoração e ministério, exceto aquilo que é mencionado na Bíblia?” É isso que tentaremos fazer ao abordarmos este assunto em nosso livro.

 Precisamos desaprender algumas coisas 
Antes de tentarmos apresentar a ordem de Deus encontrada em Sua Palavra, de como os cristãos devem se reunir para a adoração e ministério da Palavra, e também a ordem de Deus para o governo da Igreja, infelizmente existem algumas falsas ideias que primeiro precisam ser descartadas. Do mesmo modo como um construtor cava fundo para remover uma grande quantidade de resíduos e solo ruim antes de assentar uma única pedra do alicerce (Lc 6:48), sentimos ser necessário descartar algumas ideias que passaram a ser aceitas no mundo cristão e que simplesmente não têm qualquer base nas Escrituras.

Com o tempo, muitas coisas passaram a ser aceitas pelas massas no testemunho cristão como se fossem a maneira de Deus fazer as coisas. Parece que pouquíssimas pessoas sequer cogitaram verificar se essas coisas estavam em conformidade com a Palavra de Deus, que é o mapa e guia do cristão. As pessoas simplesmente aceitaram tudo do jeito que receberam. Um dos problemas disso é que, após convivermos com certas coisas por muito tempo, elas tendem a ficar arraigadas em nossa mente como se fossem verdades, quando na realidade não passam de tradição. Essas ideias pré-concebidas anuviam nossos pensamentos e nos impedem de enxergar a verdade. Portanto, para muitos de nós, aprender a verdade da ordem de Deus de como os cristãos devem se reunir para adoração e ministério irá significar desaprender algumas coisas que equivocadamente assimilamos ao longo dos anos. E isso nem sempre é algo fácil de fazer.

 A Ruína do Testemunho Cristão 

◄))) Quando nos voltamos para a Palavra de Deus vemos que quase todos os escritores do Novo Testamento previram que a ruína e o abandono da Palavra de Deus entrariam no testemunho cristão. Portanto não deveria ser uma grande surpresa para nós quando víssemos esse abandono da ordem de Deus na criação de igrejas denominacionais e não denominacionais.

 As “segundas” epístolas 
As “segundas” epístolas do Novo Testamento se ocupam particularmente deste assunto. Cada epístola revela algum aspecto da fé cristã sendo abandonado e, consequentemente, assinala o caminho para aqueles que são fiéis seguirem em cada situação.

  1. A 2ª epístola aos Efésios descreve o abandono do primeiro amor (Ap 2:1-7).
  2. A 2ª epístola aos Tessalonicenses trata do abandono da bendita esperança — a vinda do Senhor (no Arrebatamento).
  3. A 2ª epístola de João considera a gravidade de se abandonar a doutrina de Cristo.
  4. A 2ª epístola de Pedro apresenta o abandono da piedade prática.
  5. A 2ª epístola aos Coríntios trata, dentre outras coisas, do abandono da autoridade apostólica conforme é encontrada nas Escrituras.
  6. A 2ª epístola a Timóteo nos fala do abandono da ordem na casa de Deus. (Esta está particularmente conectada ao assunto que estamos considerando).

 O testemunho de Paulo 
O apóstolo Paulo nos alertou para o fato de que haveria um grande abandono da Palavra de Deus entre os cristãos professos. Ele disse, “Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; e que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si” (At 20:29-30).

Em suas epístolas a Timóteo, ele mencionou aqueles que naufragariam na fé (1 Tm 1:19-20), que apostatariam da fé — o conjunto formado pela verdade cristã (1 Tm 4:1-3), que se afastariam da fé (1 Tm 6:10) , que se desviariam da fé (1 Tm 6:20-21), que perverteriam a fé de outros por meio de seus ensinos errôneos (2 Tm 2:18), e que se tornariam reprovados quanto à fé (2 Tm 3:8). Ele disse que viria um tempo quando os cristãos professos, de um modo geral, não suportariam a sã doutrina, mas desviariam seus ouvidos da verdade, voltando-se para as fábulas que não têm qualquer fundamento na Palavra de Deus (2 Tm 4:2-4). Ele disse que os padrões morais no testemunho cristão também se degenerariam até chegarem ao mesmo nível dos praticados entre os pagãos (2 Tm 3:1-5; compare com Rm 1:28-32). Ele falou de impostores que se levantariam professando conhecer a verdade, os quais imitariam os poderes miraculosos de Deus numa tentativa de resistirem à verdade (2 Tm 3:7-8). Ele também falou que as coisas não melhorariam, mas que “homens maus e enganadores” dentro do testemunho cristão (pois é este o contexto do capítulo) iriam “de mal para pior” (2 Tm 3:13). Basta darmos uma olhada superficial no testemunho cristão de nossos dias para vermos que todas essas previsões chegaram ao seu triste cumprimento.

 O testemunho de Mateus 
Nas parábolas do reino dos céus o apóstolo Mateus indica o mesmo abandono. Nelas o Senhor Jesus disse que um inimigo (Satanás) viria e semearia “joio no meio do trigo”. Isto indica que no reino dos céus haveria a intromissão de professantes falsos e sem vida. Como resultado disso, o reino teria uma mistura de crentes (trigo) e falsos professantes (joio), os quais não seriam separados até o fim desta era (Mt 13:24-30, 38-41).

Mateus registra que o Senhor Jesus ensinou as multidões que um vasto sistema cresceria a partir da simplicidade original do cristianismo, e que no final não guardaria qualquer semelhança àquilo que era no princípio. Ele usou a figura de uma “semente de mostarda” sendo plantada na terra e crescendo demais, até se tornar uma imensa árvore, na qual as aves do céu viriam aninhar. A grande árvore nos fala de domínio e poder (Ez 31:3-7; Dn 4:10-11, 2-22, 34). O Senhor indicava assim que a profissão cristã se desenvolveria na forma de uma grande instituição mundana, dando ao cristianismo um aspecto de grandeza e pretensão. A profissão cristã acabou se transformando em um grande sistema de religião, política e negócios. Nela os homens se esforçam para conseguir honra, grandeza e poder. As “aves do céu” nos falam de espíritos malignos (Ap 18:2) que se apoderariam das mentes dos homens e os influenciariam para que ensinassem doutrinas errôneas (1 Tm 4:1).

Se já tivemos a oportunidade de presenciar o barulho que sai de uma árvore cheia de pássaros, entenderemos o quão exata é essa figura da confusão que existe no testemunho cristão. As aves estão todas gorjeando ao mesmo tempo, todas elas aparentando ter algo a dizer, mas suas vozes são todas conflitantes. É isso o que ouvimos quando atentamos para os milhares de vozes das várias assim chamadas igrejas existentes na cristandade (Mt 13:31-32).

O Senhor Jesus continuou, falando da mulher que introduziu “fermento” em “três medidas de farinha” (Mt 13:33). Isto nos fala de outro aspecto da ruína que se abateu sobre a profissão cristã. Se as aves na imensa árvore ilustram a grande profissão externa que iria se desenvolver, o fermento na massa nos fala da grande corrupção interna que acabaria permeando a cristandade. Nas Escrituras o fermento é uma figura ou tipo do mal (Mt 16:6; Mc 8:15; 1 Co 5:6-8; Gl 5:7-10). A “massa” é uma figura de Cristo, que é “o Pão da vida”. É Ele o alimento espiritual dos filhos de Deus (Jo 6:33-35, 51-58). Portanto, o Senhor indicou que a igreja professa (a mulher) iria corromper o alimento dos filhos de Deus ao introduzir má doutrina, misturando-a com a verdade acerca da Sua Pessoa. Foi exatamente o que aconteceu. Na vasta profissão da cristandade, muitos ensinos errôneos e malignos têm sido associados à Pessoa de Cristo.

Sendo assim, estas três parábolas no evangelho de Mateus indicam que haveria a introdução de pessoas malignas (Mt 13:24-30), espíritos malignos (Mt 13:31-32; 1 Tm 4:1), e doutrinas malignas (Mt 13:33).

Algumas outras similaridades do reino, no evangelho de Mateus, também indicam essa ruína que acabaria se introduzindo. Por exemplo, Mateus 25:1-13 diz que todas as dez virgens tosquenejaram e adormeceram. Elas estavam dormindo quando deveriam estar vigilantes.

 O testemunho de Pedro 
O apóstolo Pedro também falou dos ensinos malignos que surgiriam no testemunho cristão. Ele disse que falsos mestres se levantariam dentre os santos de Deus e introduziriam “heresias de perdição” que muitos seguiriam — até ao ponto de falarem mal do caminho da verdade (2 Pd 2:1-3; 3:16).

Heresia não é ensinar má doutrina, mas criar seitas. Uma “heresia” ou “seita” é, por definição, a criação de um partido ou divisão dentro de uma igreja, o qual rompe com os demais e forma sua própria comunhão em torno de uma opinião particular. É verdade que a má doutrina costuma estar conectada à formação de seitas, e provavelmente é por isso que muitos cristãos pensam em heresia como o ensino de coisas heterodoxas e blasfemas, mas a heresia é, na essência, a formação de uma divisão notória na igreja. A mais sutil de todas as heresias é aquela que se desenvolve em torno de alguma parcela da verdade até excluir outras verdades. Podem existir muitos verdadeiros crentes conectados a essas heresias. Mas uma “heresia de perdição”, da qual Pedro fala, é uma seita que constrói sua causa em torno de doutrinas destruidoras de almas.

Quando observamos a vasta profissão da cristandade, vemos todas as inúmeras divisões e seitas que existem na igreja. Ouvimos que existem hoje mais de mil comunhões denominacionais e não denominacionais! Felizmente podemos dizer que a maioria desses grupos eclesiásticos não são heresias “de perdição”, mas mesmo assim são divisões na igreja e se configuram em sectarismo. Além disso, não vamos nos esquecer de que as Escrituras dizem que devemos rejeitar a heresia porque é uma obra da carne (Tt 3:10-11; 1 Co 11:19; Gl 5:20).

 O testemunho de João 
Enquanto o apóstolo Paulo alerta sobre aqueles que retrocedem da revelação da verdade cristã (Hb 10:38-39), o apóstolo João adverte a respeito daqueles que a ultrapassam (ou “prevaricam”) e não permanecem nela (2 Jo 9). João falou desse desvio como resultado do trabalho de mestres anticristãos. A respeito deles, João afirma: “Saíram de nós, mas não eram de nós” (1 Jo 2:19).

Ao dizer “nós”, aqui e em muitos outros lugares de sua epístola, João está se referindo aos apóstolos. Sair da comunhão e doutrina dos apóstolos era o mesmo que abandonar. Enquanto João se referia primariamente ao abandono da doutrina concernente à Pessoa de Cristo, podemos ver que o testemunho cristão não parou aí. Muito daquilo que é aceito como ordem na igreja não tem qualquer fundamento nos ensinos dos apóstolos. O que vemos nos faz lembrar o que o Senhor disse aos Fariseus, ao afirmar que eles estavam “ensinando doutrinas que são mandamentos de homens”. Ele também disse: “Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição” (Mc 7:7, 9).

 O testemunho de Judas 
Judas também nos diz que certos homens se introduziriam furtivamente entre os cristãos e converteriam “em dissolução a graça de nosso Deus” (Jd 4). Ele descreve o caráter dos que corromperiam o testemunho cristão como pessoas que entrariam “pelo caminho de Caim”, sendo levadas “ao erro de Balaão”, e perecendo “na rebelião de Coré” (Jd 11). Estas três coisas descrevem muito bem o tipo de erro eclesiástico que hoje prevalece na cristandade.

Primeiro, há o “caminho de Caim”, que descreve a tentativa de se mostrar boas obras para Deus como forma de ser aceito por Ele. Caim era um homem religioso por ter oferecido um sacrifício, mas o que ele ofereceu a Deus, numa tentativa de obter aceitação, foi obra de suas próprias mãos, sendo rejeitado por isso (Gn 4:1-5). Sua oferta não tinha o sangue que prefiguraria o sacrifício cabal do sangue derramado do Senhor Jesus Cristo, sem o qual ninguém pode ser abençoado por Deus. Hoje está sendo pregado nos púlpitos de muitas igrejas um evangelho sem sangue, o qual nem mesmo é o evangelho. Por meio dele muitos têm sido levados a crer que podem apresentar suas boas obras a Deus em troca de aceitação e salvação, mesmo que a Bíblia indique claramente que a salvação “não vem das obras” (Ef 2:8-9; Tt 3:5; Rm 4:4-8).

Em seguida vemos o “erro de Balaão”, que nos fala do desejo de ensinar coisas que não vêm de Deus em troca de dinheiro e posição. Balaão se apresentou a Balaque e aos moabitas como um profeta com a intenção de profetizar para eles visando prejudicar o povo de Deus (Nm 22-24). Ainda que talvez não tenham a intenção de prejudicar o povo de Deus, muitos pregadores na cristandade estão do mesmo modo ensinando doutrinas prejudiciais que não são encontradas nas Escrituras e igualmente buscando posições elevadas na igreja.

Finalmente temos a “rebelião de Coré”, que é a organização de um partido de homens para desafiar a ordem dada por Deus para o sacerdócio. Coré e seus homens queriam uma posição acima do povo de Deus, a qual não lhes havia sido concedida por Deus. Na profissão cristã existe uma organização similar de uma classe especial de homens para presidirem sobre o rebanho de Deus, o que é conhecido como clero. Esses homens falam deliberadamente do rebanho de Deus como se fosse o rebanho “deles”. Esse tipo de organização pode muito bem ter surgido com boas intenções, e podem existir muitos que atualmente ocupam esse lugar de boa mente, mas mesmo assim trata-se de um sistema de coisas que não tem qualquer fundamento na Palavra de Deus. Em essência, ele desafia o genuíno sacerdócio que pertence a cada crente.

 O testemunho do Senhor 
Finalmente, o próprio Senhor condena um grupo de pessoas que se levantaria na igreja, chamados de “nicolaítas” (Ap 2:6, 15). Essas pessoas introduziram impurezas no testemunho cristão; e pelo significado de seu nome, muitos estudiosos da Bíblia concluíram que estas podem muito bem ter sido as primeiras sementes do clericalismo.

A palavra “nico” significa “governar”, e “laitan” — que é a mesma palavra para laico — significa “povo”. Os nicolaítas eram um partido formado por pessoas que aparentemente buscavam meios de “governar sobre o povo”, e por isso poderiam muito bem ter sido o início do sistema que faz distinção entre clero e leigos. O Senhor nos diz especificamente que as “obras” e as “doutrinas” dos nicolaítas são coisas que Ele odeia (Ap 2:6, 15).

Temos nisso tudo um testemunho abundante de quase todos os escritores do Novo Testamento sobre o fato de que haveria um grande distanciamento da simplicidade da fé cristã (2 Co 11:3-4). Os apóstolos nos disseram que, em sua ausência, surgiria um sistema de coisas que não teria qualquer fundamento na Palavra de Deus. É verdade que em algumas igrejas ocorre uma parcela maior desse erro eclesiástico do que em outras. Mas, seja na basílica de São Pedro em Roma, seja na menor capela evangélica, a maioria delas — se não todas — trazem os princípios básicos do clericalismo inseridos em seus sistemas de governo.

O crente que é instruído segundo os pensamentos de Deus não tem alternativa senão admitir que aquilo que se apresenta aos homens como a igreja de Deus tem pouca ou nenhuma semelhança com a igreja de Deus conforme é apresentada na Palavra de Deus. Sua pergunta poderá ser: “O que aconteceu?” Em poucas palavras, a resposta é que nós (a igreja) fracassamos.

 O contraste entre o “um só corpo” e as muitas seitas 
Talvez a mais triste de todas essas evidências de abandono sejam as muitas seitas e divisões. As Escrituras ensinam claramente que Deus odeia divisões, pois o cisma e a heresia (formação de partidos) são obra da carne (Gl 5:20). Quão grande o contraste entre a vontade do Senhor e essas numerosas seitas e divisões que existem no testemunho cristão!

Enquanto ainda estava aqui no mundo, o Senhor orou para que pudéssemos ser um. Ele disse, “E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:11-21). Ele estava pronto a morrer “para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos” (Jo 11:51-52). O Senhor também disse que depois de morrer Ele procuraria reunir Suas ovelhas em “um rebanho” para que houvesse “um Pastor” — Ele próprio (Jo 10:15-16). Apesar do desejo do Senhor para que o Seu povo expressasse uma unidade coesa, visível e prática neste mundo, estamos todos divididos em diferentes seitas — cada uma com suas próprias crenças e práticas peculiares à sua própria seita. Como poderia algo assim ter a aprovação do Senhor?

Diante dos primeiros indícios de divisão na igreja primitiva, o apóstolo Paulo foi dirigido pelo Espírito a escrever “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões… cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo. Está Cristo dividido?” (1 Co 1:10-13; 12:25). Aqui, na linguagem mais clara possível, Paulo roga em nome de Deus a todos os crentes, pela glória do Nome do Senhor Jesus, que não tenham divisões! Todavia, quando olhamos ao redor no cristianismo professo de nossos dias, vemos que aquilo que as Escrituras denunciavam aconteceu à igreja! Quantos milhares de cristãos estão dizendo “Eu sou de Roma” (Católica Romana), “Eu sou de Lutero” (Luterana), “Eu sou de Wesley” (Metodista), “Eu sou de Menno Simons” (Menonitas) etc. Se outrora entristecia ao Espírito escutar cristãos dizendo “Eu sou de Paulo” e “Eu sou de Apolo” etc., será que agora agrada ao Espírito ouvi-los dizer “Eu sou de Lutero”, “Eu sou de Wesley” etc.? Se naqueles dias do princípio da igreja isso foi denunciado como carnalidade, poderia a mesma coisa ser hoje chamada de espiritualidade? (1 Co 3:1-5). As muitas denominações colocaram de lado a ordem de Deus para a adoração e o ministério, e também para o governo da igreja, e estabeleceram uma ordem própria, completa, com todos os seus credos e regulamentos eclesiásticos. E, ao agirem assim, criaram uma triste divisão na igreja.

O Senhor Jesus ensinou seus discípulos a orarem “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6:10). A pergunta que fazemos é: Haverá divisões sectárias no céu? Todos os cristãos serão unânimes em concordar que as divisões desaparecerão quando estivermos lá. Todos no céu estarão reunidos em redor do Senhor Jesus Cristo em perfeita unidade, sem qualquer afiliação sectária. Então, como podem os cristãos desejarem se reunir para adoração na terra em divisões sectárias, quando não existe tal coisa no céu?

O apóstolo Paulo disse que a primeira responsabilidade que temos como cristãos andando como é digno da vocação com que fomos chamados é de procurarmos “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”. Ele segue explicando a razão, ao dizer que “há um só corpo” (Ef 4:1-4). Isto significa que, como cristãos, deveríamos buscar expressar na prática a verdade de que somos “um só corpo”. Assim o mundo seria capaz de enxergar uma unidade visível na igreja, mas infelizmente tudo o que o mundo vê é o testemunho cristão partido em pedaços. Evidentemente não é possível que a igreja toda se congregue sob um mesmo teto em um único lugar, mas ainda assim ela deveria expressar uma unidade na forma como funciona, em suas relações práticas entre as várias assembleias espalhadas pela terra.

Costumamos ouvir cristãos se referirem às diferentes denominações como “o grupo deles” e “o nosso grupo”, como se existissem muitos corpos! Eles falam de sua comunhão eclesiástica particular como um “corpo” em si mesmo, distinto de outros grupos eclesiásticos que também se enxergam como corpos independentes. Pelo que costumamos ver e ouvir entre os cristãos, a verdade do um só corpo foi perdida de vista.

Uma ilustração usada por Charles Stanley (1821-1890) descreve bem a confusão existente no testemunho cristão. Suponha que sua Majestade, a Rainha da Inglaterra, enviasse um oficial a uma de suas colônias, e durante algum tempo o exército ali se colocasse totalmente sob o comando deste oficial. Aquele exército seria adequadamente chamado de “Exército de Sua Majestade”. Mas se aquele exército colocasse de lado o comandante que lhes fora designado, e elegesse outro segundo a sua própria escolha, ou se aquele exército se dividisse em porções separadas e cada divisão adotasse seu próprio comandante, mesmo que cada soldado continuasse sendo um soldado britânico, poderia tal exército dividido ser apropriadamente chamado de “Exército de Sua Majestade”? Depois de ter deixado de lado a autoridade do comandante designado por Sua Majestade, acaso não seria cada uma daquelas divisões um motim? Não seria uma deslealdade à Rainha juntar-se às fileiras de qualquer uma daquelas divisões amotinadas?

Oras, se aplicarmos o mesmo à igreja, poderemos facilmente enxergar que a mesma coisa aconteceu na formação das igrejas denominacionais e não denominacionais. Durante um tempo, a igreja primitiva esteve sob a autoridade do Espírito Santo, que foi enviado do céu para governar a igreja, do mesmo modo como o exército britânico de nosso exemplo reconheceu, por algum tempo, a autoridade do oficial enviado por Sua Majestade. Quando a igreja afastou-se da Palavra de Deus isso deu origem às divisões, e então foram implementadas organizações humanas para manter essas divisões funcionando. Sem dúvida alguma essas iniciativas humanas foram introduzidas com a melhor das intenções, mas sem a autoridade dada pela Palavra de Deus. À medida que as seitas dentro da profissão cristã se multiplicaram, mais autoridades humanas (com seus credos e regulamentos) foram estabelecidas dentro das várias denominações visando sua administração. A coisa toda cresceu e hoje existe um vasto sistema com muitas comunhões separadas de cristãos, e muito pouco de sua autoridade está fundamentada na Palavra de Deus.

Acaso não era previsível que os incrédulos deste mundo viessem a olhar para a igreja e a balançar a cabeça em sinal de desaprovação? Se perguntarmos a eles por que não creem no evangelho, costumam usar como desculpa para rejeitarem a Cristo o estado dividido e confuso da cristandade, com as suas muitas vozes conflitantes. Que triste testemunho damos neste mundo. Não há dúvida de que devemos baixar a cabeça e confessar ao Senhor que pecamos, como fizeram Daniel, Esdras e Neemias, ao reconhecerem que também eram responsáveis pelo fracasso do testemunho de Israel (Dn 9:1-19; Ed 9:1-15; Ne 9:4-38).

 Terminologia convencional versus terminologia bíblica 
Boa parte da confusão existente no testemunho cristão vem da terminologia que os teólogos criaram para simples verdades da Bíblia. F. B. Hole disse certa vez que a teologia moderna pegou muitos termos das Escrituras e os esvaziou de seu sentido bíblico, dando depois a esses termos significados inventados pelos homens para fundamentarem seus próprios sistemas teológicos. Quando comparamos essas ideias com a Palavra de Deus, vemos que elas estão distantes da verdade.

A Igreja

Um dos exemplos mais evidentes de como a terminologia convencional criou um novo sentido para um termo bíblico é “a igreja”. A maioria dos cristãos usam este termo para se referir a um edifício, aonde os cristãos vão quando se congregam para adoração. Essas pessoas dizem “Vamos à igreja” ao se referirem à sua reunião nesse edifício. Todavia, a Bíblia nunca utiliza a palavra “igreja” desta maneira. A Bíblia fala da igreja [eclésia – Grego] como um grupo de pessoas redimidas que foram “chamadas para fora” de entre judeus e gentios, por meio de sua crença no evangelho. Essas pessoas compõem o corpo de Cristo e um dia irão reinar com Ele, como Sua noiva, sobre este mundo.

A Bíblia mostra claramente que a igreja não é um edifício material, pois ela diz que Cristo amou a igreja e Se entregou à morte por ela (Ef 5:25-26). Fica claro que isso não poderia ser dito de um mero edifício construído por mãos humanas. A Palavra de Deus também nos diz que a igreja costumava ser encontrada na casa de algumas pessoas (Rm 16:5; 1 Co 16:19; Cl 4:15; Fl 2). Ela diz que a igreja tinha ouvidos para receber instrução (At 11:22, 26); que tinha poder de discernimento para saber a vontade do Senhor (At 15:22); que podia orar (At 12:5), ser saudada (Rm 16:5), e ser perseguida (At 8:1; 1 Co 15:9). A partir dessas referências é óbvio que a igreja é um grupo de pessoas salvas pela graça de Deus, e não um mero edifício de pedras e madeira.

Uma irmã das Antilhas, que havia aprendido algo sobre a verdade da igreja, foi questionada pelo “Ministro” de uma denominação local da razão de ela não “ir mais à igreja”. Sua resposta foi: “A única igreja que encontro na Bíblia é aquela que se lançou ao pescoço de Paulo e o beijou”, referindo-se a Atos 20:37. Então, apontando para o edifício no final da rua, continuou: “Se aquela coisa ali se lançar ao meu pescoço, ela vai me matar!”.

Os cristãos também usam erroneamente este termo para descrever uma seita na igreja. Eles falam de alguém ser membro de uma igreja, quando o que querem dizer é ser membro de uma seita denominacional (ou não denominacional) na igreja. A verdade é que as Escrituras não falam de sermos membros de qualquer outra coisa que não seja o corpo de Cristo. Todo crente no Senhor Jesus Cristo é um membro desse corpo (1 Co 12:12, 27).

Também ouvimos cristãos falando de pessoas “se afiliarem à igreja”, quando estão se referindo na realidade a pessoas que se unem a uma seita na igreja. A. H. Rule disse certa vez: “A igreja não é uma associação à qual os homens podem voluntariamente se ligar, ou dela se desligarem conforme a sua vontade, como acontece no caso das seitas”. A Bíblia não ensina que devemos “nos fazer membros” de uma igreja. Só existe uma igreja na Bíblia: a ela o Senhor (e não nós) acrescenta pessoas quando elas creem nEle para salvação (At 2:47; 5:14; 11:24; 1 Co 6:17). Uma vez perguntaram a um irmão, que entendia esta verdade, a que igreja ele pertencia. Ele respondeu: “Pertenço à igreja da qual ninguém é capaz de se fazer membro!” Evidentemente a pessoa que fez a pergunta ficou bastante surpresa, e indagou: “Então como vocês conseguem os novos membros?” Ele respondeu: “Ah, é o Senhor quem os acrescenta pelo Espírito quando são salvos, mas as pessoas não podem acrescentar-se a si mesmas por sua própria vontade” (1 Co 12:13). A única coisa à qual poderíamos nos “juntar”, e deveríamos buscar fazê-lo, é à comunhão dos santos (At 9:26), mas não podemos fazer a nós mesmos membros da igreja.

Há quem às vezes pergunte: “Quem é que dirige a sua igreja?”. As pessoas pensam que vamos falar o nome de algum “Ministro”. Todavia, a Cabeça da igreja mencionada na Bíblia está no céu — é o próprio Cristo! (Cl 1:18)

Também costumamos ouvir pessoas dizendo: “Nossa igreja ensina tal e tal coisa…” Todavia, não existe qualquer pensamento na Palavra de Deus de que a igreja ensine alguma coisa. Tal ideia é totalmente humana. Se os homens criassem uma organização com certas doutrinas e credos formulados segundo o padrão de sua seita, as pessoas até que não estariam erradas se dissessem que aquela organização ensina. Mas uma organização de homens não é a igreja! A verdade é que a igreja não é um corpo legislativo que estabelece regras, leis e doutrinas. Ela não ensina, mas é ensinada! E isso é feito por indivíduos com dons que são levantados pelo próprio Cristo, a Cabeça da igreja, que está hoje ressuscitado no céu (At 11:26).

Santo

Outro exemplo da confusa terminologia existente na cristandade é encontrado no significado da palavra “santo”. Muitos cristãos pensam em um santo como alguém que vive ou viveu uma vida exemplar. Porém a Bíblia usa o termo para descrever todos os crentes — até mesmo aqueles em Corinto, que eram notórios por suas divisões e carnalidade (1 Co 3:1-4). Eles estavam associados ao mal moral (1 Co 5) e alguns professavam uma má doutrina que atacava os próprios fundamentos do cristianismo (1 Co 15). Não existe um grupo de cristãos na Bíblia que esteja numa situação mais precária, exceto talvez pelos gálatas. Mesmo assim, apesar de todo o fracasso deles, a Palavra de Deus chama os coríntios de “santos”! (1 Co 1:2) Com base nisso fica claro que a Bíblia define “santo” de um modo diferente daquele normalmente usado pelas pessoas nos dias de hoje.

William Kelly disse que na mente da maioria das pessoas ser santo é ser algo mais do que um mero cristão. Mas, na realidade, o que acontece é que um cristão é algo mais do que um santo! Ele disse: “Muitos diriam que minha doutrina é estranha, por todos nesta região serem considerados cristãos, porém pouquíssimos em todo o mundo serem considerados santos — e talvez nenhum deles seja visto assim até chegar no céu. Mas está muito claro — não há nada mais evidente — que um cristão é um santo, e muito mais que isso!”

Santo é alguém “santificado”. Ser santificado, posicionalmente falando, é ter sido “colocado à parte” ou “separado” por Deus para bênção. Isso acontece quando nascemos de novo. Aqueles que são nascidos de Deus foram colocados à parte ou separados da massa da humanidade que caminha rumo à destruição. Todos os crentes desde o início dos tempos são santos. Por isso podemos chamar de “santos” aqueles que viveram nos tempos do Antigo Testamento (Dt 33:3; 1 Sm 2:9; 2 Cr 6:41 etc.). Todavia eles não eram cristãos. Apenas os crentes a partir de Pentecostes e até o Arrebatamento estão nessa posição diante de Deus. Um “cristão” é alguém que creu “no evangelho da vossa salvação” e, por conseguinte, foi selado com o Espírito, tendo assim sido feito parte da igreja (Ef 1:13). Ele foi deste modo colocado em uma posição muito mais abençoada (estando ligado a Cristo, a Cabeça da igreja) do que um santo do Antigo Testamento. O cristão é um santo, mas é muito mais que isso — ele é membro do corpo de Cristo (1 Co 12:12-13) e filho de Deus (Rm 8:14-15; Gl 4:5-7; Ef 1:5). Estas são coisas que os santos do Antigo Testamento não eram. (Existe também a santificação prática, que tem a ver com o aperfeiçoamento da santidade na vida do crente — que significa tornar nossa vida praticamente consistente com nossa posição — Jo 17:17; 1 Ts 4:3-4; 5:23; Hb 12:14; 2 Co 7:1).

O espaço não permite que continuemos discorrendo e enumerando todos os diversos termos que são erroneamente usados por cristãos atualmente. Examinaremos alguns deles à medida que avançarmos com nosso tema.

 Estado de espírito – O pré-requisito necessário para se aprender a verdade 
Ocorre-nos a pergunta: “Por que tantos cristãos aceitam essa ordem de coisas que foi criada pela inventividade humana na cristandade, sem sequer questionarem sua veracidade?” Podemos também perguntar: “Por que a ordem de Deus na Bíblia para a adoração e o ministério passou despercebida a tantos cristãos?” A resposta está no fato de que existe uma exigência moral necessária para se compreender a verdade. Esse importante pré-requisito é encontrado em um estado de espírito. Os pontos a seguir são absolutamente necessários para quem deseja ter um estado de espírito adequado à compreensão da verdade das Escrituras:

1) Passar um tempo na presença do Senhor em comunhão com Ele

A Palavra de Deus diz: “O teu caminho, ó Deus, está no santuário” (Sl 77:13). Considerando que é ali que está o caminho dEle, precisamos estar ali com Ele, se quisermos discernir qual é a Sua vontade. Para o cristão, estar em Seu santuário significa viver na Sua presença, na companhia dEle e em comunhão com Ele. A vontade do Senhor a respeito destas coisas nos será revelada quando estivermos no secreto lugar da Sua presença. “Na tua luz, veremos a luz” (Sl 36:9). Não existe um substituto para a comunhão com o Senhor. Este tremendo privilégio de comunhão com Ele está à nossa disposição para dele desfrutarmos a qualquer momento, pois temos livre acesso à Sua presença através da oração. “Bem-aventurado o homem que me dá ouvidos, velando às minhas portas cada dia, esperando às ombreiras da minha entrada” (Pv 8:34).

2) Ter o desejo de fazer (praticar) a vontade de Deus

A Bíblia diz que “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo” (Jo 7:17). A maioria dos cristãos — se não a totalidade deles — deseja conhecer a vontade de Deus para sua vida. Mas isso não é o que este versículo diz. Ele fala do desejo de “fazer” a vontade de Deus, não apenas do mero conhecimento dela. Muitos cristãos passaram a vida inteira sem saber qual era a vontade de Deus para eles. Isso pode acontecer em muitas áreas, inclusive onde e como Deus gostaria que eles se reunissem com outros cristãos para a adoração e o ministério. A razão disso é que não basta ter o desejo de conhecer a vontade de Deus. “A alma do preguiçoso deseja, e coisa nenhuma alcança” (Pv 13:4). O conhecimento da vontade de Deus é revelado àqueles que estão desejosos de fazer essa mesma vontade, custe o que custar. Quando estivermos comprometidos em fazer a vontade de Deus, Ele a tornará conhecida para nós.

3) Ter o exercício espiritual de aplicá-la a si mesmo a fim de aprender a Verdade

A Bíblia diz que “Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a lei do SENHOR e para cumpri-la… Então apregoei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos diante da face de nosso Deus, para lhe pedirmos caminho seguro para nós, para nossos filhos e para todos os nossos bens” (Ed 7:10; 8:21). Precisamos fazer o mesmo, e sermos diligentes em buscar a verdade examinando a Palavra de Deus (At 17:11).

No livro de Apocalipse, o apóstolo João deveria “tomar” o “livrinho” que continha a verdade dos conselhos de Deus concernentes a Cristo e Sua herança na terra, caso o desejasse. Ele pediu o livrinho, mas pedir apenas não bastava — o anjo lhe respondeu: “Toma-o, e come-o” (Ap 10:9). Isso nos mostra que a verdade não é automaticamente dada àqueles que simplesmente pedem por ela, mas sim àqueles que possuem energia espiritual para tomá-la. Isto requer diligência. “A alma dos diligentes se farta” (Pv 13:4). Paulo disse a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2:15). Ele também falou das “palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido” nos estudos diligentemente feitos por Timóteo (1 Tm 4:6). De um modo geral, existe entre os cristãos de hoje uma triste falta de estudo pessoal das Escrituras. Alguns cristãos se apoiam tão somente naquilo que recebem como alimento espiritual do assim chamado pastor de sua igreja, ou do que escutam no rádio. Através desses meios é muito improvável que os ouvintes recebam a verdade sobre o assunto que estamos tratando. Consequentemente, não é de surpreender que muitos cristãos não conheçam a ordem de Deus para os cristãos se congregarem para a adoração e o ministério.

4) Ter inteireza de coração para reconhecer a Verdade quando esta é apresentada

A Palavra de Deus diz: “Aos retos nasce luz nas trevas” (Sl 112:4). Podemos não gostar da verdade quando ela é apresentada, mas se tivermos um coração reto e honesto, reconheceremos que se trata da verdade. Alguém disse que quando a verdade nos incomoda, isso pode ser um sinal de que não estamos olhando na direção correta, pois a verdade não machuca, a menos que seja preciso.

Nossa única conclusão quanto à razão de muitos cristãos simplesmente aceitarem toda essa ordem de coisas da profissão cristã sem questionar, é que está faltando um ou todos esses pontos. Paul Wilson costumava dizer que se existir algum impedimento à nossa compreensão de uma passagem das Escrituras, isso ocorrerá por uma das três razões a seguir, ou por todas elas:

  1. Não lemos a passagem atentamente.
  2. Adotamos uma ideia ou ensino pré-concebido do assunto, e isso está nos impedindo de enxergar seu verdadeiro significado.
  3. Nossa própria vontade está no comando, portanto não queremos a verdade.

 Não somos chamados a consertar a ruína do testemunho 
Muitos crentes sinceros e preocupados perguntam: “O que eu posso fazer para ajudar a restaurar as coisas no testemunho cristão? Talvez fosse bom apresentar isso ao meu ‘Pastor’ para termos uma igreja mais bíblica”.

Se buscarmos outra vez a Palavra de Deus veremos que a condição de ruína do testemunho cristão não será restaurada, mas sim julgada por Deus e removida da terra. Em Romanos 11 o apóstolo Paulo fala da “oliveira”, cujos ramos foram “quebrados”, ilustrando de forma figurada como a nação de Israel seria colocada de lado quanto ao lugar de privilégio que ocupava com Deus. Isso foi feito porque eles rejeitaram todo o testemunho de Deus em Cristo (conforme é registrado nos evangelhos) e o Espírito Santo (conforme vemos no livro de Atos). Então ele fala dos ramos de uma “oliveira brava” sendo enxertados no tronco da oliveira. Ele usou isso para ilustrar como Deus iria introduzir os gentios em um lugar de privilégio por meio do evangelho. Aqueles que professam conhecer o Senhor estão agora neste lugar de privilégio e associação com Ele. É este o lugar que a cristandade ocupa pela graça de Deus.

Mas o apóstolo segue dizendo que se os ramos da oliveira brava (cristandade) não permanecessem na bondade de Deus, eles seriam cortados do lugar de privilégio, e os ramos que foram antes cortados (Israel) seriam colocados de volta naquele lugar de favor. Como temos demonstrado, a cristandade fracassou em todos os aspectos de sua responsabilidade e aguarda esse julgamento, o qual ocorrerá depois que o Senhor chamar os verdadeiros crentes para fora dela em Sua vinda (no arrebatamento). Assim vemos que a cristandade termina em juízo, não em restauração. Uma figura disso nas Escrituras é Vasti (a rainha gentia, uma figura da cristandade) sendo colocada de lado, enquanto Ester (a judia, uma figura de Israel) é trazida para ocupar o lugar de sua antecessora (Ester 1 a 2).

Além disso, nas palavras que o Senhor dirige às sete igrejas na Ásia, que apresentam profeticamente os sucessivos estágios de declínio pelos quais a igreja professa passaria, Ele não mostra qualquer indício de que o testemunho cristão seria restaurado, pelo contrário, mostra que seria cuspido de Sua boca no final (Ap 3:16). Ao invés de uma promessa de restauração, o Senhor diz: “Outra carga vos não porei; mas o que tendes, retende-o até que eu venha” (Ap 2:24-25). Tampouco há qualquer menção nas epístolas de que haveria uma restauração do testemunho cristão.

Indo além, em Mateus 13:28-30 encontramos a própria palavra do Senhor de que deveríamos desistir de tentar consertar a condição arruinada do testemunho cristão. Quando o inimigo semeou o joio em meio ao trigo, os servos do proprietário perguntaram: “Queres, pois, que vamos arrancá-lo?” Eles perguntaram se deviam tentar remediar a situação. O proprietário respondeu: “Não, para que, ao colher o joio, não arranqueis com ele também o trigo. Deixai crescer ambos juntos até a ceifa”. A “ceifa” é o fim do mundo (Mt 13:39). Portanto está claro que não somos chamados a consertar a confusão existente na cristandade, mas a deixar isso tudo para o Senhor cuidar no fim do mundo.

Oras, se Deus diz que o testemunho cristão não será restaurado, então certamente será fútil qualquer esforço de nossa parte de tentar remediar sua presente condição. Acaso Ele iria nos pedir para fazer algo que a Sua Palavra nos diz ser impossível? Iria Ele querer que fizéssemos algo que Ele próprio disse em Sua Palavra para não fazermos?

 Um Chamado à Separação 

◄))) Apesar de não sermos chamados a consertar a confusão que existe no testemunho cristão, existe algo que somos chamados a fazer para nos colocarmos na posição correta em relação a essa confusão. O apóstolo Paulo descreveu o abandono da Verdade no testemunho cristão como algo tão confuso que apenas o Senhor seria capaz de distinguir entre os que são reais e os que são falsos. Ele segue dizendo que nossa responsabilidade nisso tudo é nos apartarmos daquilo que sabemos que está errado, e que é inconsistente com a verdade das Escrituras. “Qualquer que profere o nome de Cristo [o Senhor] aparte-se da iniquidade” (2 Tm 2:19).

A fim de ilustrar este ponto tão importante, Paulo usou a figura de uma “grande casa” para descrever a confusa condição existente na cristandade. Na casa há uma mistura de vasos “de ouro e de prata” (os verdadeiros crentes), e também de “pau e barro” (os falsos, meros professos). Alguns desses vasos são “para honra” e alguns “para desonra”. Se um cristão pretende ser um vaso “santificado” para honra, adequado para todo e qualquer uso para o qual o Mestre possa convocá-lo, ele precisa passar pela experiência de se purificar, separando-se daqueles vasos que se misturaram no atual e confuso estado de coisas. Paulo diz: “De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” (2 Tm 2:20-21).

Portanto, o chamado do Senhor para cada cristão que se encontra identificado com a confusão na “grande casa” é separar-se. Apesar de não podermos sair da “grande casa” (pois isto significaria deixar completamente de professar que somos cristãos), podemos e devemos nos separar da desordem que existe na casa. Veja também 2 Coríntios 6:14-18; 2 Timóteo 3:5; Apocalipse 18:4.

 Por que nos separarmos? 
Alguém poderia perguntar: “Por que a separação é tão importante?” A resposta é simplesmente porque podemos ser — e efetivamente seremos — contaminados por nossas associações! A maioria dos cristãos acredita poder se associar a qualquer coisa que for de sua vontade sem que sejam afetados por isso. A Bíblia, porém, ensina que somos afetados por aqueles com quem nos associamos. “As más companhias corrompem os bons costumes” (1 Co 15:33; 1 Tm 5:22; Ag 2:10-14; Dt 7:1-4; Js 23:11-13; 1 Rs 11:1-8 etc.).

Entendemos que este não é um tópico muito popular entre os cristãos hoje em dia, mas Deus nos disse essas coisas para que pudéssemos ser preservados das sutis corrupções orquestradas pelo inimigo de nossa alma, Satanás. As coisas que Deus disse em Sua Palavra são para o nosso bem, e não por Ele ser um estraga prazeres. Deus nos ama e se importa conosco, e sabe o que é melhor para nós. E lembremo-nos de que nunca somos mais sábios do que a Palavra de Deus.

 Os três tipos de mal existentes na cristandade 
A Bíblia indica que o cristão deve se separar de três tipos de mal, pois a associação com essas coisas irão nos afetar e nos contaminar. São eles:

1) Mal Moral — Um exemplo deste tipo de mal é encontrado no problema existente em Corinto, onde havia uma pessoa imoral entre eles. Por ser um grupo de cristãos que estavam associados a uma pessoa má em seu meio, eles corriam o risco de serem levedados pelo pecado daquela pessoa. O apóstolo disse a eles: “Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa” (1 Co 5:6-7). Ele lhes disse que deviam se dissociar disso excomungando aquela pessoa (1 Co 5:11-13). Se permitissem que ela continuasse no meio deles, isso iria dessensibilizar seus padrões morais e todos eles também acabariam caindo na imoralidade.

Além do mais, ao continuarem assim associados com o pecado (pelo descuido de permitir que o pecado não fosse julgado) eles se tornariam coletivamente culpados daquele mesmo pecado, mesmo que não o tivessem cometido pessoalmente! Compare com o caso do pecado de Acã. Quando ele pecou, o Senhor disse: “Israel pecou” (Js 7:1, 11). Mesmo que apenas um homem e sua família fossem os culpados pelo erro, o Senhor acusou todo o Israel dessa culpa, pois estavam todos associados com Acã.

2) Má Doutrina — Um exemplo disso é o caso da “senhora eleita” na Segunda Epístola de João. Ela foi advertida de que se viesse a ela alguém que não trouxesse a doutrina de Cristo, ela não deveria receber tal pessoa em sua casa, e nem tampouco saudá-la, pois se o fizesse estaria sendo participante do seu erro. As palavras do apóstolo João foram estas: “Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras” (2 Jo 9-11). Repare: se ela saudasse ou recebesse tal pessoa, seria participante da má doutrina daquela pessoa, mesmo que ela própria não professasse tal ensino maligno! Sua responsabilidade, portanto, era de se manter longe desses ensinos errôneos e isso precisava ser feito por meio da separação.

Os gálatas eram outro exemplo disso. Entre eles haviam se infiltrado mestres que tentavam judaizá-los, ensinando que eles precisavam guardar a lei. Paulo disse a eles: “Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chamou. Um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gl 5:7-9). Vemos aqui que o ensino errôneo dos mestres judaizantes que havia entre eles possuía o mesmo efeito de fermentar o grupo como um todo. Eles estavam sendo levedados por aquelas doutrinas judaizantes com as quais estavam associados.

Vemos também que alguns dentre os coríntios haviam adotado ensinos errôneos quanto à doutrina da ressurreição. Paulo identificou esses ensinos como originários da associação deles com alguns mestres existentes em seu meio que eram tendenciosos quanto à doutrina. Ele os alertou que se continuassem associados com essas pessoas, acabariam todos sendo afetados. Suas palavras foram: “Não vos enganeis. As más companhias corrompem os bons costumes” (1 Co 15:33).

Paulo também disse a Timóteo que se ele encontrasse alguém ensinando coisas que não estivessem de acordo com a sã doutrina, deveria “apartar-se” desse, pois se não o fizesse acabaria se tornando participante do pecado daquela pessoa (1 Tm 6:3-5).

3) Mal Eclesiástico — O mesmo princípio vale também para a falta de ordem e o mal eclesiástico (isto é, o clericalismo — sistema formado por clero e leigos). Ao nos associarmos a alguma comunhão em particular de cristãos que tenham um sistema de coisas que não está em conformidade com a Palavra de Deus, quer nós concordemos ou não com suas práticas estaremos mesmo assim identificados com elas. Este princípio é claramente estabelecido por Paulo em 1 Coríntios 10:14-22. Ele mostra que, independente de ser no cristianismo, judaísmo ou paganismo, o princípio da identificação sempre existe. Participar de práticas religiosas, quaisquer que sejam elas, é expressar comunhão com tudo o que existe ali.

No que diz respeito ao cristianismo, Paulo diz: “Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Co 10:16). Desta passagem fica evidente que nossa ação de partir o pão (participar da ceia do Senhor) é a expressão de nossa comunhão com aqueles com quem partimos o pão.

Em relação a Israel, Paulo mostrou que o mesmo princípio existia, ao dizer: “Vede a Israel segundo a carne: aqueles que comem os sacrifícios não estão porventura em comunhão com o altar?” (1 Co 10:18 – versão J. N. Darby). Alguém que participasse dos sacrifícios sobre o altar no qual eram oferecidos, estavam identificados com tudo o que o altar representava.

E o apóstolo mostrou também que o mesmo princípio valia para a idolatria no paganismo, ao dizer: “Mas o que os gentios sacrificam, eles sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que estejais em comunhão com os demônios” (1 Co 10:20 – versão J. N. Darby). Neste caso aqueles que participavam do “cálice dos demônios” estavam em comunhão com demônios.

Em tudo isso permanece o fato de que o ato de participarmos de um grupo eclesiástico em particular significa nossa identificação com tudo o que acontece ali. Se eles ensinam má doutrina, estamos em comunhão com a má doutrina. Se eles estão envolvidos com práticas de adoração que não têm fundamento nas Escrituras, estamos também em comunhão com elas. E Deus não gostaria de ver o Seu povo em comunhão com má doutrina ou práticas errôneas (2 Co 6:14-18). É por isso que Paulo diz que quando a confusão religiosa se alastrasse pela casa de Deus, deveríamos nos “purificar” dessas coisas separando-nos delas (2 Tm 2:20-21).

 O remanescente de judeus que partiu da Babilônia 
O Antigo Testamento nos fornece uma ilustração deste exercício de separação da confusão religiosa. Ao acompanharmos a história dos filhos de Israel nos livros de Reis e Crônicas, vemos que depois de terem se estabelecido em sua terra prometida com o culto de adoração que Deus lhes havia ordenado, eles foram pouco a pouco se distanciando dessas instruções. Eles introduziram coisas que Deus nunca ordenou que fizessem (por exemplo 1 Reis 11:7-8; 2 Reis 16:10-18).

Por causa de sua desobediência e de seu fracasso em depender do Senhor, pouco a pouco eles foram perdendo a terra para os seus inimigos, até que finalmente chegaram os babilônios e os tiraram completamente da terra. Eles foram levados para fazer parte do imenso sistema da Babilônia (nome que significa “confusão”), que é uma figura da confusão religiosa. Muitos dos vasos que havia no templo foram levados e incorporados ao paganismo da Babilônia. Enquanto os filhos de Israel permaneciam na terra da confusão religiosa de Babilônia, mal havia um resquício sequer da adoração peculiar que Deus lhes havia ordenado. Seus vasos de adoração estavam ali (Dn 1:2; 5:2, 5), mas eles estavam completamente misturados com aquele enorme sistema que não provinha de Deus. Que triste imagem de fracasso.

O que iremos ver nessa triste figura é uma correlação com a história da igreja. Não muito tempo depois de Deus haver estabelecido a igreja na simplicidade da adoração e do culto cristão, também ocorreu um distanciamento da Sua Palavra. Não demorou para que a grande ruína e fracasso que temos mencionado caíssem sobre o testemunho cristão. Consequentemente, a igreja também foi levada para a confusão religiosa. Hoje esse distanciamento da Palavra de Deus é tão grande, que o verdadeiro cristianismo bíblico mal é reconhecido entre todos os acessórios estranhos que têm sido associados ao nome de Cristo. Que triste testemunho da ruína daquilo que foi o depositório da mais elevada verdade jamais revelada ao homem!

Depois de setenta anos de permanência dos filhos de Israel na Babilônia, houve um exercício entre alguns deles para que retornassem a Jerusalém, após ouvirem o decreto de Ciro, rei da Pérsia. A preocupação deles naquele momento era adorar Jeová no lugar e da maneira que Deus havia originalmente designado. Por isso Jesuá e Zorobabel (e mais tarde Esdras e Neemias), juntamente com alguns milhares de judeus, partiram de Babilônia (Esdras 1-2). Para retornar a Jerusalém eles precisariam deixar Babilônia, isto é, separar-se dela. Sair de Babilônia significava deixar muitos de seus irmãos que não estavam preocupados em abandonar a confusão que havia naquela terra. A correlação é óbvia. Deixar as denominações significará a mesma coisa para nós, e implicará também em separar-se de verdadeiros crentes que estão bem contentes com esses lugares.

 Sete desculpas para não se separar dos sistemas denominacionais 
Antes de comentarmos as desculpas que costumam ser dadas para não se separar dos sistemas denominacionais, gostaríamos de deixar claro que não temos a intenção de tentar convencer alguém a fazer algo contra a sua vontade. As Escrituras dizem que, entre outras coisas, “…subverter o homem no seu pleito, não são do agrado do Senhor” (Lm 3:36). Se alguém está contente em sua igreja, não é com ele que estamos falando. Estamos nos dirigindo a cristãos genuinamente preocupados com a questão de onde e como Deus gostaria que eles estivessem congregados para a adoração e o ministério.

Além disso, não queremos apresentar estas coisas com um espírito contencioso; certamente não é nossa intenção criticar outros cristãos. Ao comentarmos estas desculpas, cremos que o leitor irá entender que não nos consideramos melhores do que outros cristãos que frequentem alguma organização humana na casa de Deus. Nosso objetivo é revelar a falsidade dos argumentos que as pessoas utilizam quando desejam permanecer numa posição da qual a Palavra de Deus diz claramente para se separarem. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 11:15).

 1) Não devemos julgar outros cristãos! 
Às vezes as pessoas dirão: “Eu não me separaria de minha igreja mesmo que visse algumas coisas que não estão corretas, pois se me separasse estaria julgando os que praticam essas coisas, e a Bíblia diz que não devemos julgar uns aos outros”.

Percebemos que, para alguns, nossos comentários parecem estar carregados com um espírito de farisaísmo, como se estivéssemos julgando outros cristãos. De boa consciência diante de Deus, cremos que não estamos julgando os motivos dos outros, pois somente Deus é o Juiz dos motivos (Mt 7:1; 1 Sm 2:3; 1 Co 4:4-5), mas somos instruídos pelas Escrituras a julgar as doutrinas de uma pessoa (1 Co 10:15; 14:29), suas ações (1 Co 5:12-13), e seus frutos (Mt 7:15-20).

Com a ajuda do Senhor, iremos demonstrar a partir das Escrituras que a atual ordem de coisas praticadas em todos os lugares da cristandade, para a adoração e o ministério da Palavra, não está de acordo com a Palavra de Deus, e que ela (a Palavra de Deus) julga essa ordem de coisas e a considera errada. Como cristãos, somos exortados a exercer juízo sobre aquilo que a Palavra de Deus exerce juízo. O princípio é claramente apresentado em Apocalipse 18:20: “Alegra-te sobre ela, ó céu, e vós, santos e apóstolos e profetas; porque já Deus julgou o vosso juízo quanto a ela” (Versão J. N. Darby). Depois que os verdadeiros crentes são tirados dessa cristandade no Arrebatamento, toda a ordem humana de coisas nela culminará na falsa igreja do livro de Apocalipse (apresentada como “Mistério, a grande Babilônia”). Deus executará o Seu julgamento sobre ela — Ele utilizará a Besta para fazê-lo, e ela terminará para sempre (Ap 17:16).

Quando isso acontecer, o céu todo se regozijará em uma celebração, e aos santos de Deus será dito: “Deus julgou o vosso juízo quanto a ela” (Ap 18:20 – Versão J. N. Darby). Isto demonstra que antes daquele tempo, os crentes sensatos já fizeram o seu juízo dela. Naquele dia vindouro Deus fará com que o julgamento que eles fizeram seja publicamente reconhecido, ao executar o Seu julgamento sobre ela. Isto mostra claramente que os cristãos devem julgar aquilo que não é bíblico na cristandade e separar-se disso.

O Antigo Testamento traz uma figura que ilustra este ponto. Jeroboão introduziu em Israel um novo sistema de adoração que não passava de uma invenção sua. Ele não tinha qualquer autorização de Deus para fazê-lo. Todavia, ele criou dois novos centros de adoração em Israel, um em Betel e outro em Dã. Ele também estabeleceu uma nova ordem sacerdotal nesses lugares, a qual era “como” a ordem instituída por Deus em Jerusalém. Ele fez tudo isso para dar ao povo a sensação de que essa nova ordem de coisas vinha de Deus, pois era parecida com a ordem instituída por Deus em Jerusalém. Mas com isso ele levou Israel a pecar, ao encorajar o povo a adorar ali (1 Reis 12:28-33). Nem precisaria ser mencionado que isso desagradou ao Senhor.

Não muito tempo depois, o Senhor enviou um profeta a Betel para clamar contra o altar que Jeroboão havia construído ali. O profeta “clamou contra o altar por ordem do Senhor, e disse: Altar, altar! Assim diz o Senhor… E deu, naquele mesmo dia, um sinal, dizendo: Este é o sinal de que o Senhor falou: Eis que o altar se fenderá, e a cinza, que nele está, se derramará” (1 Reis 13:1-3). Repare com atenção: o profeta clamou contra o altar, não contra as pessoas que adoravam ali! O altar, com seu bezerro, era o ponto focal da adoração em Betel, representada por todo um sistema de coisas que Jeroboão havia estabelecido. Isso ilustra nosso ponto. Não julgamos ou clamamos contra nossos irmãos que estão misturados com a confusão existente na casa de Deus, mas contra o sistema, pois ele não é de Deus.

A mensagem do profeta deixou Jeroboão muito aborrecido, e ele estendeu sua mão contra o profeta, mas ao fazê-lo, sua mão secou-se. Mesmo assim, o profeta rogou pela recuperação da mão de Jeroboão. Isto prova que o profeta não tinha intenção de atacar Jeroboão ou o povo, mas desejava apenas o bem e a bênção deles. Do mesmo modo, quando o assunto da separação da confusão na casa de Deus é mencionado, muitos cristãos que desejam seguir adiante com esse sistema de coisas sentem-se pessoalmente ofendidos, como ocorreu com Jeroboão. Todavia, não é nossa intenção atacar quem quer que seja, mas sim revelar a verdade de Deus em amor (Ef 4:15). Jamais deveríamos fazer ofensas pessoais, mas quando a verdade atinge alguém que não a deseja, essa pessoa poderá sentir-se ofendida pela verdade (Mt 15:12; Gl 4:16). Se for este o caso, devemos deixar que o Senhor trate com ela.

 2) Separar-se é não demonstrar amor! 
Alguns cristãos acham que separar-se de outros crentes que têm “diferentes opiniões” é uma medida extrema demais e que isso não seria uma demonstração de amor.

Todavia a Bíblia diz que a maior prova de amor que podemos demonstrar pelos filhos de Deus é por meio de nossa obediência pessoal a Deus. “Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1 João 5:2-3). A pergunta que fazemos é: “O que é mais importante, a obediência a Deus, que é uma demonstração de nosso amor por Ele, ou continuar numa posição contrária à Bíblia por querermos mostrar que amamos as pessoas que estão ali?” Desobedecer as Escrituras não é amor.

Uma coisa é fazer parte de uma organização chamada “igreja” por ignorar a ordem de Deus dada nas Escrituras, e outra bem diferente é permanecer ali quando sabemos o que é correto (Tiago 4:17). Jamais deveríamos colocar o povo de Deus antes de Deus — é Deus quem deve vir primeiro. O Senhor Jesus disse: “Se me amais, guardai os meus mandamentos… aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama” (João 14:15, 21).

 3) Nossa igreja está crescendo! 
Outros reagem dizendo: “Mas nossa igreja está crescendo. Isto prova que Deus está abençoando. E se Deus está abençoando nossa igreja, ela não pode estar errada! Por que eu deveria me separar de algo que Deus está claramente abençoando?”.

O problema é de definição. Quando as pessoas falam de crescimento elas geralmente se referem ao número de pessoas. A Bíblia, porém, quando fala de crescimento, se refere ao desenvolvimento e maturidade espiritual no crente (1 Pedro 2:2; 3:18; Ef 4:15-16: Cl 1:10; 2:19; 1 Ts 3:12; 4:10; 2 Ts 1:3; At 9:22).

Crescimento numérico não é sinal da aprovação ou bênção do Senhor. É presunção achar que o aumento no número de pessoas seja uma bênção vinda de Deus. Se fosse assim, então a Igreja Católica Romana seria a denominação que Deus aprova, pois ela se gloria de possuir o maior número de pessoas dentre todas as igrejas! As Testemunhas de Jeová se gloriam de um crescimento fenomenal em seus números. Será que isto significa que Deus os esteja abençoando?

A Palavra de Deus diz que a única classe de pessoas que irá crescer em números na igreja nos últimos dias é a dos “homens maus e enganadores” e dos “muitos” que irão segui-los (2 Tm 3:13; 2 Pd 2:2). Ao nos vangloriarmos de possuir um grande número de pessoas, podemos estar inadvertidamente nos identificando com o erro que as Escrituras nos alertam que viria a aumentar nos últimos dias. Embora não seja sempre o caso, entender isso pode nos impedir de sucumbirmos ao desejo de nos gloriar nos números. Está claro nas Escrituras que, à medida que os dias forem se tornando mais sombrios, o número de crentes fiéis e piedosos será cada vez menor (2 Tm 1:15; Sl 12:1).

Em um sistema de coisas mantido principalmente por doações e ofertas da congregação, o número de pessoas é importante para as organizações eclesiásticas. Mas Deus não está preocupado com números como estão os homens. Isto é visto nas poucas ocasiões em que são mencionados números no livro de Atos. Lá diz simplesmente que “chegou o número desses homens a quase cinco mil” (At 4:4; 2:41). E “estes eram, ao todo, uns doze homens” (At 19:7). O tipo de crescimento que Deus procura para o Seu povo redimido é o crescimento em maturidade espiritual. Se visitássemos uma assembleia que tivesse um determinado número de pessoas, e voltássemos ali um ano mais tarde para ver se eles tinham verdadeiramente crescido no conhecimento do Senhor e em amor uns para com os outros, então poderíamos afirmar com certeza que aquela assembleia estaria crescendo, mesmo que continuasse com o mesmo número de pessoas (2 Ts 1:3).

Neste contexto nós perguntamos: “Quanto crescimento existe entre os que estão nas várias denominações?”. Considerando que o teste de maturidade espiritual de uma pessoa é o quanto ela reconhece a verdade de Deus (1 Co 10:15; Fp 1:9-10; Hb 5:14), será que os cristãos que estão nas igrejas denominacionais receberiam a verdade da igreja, quanto à sua ordem e função, do modo como ela é mostrada nas Escrituras, se esta fosse apresentada a eles?

 4) Deus está usando as denominações! 
Alguns cristãos dizem: “Mas eu continuo não achando que esteja errado adorar com um grupo de crentes em sua denominação só porque a ordem de coisas ali não está na Bíblia. Afinal, Deus está usando essas igrejas denominacionais! Pessoas são salvas e cristãos são abençoados ali. Se Deus Se apraz em usá-las, elas não podem ser assim tão ruins ao ponto de eu precisar me separar delas!”.

Embora possa parecer que Deus esteja usando as igrejas denominacionais e não denominacionais, ousamos dizer que não são as denominações criadas pelos homens que Ele está usando. O que Deus está usando é a Sua Palavra. A Bíblia diz: “A palavra de Deus não está presa” (2 Tm 2:9). Deus pode usar e efetivamente usa a Sua Palavra para bênção, onde quer que ela seja ministrada. Quando um assim chamado “Pastor” ou “Ministro” prega a Palavra e ministra a verdade da Palavra à sua audiência, o Espírito de Deus irá tomar essa Palavra e aplicá-la aos corações e consciências dos que estiverem ali. Pessoas são salvas nesses lugares, não há dúvida de que isto acontece. Todavia, o fato de Deus estar salvando pessoas nessas igrejas não significa que Ele esteja aprovando essa ordem de coisas criada pelo homem, a qual é contrária à Sua Palavra. Ele nunca aprova algo que contradiz Sua Palavra.

Uma pessoa poderia levar a Palavra de Deus a um lugar de impiedade, como um bar ou um botequim, e o Espírito ainda assim usá-la para a salvação de alguém. Mas será que isto significa que Deus está usando os botequins? Não se pode usar de um tal argumento para justificar a existência dos botequins. É claro que se trata de um exemplo extremo, mas ele ilustra o que queremos mostrar, ou seja, que Deus pode usar a Sua Palavra em qualquer lugar, até mesmo em um lugar onde prevaleça a impiedade.

Enquanto Deus usa a Sua Palavra onde quer que Ele queira (Is 55:11), os cristãos não devem ir a qualquer lugar que desejem estar. Devemos andar em conformidade com a senda que Deus estabeleceu para nós em Sua Palavra. Devemos amar a todo o povo de Deus, mas nossos pés devem permanecer no caminho da obediência à Palavra de Deus, a qual nos convoca a nos separarmos da desordem que o homem introduziu na casa de Deus (2 Tm 2:20-21). O fato de existir bênção notória em algum sistema ou denominação não significa que ficamos livres de nossa responsabilidade de andar na verdade da Palavra de Deus. Não podemos, de sã consciência, desprezar o caminho da obediência e continuar em comunhão com algo que sabemos que está em desacordo com as Escrituras.

 5) Posso ser muito útil permanecendo onde estou em minha denominação! 
Há quem diga: “Eu sei que existem algumas coisas que não estão exatamente corretas em minha igreja, mas por que eu deveria abandonar uma porção de coisas que considero boas, só porque algumas outras não são consistentes com as Escrituras? Além disso, sinto que posso fazer muita coisa boa ajudando as pessoas ali. Se eu sair, não poderei ajudá-las”.

Este é um argumento comum, e geralmente é a desculpa dada por Pastores e Ministros que lideram a congregação para continuarem com a ordem sem base bíblica que existe em suas igrejas. Muitos acham que permanecendo em comunhão com aqueles que estão nessas igrejas sem fundamento bíblico, terão uma esfera maior de atuação para servirem ao Senhor. Como diz o velho ditado, “você deve estar onde os peixes estão”.

Se pudermos voltar ao exemplo usado pelo apóstolo Paulo, dos vasos na “grande casa”, veremos que não se trata de questionar se os vasos de honra misturados com vasos de desonra poderiam ser usados pelo Senhor. O ponto é que eles não podem ser usados em todas as circunstâncias que o Senhor possa precisar usá-los. Uma vasilha suja em sua casa é útil para algumas tarefas. Por exemplo, se você precisar trocar o óleo do motor de seu carro, uma vasilha suja serviria muito bem. Mas uma vasilha limpa poderia ser usada para qualquer finalidade. O princípio é o mesmo no que diz respeito ao serviço na casa de Deus.

Alguns podem pensar que estamos desprezando cristãos que estão associados com essas igrejas, ao insinuarmos que eles não estejam limpos. Não desprezamos cristãos; apenas declaramos aquilo que as Escrituras dizem. São as Escrituras que dizem que uma pessoa não é um vaso “santificado”, até que tenha se purificado da mistura existente na casa de Deus separando-se dessas coisas (2 Tm 2:21).

Alguns podem perguntar: “Que tipo de serviço o Senhor poderia querer que não pudesse convocar alguém que está em uma denominação para fazê-lo?” Para ilustrar o que queremos dizer, suponha que existam alguns cristãos passando por um exercício em suas almas quanto à verdade de como Deus gostaria que nos reuníssemos para a adoração e o ministério da Palavra. Poderia o Senhor chamar alguém que está nos sistemas denominacionais para delinear o padrão bíblico para a adoração e o ministério? E mesmo que alguém associado com essas igrejas conhecesse a verdade sobre este assunto, ele provavelmente não iria querer falar sobre isso, pois se condenaria a si mesmo. E ainda que tentasse explicar o assunto, estaria se condenando por não cumprir ele próprio aquilo que manda os outros fazerem. Suas palavras pareceriam zombar da verdade, e assim ele não teria qualquer poder de livrar alguém que estivesse numa mesma posição.

Não há dúvida de que alguém possa fazer muita coisa estando nas igrejas. No Antigo Testamento, Eldade e Medade são figuras disso (Nm 11:26). Eles permaneceram no arraial de Israel quando o Senhor chamou o povo para sair para estar junto de Si (Nm 11:16; 24-26). Eles eram úteis onde estavam, mas porventura poderiam eles estar entre os que foram selecionados, quando o Senhor ordenou distintamente que “setenta homens dos ancião de Israel” fossem trazidos “perante a tenda da congregação” para estarem ali com Moisés?

Um outro exemplo é o de Naomi na terra de Moabe. Ela foi de auxílio para Rute, já que por intermédio dela Rute abandonou os ídolos e se voltou para Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro (Rute 1:16-17). Mas isso não justificava Noemi estar onde estava. Para começar, ela nem deveria ter ido para lá. O Senhor poderia ter trazido Rute ao conhecimento do único Deus verdadeiro sem Naomi precisar ficar em uma posição comprometedora.

As Escrituras dizem: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Sm 15:22). Isto significa que obedecer é nosso principal dever, e devemos deixar as outras coisas para o Senhor. O Senhor considera a obediência mais importante do que qualquer serviço para Ele. A maior ajuda que podemos dar àqueles que estão misturados na confusão da grande casa é nos desvencilharmos dessas coisas, e então tentarmos ajudar outros (2 Tm 2:24-26).

O irmão W. Potter disse que nossa primeira responsabilidade é cuidar dos princípios, e Deus cuidará das pessoas. J. G. Bellet disse que se virmos alguém preso em uma fossa, não devemos entrar na fossa para ajudá-lo a sair dela. Poderíamos acabar igualmente presos lá. Ao invés disso, devemos procurar um terreno firme de onde poderemos ajudar o outro a sair. O mesmo ocorre com as coisas divinas.

 6) Não devemos deixar a nossa congregação! 
Outros argumentam que “a Palavra de Deus nos exorta a não deixarmos nossa congregação. Se eu me separasse de minha igreja não estaria obedecendo esta passagem das Escrituras”.

Sim, a Bíblia nos diz para não deixarmos de congregar, é verdade (Hb 10:25), mas não precisamos pertencer a uma denominação sem base bíblica (ou a algum grupo sem denominação na mesma situação) para obedecermos as Escrituras. O Senhor Jesus disse: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:20).

 7) Separar-se de outros cristãos destrói a unidade do Espírito 
Para muitos crentes honestos e sinceros parece inconcebível que um cristão venha a se separar de outros cristãos. Principalmente por ser um dos principais conceitos da comunidade cristã que todos fazemos parte de uma grande família onde deve haver unidade e uma feliz comunhão. Na opinião deles, a separação romperia essa unidade (Ef 4:3).

É importante compreender que nenhum cristão sincero e com boas intenções quer se separar de outros cristãos, pois o normal e correto é amarmos a todos os da família da fé (Jo 13:34-35; Rm 12:9-10; Ef 1:15; Hb 13:13). Todavia, o amor ao Senhor Jesus e o desejo de agradá-Lo leva os cristãos sinceros a se separarem daquilo que é uma desonra para o Senhor (2 Tm 2:19-20; Jo 14:15). Mesmo que seja doloroso para nós nos separarmos de irmãos queridos, devemos nos separar daquilo que desonra a Cristo. Tudo o que diz respeito a Ele deve ter a primazia.

O problema dessa ideia de se manter a unidade a qualquer custo está em enxergar apenas um lado da verdade sobre esta questão. Se enxergarmos apenas uma faceta das coisas que falam da unidade cristã, sem vermos o lado que trata da separação do mal, os que são fiéis seriam obrigados a continuar seguindo em frente sem qualquer alternativa. Eles seriam abandonados à difícil situação de enxergarem a ordem de Deus em Sua Palavra, sem poderem colocá-la em prática, já que a unidade exigiria deles que permanecessem com outros cristãos numa posição sem fundamento bíblico. Eles seriam obrigados a continuar em comunhão com aquilo que sabem ser contrário à Palavra de Deus. E para eles este seria um caminho de desobediência, pois “aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4:17). Consequentemente, para todo cristão que tivesse tal exercício, viver assim seria uma constante aflição para sua alma. Felizmente podemos dizer que se trata de um falso princípio de unidade sacrificar a santidade e a obediência — e que este nunca é o caminho de Deus.

A verdade é que o princípio divino da unidade só pode ser corretamente praticado em separação do mal. J. N. Darby disse: “O próprio Deus deve ser a fonte e o centro da unidade, e somente Ele pode estar no comando e preeminência. Qualquer centro de unidade fora de Deus será uma completa negação da Sua divindade e glória. Considerando que existe o mal — sim, é esta a nossa condição natural — não pode existir uma união da qual o santo Deus seja o centro e o poder, senão por meio da separação do mal. A separação é o primeiro elemento de unidade e união”.

Portanto, em nossos dias, quando a ruína e a confusão prevalecem no testemunho público da igreja, as coisas que dizem respeito à unidade só podem ser praticadas em um testemunho remanescente. Este é um princípio bíblico, e é também uma provisão que Deus fez para podermos praticar toda a verdade. Isto pode ser visto ao longo do curso decrescente que encontramos na história do testemunho cristão, do modo como nos é apresentado nas palavras que o Senhor dirige às sete igrejas em Apocalipse capítulos 2 e 3. Há um ponto em que o Senhor já não reconhece a massa da profissão cristã, e a partir daí passa a tratar com um testemunho remanescente. Ele distingue um remanescente ao dizer: “Mas eu vos digo a vós, e aos restantes [ou remanescentes]…” E é neles que o Senhor passa a tratar a partir de então (Ap 2:24-29). A razão disso é que o estado da igreja chegou a um ponto em que já não existe conserto.

A partir daí ocorre uma mudança notória na maneira como o Senhor trata com a igreja. Isto é indicado pela expressão “ouça o que o Espírito diz às igrejas”, que passa a vir depois da promessa ao que vencer, ao invés de precedê-la, como tinha sido o padrão até aquele ponto. Nas palavras do Senhor às três primeiras igrejas, a recompensa ao que vencer era colocada diante de toda a igreja, pois o Senhor ainda tratava com ela como um todo. Mas desse ponto em diante já não é mais assim. A expressão “ouça o que o Espírito diz às igrejas” só é dada a um remanescente, pois somente os que fazem parte dele irão ouvir e vencer. Walter Scott disse que a razão dessa mudança é que a grande massa da profissão cristã passa a ser tratada como incapacitada de ouvir, arrepender-se e praticar a verdade. W. Kelly disse: “Desse ponto em diante o Senhor coloca a promessa [ao que vencer] primeiro, e o faz porque é inútil esperar que a igreja como um todo irá recebê-la… apenas um remanescente irá vencer, e a promessa é para os que fazem parte dele; no que diz respeito aos outros, é caso encerrado”.

Portanto, já que é assim, não podemos esperar que em nossos dias o princípio divino da unidade seja praticado em meio à massa da profissão pública, mas apenas dentro de um testemunho remanescente.

Na prática, alguém que se une a uma determinada denominação em detrimento das outras, já não tem autoridade para criticar aqueles que querem se separar das denominações, pois foi exatamente o que fez! Ao limitar-se a uma denominação, acabou deixando de lado todas as outras, pois ninguém pode ser Batista e Presbiteriano ao mesmo tempo. Portanto, ao unir-se à denominação de sua escolha, sua atitude o excluiu de todas as outras, deixando assim de guardar a unidade do Espírito. Quem quiser argumentar sobre este ponto precisará primeiro praticar por si mesmo a unidade que espera que os outros pratiquem.

 Separar-se não significa isolar-se 
Devemos nos lembrar de que, quando a Palavra de Deus fala de separação, ela não está se referindo ao isolamento. Nenhum dos escritores do Novo Testamento, que trataram da ruína e da confusão que viria sobre o testemunho cristão, diz que devemos nos isolar. O isolamento não é a solução para o problema. Na verdade, eles nos instruem a fazer exatamente o contrário.

A mesma passagem das Escrituras que diz para nos purificarmos da confusão existente na grande casa, separando-nos disso tudo, também diz: “Segue a justiça, a fé, o amor, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” (2 Tm 2:22). Isso mostra que devemos buscar comunhão com aqueles que estão procurando manter os princípios da Palavra de Deus.

 Mais luz 
Se a Palavra de Deus nos diz para nos reunirmos em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, então é certo que ela também deve nos dizer como fazer isso. Partimos do princípio de que realmente existe um padrão na Palavra de Deus para os cristãos se reunirem para a adoração e o ministério. É este padrão singelo que esperamos apresentar ao leitor, à medida que avançarmos com este tema.

Um importante princípio fundamental que nos serve de guia neste tempo de abandono é: “Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo” (Is 1:16-17). Enquanto não estivermos preparados para nos separar daquilo que sabemos ser inconsistente com a verdade da Palavra de Deus em meio à profissão cristã, não podemos esperar obter luz para darmos outros passos neste caminho. Um grande princípio no modo de Deus agir é que, quando procuramos andar na luz que Deus já nos deu, Ele nos dará mais luz. “Na tua luz veremos a luz” (Sl 36:9).

Abraão é um exemplo disso. Deus o chamou enquanto ele vivia na terra de Ur dos Caldeus, e lhe disse para ir a um lugar na terra de Canaã, que mais tarde lhe seria indicado (Gn 12:1-3; At 7:2-3). Por fé, ele “saiu, sem saber para onde ia” (Hb 11:8). Ao parar no caminho, em Harã, estabelecendo-se ali, Abraão não recebeu qualquer luz ou comunicação adicional de Deus para a sua jornada, pois Deus nunca lhe havia dito para parar ali (Gn 11:31). Foi só quando continuou sua jornada em direção à terra de Canaã, conforme o Senhor ordenara, que ele recebeu uma comunicação adicional do Senhor (Gn 12:4-7).

O mesmo ocorre conosco na senda da fé. É semelhante aos faróis de um carro que viaja à noite. Eles só fornecem luz para o motorista enxergar uns duzentos ou trezentos metros de cada vez. À medida que o carro avança, o motorista consegue luz suficiente para enxergar mais duzentos ou trezentos metros, mas se o carro parar, o motorista não será capaz de ver mais longe do que isso. Devemos nos lembrar de que somente aqueles que têm o desejo de “fazer” a vontade de Deus terão o privilégio de conhecer a verdade. “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele” (Jo 7:17).

 A Qual Igreja Devo Ir? 

◄))) Depois que alguém descobre que esteve participando de uma comunhão cristã cuja ordem é em grande parte inventada pelo homem, e se separa dela, sua pergunta pode muito bem ser: “Aonde ir?”. Depois de vermos todos os nomes e divisões na desordem existente na cristandade, é esta a pergunta que nos aflige. Mas, sem dúvida alguma, a resposta é: “a Deus e à palavra da sua graça” (At 20:32).

É na Palavra de Deus que devemos procurar a Sua vontade. Se concordarmos que a Palavra de Deus deve ser o guia do Cristão, então devemos buscar a Sua Palavra a fim de encontrar a ordem bíblica. Em vista disso, perguntamos: “Em que denominação a Palavra de Deus diz que devo ingressar?” A resposta é óbvia: em nenhuma, pois a Palavra de Deus não nos fala de ingressarmos em denominações! Portanto, fica bem claro que não posso pertencer a uma denominação, seja ela qual for, pois ao fazê-lo eu estaria me colocando em uma posição na qual a Palavra de Deus não me colocou.

 O padrão da igreja apostólica 
Quando nos voltamos a Deus e à Palavra da Sua graça, descobrimos que Ele não nos deixou sem luz acerca do assunto. “Aos retos nasce luz nas trevas” (Sl 112:4; Sl 119:105; 130). Se estivermos verdadeiramente retos neste sentido, Ele irá nos mostrar. A Sua Palavra nos diz: “E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele” (2 Jo 6).

Este é um grande princípio que irá nos guiar neste assunto. Ele indica que em um dia de abandono e confusão, quando a má doutrina e as práticas nocivas permeiam o testemunho cristão (pois é este o contexto da Segunda Epístola de João — veja os versos 7-11), devemos retornar àquilo que era “desde o princípio” — aos primeiros fundamentos do cristianismo. Precisamos buscar a Palavra de Deus e vermos como a igreja se reunia para a adoração e o ministério nos dias dos apóstolos, e adotarmos isso como nosso padrão.

 A igreja não aparece no Antigo Testamento 
Quando buscamos a Palavra de Deus para estudar a ordem e função da igreja, devemos nos ocupar do Novo Testamento, e particularmente das epístolas. É ali que a verdade da igreja é revelada.

Uma das principais chaves para se entender o que é a igreja está em perceber que ela não faz parte da revelação do Antigo Testamento. Cristo e Sua igreja formam o grande mistério de Deus (Ef 5:32). O sentido bíblico de um “mistério” não é de algo misterioso e difícil de entender, mas sim de um segredo que Deus manteve escondido desde antes que o mundo fosse formado (Rm 16:25). Agora que o segredo foi revelado, não é algo difícil de se entender.

O grande segredo do propósito eterno de Deus era que, quando Israel viesse a rejeitar o Messias, e consequentemente fosse deixado de lado por algum tempo nas disposições governamentais de Deus, o Espírito Santo reuniria, por meio do evangelho, crentes judeus e gentios de todas as nações para formar uma nova companhia celestial de santos. Estes estariam unidos a Cristo como Seu corpo e noiva. Isso ficou escondido no coração de Deus, e não foi revelado no Antigo Testamento (Ef 3:9). Aqueles que viveram em outras épocas desconheciam isso por completo, pois era algo que só começaria no dia de Pentecostes (Mt 16:18; At 2:1-3, 47; 11:15). Esse segredo, portanto, não foi levado ao conhecimento dos homens até a época do Novo Testamento, e isso através do ministério especial do apóstolo Paulo (Ef 3:2-5, 9; Cl 1:24-27).

O mistério não está na Pessoa de Cristo, nem em Sua vida perfeita como Homem neste mundo, nem em Sua morte e ressurreição, e tampouco em Sua vinda para reinar neste mundo em poder e glória. Todas estas coisas foram mencionadas nas Escrituras do Antigo Testamento. O maravilhoso segredo, que agora foi revelado, é que Cristo teria um complemento (a igreja — o Seu corpo e noiva) ao Seu lado em um dia vindouro quando Ele iria reinar publicamente sobre este mundo. Do dia de Pentecostes até a vinda de Cristo (Arrebatamento), Deus está chamando pessoas para fora de todas as nações por intermédio do evangelho, para que façam parte deste maravilhoso privilégio (At 15:14).

Portanto, ao enxergarmos que a verdade da igreja não tem qualquer parte no Antigo Testamento, não nos voltamos a ele para aprender como a igreja deve adorar e nem como deve funcionar administrativamente, já que ela não aparece ali. Este é um ponto extremamente importante. Trata-se de algo que muitos cristãos não percebem.

 Para o cristão o Antigo Testamento é um livro de tipos e figuras 
Não queremos dizer com isto que o Antigo Testamente não deva ser lido pelos cristãos, muito pelo contrário. “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Tm 3:16). O Novo Testamento deixa claro que “tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Rm 15:4). Isto nos mostra que apesar do Antigo Testamento não ter sido endereçado a nós cristãos, ele foi escrito para nós.

É da maior importância vermos que, além das questões morais (pois para Deus elas nunca mudam), a maneira como os cristãos devem ler e aplicar o Antigo Testamento é como tipo e figura. As coisas que foram registradas nas Escrituras do Antigo Testamento são agora tipos e figuras para nós cristãos (1 Co 10:11; Hb 8:5; 9:9, 23-24; 10:1; 11:19; 1 Co 9:9-10; Gl 4:24; Rm 4:23; 5:14; Jo 5:39; Lc 24:27, 44). Somos instruídos pelo Antigo Testamento através do aprendizado dos princípios básicos que ele contém.

 O judaísmo não é um padrão para a adoração cristã 
Apesar de o judaísmo não ser um padrão para a adoração cristã, as igrejas na cristandade têm ignorado o ensino claro das Escrituras que mostra que o tabernáculo é uma figura do verdadeiro santuário ao qual agora temos acesso pelo Espírito (Hb 9:8-9, 23-24). Mesmo assim, as igrejas têm usado o tabernáculo como um padrão para suas construções. As igrejas emprestaram muitas coisas do Antigo Testamento para introduzi-las literalmente em seus lugares de adoração e cultos religiosos, perdendo de vista o verdadeiro significado delas.

A cristandade erigiu magníficos edifícios e catedrais usando o padrão do templo do Antigo Testamento. É comum essas construções receberem o nome de “Templo” ou “Tabernáculo” para permanecerem alinhadas ao judaísmo do Antigo Testamento. Algumas denominações chegaram ao ponto de separar uma parte dessas construções como se fosse um lugar mais santo do que o resto da construção, chamando-o de “Santíssimo” ou “Santuário”, como acontecia no tabernáculo do Antigo Testamento. Tudo isso mostra que há muito tempo os cristãos perderam de vista o fato de que hoje a casa de Deus é uma “casa espiritual” construída de pessoas redimidas (1 Co 3:9; Ef 2:19-22; Hb 3:6; 1 Pd 2:5), e não uma casa material no sentido literal da palavra.

Esta é uma lista de algumas coisas que a igreja emprestou do judaísmo:

  • O uso literal de templos e catedrais como lugares de adoração
  • Uma classe especial de homens que exercem seu ofício a serviço da congregação
  • O uso de instrumentos musicais para ajudar na adoração
  • O uso de um coral
  • O uso de incenso para criar uma atmosfera espiritual
  • O uso de vestes religiosas pelos “Ministros” e membros do coral
  • O uso de um altar literal (sem sacrifícios)
  • A prática do dízimo
  • A observância de dias santos e festas religiosas
  • Um rol de membros com os nomes dos que estão congregados

É verdade que muitos desses elementos judaicos foram alterados de alguma forma para se adaptarem ao contexto cristão, mas eles continuam carregando os adornos do judaísmo. Esse tipo de influência judaica, com seus princípios e práticas, permeou a igreja. Muito disso tem estado associado ao cristianismo há tanto tempo que já foi aceito pelas massas como se viesse de Deus. A maioria das pessoas acha bom ter essa mistura judaico-cristã. Infelizmente, misturar essas duas ordens distintas de se aproximar de Deus destruiu a distinção original que existia em cada uma delas, fazendo com que o resultado dessa mistura não fosse nem judaísmo, nem cristianismo.

 Igrejas de pedras e tijolos – ajudam ou atrapalham o evangelho? 
O público em geral ficou tão acostumado com as construções chamadas de igrejas e catedrais que acredita ser este o ideal de Deus. Na opinião da maioria das pessoas essas construções são um sinônimo de cristianismo. Mas o Novo Testamento nem sequer as menciona entre as coisas que Deus deseja para a igreja. Existem pelo menos cinco boas razões para esses edifícios associados ao cristianismo mais atrapalharem do que ajudarem o evangelho.

1) Eles não são bíblicos. Conforme já demonstramos, simplesmente não existe qualquer fundamento para isso no Novo Testamento.

2) Eles transmitem ao mundo uma mensagem errada. As pessoas podem muito bem ser levadas a pensar que o cristianismo é uma continuação do judaísmo, apenas com algumas novas alterações cristãs. Elas podem erroneamente concluir que Deus habita em “templos feitos por mãos”, e que só pode ser adorado neles (At 17:24-25). Portanto, daí vem a falsa ideia de que alguém precise ir a um edifício chamado “igreja” para orar e aproximar-se de Deus.

3) Eles não são econômicos. Dar tal ênfase a edifícios luxuosos enquanto milhões de pessoas padecem de fome em todo o mundo, tanto no sentido espiritual como material, é simplesmente utilizar mal o dinheiro. A maior parte dos fundos que a igreja recebe em suas coletas deveria ser usada para permitir a pregação do evangelho e a disseminação da verdade, não para financiar modernas construções e organizações para-eclesiásticas. O pesado ônus desses investimentos e de seus juros faz com que os líderes eclesiásticos peçam ofertas cada vez mais generosas a fim de pagarem pela construção e por sua manutenção. Com isso as pessoas podem ser levadas a acreditar que Deus só está interessado em dinheiro. Com milhões sendo coletados todas as semanas, parece que a maior dificuldade dos cristãos não está em dar, mas em direcionar os fundos que são arrecadados. Hudson Taylor disse: “O problema da igreja não é a falta de fundos, mas a falta de consagração de fundos!”.

4) Esses edifícios são uma hipocrisia. Ao construírem esses imensos edifícios, enquanto dizem ao mundo que amam as pessoas e se interessam profundamente por suas almas, a mensagem que os cristãos passam não é muito convincente. Se a igreja está tão interessada nas pessoas necessitadas deste mundo, por que não sacrifica um pouco do esplendor de suas edificações? Ao construir seus edifícios a igreja está demonstrando que está mais preocupada com a própria glória e conforto do que com as pessoas necessitadas.

5) Esses edifícios intimidam. É difícil fazer com que as pessoas que tiveram pouco ou nenhum contato com o cristianismo compareçam às reuniões nessas luxuosas construções associadas com o cristianismo. Edifícios cheios de pompa tendem a espantar, e não atrair essas pessoas. Tudo lhes parece muito opressor. (As pessoas do mundo parecem ter um senso melhor que os cristãos daquilo que convém ao cristianismo — Lucas 16:8). Existe uma forte reação contra o formalismo, especialmente entre os jovens. As pessoas também têm medo de serem convidadas a contribuir com dinheiro. Mesmo assim, muitas dessas pessoas estariam prontas a ir a um estudo bíblico na forma de uma conversa numa casa ou em um salão menos pretensioso. Elas se sentem mais à vontade em uma atmosfera informal e não profissional, ficando assim mais receptivas a receberem o evangelho.

Portanto esses grandes edifícios são um empecilho ao evangelho, e tão somente mostram que não somos mais sábios do que a Palavra de Deus. O padrão simples que Deus nos deu em Sua Palavra é sempre o melhor caminho, pois “o caminho de Deus é perfeito” (Sl 18:30).

 O cristianismo é tipicamente celestial 
Se quisermos entender o que é o verdadeiro cristianismo, devemos perceber que existe um contraste entre judaísmo e cristianismo, duas ordens de adoração totalmente distintas — ambas estabelecidas por Deus. O judaísmo é a maneira terrenal de se aproximar de Deus em adoração, e foi dada por Deus para um povo terrenal, com esperanças terrenais e uma herança terrenal. O cristianismo, por sua vez, é uma ordem celestial, dada por Deus para o Seu povo celestial, o qual possui esperanças celestiais e uma herança celestial (Hb 3:1; Cl 1:5; Fp 3:20; 1 Pd 1:4).

Por esta razão, no verdadeiro cristianismo não existe a guarda de dias santos ou festas religiosas, coisas que pertencem à religião terrenal. Quando os gálatas passaram a se ocupar com os elementos fracos e pobres da religião terrenal, o apóstolo Paulo os advertiu, dizendo: “Como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos” (Gl 4:9-10). Israel observava religiosamente dias santos e especiais por possuir uma religião terrenal. Aquilo estava correto e apropriado para eles, mas a igreja, que pertence ao céu, não possui essas coisas. Mesmo assim, as denominações em geral perderam de vista a vocação celestial da igreja e inventaram dias religiosos especiais como Sexta Feira Santa, Dia de Todos os Santos, Quaresma etc. Não encontramos essas coisas em lugar algum da Bíblia. Colossenses 2:16-17 nos diz: “Ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras”. Existe apenas um dia que deveria ter algum significado para o cristão, e este dia é “o dia do Senhor” — o primeiro dia da semana (Ap 1:10).

 O Verdadeiro Cristianismo está “Fora do Arraial”  
O Novo Testamento indica que a igreja primitiva, predominantemente formada por judeus convertidos, foi encorajada a abandonar a ordem judaica de coisas para seguir o verdadeiro cristianismo. O objetivo da epístola aos Hebreus é mostrar que a adoração cristã contrasta com a adoração judaica, e não é uma extensão desta última.

Após a epístola apresentar muitos pontos neste sentido, a conclusão de toda a questão está em exortar a igreja a abandonar totalmente a ordem judaica de coisas, pois o Senhor Jesus Cristo está agora fora disso tudo! Ela diz: “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13:13). O “arraial” é um termo que diz respeito ao judaísmo e a todos os seus princípios e práticas. Um judeu não teria qualquer dificuldade para entender o significado do termo, já que ele era usado no Antigo Testamento em conexão com Israel. A igreja primitiva saiu “fora do arraial”. Por intermédio do ensino de Paulo os cristãos foram levados a enxergar que o cristianismo não era um adendo ou uma alteração do judaísmo, como muitos cristãos hoje acreditam, mas era uma forma totalmente “nova” de se achegar a Deus em adoração (Hb 10:20). Inicialmente os judeus convertidos tiveram dificuldade para aceitar isso, e Deus os tratou com paciência. Foi esta justamente a razão pela qual foram escritas as epístolas cristãs aos hebreus. Estas epístolas (Hebreus, Tiago e 1 Pedro) são particularmente destinadas a levar o judeu convertido para fora do judaísmo e firmá-lo no cristianismo. Elas também são perfeitamente aplicáveis à igreja hoje, a qual mergulhou em uma ordem de coisas quase judaica e precisa desesperadamente livrar-se dessas coisas.

Já que as assim chamadas igrejas na cristandade adotaram muitas coisas judaicas e as misturaram em seus sistemas de adoração, chegando a fazer dessas coisas uma parte integral de seus cultos, o princípio mostrado em Hebreus 13:13 serve de exortação muito necessária para os dias de hoje. Devemos sair “fora do arraial” sempre que o detectarmos, seja ele representado pelas sinagogas judaicas, seja pelas igrejas denominacionais criadas pelo homem na cristandade. Este versículo também nos dá outra razão para nos separarmos das igrejas denominacionais e não denominacionais. Ele nos exorta a irmos a Cristo, que agora está fora dessa ordem terrena de coisas, já que o judaísmo, apesar de ter sido originalmente estabelecido por Deus, é agora uma ordem de adoração que foi deixada de lado.

 A Adoração Cristã é em “Espírito e Verdade”  
Esta mudança na forma de se aproximar de Deus em adoração foi primeiramente anunciada pelo Senhor Jesus à mulher samaritana à beira do poço de Sicar. Ele indicou a ela que cessaria aquela ordem terrenal de adoração. “Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai” (João 4:21). Aquele “monte” (Gerizim) era o lugar onde os samaritanos adoravam, e “Jerusalém” era o lugar onde Israel adorava a Jeová.

Mas agora tudo aquilo daria lugar a uma forma totalmente nova de adoração e de se achegar a Deus. (Em outras passagens aprendemos que, após a igreja ser chamada para habitar no céu na vinda do Senhor — no Arrebatamento –, o judaísmo voltará a ser praticado na terra por Israel e pelos gentios convertidos, pois é esta a maneira adequada para o povo terrenal adorar a Deus. Veja Ezequiel 40-48. Isto mostra que o judaísmo não é ruim, mas que apenas foi colocado de lado temporariamente enquanto Deus chama para si um grupo celestial — a igreja).

O Senhor também disse à mulher samaritana que outra mudança iria ocorrer. Enquanto Israel adorava a Jeová, os cristãos agora adorariam “o Pai”. Trava-se de algo novo e de uma revelação claramente cristã, pois aproximar-se de Deus como Pai era algo desconhecido no Antigo Testamento.

Além disso, o Senhor também mostrou à mulher que haveria uma mudança no caráter da adoração. Ele disse: “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”. (João 4:23-24). A adoração “em espírito e em verdade” é uma adoração espiritual que está em conformidade com a revelação cristã da verdade. Uma adoração assim não era a característica da adoração de Israel, pois o Senhor indicou claramente que se tratava de algo que estava para começar; não era algo praticado por Israel naquela ocasião. A adoração que Israel prestava a Jeová era por meio de ritual e cerimônia. O povo tinha uma religião que havia sido designada — como se isso fosse possível — a induzir o homem na carne a adorar a Deus. Precisava ser assim, pois o homem naquele tempo ainda estava sendo provado (de Adão até a cruz de Cristo são 40 séculos — 40 é o número que nos fala de prova). Por esta razão praticamente todos os meios externos eram empregados em nome da religião para se atingir tal fim.

Mas os cristãos não precisam de uma religião ritualística e cerimonial para adorar a Deus como era o caso de Israel, pois agora temos acesso pelo Espírito à própria presença de Deus (Ef 2:18; 3:12; Hb 10:19-22). No cristianismo a adoração é auxiliada pelo fato de o Espírito Santo habitar no crente, e não pelos esforços de mãos humanas (Fp 3:3; At 17:24-25). Israel não possuía tal privilégio. A adoração cristã é o “novo e vivo caminho” (Hb 10:20). Ele é “novo” porque não é uma reciclagem do judaísmo, e é “vivo” porque é necessário que o adorador possua uma nova vida (que seja nascido de novo) para se aproximar de Deus desta maneira celestial.

 Sacrifícios Espirituais ou um ‘Ministério de Música’?  
Consequentemente, os sacrifícios cristãos não são literais e exteriores como no judaísmo, mas sim “sacrifícios espirituais” (1 Pedro 2:5; Hb 13:15; João 4:23; Fp 3:3). Já que o cristão adora “em espírito e em verdade”, ele poderia sentar-se em uma cadeira sem se movimentar, e mesmo assim poderia ser produzido em seu espírito um verdadeiro louvor e adoração a Deus por meio do Espírito Santo que habita nele. Esta é a verdadeira adoração celestial. O cristão não necessita de uma orquestra ou de um coro para extrair adoração de seu coração, como era o caso de Israel no judaísmo.

Adorar com o auxílio de instrumentos musicais é adorar da forma judaica. Misturar o conhecimento e a revelação inerentes ao cristianismo com a ordem judaica de adoração (a qual é essencialmente o que a maioria das assim chamadas “igrejas” fazem) não é cristianismo autêntico. No céu não haverá necessidade de um auxílio mecânico e exterior à adoração a Deus, e os cristãos tampouco precisam deles agora, pois já estão adorando a Deus do modo celestial.

Por esta razão não encontramos no livro de Atos ou nas epístolas qualquer referência de cristãos adorando ao Senhor usando instrumentos musicais. Não existe uma menção sequer nas epístolas do Novo Testamento de uma adoração cristã auxiliada por instrumentos musicais. Os únicos dois instrumentos que os cristãos têm para adorar a Deus são o “coração” (Cl 3:16; Ef 5:19) e os “lábios” (Hb 13:15). No cristianismo tudo o que encontramos é “cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” (Ef 5:19; Cl 3:16). Somos instruídos a oferecer “sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb 13:15). Mesmo assim a distinção entre a adoração cristã e o judaísmo tem sido ignorada nas denominações. Bandas e até grandes orquestras passaram a fazer parte integral dos “cultos de adoração” de nossos dias. Isso é chamado de “ministério de música”, mas o objetivo parece ser mais voltado ao entretenimento da audiência do que ao ministério.

Não somente inexiste qualquer direção na Palavra de Deus para os cristãos adorarem dessa maneira, como a própria história mostra que a música instrumental não teve virtualmente qualquer parte no cristianismo durante os primeiros 1.400 anos! (Há uma total ausência de música instrumental na igreja nos primeiros 700 anos, seguidos de uma ferrenha oposição a ela durante os próximos 700 anos). Foi somente nos últimos séculos que a música instrumental passou a ser aceita e usada na adoração e na atividade evangelística. A questão é: Se o chamado “ministério de música” é tão importante para a vida da assembleia, como a igreja hoje a considera, por que o apóstolo Paulo não exortou as assembleias às quais escreveu a adotarem um “ministério de música” em suas reuniões? E por que não existe qualquer menção disso no Novo Testamento? Cremos que o uso de instrumentos musicais na adoração — além de muitas outras coisas inventadas pelo homem que acabaram sendo introduzidas — é uma evidência do distanciamento que as Escrituras nos alertam que ocorreria com a igreja. À medida que as coisas no testemunho cristão foram se afastando da ordem dada por Deus, a música instrumental foi pouco a pouco conquistando um lugar (porém não sem oposição), até acabar sendo aceita como normal para a adoração cristã. Ela pode ter sido até introduzida com boas intenções, mas mesmo assim não tem lugar na adoração cristã.

Não queremos com isso dizer que o cristão não possa tocar música instrumental, mas apenas que ela não tem lugar na adoração cristã. J. N. Darby escreveu: “Se eu puder fazer um pobre pai enfermo dormir com música, tocarei a música mais bela que puder encontrar; mas ela irá estragar qualquer adoração ao introduzir o prazer dos sentidos naquilo que deveria ser fruto do poder do Espírito de Deus”.

 Vinho novo em recipientes novos 
Apesar de tudo, muitos cristãos rejeitam a ordem de Deus e insistem que o modo de Israel aproximar-se de Deus em adoração é o verdadeiro padrão para a adoração cristã. Mas se o modo de Israel adorar no Antigo Testamento for o padrão para a adoração cristã, então por que razão as Escrituras dizem que a adoração cristã é um “novo” caminho de adoração? (Hb 10:20).

O Senhor sabia que haveria uma tentativa de se vincular a velha ordem de coisas à nova ordem do cristianismo, e alertou que fazer isso seria como colocar remendo novo em pano velho, e vinho novo em odres ou recipientes velhos (Lc 5:36-39). Isso acabaria por estragar a ambos. É exatamente o que tem acontecido na profissão cristã. O Senhor continuou ensinando que “vinho novo” é para ser colocado em “odres novos”. Isto significa que as coisas novas relacionadas à adoração cristã devem ser encontradas em uma nova configuração, adequada a essa adoração. O Senhor também disse que quando alguém se acostuma com o vinho velho das coisas judaicas, e experimenta o vinho novo do cristianismo, acaba achando inicialmente que o velho é melhor (Lc 5:39). Por estar sentimentalmente ligada àquela ordem exterior de adoração, que tem um forte apelo para os sentidos, não é fácil para a pessoa desvencilhar-se disso.

Como já dissemos, a epístola aos Hebreus trata detalhadamente deste problema. Ela toma uma característica do judaísmo após outra e as compara com aquilo que agora temos no cristianismo, concluindo, quase que em todos os seus capítulos, que agora temos algo “melhor” (Hb 1:4; 6:9; 7:7, 19, 22; 8:6; 9:23; 10:34; 11:4, 16, 35, 40; 12:24).

 Os cristãos devem se reunir em nome do Senhor Jesus 
 para adoração e ministério e aguardar a direção do Espírito 
Quando fazemos do Novo Testamento o nosso guia para o funcionamento de uma assembleia de cristãos, vemos que o grande propósito de Deus é exaltar Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo. Aprendemos que Deus dá tamanha importância a Seu Filho que exaltou tremendamente o Seu nome. A Bíblia diz que Deus “lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra [os seres infernais]” (Fp 2:9-10; Ef 1:20).

O Senhor Jesus disse aos Seus discípulos que após Sua morte, quando a igreja fosse formada (no dia de Pentecostes), o Seu NOME seria o ponto central de reunião. Ele disse: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:20). A igreja no princípio fazia assim. Os cristãos se reuniam nesse nome exaltado do Senhor Jesus quando congregavam para adoração, ministério e responsabilidades administrativas (1 Co 5:4). Eles não adotavam qualquer outro nome que não fosse o nome de Jesus. Este ainda é o padrão de Deus para a igreja hoje!

O que devem pensar os anjos, que conhecem e têm prazer no nome exaltado de Jesus Cristo, quando veem cristãos se reunindo para adoração neste mundo adotando todo tipo de nome denominacional ou não denominacional? Enquanto Deus dá o maior valor ao nome de Jesus, os homens dizem que não importa que nome você representa! Acaso no céu o povo de Deus irá levar esses nomes? Será que ali haverá presbiterianos, batistas, cristãos reformados, metodistas, pentecostais etc? Não, quando chegarmos lá não haverá qualquer nome assim.

No céu o nome de Cristo é supremo, e assim deveria ser na terra também! O Senhor Jesus ensinou a Seus discípulos que Deus quer que a Sua vontade seja feita assim na terra como no céu. Eles deviam orar neste sentido. “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6:10). Todavia, mesmo assim os cristãos na terra continuam insistindo em se reunir sob todo tipo de nome sectário, apesar de admitirem que esse tipo de coisa não existirá no céu! Se nós orássemos com sinceridade “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, deveríamos então abandonar qualquer nome ou seita na terra simplesmente por não ser assim no céu. Certamente o Senhor Jesus é digno de congregarmos em Seu nome e em nenhum outro.

Que diferença vemos hoje do que era feito nos dias dos apóstolos. Naquele tempo o Senhor Jesus Cristo era o Nome exaltado no qual os cristãos estavam congregados. Exaltar outro nome, fosse o de Paulo ou Cefas, era considerado pelo Espírito de Deus com carnalidade e sectarismo (1 Co 1:12; 3:3-5). Que triste abandono da ordem estabelecida por Deus vermos tantos cristãos hoje se identificando por todo tipo de nome denominacional.

Se nós, por fé, simplesmente reconhecêssemos nossa fraqueza e assumíssemos nosso lugar de clara dependência de Deus, nos reunindo em nome do Senhor Jesus somente, sob a direção do Espírito, descobriríamos que Cristo estaria no meio, conforme prometeu. Mesmo que fossem apenas dois ou três que procurassem agir com base nesta Palavra, eles experimentariam o gozo da Sua presença com eles. Talvez fossem repreendidos por outros cristãos por se reuniram de uma maneira tão simples, pois a Palavra de Deus diz que se saíssemos “do arraial” certamente sofreríamos o Seu “vitupério” ou desonra (Hb 13:13). Mas eles desfrutariam também da feliz confiança de estarem congregados em conformidade com a Palavra de Deus. Isto porque existe um gozo em se fazer a vontade de Deus que só é conhecido daqueles que a colocam em prática.

 A prática bíblica para cristãos congregados para adoração e ministério 
Além de estar congregada para o nome do Senhor Jesus Cristo, aprendemos também do Novo Testamento que a igreja no princípio se reunia para quatro objetivos principais. Lá vemos que eles “perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (At 2:42). Estas são as mesmas razões pelas quais a igreja hoje deveria se reunir. Podemos chamá-las de “quatro âncoras” da vida em assembleia.

Primeiramente, a igreja no princípio se reunia para o aprendizado da “doutrina dos apóstolos”. Também precisamos de reuniões específicas para o aprendizado da verdade das Escrituras, porém muitos cristãos não dão a devida importância à doutrina. Para muitos parece que contanto que estejamos juntos e tenhamos amor pelo Senhor, o que cada um professa em termos de doutrina não é muito importante. O ensino bíblico nas denominações geralmente reflete uma atitude assim. O foco da maioria dos sermões costuma ficar em algum detalhe prático da vida cristã. A consequência disso é que as pessoas não se firmam na verdade. Muitos cristãos amados passam a vida inteira “levados em roda por todo o vento de doutrina” que venha a cruzar seu caminho (Ef 4:14).

Como acontecia com a igreja no princípio, precisamos de reuniões que sejam lideradas pelo Espírito, nas quais dois ou três possam se dirigir aos santos com uma palavra de exortação ou com a apresentação da verdade. Paulo disse: “Falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados. E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14:29-32).

Além disso, a leitura bíblica — quando a Bíblia é lida e os irmãos têm a oportunidade de discorrer sobre uma passagem para a edificação da assembleia — também é uma forma viável de se comunicar a verdade aos santos. Esta era a prática dos irmãos no princípio da igreja quando se reuniam para a leitura das Escrituras. A exortação de Paulo a Timóteo foi, “persiste em ler (literalmente, “persiste nas leituras”), exortar e ensinar” (1 Tm 4:13). A leitura da qual Paulo falava não era o estudo pessoal da Bíblia, mas a leitura pública das Escrituras a outros. O fato de “exortação” e “ensino” estarem associados à leitura das Escrituras naturalmente sugere que existia a oportunidade para aqueles que, como Timóteo, estavam capacitados a comentar as passagens lidas para a edificação dos demais. Estes são elementos básicos de uma reunião de leitura. É a maneira que Deus determinou para os cristãos permanecerem fundamentados na verdade.

No princípio a igreja também se reunia para a “comunhão” cristã. Muitos cristãos enxergam a comunhão como nada além de se encontrarem com outros cristãos para recreação e atividades esportivas. Não há nada de errado com a recreação, mas a comunhão cristã é a comunhão nas coisas cristãs. Trata-se de comunhão nas coisas divinas que temos em comum com todos os membros do corpo de Cristo. No princípio da igreja não há dúvida de que isso ocorria quando eles estavam juntos para o aprendizado da doutrina dos apóstolos, pois no próprio versículo este aprendizado está intimamente conectado à comunhão. Todavia, não deveríamos limitar a comunhão com outros crentes apenas quando estamos reunidos para o aprendizado da verdade. Precisamos também visitar uns aos outros.

Além destas atividades, a igreja no princípio também se reunia para o “partir do pão”. Depois que a igreja foi estabelecida, a cada primeiro dia da semana (o dia do Senhor) eles se reuniam para partir o pão (At 20:7). Este é um privilégio do qual nós também desfrutamos, já que o Senhor pediu “fazei isto em memória de mim” (Lc 22:19). Todavia, esta é mais uma prática que aparentemente não é muito importante para os cristãos hoje, já que a maioria dos grupos cristãos celebra a ceia do Senhor uma vez por mês ou a cada três meses. A maneira como ela é celebrada também chega a ter apenas uma vaga semelhança com o que encontramos nas Escrituras. Mesmo quando é celebrada, a ceia costuma durar poucos minutos e é encaixada no “culto” da igreja. Ela costuma também ser celebrada entre crentes e incrédulos misturados, embora o Senhor, ao instituir a ceia, indicou que apenas os verdadeiros crentes deveriam partir o pão em Sua memória (Jo 13:30; Lc 22:19; 1 Co 11:23-26). Ele deseja que aqueles que redimiu separem um tempo para se ocuparem com Ele — a apreciarem o imenso custo que teve a sua redenção. Não gostaríamos de ser dogmáticos a respeito, mas tudo indica que quando o Senhor instituiu a ceia, foi um momento separado especificamente para aquele objetivo (Lc 22:14).

Finalmente, eles se reuniam regularmente para “as orações” (At 4:23-31; 12:12-17). No idioma original, a expressão “as orações” indica que eles separavam ocasiões específicas para estarem juntos com este objetivo. Portanto, a igreja no princípio promovia reuniões de oração, quando podia expressar publicamente sua dependência do Senhor quanto às suas necessidades. Mais uma vez, isto é algo que infelizmente hoje faz falta na igreja. Muitos grupos de cristãos promovem apenas cultos dominicais. Uma reunião de oração no meio da semana é uma prática que desapareceu em muitos lugares. E aqueles que mantêm reuniões de oração, geralmente não contam com uma grande frequência. Isso tão somente prova que os cristãos atualmente não consideram as reuniões de oração importantes. Todavia, o Senhor gostaria que o Seu povo se reunisse regularmente para as orações.

Estes são os principais tipos de reuniões que ocupavam a igreja no princípio, quando esta estava reunida, e são as mesmas que precisamos ter hoje. Elas são essenciais para a saúde espiritual da assembleia, e é por esta razão que Deus deixou um registro delas para nós em Sua Palavra. A “doutrina dos apóstolos” forma nossa “comunhão”, o “partir do pão” expressa essa comunhão, e “as orações” a mantém. Estas quatro coisas têm sido chamadas de quatro âncoras da vida em assembleia. (Existe outro tipo de reunião da assembleia que é indicada nas Escrituras — a reunião para disciplina; mas ela tem um caráter diferente — 1 Co 5:4-5).

Tendo estas quatro coisas básicas em mente, voltamos a perguntar: Acaso precisamos de algum acessório extra, dentre os muitos encontrados hoje na cristandade, para colocar em prática estas coisas tão simples? Não, a igreja no princípio não precisava de acessórios e tampouco nós precisamos deles! Então por que não voltar simplesmente ao puro e simples cristianismo que encontramos na Bíblia, a fim de descobrirmos a bênção que é procedermos assim?

 Consequências práticas de se abandonar as “quatro âncoras” 
Quando deixamos de lado qualquer uma dessas “âncoras”, sentimos sérias consequências práticas em nossa vida. Um exemplo disso está em Atos 27:40-41. Quando os marinheiros se livraram das “quatro âncoras” (At 27:29), acabaram logo atingindo as rochas e naufragaram. Assim como aconteceu com aqueles marinheiros, alguns cristãos acham que podem se livrar dessas quatro importantes práticas e que não haverá consequências. Porém, cedo ou tarde acabam perigosamente à deriva espiritual e “naufragam” (1 Tm 1:19). Sem reuniões especificamente designadas para esses propósitos, ficamos à deriva em uma ou outra área de nossa vida cristã. Uma boa pergunta que devemos fazer a nós mesmos é: “Quantas dessas âncoras conservo em minha vida?”.

Sem a “doutrina dos apóstolos” não permaneceremos “confirmados na presente verdade” (2 Pd 1:12). Consequentemente, seremos “levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4:14). Alguns cristãos pensam que doutrina é algo que deve ser deixado a cargo do “Pastor” de sua igreja, porém as Escrituras dizem que a verdade foi entregue por intermédio dos apóstolos aos santos — todos eles, não apenas um grupo especialmente qualificado entre os santos (Jd 3). Ela não foi entregue aos apóstolos, mas por intermédio dos apóstolos aos santos. Os apóstolos não eram os destinatários finais da verdade; eles eram apenas os canais através dos quais ela chegaria até nós. A doutrina cristã, portanto, é algo que todo cristão deve conhecer, desfrutar e andar nela. J. N. Darby disse que “nenhum cristão conhece seu verdadeiro lugar sem ela”. Portanto, devemos prestar atenção à doutrina, pois existe uma salvação prática conectada a ela (1 Tm 4:15-16). Não podemos viver bem sem ela.

Se ficarmos sem “comunhão” com outros cristãos nas coisas divinas, não seremos corrigidos e ajustados em nossos pensamentos acerca da doutrina e de quaisquer faltas e peculiaridades de nossa vida pessoal. Isto é resolvido quando estamos com outros cristãos. Além do mais, se não andarmos em uma comunhão prática com nossos irmãos, ficaremos sujeitos a interpretações errôneas, as quais com frequência nos levam a equívocos e contendas (Fp 2:2-3).

Sem o “partir do pão” nosso coração pode esfriar. A ceia do Senhor é uma ocasião quando recordamos o Senhor em Sua morte; quando relembramos o Seu amor por nós, que O levou a sofrer na cruz em nosso lugar. A meditação nesse amor eleva nosso coração a Ele em verdadeira adoração (2 Co 5:14, Ct 1:2-4).

Sem a “oração” nossa vida se torna independente dEle, que é nossa Cabeça. Começaremos a escolher nosso próprio caminho de vida, sem depender da Cabeça (Cl 2:19). Sem a dependência do Senhor certamente acabaremos dando passos que nos levarão para fora da senda cristã.

 Três ou quatro coisas tangíveis no cristianismo 
Se praticarmos o cristianismo simples, do modo como é encontrado na Bíblia, descobriremos que existem poucas coisas tangíveis em toda a nova ordem da adoração cristã.

  • A ordenança do batismo.
  • A ordenança da ceia do Senhor.
  • A Bíblia.
  • A cobertura para a cabeça.

Talvez exista mais uma, se acrescentarmos a esta lista a coleta (1 Co 16:1-2). Mas já que isto costuma acontecer por ocasião da ceia do Senhor, nós já a vemos incluída ali.

A razão pela qual o cristianismo tem tão poucas coisas visíveis é que se trata de um sistema baseado em fé. As Escrituras dizem que “andamos por fé, e não por vista” (2 Co 5:7). Por possuirmos uma nova vida (pelo novo nascimento) e por sermos habitados pelo Espírito de Deus, não precisamos de outras coisas para praticar o cristianismo. Os cristãos poderiam se reunir para a adoração e o ministério em uma casa, cozinha, garagem etc.; e se isso fosse feito em conformidade com a Palavra de Deus e o Espírito de Deus, teriam o Senhor em seu meio. A ceia do Senhor foi inicialmente instituída em uma sala de estar de uma residência em Jerusalém (Lc 22:7-20). A presença do Senhor em seu meio era tudo o que eles precisavam.

Baseados nisso, perguntamos: Onde, neste padrão simples dado aos cristãos para se reunirem para a adoração e o ministério, estão todos os adereços adotados pela religião profissional da cristandade? Onde está a necessidade de se construir imensas catedrais e complexas organizações denominacionais? Onde está a necessidade das orquestras, do entretenimento, e do dinheiro que frequentemente caracteriza as igrejas na cristandade? Ora, tudo isso perde imediatamente o sentido! Se for verdade que o cristianismo possui apenas estas poucas coisas tangíveis, então tudo o mais fica imediatamente descartado. Mas onde está Cristo nesta forma simples de congregar? Ele está no meio, onde prometeu que estaria! (Mt 18:20). E se temos a Cristo, temos tudo que precisamos.

 Quem Deveria Liderar a Congregação? 

◄))) Alguém poderá perguntar: “Se nos reunirmos do modo como foi sugerido no capítulo anterior, quem iria liderar essas reuniões?”.

Gostaríamos de responder dizendo que se nós realmente crermos que o Senhor Jesus está no meio, conforme prometeu, iremos desejar que Ele lidere e dirija por intermédio do Espírito. Quando Cristo subiu ao céu, enviou o Espírito Santo ao mundo para habitar na igreja justamente para isso (Jo 7:39; At 2:1-33). As principais funções do Espírito no cristianismo são: exaltar a Cristo, unir os membros do corpo de Cristo neste mundo à Cabeça no céu por meio de Sua presença na igreja, e guiar a igreja em todas as coisas, seja em adoração (Fp 3:3), oração (Ef 6:18; Jd 20; At 4:31), ministério (Jo 14:26; 16:13-15; 1 Co 12:11), ou evangelismo (At 8:29; 13:1-4; 16:6-7). A partir do momento em que o Espírito de Deus foi enviado ao mundo no dia de Pentecostes, será em vão procurarmos no Novo Testamento por algum dirigente humano além da soberana direção do Espírito Santo! É Ele quem deve liderar as reuniões da igreja.

Todos os grupos de cristãos dirão que contam com a presença do Espírito, mas para provar se cremos ou não na presença e no poder do Espírito basta ver se estamos permitindo que Ele dirija as coisas nas reuniões da igreja. O que as Escrituras exigem de nós é que tenhamos fé no poder do Espírito, deixando que Ele faça o Seu papel empregando quem Ele quiser para falar nas reuniões. A fé é essencial para todo aquele que deseja se reunir em conformidade com a ordem de Deus nas Escrituras, e isto não deveria causar surpresa em nós que somos cristãos, já que cada passo de nosso caminho deveria ser dado em fé. “A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20). E também, “o justo viverá da fé” (Gl 3:11).

Foi pelo poder do Espírito que Deus fez o mundo e tudo o que nele existe (Jó 26:13; 33:4; Gn 1:2), portanto podemos ter certeza de que Ele é capaz de liderar alguns cristãos congregados para adoração e ministério. Se tivermos Alguém tão grande e competente como é esta Pessoa divina presente no meio dos santos congregados, não precisaremos designar um homem para fazer o Seu serviço, não importa quão capacitada essa pessoa possa ser. C. H. Mackintosh escreveu: “Se Cristo está em nosso meio (Mt 18:20), por que ousaríamos pensar em colocar alguém para presidir? Por que não conceder a Ele o Seu lugar de direito e deixar que o Espírito de Deus nos lidere e nos dirija na adoração e no ministério? Não há qualquer necessidade de termos uma autoridade humana”.

Todavia as denominações colocaram um homem (um “Pastor” ou “Ministro”) para conduzir a adoração. Na Bíblia, porém, não encontramos que Deus jamais tenha colocado um pastor ou ministro para conduzir a adoração da igreja. Citando W. T. P. Wolston a esse respeito, “existe na cristandade a ideia de que pastor é alguém colocado para dirigir uma congregação. A ideia está na cabeça das pessoas, mas não nas Escrituras!” Se esta não é a ordem de Deus, então fica claro que deve ser uma invenção humana. Ter um homem colocado na assembleia para “ministrar” a ceia do Senhor certamente é um erro monstruoso, pois não existe qualquer sinal na Palavra de Deus de que um homem, nem mesmo um apóstolo, tenha sido designado para fazer isso. As Escrituras simplesmente dizem que os discípulos ajuntavam-se “para partir o pão” (At 20:7).

Ainda assim essa organização humana está tão disseminada na cristandade que pode ser encontrada desde a catedral de São Pedro em Roma até a menor capela evangélica. Ao invés dos crentes se congregarem para a adoração e o ministério somente em nome do Senhor, aguardando pela direção do Espírito para guiá-los, dificilmente é encontrada sequer uma reunião de oração em que não exista alguém (um líder da oração) designado para conduzi-la. O que é isso, senão o homem usurpando o lugar do Espírito Santo? Trata-se da triste consequência de se duvidar da presença pessoal do Senhor no meio dos santos. Designar um homem, por mais capacitado que seja, para liderar e conduzir as reuniões da assembleia é negar na prática a presença e o poder do Espírito Santo. Na verdade isto é até mesmo ignorar ou duvidar da competência do Espírito Santo para dirigir as reuniões. Quão triste é vermos que esse tipo de interferência humana colocou de lado a simplicidade da ordem divina. Que o Senhor possa livrar o Seu povo desse sistema de coisas que é tão contrário aos Seus pensamentos.

 O sacerdócio de todos os crentes 
O significado da palavra “sacerdote” é “aquele que faz a oferta” (Hb 5:1; 8:3; 1 Pd 2:5). Um sacerdote é alguém que tem o privilégio de entrar na presença de Deus em lugar do povo. No cristianismo o sacerdote exerce seu sacerdócio ao oferecer os sacrifícios de louvor a Deus, e ao apresentar as petições a Deus em oração (Hb 13:15; 1 Jo 5:14-15). Todavia, uma das causas da fraqueza e confusão que prevalece na igreja professa é que, em muitos casos, o sacerdócio é considerado como um direito limitado a uma classe privilegiada de pessoas, algumas delas que nem sequer são salvas!

A verdade é que todos os cristãos são sacerdotes. É isto que as Escrituras ensinam. O livro de Apocalipse declara que os cristãos são feitos “sacerdotes para Deus” por meio da fé na obra consumada de Cristo na cruz (Ap 1:6; 5:10). A epístola de Pedro confirma isto, dizendo que “vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pd 2:5, 9). Além disso, a epístola aos Hebreus exorta todos os cristãos a se aproximarem de Deus além do véu, entrando no santuário ou “santo dos santos” (Hb 10:19-22; 13:15-16). O fato de dizer que o Senhor é o “Grande Sacerdote” ou “Sumo Sacerdote” implica que existe um grupo de sacerdotes que está abaixo dEle. Ele não presidiria como “grande” ou “sumo” sacerdote se não existissem sacerdotes sob Ele. Pela mesma razão, uma pessoa não seria chamada de líder de algum grupo de pessoas se não existissem pessoas para ele liderar. A exortação em Hebreus 10:19-22 visa encorajar os cristãos a se aproximarem de Deus e desempenharem seus privilégios sacerdotais.

Em cada uma das passagens do Novo Testamento onde o assunto do sacerdócio é tratado, não há qualquer menção — nem uma sequer — de que apenas alguns dentre os santos sejam sacerdotes. Tampouco existe em qualquer outro lugar do Novo Testamento algo semelhante. Quando o Novo Testamento fala de sacerdócio, ele se refere, sem exceção, a todos os crentes como constituídos com este privilégio. Além do mais, essas passagens não apenas nos falam que todos os cristãos são sacerdotes, como também aprendemos delas que somos sacerdotes com privilégios que vão além daqueles que tinham os sacerdotes da época do Antigo Testamento. Um sacerdote no cristianismo pode aproximar-se da própria presença de Deus, no santo dos santos. Esse é um lugar aonde nenhum filho de Aarão podia entrar. Até mesmo quando Aarão, o sumo sacerdote em Israel, entrava uma vez por ano além do véu, ele não o fazia com ousadia, como podemos fazer agora. No dia da Expiação ele entrava ali com medo de morrer, mas nós podemos entrar “em inteira certeza de fé”. Além disso, os sacerdotes da linhagem de Aarão prestavam um culto do qual pouco compreendiam. Eles não sabiam por que deviam fazer as coisas que lhes eram ordenadas. Mas nós temos um “culto racional” (Rm 12:1). Podemos desempenhar nossas funções sacerdotais com entendimento de tudo aquilo que fazemos na presença de Deus.

Portanto, considerando que as Escrituras ensinam que todos os cristãos são sacerdotes, e que todos nós temos igual privilégio de desempenhar nosso sacerdócio na presença de Deus, fica claro que não existe a necessidade de um clérigo para fazer isso pelos demais. Nas reuniões de adoração e oração (quando os cristãos exercitam seu sacerdócio), tudo o que precisamos é esperar no Espírito de Deus para que Ele dirija as orações e os louvores dos santos. Se permitirmos que Ele lidere na assembleia, no lugar que Lhe é de direito, Ele irá guiar um irmão aqui e outro ali a expressar de forma audível uma adoração e louvor, como quem fala por toda a assembleia. (Evidentemente entendemos que não somente desempenhamos nosso sacerdócio nas ocasiões em que estamos congregados em uma assembleia. A qualquer momento um cristão pode entrar na própria presença de Deus em oração e adoração e desempenhar seu papel de sacerdote. Mas no contexto deste livro estamos falando de cristãos reunidos em uma assembleia para adoração e ministério).

Quando compreendemos a proximidade do relacionamento que todos os cristãos têm como parte do corpo e noiva de Cristo, podemos ver como a ideia de uma casta ministerial mais próxima de Deus do que os demais é totalmente incompatível com isso (Ef 2:13; 5:25-32). Se nós, como cristãos, adotarmos uma classe de pessoas assim, estaremos negando que somos capacitados, como sacerdotes, a oferecer sacrifícios espirituais a Deus. Na prática isso destrói os privilégios do cristianismo e, em certo sentido, restaura o judaísmo, ou ao menos nos leva de volta para aquele nível.

Enquanto algumas poucas denominações chegam ao ponto de possuírem um clérigo com o título de “Sacerdote” (dando a entender que os demais naquela denominação não o são), a maioria das igrejas chamadas evangélicas denomina seu clérigo de “Pastor” ou “Ministro”. Isso faz pouca diferença, pois uma posição assim na igreja não está de acordo com a verdade das Escrituras. Trata-se de uma função puramente inventada pelo homem.

 A diferença entre sacerdócio e dom 
É importante entender a diferença entre sacerdócio e dom. São duas esferas de atuação distintas na casa de Deus. Um sacerdote vai a Deus em nome do povo; uma pessoa que exercita seu dom no ministério vai ao povo em nome de Deus.

Dons

Os dons são aqueles que o Senhor, depois de ressuscitado como Cabeça da igreja, concede aos diversos membros do Seu corpo para capacitá-los a ocupar o lugar que Deus determinou para eles no corpo. A Bíblia ensina que todo membro do corpo de Cristo recebeu um dom (1 Co 12:7; Ef 4:7; 1 Pd 4:10; Rm 12:6-8). Todavia, nem todos os membros do corpo de Cristo têm um dom de ministério da Palavra. Alguns podem ter um dom que seja facilmente reconhecido, como é o caso de um evangelista, pastor ou mestre (Ef 4:4-16; Rm 12:4-8; 1 Co 12:4-31). Em outros, porém, o dom pode ser algo não tão fácil de identificar, como é o caso daquele que “exercita misericórdia” (Rm 12:8). Seja o dom de evangelismo ou de “socorros” (1 Co 12:28), o que é certo é que todos nós temos algo para fazer no corpo de Cristo.

O propósito dos dons é “o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4:12-15). Isto nos mostra que os dons são para o benefício espiritual da igreja.

 A diferença entre habilidade e dom 
Em Mateus 25:14-30 o Senhor faz distinção entre “habilidade” e “dom”. Ele contou a história de um homem que viajou a um país distante e, antes de partir, deu talentos — uma quantia em dinheiro — aos seus servos, com os quais eles deveriam negociar até que ele retornasse. Alguns receberam mais, outros menos. Essa é uma clara alusão ao Senhor dando dons aos Seus, os quais devem exercitá-los para Ele durante a Sua ausência. Um dia Ele voltará e pedirá contas do que fizemos com aquilo que Ele nos deu na forma de dons. Naquele dia serão dadas recompensas aos que cumpriram fielmente seu ministério (Mt 25:19-23).

Digno de nota é o fato de que o homem lhes “confiou” talentos (dons) “segundo a capacidade de cada um”. (Mt 25:15). Aqui o Senhor faz uma distinção entre as duas coisas. Repare que aqueles servos já possuíam suas diferentes capacidades ou habilidades antes que o homem os chamasse para lhes dar os talentos.

Habilidade é algo que uma pessoa recebe quando nasce neste mundo. Em Sua providência, Deus faz cada vaso único e o capacita para os Seus objetivos bem antes de essa pessoa ser salva. Na escola de Deus Ele cria e forma as capacidades e habilidades intelectuais de uma pessoa ainda enquanto ela está vivendo sua vida na incredulidade. O dom, por outro lado, é algo que vem do Senhor e é dado à pessoa pelo Espírito quando ela é salva. Enquanto a habilidade é natural, o dom é espiritual. O dom é dado a alguém para que possa cumprir seu ministério no corpo de Cristo. A sabedoria do Senhor pode ser vista aqui no fato de Ele distribuir os dons de acordo com nossas habilidades naturais. Por exemplo, Ele não dá o dom de evangelista a alguém que seja calado e reservado; alguém que não tenha habilidade de comunicação. A alguém que naturalmente goste de estar e conversar com outras pessoas provavelmente será dado um dom assim. Do mesmo modo o dom de ensino exige certa medida de habilidade natural na área da capacidade intelectual.

Mencionamos isto porque em nossos dias existe uma grande confusão a este respeito entre os cristãos professos. Costumamos ouvir cristãos falando de músicos ou atletas famosos que se converteram e que suas habilidades naturais são os seus dons. Todavia, o dom nas Escrituras é uma manifestação espiritual no corpo de Cristo. O dom tem a ver com as coisas espirituais (1 Co 12:1; 14:1). Tampouco vemos nas Escrituras que Deus desejasse que a igreja tivesse reuniões onde pessoas assim pudessem apresentar suas habilidades naturais. É comum essas pessoas famosas serem usadas nas chamadas “reuniões de testemunho” para algo que não passa de entretenimento. Estariam os crentes sendo fundamentados na verdade por meio de reuniões assim? Os dons não são para o nosso entretenimento, mas para a edificação dos santos na “santíssima fé” (Jd 20).

J. N. Darby disse tratar-se “de um princípio totalmente falso que as habilidades naturais sejam em si mesmas um motivo para serem usadas. Posso ter muita força física ao ponto de nocautear um homem, ou ser suficientemente veloz na corrida para ganhar uma taça. A habilidade para a música pode ser algo mais refinado, mas o princípio é o mesmo. Considero este ponto de grande importância. Os cristãos perderam sua influência moral ao inadvertidamente introduzirem em seus cultos aquilo que é natural e mundano. Todas as coisas me são lícitas, mas, como já disse, não se pode misturar a carne com o Espírito”.

 O que é ministério? 
A maioria das pessoas pensa que “ministério” é aquilo que envolve Pastores e Ministros, quando eles desempenham seu trabalho liderando um grupo chamado igreja. A Bíblia, porém, ensina que ministério é simplesmente o exercício do dom de uma pessoa (1 Pd 4:10-11; 1 Tm 4:6; Ef 4:11-12). Considerando que todos os cristãos possuem um dom, todos os cristãos deveriam estar no “ministério”! Como já dissemos, nem todos podem ter um dom de ministério público da Palavra de Deus, mas todos têm um ministério a cumprir. Boa parte do ministério está no serviço feito para o povo do Senhor, quando nenhuma oratória pública está envolvida.

O problema na igreja hoje é que existem muitos que são como Arquipo, que não estão cumprindo seu ministério. O Apóstolo precisou exortá-lo assim: “Atenta para o ministério que recebeste no Senhor, para que o cumpras” (Cl 4:17). Esta é uma exortação muito necessária hoje. Uma das razões de muitos não cumprirem seu ministério é que existe um vasto sistema clerical criado pelos homens na igreja que impede que as pessoas exerçam seus ministérios. Numa situação normal em uma típica igreja denominacional, se o Espírito de Deus quisesse dar uma palavra a alguém ali que tivesse um dom de ministério público, ele seria reprimido e não poderia exercitar seu dom. Se tentasse fazê-lo, acabaria causando uma interrupção no culto previamente organizado.

A ideia comumente aceita na cristandade hoje é que quando alguém sente que foi “chamado para o ministério”, deve passar por um sistema de ensino por meio do qual irá adquirir o status de “Ministro” ou “Pastor”. E mesmo então, ele ainda não poderá exercitar seu dom até que uma congregação o escolha (geralmente por intermédio de uma junta de diáconos) para que seja Ministro deles. Muitos têm boas intenções, porém ignoram a ordem de Deus e acreditam que se decidirem ministrar a Palavra, precisarão antes se submeter a este processo e serem treinados em um seminário. Uma vez que a tradição decidiu assim, muitos sentem que Deus está verdadeiramente enviando eles para um seminário com este objetivo. Para eles isso parece lógico, já que se trata da forma convencional e reconhecida de se preparar “Ministros”. Sem querermos colocar em dúvida a sinceridade dessas pessoas, devemos deixar claro que toda essa ordem de coisas não é encontrada nas Escrituras.

A Bíblia ensina que se uma pessoa possui um determinado dom, a própria posse do dom já é a garantia de Deus para que ela o utilize. A Bíblia diz: “Cada um administre aos outros o dom como o recebeu” (1 Pd 4:10). Ali não diz “cada um que tenha recebido o dom seja treinado e ordenado por um seminário para poder administrar aos outros”.

As Escrituras dizem: “Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá” (1 Pd 4:11). Repare mais uma vez que não diz “primeiro vá à escola, e depois fale”.

Mais uma vez: “De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; Se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; Ou o que exorta, use esse dom em exortar” (Rm 12:6-8). Novamente não existe uma palavra sequer sobre a pessoa ser treinada por homens antes de poder fazer uso de seu dom.

Além disso, as Escrituras dizem: “Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação” (1 Co 14:26). Aqui também não encontramos qualquer indício de que a pessoa deva ser treinada antes de poder exercitar seu dom na assembleia. A passagem simplesmente diz que se tivermos doutrina (ensino) etc., faça-se tudo para a edificação da igreja.

Evidentemente é verdade que o dom de alguém precisa ser desenvolvido. Isso exige tempo e prática (At 9:20-22; Gl 1:17; At 9:30; 22:25-26; 13:1-14). Quanto mais uma pessoa amadurecer nas coisas divinas, mais útil ela será em seu ministério (At 18:24-28; Mc 4:20). A maneira bíblica de alguém ser ensinado nas coisas divinas é por meio das reuniões que já mencionamos. O Senhor usa essas reuniões da assembleia, guiadas soberanamente pelo Espírito Santo, para nos ensinar a verdade. Ele também usa livros de ministério (ou gravações) de pessoas que reconhecidamente possuem dons e são capazes de nos ensinar a verdade. Mas será perda de tempo procurar nas Escrituras qualquer ideia de que alguém precise ir a um seminário para estar apto a ocupar uma posição de “Ministro” ou “Pastor” de uma igreja. Como já foi dito, tudo isso não passa de invenção humana com o objetivo de preparar a pessoa para uma posição no sistema criado pelos homens. O cristianismo bíblico simplesmente não necessita dessas escolas. Muito do que é ensinado nesses seminários tem por objetivo treinar os futuros “Pastores” a dirigirem uma igreja dentro de um sistema clerical que não é encontrado em lugar algum da Bíblia.

 O ministério na igreja 
Quando lemos a primeira epístola aos Coríntios (do capítulo 11:17 ao 14:40), vemos como os dons devem funcionar quando a igreja está reunida nas diferentes localidades. Esta seção das Escrituras começa com o Apóstolo dizendo: “de sorte que, quando vos ajuntais num lugar…”.

Antes de falar do ministério, o Apóstolo Paulo começa falando do privilégio da ceia do Senhor, que talvez seja a reunião mais importante da igreja. A ceia do Senhor não é uma reunião para o exercício dos dons, mas para a recordação do Senhor em Sua morte. É um momento quando podemos exercitar nosso sacerdócio ao oferecermos adoração e louvor ao Pai e ao Filho.

Depois de colocar em ordem várias coisas relacionadas à ceia do Senhor, nos capítulos que vão do 12 ao 14 o Apóstolo mostra a ordem para o ministério na assembleia.

  • O capítulo 12 fala dos grandes princípios do ministério cristão.
  • O capítulo 13 fala do espírito no qual o ministério deve ser exercitado — em amor.
  • O capítulo 14 fala das regras para o uso dos dons na assembleia, de modo que o ministério seja para a edificação de todos.

Se olharmos mais atentamente ao capítulo 12, veremos que o primeiro grande princípio de todo ministério é a exaltação de Jesus como Senhor. A evidência da liderança do Espírito no ministério está no fato de que Cristo será sempre exaltado e nunca se falará dEle de modo depreciativo. O capítulo começa dizendo: “Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” (1 Co 12:1-3). “Ele [o Espírito] me glorificará” (Jo 16:14).

 A assembleia local necessita de todos os dons em seu meio 
O segundo grande princípio neste capítulo sobre o ministério cristão é que, se Cristo distribuiu os dons pelo Espírito aos diversos membros do Seu corpo, e considerando que esses dons não são todos possuídos por um único homem, precisamos da participação nas reuniões de todos os que têm um dom para isso. O Apóstolo diz que “a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito…” (1 Co 12:4-10, 29-30). Fica perfeitamente claro nesta passagem que uma vez que os dons não estão todos de posse de um só homem, a assembleia irá precisar de mais de um homem ministrando, isto se quiserem obter o benefício dos dons que porventura existam em seu meio. Todavia — repito — o sistema clerical existente no cristianismo denominacional impede isto.

Alguns poderão dizer: “Nossa igreja não tem apenas um homem como ministro. Temos dois ou três pastores”. Todavia, ainda assim continuam sem entender esta passagem. A intenção de Deus é que a igreja possa crescer “pelo auxílio de todas as juntas”, não de apenas duas ou três (Ef 4:16). É verdade que provavelmente nem todos tenham um dom para ministrar publicamente a Palavra, mas, como já mencionamos, as Escrituras indicam que todos os que estiverem capacitados devem ter a liberdade de ministrar na assembleia. A Palavra de Deus diz que “todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados” (1 Co 14:24, 31).

Também é verdade que um homem pode ter mais de um dom, mas as Escrituras são claras no sentido de que uma só pessoa não possui todos os dons. O Apóstolo até mesmo chega a fazer uma advertência quanto ao perigo de não considerarmos a diversidade de dons que Deus colocou no corpo. Ele diz: “O olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós” (1 Co 12:21). Isto demonstra que todos os membros no corpo têm algo para contribuir, ainda que aos nossos olhos pareçam insignificantes. Todavia, a ordem clerical estabelecida nas igrejas é um sistema no qual duas ou três pessoas cuidam do ministério. Trata-se de um sistema que impede (talvez não intencionalmente) que outros dons sejam exercitados na igreja, o que é outra forma de se dizer “não tenho necessidade de ti”.

Aqueles que ocupam uma posição ministerial nas igrejas discordam veementemente disto, pois afirmam que em suas igrejas encorajam as pessoas a se reunirem para exercitar seus dons — mas isso se limita a reuniões domésticas de estudo da Bíblia. O contexto destes capítulos, porém, trata do exercício dos dons nas reuniões da assembleia (1 Co 11:17, 18, 20, 33, 34; 14:23, 26). A questão é: “Acaso eles permitem que haja liberdade dos dons na igreja?”. A resposta é não, eles não permitem.

 O Espírito de Deus deveria usar para falar quem Ele quisesse 
No décimo segundo capítulo da primeira epístola aos Coríntios, o terceiro grande princípio do ministério cristão é que, ao nos reunirmos em assembleia, o Espírito de Deus deve ter o direito de empregar quem Ele desejar para falar. Como demonstramos no assunto do sacerdócio, o Espírito deve ter liberdade na assembleia para guiar aquele que Ele escolher para falar, exercitando assim seu dom no ministério. O capítulo estabelece claramente que os dons devem ser exercitados na assembleia pelo mesmo Espírito que concede o dom a cada indivíduo quando este é salvo. “Um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente [os dons] a cada um como quer” (1 Co 12:7, 11). Não existe no Novo Testamento qualquer outra ordem para o ministério senão esta da direção soberana do Espírito Santo. As Escrituras partem do princípio de que temos fé para confiar na liderança do Espírito. Se nós deixarmos que o Espírito Santo lidere na assembleia, Ele tomará quaisquer que sejam os dons que estiverem ali e irá usá-los para a edificação dos santos no ministério.

Portanto, o princípio é simples. O Espírito Santo está na igreja, usando os dons conforme Ele escolher para a edificação de todos. É esta a ordem de Deus para o ministério cristão. Sendo assim, como se pode esperar que o Espírito Santo reparta a cada homem exatamente conforme Ele escolher, se a igreja tiver estabelecido uma ordem de coisas na qual um homem ocupe o lugar de liderança na assembleia? Na prática isso é o mesmo que negar a liderança do Espírito Santo! O Espírito pode querer levantar este ou aquele para o ministério, mas acaba sendo bloqueado e impedido por causa de uma ordem humana. Em muitas igrejas os cultos são programados de antemão — às vezes com dias de antecedência! No entanto, não encontramos tal ideia nas Escrituras. Tudo isso pode ter sido criado com boas intenções, mas não é a ordem que Deus instituiu.

 Os dons devem ser regidos pelo amor e pelo discernimento 
Depois de ter falado do motivo para o ministério, que é o “amor”, no décimo terceiro capítulo da primeira epístola aos Coríntios, no capítulo quatorze o Apóstolo apresenta os princípios simples que devem reger o ministério na assembleia.

A primeira parte do capítulo enfatiza o cuidado que o amor deveria ter de garantir que não se perdesse tempo falando coisas que os demais não pudessem entender. Era exatamente o que estava ocorrendo em Corinto. Entre eles havia pessoas que falavam em línguas, mas sem um intérprete. Consequentemente, os outros na assembleia não sabiam o que estava sendo falado. Paulo mostra que se alguém falar sem o devido amor e cuidado para a edificação de todos, estará na verdade falando como uma trombeta que dá um som incerto. As pessoas não saberão como reagir ao que está sendo dito, pois não entenderão de que se trata.

Os coríntios estavam usando mal o dom de línguas, mas independente de qual seja o dom, o princípio é o mesmo e deve nos guiar hoje também. Alguém que participe de uma reunião de uma forma que as pessoas não possam entender estará claramente falando coisas que não são para “edificação, exortação e consolação” de todos os presentes. Se for este o caso, é melhor que permaneça calado. O amor e cuidado pelo bem estar dos outros é o que deve governar essas coisas (1 Co 14:1-11).

O princípio fundamental que deve reger a reunião de ministério é que devemos falar aquilo que for para a edificação de todos. Paulo disse que é melhor falar pouco na assembleia (“cinco palavras”) e todos entenderem e serem edificados, do que falar muito (“dez mil palavras”) e ninguém entender (1 Co 14:12-19).

Ele mostra também que se a igreja se reunisse de acordo com a ordem de Deus para o ministério, onde fosse dado ao Espírito de Deus o Seu lugar de direito para dirigir o mesmo ministério, isso seria um testemunho poderoso para aqueles que visitassem essas reuniões (1 Co 14:23-25).

Paulo segue demonstrando que quando os santos se reunirem, “cada um” que tiver algo para contribuir deve ter a liberdade de ministrar na assembleia para o proveito dos outros. O problema com os coríntios era que suas reuniões tinham se transformado em um espaço livre para todos. Todos queriam falar e não esperavam pela direção do Espírito (1 Co 14:26). Para corrigir isso Paulo disse a eles que, embora todos pudessem ter algo para trazer, não significava que todos deveriam falar. Eles precisavam esperar pela direção do Espírito. Em diferentes oportunidades diferentes pessoas poderiam falar à medida que o Espírito as dirigisse (1 Co 14:27-28; 30-31). A palavra “profecia” neste capítulo não tem o sentido de prever as coisas futuras, mas simplesmente de proferir os pensamentos de Deus para aquela ocasião.

Pode ocorrer — e às vezes ocorre — de alguém movido pela carne se apressar a falar coisas que não são de proveito algum para a edificação dos santos. A questão é que a assembleia não é um palco para a carne se manifestar. O Apóstolo escreveu que “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14:32). Isto significa que a pessoa deve saber como exercer seu domínio próprio e evitar falar em situações assim. O problema é que quem age assim costuma pensar que aquilo que diz é proveitoso e edificante, e daí insiste em falar. Quando isso acontece, Paulo mostra que a assembleia pode agir. Ele escreveu: “Falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (1 Co 14:29). Uma assembleia fundamentada nas Escrituras tem a responsabilidade de julgar o ministério em seu meio. E se este não for proveitoso, a assembleia tem autoridade para exercer uma disciplina piedosa, pedindo a essa pessoa que permaneça em silêncio durante as reuniões (1 Co 14:27-33).

Estas instruções são especialmente importantes para os cristãos congregados de acordo com as Escrituras, pois quando existe liberdade nas reuniões da assembleia, pode também existir o abuso dessa liberdade. Dificilmente instruções assim teriam como ser aplicadas em um sistema denominacional convencional, já que em seus “cultos” não existe lugar para essa liberdade no ministério. Lembremo-nos de que esse tipo de provisão bíblica não é para a nossa liberdade (como alguns erroneamente interpretam), mas para a liberdade do Espírito em guiar quem Ele quiser. Não devemos falar, a menos que sejamos guiados pelo Espírito para fazê-lo.

Finalmente, nos versículos 34-40 o Apóstolo mostra o lugar que as irmãs devem ocupar durante as reuniões públicas. Falaremos mais sobre este assunto em um capítulo mais à frente. O Apóstolo conclui o capítulo apresentando um princípio final relacionado ao governo exercido na assembleia: “Faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Co 14:40).

 A assembleia deve guardar a sã doutrina 
Finalmente, no décimo quinto capítulo da primeira epístola aos coríntios, Paulo enfatiza que a sã doutrina deve ser mantida na assembleia. Os coríntios estavam se desviando da doutrina da ressurreição e Paulo os corrigiu em seus equívocos. Este é um princípio importante para nós. Devemos também guardar a sã doutrina na assembleia.

Portanto, temos aqui a ordem de Deus para o ministério na igreja. Repare, porém, que não encontramos qualquer menção de que existissem um ou dois homens (os “Pastores”, como se costuma chamá-los) designados para ministrar para os demais. Se Deus quisesse que o ministério na igreja fosse assim Ele teria mencionado isto nestes capítulos que tratam do assunto. Mas não há uma palavra sequer a respeito de um “Pastor” à frente.

Além disso, se o ministério na igreja fosse reservado a algumas poucas pessoas (isto é, a clérigos), então estes capítulos sobre o ministério teriam sido escritos especificamente para eles. Seria algo parecido com o sistema mosaico, quando o Senhor deu instruções específicas aos sacerdotes da linhagem de Aarão, um grupo especial de pessoas separadas do resto do povo para desempenharem os serviços no tabernáculo. Mas não existe coisa alguma a este respeito nestes capítulos. As instruções são para toda a igreja.

 Quer dizer que vocês não acreditam que devemos ter um pastor? 
Com base naquilo que acabamos de dizer, alguns inferem que não acreditamos na existência de pastores na igreja, mas a verdade é que acreditamos sim, pois a Bíblia fala de pastores (Ef 4:11). Um pastor é alguém que recebeu o dom de pastorear o rebanho de Deus. Trata-se de um dos muitos dons que Cristo deu à igreja.

Nossa objeção é quanto ao que as igrejas denominacionais chamam de “Pastor”. Transformaram o dom em algo que não é encontrado nas Escrituras. Extraíram o termo das Escrituras e o aplicaram à posição de um clérigo, algo que não é encontrado na Bíblia. O que mais causa confusão é que, em sistemas assim, uma pessoa pode ocupar tal posição e nem mesmo ter o dom de “Pastor”! Talvez ele tenha o dom de evangelista ou mestre etc., e mesmo assim acabará levando o título de “Pastor”! Que triste confusão foi introduzida na casa de Deus.

 Títulos lisonjeiros 
As organizações eclesiásticas da cristandade não apenas criaram uma posição que não existe na Palavra de Deus, mas também adicionaram a ela vários títulos que tampouco encontramos nas Escrituras. Títulos como “Ministro”, “Pastor” ou “Doutor em Divindade” são encontrados na maioria das denominações.

É certo que palavras como “ministro” e “pastor” são mencionadas na Bíblia, mas nunca são usadas como títulos. Como já dissemos, pastor é um dom, não um título clerical. O ensino da Palavra de Deus é este: “Que não faça eu acepção de pessoas, nem use de palavras lisonjeiras com o homem! Porque não sei usar de lisonjas; em breve me levaria o meu Criador”. (Jó 32:21-22).

O Senhor Jesus disse: “Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo. O maior dentre vós será vosso servo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado” (Mt 23:8-12). Todavia, mesmo que as Escrituras digam isso com total clareza, algumas denominações chamam seus clérigos de “Padre”, que vem do latim e significa “Pai”.

Como já foi mencionado, algumas organizações eclesiásticas usam o título “Doutor”. A palavra “doutor” vem do latim docere, que significa ensinar. Portanto, um doutor é um mestre. Mas isto é uma das coisas que o Senhor disse que não deveríamos usar para nos identificarmos uns aos outros! Quando um homem é apresentado a uma audiência como “Doutor Fulano”, a implicação que isso tem é que suas palavras têm autoridade por causa do grau de conhecimento que ele alcançou. Obviamente algo assim não tem qualquer fundamento nas Escrituras. Não estamos dizendo aqui que seja errado ter o título de “Doutor” nas profissões seculares, mas trata-se de algo que não tem lugar nas coisas de Deus.

Algumas denominações chegam ao ponto de usarem o título “Reverendo”. Todavia, a Bíblia, na versão inglesa, diz que “reverend” (“reverendo”) é o nome do Senhor! O Salmo 111:9 da versão inglesa King James, traduzido para o português, diz: “Santo e reverendo é o seu nome”. Acaso seria correto o homem usar um termo que é atribuído ao Senhor como um título para si mesmo? É claro que não.

Quando os moradores da Licaônia tentaram atribuir a Barnabé e Paulo títulos elevados, eles se recusaram a recebê-los, dizendo: “Senhores, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões” (At 14:15). Semelhantemente, hoje todo servo do Senhor deveria recusar títulos lisonjeiros. A Palavra de Deus ensina que pastor é apenas mais um dentre os muitos dons dados por Cristo (Ef 4:11). Por que alguém iria querer elevar especificamente este dom na igreja, ao ponto de transformá-lo em um título oficial que ocupasse um lugar de preeminência sobre os outros dons? Não existe uma linha sequer nas Escrituras que indique que a igreja deveria fazer algo assim.

 A eleição de um “Pastor” 
Atualmente a prática na igreja para se escolher um (assim chamado) “Pastor” é contrária às Escrituras. Estamos nos referindo ao processo como um clérigo passa a presidir uma igreja local. O procedimento usual é que o candidato a “Pastor” ou “Ministro” seja convidado pela (assim chamada) igreja, para ter a oportunidade de demonstrar suas habilidades fazendo alguns sermões. Se a sua pregação for aceitável para as pessoas daquela igreja, elas votarão nele para ser o “Pastor” delas. Mais uma vez, esta não é a ordem de Deus.

Para começar, a Palavra de Deus, que deve sempre ser nosso guia, não fornece qualquer instrução neste sentido. A verdade é que não existe na Bíblia uma única assembleia que tenha escolhido um pastor! Nem sequer uma! Tampouco encontramos que algum apóstolo em qualquer ocasião tenha nomeado um pastor para uma igreja local. As Escrituras até mesmo alertam contra a escolha de mestres pela igreja, quando diz: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” (2 Tm 4:3).

Além disso, a ideia de se nomear um “Pastor” não passa de um princípio mundano de democracia. A igreja não é uma democracia. É um engano pensar que seja correto dar poder de voto a pessoas jovens e recém-convertidas. Elas simplesmente não estão firmadas na verdade e nem foram experimentadas o suficiente nas coisas divinas para poderem formar um juízo espiritual de tamanha magnitude.

Há de se considerar também que tal prática coloca o homem em uma posição bastante estranha. Se ele desejasse muito aquela posição na organização, ficaria tentado a falar às pessoas o que elas gostariam de ouvir. Geralmente seriam tópicos como “Amor e Casamento” ou “Profecia”. Qualquer tipo de ministério dirigido à consciência provavelmente seria deixado para o final de sua lista. Mesmo depois de assumir sua posição na igreja, ele seria constantemente confrontado com a possibilidade de comprometer a verdade a fim de satisfazer as pessoas, por saber que se a audiência caísse, sua posição e emprego correriam risco. Seu papel seria deixar a congregação contente. O resultado disso é que as pessoas poderiam acabar controlando esse “Pastor” — e geralmente é o que acontece na prática — para que ele fosse o tipo de ministro que elas gostariam de escutar. Vivendo sob esse tipo de obrigação ele realmente acabaria se tornando o “Pastor” das pessoas. Compare isso com Juízes 17:7-13 (“tenho um levita por sacerdote”).

 O Senhor da seara dirige os dons 
Quando as Escrituras se referem a Cristo como Cabeça, isso é feito em relação às questões coletivas da igreja como um corpo; quando é feita menção ao Seu senhorio, isso está conectado à Sua direção soberana dos crentes individualmente. É por isso que não lemos de Cristo como sendo Senhor da igreja. Todavia, as Escrituras afirmam que Ele é “Senhor da seara” (Mt 9:38). É Ele, e não a igreja, Quem envia os Seus trabalhadores individualmente para onde Ele gostaria que eles servissem. Ao distribuir os dons, Cristo faz com que seus portadores sejam diretamente responsáveis perante Ele no que diz respeito ao ministério de cada um. Como já demonstramos, os dons fluem de Cristo no céu, e são para o proveito espiritual do Seu corpo. Alguém que tenha um dom específico deveria procurar ministrar para toda a igreja de Deus — desde que possa fazê-lo sem comprometer os princípios bíblicos. Ele jamais deveria se confinar a uma seita formada por homens. Seu dom é para a edificação de todo o corpo.

Cristo é, não apenas a fonte desses dons, mas seu Diretor. Já que os diferentes servos estão em comunhão com o Senhor, é Ele que irá dirigir cada um em sua esfera de serviço. Considerando que a fonte e direção dos dons é Cristo no céu, os dons estão acima do controle de qualquer religião ou organização terrena criada pelos homens, ao contrário do que é visto nas igrejas da cristandade. É comum escutarmos de pessoas falando do “Pastor Fulano” como tendo sido enviado por uma determinada organização para exercer um determinado ministério. A questão é que nas Escrituras não existe algo como a igreja, ou uma organização dentro da igreja, enviando uma pessoa que tenha um dom a um determinado lugar a fim de servir ao Senhor. Nunca lemos desses dons estando sob um comitê ou junta de missões, e sendo dirigidos por esse comitê em seu serviço para o Senhor. Isso também é algo inventado pelo homem. As Escrituras dizem: “Rogai, pois, ao Senhor da seara, que [Ele] mande ceifeiros para a sua seara” (Mt 9:38). E também: “E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre” (At 13:2-4).

Fica claro nestes versículos que o Senhor, por intermédio do Espírito, é Aquele que envia os Seus servos. A igreja deveria reconhecer que um dom é enviado pelo Senhor, e dar à pessoa “as destras, em comunhão” — o que pode incluir ajuda financeira (Gl 2:9), mas não é ela que envia. Aqueles que estavam em Antioquia encorajaram Barnabé e Saulo a irem, mas não tinham poder para enviá-los. Eles simplesmente deixaram que eles fossem, pois reconheceram que o Senhor, por intermédio do Espírito, os enviava. Como mostra a passagem, é o Senhor, por meio do Espírito Santo, Quem os envia.

J. A. Trench escreveu: “Podemos fazer uma pausa e analisar a obra [no livro de Atos]. Samaria foi evangelizada, os gentios foram admitidos no reino em Cesárea, os gregos convertidos em Antioquia; isto é um resumo do que está registrado. Além da obra na Judéia e em Jerusalém, tudo aquilo aconteceu sem a direção apostólica ou de alguma autoridade humana. Como já dissemos, o Espírito Santo abriu os campos de trabalho, independente da direção humana. O que Ele fez naquela época, nós podemos confiar que Ele continua fazendo hoje. É uma atitude sábia deixarmos que o Espírito trabalhe como Ele quiser, e depois, como fizeram os apóstolos, reconhecermos alegremente o que Ele tem feito. Na Palavra de Deus o ministério nunca esteve sujeito à direção apostólica no início da igreja. Será que hoje o ministério deveria ficar sujeito à direção de homens, por mais piedosos e sinceros que fossem? Esta é a pergunta que fazemos. O leitor poderá com certeza respondê-la”.

Se for para o Senhor enviar uma pessoa com o dom de pastor para o nosso meio, devemos reconhecer esse dom e deixá-lo ministrar como tal. Não cabe a nós criar uma eleição para votar se queremos ou não essa pessoa como nosso “Pastor”; ou decidir se ele é aceitável para nós, a fim de colocá-lo em um “ofício” na igreja, algo que não existe na Palavra de Deus! Ele não é nosso servo. Ele é servo do Senhor. J. N. Darby disse: “Se Cristo achou por bem me dar um dom, devo negociar meu talento como sendo Seu servo, e a assembleia não tem nada a ver com isso: não sou servo dos irmãos. (…) Recuso-me terminantemente a ser servo da assembleia. Se eu, como indivíduo, fizer ou disser qualquer coisa que exija disciplina, aí a questão é outra; mas no que diz respeito a negociar meu talento, não estou agindo nem no âmbito da assembleia, nem por ela designado. Quando saio para ensinar, saio individualmente para exercitar meu dom… O senhorio de Cristo é negado por aqueles que pensam o contrário; são pessoas que querem transformar a assembleia, ou a si mesmos, em senhores. Se eu sou um servo de Cristo, deixe-me servir a Ele na liberdade do Espírito. Pessoas assim querem transformar servos de Cristo em servos da assembleia, negando ao indivíduo a responsabilidade que tem diante de Cristo pelo seu serviço… Em meu serviço para Cristo sou livre para agir sem consultá-los: eles não são senhores dos servos do Senhor”.

Fica claro que um servo do Senhor, que conhece os pensamentos de Deus acerca da igreja, não pode ser Ministro de uma seita sem estar assim comprometendo a verdade. Ele pode até ministrar àqueles conectados com seitas, caso venha a se encontrar com eles, pois são membros do corpo de Cristo. Mas se ele desejar ser dirigido pelo Senhor, não irá querer se confinar a uma seita, pois se o fizer, só poderá ministrar dentro de seu círculo autorizado de igrejas. Seu terreno ficará muito estreito. A. H. Rule disse: “O Senhor tem diante de Si toda a igreja, e se o servo é responsável diante dEle, como poderá se submeter a uma seita, e ser fiel tanto à seita quanto ao Senhor? É impossível. Se um homem é um Ministro Presbiteriano, fica claro que ele não é um Ministro Batista. E se ele é um Ministro de qualquer seita, isso o exclui de todo o resto, e seu ministério fica necessariamente confinado à seita à qual ele pertence, ou então aos seus próprios interesses”.

O servo do Senhor não deve se deixar prender e acorrentar por uma organização denominacional criada por homens. O Apóstolo Paulo não se deixou colocar sob o comando de qualquer tipo de organização criada pelo homem. Ele disse: “Procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1:10). Ele disse também: “O que é chamado pelo Senhor, sendo servo, é liberto do Senhor; e da mesma maneira também o que é chamado sendo livre, servo é de Cristo. Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens” (1 Co 7:22-23).

 Não é correto contratarmos um servo de Deus 
Associado à prática errônea de se eleger um “Pastor” está colocar essa pessoa trabalhando mediante um salário. Em lugar nenhum encontramos qualquer menção disso na Bíblia. O homem (ou uma organização de homens) não deve contratar um servo de Deus, pois ele está a serviço de um Mestre maior. Como já mostramos isso pode ser perigoso, pois quando alguém recebe seu salário de uma determinada organização, a tendência é que ele seja um servo daquela organização.

É claro que as organizações eclesiásticas não enxergam o clérigo assalariado como contratado, mas há muitas coisas que poderiam ser mencionadas que comprovariam que, na prática, o que acontece não é muito diferente disso. Um exemplo é uma carta que recebemos recentemente de um homem que incluiu nela um cartão profissional que o identificava como “Ministro aposentado” de uma conhecida denominação. Se ele chegou ao ponto de ser aposentado daquela posição que ocupava, isso necessariamente implica que houve um momento quando ele foi contratado. Mas será que as Escrituras falam de Deus contratando e aposentando Seus servos? Isto soa a negócio. Não queremos questionar seus motivos, mas ainda assim isso deixa uma impressão errada diante do mundo. As pessoas podem concluir que aquele é o emprego da pessoa. Entendemos que existem muitos que ocupam uma posição assim e fazem com zelo um trabalho para o Senhor, fazendo o melhor que podem com sua habilidade. Tampouco deixamos de levar em conta o fato de que aqueles que estão numa posição assim serão galardoados por seus motivos no dia vindouro, quando ao Senhor aprouver dar um galardão (1 Co 3:9-14; 4:4-5). A questão aqui está meramente em apontar que a posição de um clérigo assalariado não tem base bíblica.

 Como os servos do Senhor devem ser mantidos financeiramente? 
Alguém poderá perguntar de que modo os servos do Senhor devem ser mantidos financeiramente. Já que eles não devem receber um salário, como serão mantidos? Mais uma vez devemos buscar a resposta na Palavra de Deus. Nela encontramos que o apóstolo Paulo e outros que serviam juntamente com ele são um exemplo de como os servos do Senhor devem efetuar seu serviço para Ele (1 Tm 1:16; Fp 3:17). Eles eram “servos de Jesus Cristo” e não servos de alguma seita ou divisão na igreja (Rm 1:1; Fp 1:1; 2 Pd 1:1; Jd 1 etc.). Eles acreditavam que o Senhor os tinha enviado para fazer o trabalho, e que se Ele verdadeiramente os enviara, então Ele também cuidaria deles. “Quem jamais milita à sua própria custa?” (1 Co 9:7). Portanto eles saíam em campo “nada tomando dos gentios”, pois confiavam que Deus iria suprir todas as suas necessidades (3 Jo 7; Fp 4:19). Para fazer isso é preciso que o servo tenha fé. Hudson Taylor escreveu: “Nunca faltará suprimento vindo de Deus para a obra de Deus, quando ela é feita à maneira de Deus”.

Nos primeiros dias da igreja havia duas maneiras pelas quais os servos do Senhor eram mantidos financeiramente. Primeiro, eles se mantinham a si mesmos trabalhando com suas próprias mãos. O apóstolo Paulo é um exemplo disso. Ele trabalhava como fabricante de tendas enquanto servia ao Senhor (At 18:3). Ele disse aos anciãos de Éfeso: “Sim, vós mesmos sabeis que para o que me era necessário a mim, e aos que estão comigo, estas mãos me serviram. Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”. (At 20:34-35). Aos Tessalonicenses, Paulo escreveu: “Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes” (2 Ts 3:8-9).

A segunda maneira como os servos do Senhor eram mantidos era por doações dos santos que desejassem expressar sua comunhão com a obra na qual eles estavam engajados. Essas doações vinham de duas fontes: das assembleias locais, conforme Paulo disse aos Filipenses: “Fizestes bem em tomar parte na minha aflição. E bem sabeis também, ó filipenses, que, no princípio do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente; Porque também uma e outra vez me mandastes o necessário a Tessalônica. Não que procure dádivas, mas procuro o fruto que cresça para a vossa conta” (Fp 4:14-17); e de indivíduos, como ele menciona aos Gálatas: “O que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui” (Gl 6:6; Hb 13:16; 1 Tm 6:17-19).

Todavia, os servos do Senhor tomavam o cuidado de fazer a obra de Deus “nada tomando dos gentios” (3 Jo 7). Os “gentios” aqui eram os incrédulos dentre aqueles para quem eles pregavam. Eles tinham esse cuidado para se precaverem de dar ao mundo uma impressão errada de que o evangelho é algo que uma pessoa possa comprar. Cremos ainda ser este o padrão para a manutenção dos servos de Deus nos dias de hoje.

 Organizações para-eclesiásticas — Auxilio ou empecilho ao evangelho? 
William MacDonald declarou: “Nos últimos anos tem ocorrido uma explosão organizacional na cristandade, de proporções tamanhas, ao ponto de deixar qualquer um zonzo. Sempre que um crente tem uma nova ideia para o avanço da causa de Cristo, ele cria uma nova junta, comitê, organização ou instituição! Uma das consequências disso é que pregadores e pessoas que têm o dom de ensinar são afastados de seu ministério principal para se transformarem em administradores. Se todos os administradores dessas juntas de missões estivessem servindo no campo missionário, isso reduziria imensamente a necessidade de pessoal nessas organizações. Outra consequência da proliferação das organizações é que vastas somas de dinheiro são necessárias para os custos administrativos, sendo assim desviadas da divulgação direta do evangelho. A maior parte de cada dólar que é dado às muitas organizações cristãs é usada para os custos de manutenção da organização, ao invés de ir para o principal objetivo para o qual os recursos foram doados”.

Quanta verdade há nessa declaração! Conversamos com alguém que ocupava uma posição bastante elevada em uma das maiores organizações do mundo para a coleta de fundos das igrejas, para enviá-los aos campos missionários. Quando ele deixou a organização, revelou que “a maioria das pessoas não sabe, mas apenas 9% da arrecadação efetivamente chega ao campo missionário! O restante é usado para pagar salários e custos administrativos”.

 Resumo dos principais erros do sistema clerical 
Até aqui mostramos de forma conclusiva que o conceito de um sistema clerical, que é ter um assim chamado “Pastor” ou “Ministro” responsável por uma congregação de cristãos para guiá-los na adoração e no ministério, não tem base bíblica. E não só falta a isso base bíblica, como chega a ser até mesmo contrário ao ensino do Novo Testamento.

Os pontos a seguir formam um breve resumo dos princípios que cobrimos até aqui, e mostram por que o sistema clerical na Igreja não está em conformidade com a Palavra de Deus.

  1. Não é dado ao Espírito de Deus o Seu lugar de direito para presidir na assembleia. Já que Ele está presente para dirigir e controlar os procedimentos, o fato de se colocar um clérigo nesse lugar na prática dispensa o Espírito e interfere em Sua direção (Fp 3:3; 1 Co 12:11).
  2. Como consequência de não ser concedido ao Espírito o Seu lugar para guiar a assembleia como Ele quiser, o sacerdócio de todos os crentes é violado na prática (1 Pd 2:5; Ap 1:6; 5:10; Hb 13:15-16). O Espírito de Deus deveria poder usar qualquer irmão que escolher para apresentar ações de graças e adoração em nome de toda a assembleia, mas o sistema impede que isto aconteça.
  3. Outra consequência de não ser concedido ao Espírito o Seu lugar para dirigir na assembleia é que o livre exercício dos dons nas reuniões é proibido pelos limites arbitrários colocados para o ministério, o qual fica restrito a uma pessoa (o assim chamado “Pastor), a quem é outorgado o direito oficial de fazê-lo (1 Co 14:27-33).
  4. Além disso, existe pouco ou nenhum recurso para verificar e equilibrar o ensino. Onde quer que apenas um ou dois homens sejam responsáveis pelo ensino em uma assembleia local, como acontece com os assim chamados “Pastores” ou “Ministros”, existe o perigo de interpretações tendenciosas, isso quando não são introduzidas doutrinas erradas. Por outro lado, onde o Espírito Santo tem liberdade de falar através dos diversos dons existentes na assembleia, além de serem trazidas à luz mais facetas da verdade, existe também uma maior imunidade contra o erro, se os santos estiverem cuidadosamente comparando o que é dito com as Escrituras (1 Co 14:27-32).
  5. O sistema clerical tende a promover uma apatia entre os que fazem parte da congregação. Por não dar liberdade às pessoas para que contribuam no ministério, é comum ocorrer uma falta de exercício nas coisas divinas. Muitos acham que não precisam se preocupar com o ministério, já que a organização eclesiástica à qual pertencem está pagando alguém (o clérigo) para fazer esse trabalho para eles. Consequentemente, o desenvolvimento de um exercício espiritual e o crescimento entre os santos ficam impedidos por esse tipo de organização (1 Co 3:1-4; Hb 5:11-14).
  6. O sistema favorece uma situação em que as pessoas se congregam em torno de um orador hábil, violando assim os princípios dados para que os cristãos estejam congregados, pelo Espírito, somente para o Nome do Senhor Jesus Cristo (1 Co 1:12-13; 3:3-4; Mt 18:20).
  7. O sistema interfere com a responsabilidade imediata dos servos, a qual é para com o Senhor no exercício dos dons. A pessoa (o clérigo) passa a ser responsável em prestar contas a uma organização criada pelos homens que está acima dele, a qual cuida dele em questões práticas, como o salário que recebe. O clérigo é responsável por manter os padrões e métodos de ministério da organização, e por atingir as metas que a organização determina para ele; e assim acaba sendo controlado pela organização, ao invés de servir diretamente sob o senhorio de Cristo (1 Co 7:22-23; Gl 1:10).

 O que pensam disso os “Pastores”  e “Ministros”?  
É provável que alguém pergunte ao “Pastor” de sua denominação a respeito destas coisas, e acabe escutando que tudo o que dissemos aqui está errado. É compreensível. O mais provável é que ele não aceite estas verdades, pois elas condenam a própria posição que ocupa. Se estas coisas fossem reconhecidas, que impacto elas não teriam sobre um homem ocupando uma posição de “Pastor”! Em virtude de seu “ministério” ser exercido como uma profissão, as consequências práticas para ele, caso aceitasse estas verdades, seriam a perda de seu salário regular. É bastante improvável que alguém numa posição assim venha a admitir estas coisas.

Não estamos insinuando com isto que os assim chamados “Pastores” e “Ministros” estejam no “ministério” apenas pelo emprego. Eles podem muito bem estar fazendo seu trabalho conscientemente, mas abandonar um posto assim traria grande prejuízo para alguém nessa condição. Se o cristão comum quiser abandonar a ordem de coisas existente nas igrejas e que foi criada pelo homem, para viver segundo o cristianismo bíblico, ele não terá muito a perder, se comparado a um clérigo. Mesmo assim, se um clérigo for fiel à Palavra de Deus e agir em obediência ao Senhor, Deus irá cuidar dele, pois Ele prometeu: “Aos que me honram honrarei” (1 Sm 2:30; 2 Cr 25:9).

 A Administração Local na Igreja 

◄))) Existe uma diferença entre dom e ofício porém os cristãos quase sempre confundem “dom” com “ofício”. Tentar colocar um dom (como é o pastor) para funcionar como um ofício em uma igreja local é uma prova clara desse equívoco. Dom e ofício são duas coisas distintas nas Escrituras. O dom é exercitado em relação ao corpo de Cristo; o ofício é uma responsabilidade em conexão com a casa de Deus. O dom é para a edificação, enquanto o ofício tem a ver com governo ou administração. Se por um lado o dom é universal (para todo o corpo), por outro, o ofício é uma responsabilidade local (isto é, para uma assembleia local).

Existe uma exceção no caso do apostolado. O apostolado é tanto um ofício quanto um dom. É o único caso nas Escrituras em que um ofício é algo universal (At 1:20; 1 Pd 5:1). Doze dos discípulos do Senhor foram designados para o ofício do apostolado (Mc 3:14; Lc 6:13; At 1:20). O Senhor fez isso quando ainda estava no mundo. Judas caiu em transgressão e seu “ofício” (“bispado”, “cargo” ou “ministério”, dependendo da tradução) foi dado a outro homem — Matias (Sl 109:8; At 1:16-26). Todavia, eles receberam o “dom” do apostolado do Espírito depois que o Senhor ascendeu à Sua posição celestial à destra de Deus (1 Co 12:28). Os dons, conforme mencionamos, fluem de Cristo no céu. Aqueles homens foram então dados à igreja para ajudá-la a se estabelecer na verdade. “Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens… E ele mesmo deu uns para apóstolos” (Ef 4:8-11).

Uma pessoa que tenha uma responsabilidade local (ofício) em uma assembleia pode também ter um dom para ensinar ou pregar publicamente (1 Tm 5:17), mas quando as Escrituras tratam de dons e ofícios, uma coisa não é confundida com a outra.

Quando entendemos a diferença entre essas duas coisas, e como as Escrituras as tratam de forma distinta, percebemos o quão longe da verdade estão afirmações do tipo “Ele é o Pastor de uma igreja”. Em circunstâncias normais, um servo do Senhor nunca é “o” único dom em uma igreja local. Tampouco ele deve ficar restrito a exercitar seu dom em “uma” igreja local, ou até mesmo em uma seita dentro da igreja. O seu dom lhe foi dado para ser usado para o proveito de todo o corpo de Cristo. O modo biblicamente correto de dizer seria “Ele é um pastor na igreja”.

 Anciãos, Presbíteros [Bispos] e Guias 
Com exceção do apostolado, que é um caso à parte, existem apenas dois ofícios na igreja. Um é o de presbítero (no sentido de supervisor, às vezes traduzido como bispo, ancião ou guia), e outro é o de diácono.

O ofício de presbítero (bispo, ancião ou guia) é o meio normalmente usado pelo Senhor para dirigir uma assembleia local em suas responsabilidades administrativas. O foco do seu trabalho está particularmente no bem-estar espiritual de uma assembleia local. As palavras usadas nas epístolas para os que atuam neste ofício são “presbíteros”, “anciãos” e “guias” (ou “líderes”, “pastores”, “dirigentes” ou “condutores”, dependendo da tradução). Todas estas palavras podem ser usadas de forma intercambiável para designar o mesmo ofício. Compare Atos 20:17 com 20:28, Tito 1:5 com 1:7 e 1 Pd 5:1-2 com 5:5.

O termo “anciãos” (do grego “Presbuteroi”) descreve a maturidade e experiência, qualidades que deveriam ser a marca daqueles que ocupam tal ofício. A palavra se refere àqueles de mais idade, todavia nem todos os homens mais velhos na assembleia necessariamente atuam nessa posição de liderança responsável (1 Tm 5:1; Tt 2:2). A razão é que nem todos podem ter a experiência, o exercício, ou ainda as qualificações morais necessárias (1 Tm 3:1-7; Tt 1:6-9).

O termo “bispos” (gr. Episkopoi) descreve o trabalho de supervisão que eles executam, ou seja, sua função é pastorear o rebanho (1 Pd 5:2; At 20:28), zelando por suas almas (Hb 13:17), admoestando (1 Ts 5:13) etc.

O termo “guias” ou “líderes” (gr. Hegoumenos) descreve o trabalho de liderança que eles devem efetuar na assembleia local.

Ao se referirem às pessoas que ocupam essa posição, as Escrituras usam expressões como “os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam” (1 Ts 5:12-13; Hb 13:7, 17, 24; 1 Co 16:15-18; 1 Tm 5:17). Repare que são “os que trabalham… que presidem”, e não “o que trabalha… que preside”. Sempre que eles são citados na função em que atuam, é usada a forma plural. Às vezes eles podem ser citados no singular, quando o assunto for o caráter pessoal de cada um (1 Tm 3:1-7), mas quando se trata do trabalho que efetuam, a forma é sempre plural. Isto demonstra que, em condições normais, este trabalho não é para ser efetuado por um só homem. Deus tem o cuidado de prover para que exista mais de um ancião atuando numa assembleia local, para que nenhum indivíduo tente se levantar e presidir sobre a assembleia. É triste admitir, mas este cuidado nem sempre é respeitado e às vezes indivíduos acabam se levantando e contaminando suas assembleias locais (At 20:30).

Algumas traduções, como a citada acima, trazem “presidem sobre vós no Senhor” (1 Ts 5:12), o que pode dar a ideia de que esses homens estariam acima do rebanho de Deus. Todavia, isto não é correto. Uma melhor tradução para estes versículos seria “que presidem entre vós”, como ocorre no início da passagem, “os que trabalham entre vós”. O sentido é que eles, assim como todos os outros membros do corpo de Cristo, têm um lugar “entre” os que fazem parte do rebanho. O único lugar nas Escrituras onde encontramos alguém presidindo sobre uma assembleia local é o caso de Diótrefes, um homem mau (3 Jo 9-10). Quão diferente é isso quando comparado à ordem adotada nas denominações inventadas pelo homem. O modo como Deus determinou é que existissem alguns bispos em uma igreja ou assembleia local (Fp 1:1; At 20:28; Tt 1:5), mas a maneira do homem é ter um bispo sobre muitas igrejas ou assembleias!

Estar entre os “que presidem entre vós” não implica necessariamente ensinar ou pregar em público, mas sim cuidar das questões administrativas da assembleia. Repito: confundir estas duas coisas é não entender a diferença entre um dom e um ofício. Todavia estes homens devem ser “aptos para ensinar” (1 Tm 3:2). Isto significa que eles devem ser capazes de expor a Palavra da maneira como foram ensinados, mesmo que não sejam necessariamente dotados para serem mestres ou doutores (Tt 1:9). Alguns dos “que presidem” talvez nunca ensinem em público, mas é muito bom e proveitoso quando podem fazê-lo. Esses também devem ser “dignos de duplicada honra” quando governam bem (1 Tm 5:17).

Aqueles que ocupam esta posição de liderança responsável são vistos, simbolicamente falando, como “estrelas” e como o “anjo da igreja” no livro de Apocalipse (Ap 1:20; 2:1, 8, 12; 3:1, 7, 14). Em seu papel de “estrelas”, eles devem dar testemunho da verdade de Deus (os princípios da Palavra), sendo portadores da luz na assembleia local. Isto mostra que devem ser instruídos na Palavra (Tt 1:9). Quando a assembleia for confrontada com um problema ou dificuldade, eles devem ser capazes de derramar a luz da Palavra de Deus para determinarem como a assembleia deve agir. Em Atos 15 temos um exemplo do seu trabalho. Depois de ouvirem falar de um problema que estava atribulando a assembleia, Pedro e Tiago, fazendo seu papel de “estrelas”, derramaram luz sobre o assunto. Tiago aplicou um princípio tirado da Palavra de Deus, e então deu o seu parecer quanto ao que ele acreditava que o Senhor gostaria que eles fizessem (At 15:15-21).

Em seu papel de “anjo da igreja”, os mesmos que ocupam esse lugar de responsabilidade agem como mensageiros, a fim de apresentarem a vontade de Deus na assembleia no desempenho das decisões que são tomadas. Isto também é ilustrado em Atos 15. Depois de determinarem o que acreditavam ser a vontade do Senhor em relação ao problema, eles presidiram na assembleia local, no sentido de colocar em prática a vontade de Deus. Eles apresentaram suas conclusões diante da assembleia, evitando assim agirem independentes dos demais irmãos, que também acreditavam ser aquela a vontade do Senhor. Em seguida foi enviada uma carta aos irmãos de Antioquia a fim de notificar os irmãos ali acerca de como o problema tinha sido resolvido (At 15:22-33).

Em certo sentido o trabalho dos pastores (dons) e dos anciãos (ofícios) é semelhante. Ambos têm a responsabilidade de cuidar do rebanho e alimentá-lo. Mas os dois nunca são tratados como iguais. O pastor não limita sua atuação à assembleia local, ao contrário do que faz o ancião, presbítero ou guia.

 Diáconos 
Enquanto aqueles que desempenham o ofício de ancião (presbítero ou guia) estão ocupados com o bem estar da assembleia local, os que têm o ofício de diácono devem se ocupar com os cuidados temporais da assembleia local (At 6:1-6; 1 Tm 3:8-13).

A palavra “diácono” poderia ser traduzida como “ministro”, pois na Bíblia o ministério não está restrito apenas às coisas espirituais (Lc 8:3; At 6:1 — “ministério cotidiano”, 12:25; 13:5; Rm 16:1). Os diáconos ministram as coisas temporais, mas seu serviço para o Senhor não precisa estar confinado exclusivamente a isso. Se eles tiverem um dom para ministrar a Palavra, poderão exercitar esse dom conforme a direção que receberem do Senhor (1 Tm 3:13). Tanto Estêvão como Filipe, que eram diáconos, também tinham dons para o ministério da Palavra. Estêvão tinha o dom de mestre ou doutor (At 7); e Filipe era bem dotado como evangelista (At 8:5-40; 21:8). As irmãs também podem atuar como diaconisas. Romanos 16:1 diz: “Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual serve na igreja que está em Cencréia”. Todavia, elas não poderiam ocupar oficialmente tal posição, pois Paulo disse a Timóteo que os diáconos deveriam ser “maridos de uma só mulher”, o que demonstra que eles eram homens (1 Tm 3:12). Aqueles que têm esse ofício também precisam ter uma qualificação moral semelhante à dos anciãos (presbíteros ou guias).

 A escolha dos anciãos 
A pergunta que surge é: “Como as pessoas chegavam a ocupar esses ofícios?”. Em cada caso encontrado nas Escrituras elas eram escolhidas. Porém, em nenhum lugar das Escrituras lemos que os anciãos eram escolhidos pela igreja ou assembleia local. Assim como já demonstramos que não existe sequer uma assembleia local na Bíblia que tenha escolhido um pastor para si, também não há uma assembleia que escolha seus anciãos!

Apesar disso, quase todos os grupos eclesiásticos hoje na cristandade escolhem seus anciãos. Mas onde encontramos a autoridade necessária para agir assim? Independente da piedade e inteligência daqueles que na cristandade se envolvem nessa tarefa, em lugar nenhum na Bíblia vemos uma assembleia receber o encargo de uma escolha tão difícil quanto a de escolher seus anciãos. A Palavra de Deus diz que os anciãos eram escolhidos pelos apóstolos. A Bíblia diz: “E, havendo-lhes [Barnabé e Paulo], por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido” (At 14:23).

Em algumas ocasiões encontramos os apóstolos delegando essa tarefa a determinados irmãos. Tito é um exemplo disso. Paulo o enviou à ilha de Creta com o propósito de ordenar anciãos ali. Mesmo neste caso, a comissão que Tito recebeu foi exclusivamente para aquela localidade. Ele não tinha autoridade para ordenar anciãos em nenhum outro lugar, a menos que fosse comissionado pelo apóstolo (Tt 1:5). Vemos aqui a sabedoria de Deus cuidando para que os anciãos fossem especificamente escolhidos para uma assembleia, e não por uma assembleia. Se uma igreja local escolhesse seus anciãos, ela poderia estar inclinada a selecionar os líderes que viessem a satisfazer seus desejos. Mas por essa escolha ser uma função apostólica, a assembleia ficaria assim livre de correr esse risco.

Porém, no caso dos diáconos, as igrejas locais realmente os escolhiam. Um exemplo disso está em Atos 6:1-6. Sete homens foram escolhidos pela igreja em Jerusalém para ocuparem o lugar de diáconos (embora neste capítulo eles não tivessem sido diretamente chamados de diáconos), mas foram oficialmente designados pelos apóstolos para ocuparem aquela posição. Hoje uma igreja local poderia escolher pessoas para cuidarem das necessidades temporais da assembleia, porém elas não poderiam ser oficialmente designadas para o ofício de diáconos, pois hoje já não existem apóstolos, ou alguém que tenha recebido de um apóstolo a incumbência de fazê-lo.

 Hoje não existem apóstolos para ordenar anciãos e diáconos 
Todo o valor da escolha de uma pessoa para ocupar um determinado ofício depende da legitimidade do poder que está por trás dessa escolha. As Escrituras deixam claro que ninguém, além dos apóstolos ou de alguém enviado por eles, teria o poder de comissionar uma pessoa para uma dessas funções. Mas onde será que encontramos hoje alguém capaz de mostrar evidências de ter sido comissionado por um apóstolo para desempenhar tal tarefa? Na Palavra de Deus não há um indício sequer de que o poder de ordenar alguém tenha tido continuidade. Portanto, a igreja hoje não tem o poder de ordenar anciãos (presbíteros ou guias) para tal ofício, ou um diácono para desempenhar seu papel, simplesmente por não termos um apóstolo ou alguém autorizado por um apóstolo para fazer isso.

Todavia, percebemos que esta não é a crença e prática de alguns cristãos, que acham que ainda existem apóstolos no mundo hoje. A Bíblia, porém, mostra o contrário. Ela diz que a igreja está edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2:20-22). Nesta passagem das Escrituras a formação da igreja é comparada à construção de uma casa. Ela começa com o assentamento da Pedra principal (Cristo), depois é assentado o alicerce ou fundamento (os apóstolos e profetas), para finalmente subirem as paredes do edifício, nas quais cada verdadeiro crente é acrescentado até que o edifício todo esteja completo na vinda do Senhor. Isto demonstra que o lugar que os apóstolos e profetas ocupam na igreja é em seu fundamento ou alicerce. Eles foram diretamente usados pelo Senhor para estabelecerem a igreja em seu início. As epístolas que escreveram determinam a ordem e função da igreja; é nelas que foram assentados os fundamentos do cristianismo. O Senhor já não dá apóstolos à igreja, pois Ele já não está mais construindo o fundamento ou alicerce. Isto já foi feito. Na verdade, falta pouco para o edifício ficar pronto. Estamos esperando apenas que as últimas pessoas sejam salvas, para que as poucas pedras (vivas) que faltam possam ser assentadas na construção. O ministério dos apóstolos e profetas continua com a igreja por meio de seus escritos inspirados, mas já não temos a presença pessoal deles no mundo (Ef 4:11-13).

 Três qualificações para o apostolado 
Relacionamos a seguir três coisas que qualificam uma pessoa para o apostolado, as quais demonstram que hoje já não seria possível existir apóstolos no mundo.

  • Eles deveriam ter visto o Senhor pessoalmente (1 Co 9:1; 2 Co 12:2).
  • Eles deveriam ter sido escolhidos e enviados diretamente pelo Senhor (Lc 6:13; Jo 6:70; At 9:15; 22:21).
  • Eles deveriam ter sido testemunhas de Sua ressurreição (At 1:22; 1 Co 15:8, 15).

O que a Bíblia diz é que surgiriam impostores se apresentando como apóstolos. Portanto, qualquer pessoa que hoje reivindique para si o apostolado está se colocando nesta categoria de impostor (Ap 2:2 — “os que dizem ser apóstolos”; 2 Co 11:13-15 — “falsos apóstolos”; 2 Tm 3:13).

William Kelly escreveu: “Está claro que não temos, hoje no mundo, apóstolos ou seus representantes designados por um apóstolo para executarem um trabalho de responsabilidade dos apóstolos, como foi o caso de Tito. Como consequência, se você se submeter ao ensino da Palavra de Deus, já não irá encontrar anciãos e nem desejará procurá-los, ao menos em sua forma oficial. Se alguém alegar que isso ainda seria possível, peça que tal pessoa apresente as bases bíblicas para isso. Na minha opinião as evidências que temos são mais que suficientes para refutar isso. Você não pode ordenar pessoas formal e precisamente para esse ofício, a menos que tenha poder e autorização do próprio Senhor para fazê-lo. O problema é que você não tem esse poder, o qual é indispensável para autenticar anciãos, e este é definitivamente o ponto fraco da questão. Você não tem nem apóstolos, nem pessoas comissionadas pelos apóstolos, para agir neste sentido, portanto todo o sistema atual de ordenação desmorona por faltar a ele uma autoridade competente”.

 Existem anciãos hoje? 
Alguns poderiam perguntar: “Acaso isto significa que você não acredita na existência de anciãos?” Embora não tenhamos hoje alguém autorizado a ordenar anciãos, não devemos pensar que o trabalho deles não continue. Se assim fosse, ao levar os apóstolos para o céu Deus teria deixado as assembleias locais sem uma direção. O Espírito Santo continua levantando homens para efetuarem este trabalho (At 20:28). Geralmente em uma reunião de cristãos congregados de acordo com as Escrituras há homens que se incumbem dessa obra. Eles serão identificados pelo trabalho que executam e devem ser reconhecidos por isso, ainda que não tenham sido oficialmente ordenados para tal ofício. Nossa obrigação é:

  • Reconhecê-los (1 Ts 5:12; 1 Co 16:15).
  • Estimá-los (1 Ts 5:13).
  • Honrá-los (1 Tm 5:17).
  • Lembrarmo-nos deles (Hb 13:7).
  • Imitarmos sua fé (Hb 13:7).
  • Obedecê-los (Hb 13:17).
  • Sujeitarmo-nos a eles (Hb 13:17).
  • Saudarmos a eles (Hb 13:24).

Todavia, em nenhum lugar nas Escrituras é dito que a igreja deve ordená-los, simplesmente porque a igreja não tem poder para fazê-lo. O Espírito de Deus deixou claro que previa uma época quando os apóstolos não estariam no mundo para ordenar ancião, por isso nos deixou princípios na Palavra que nos ajudassem a reconhecer aqueles que o próprio Espírito levantou para levar adiante esse trabalho na assembleia local. Paulo escreveu a pelo menos duas assembleias nas quais não havia anciãos ordenados. Mesmo assim, ao dirigir-se a elas, ele apontou um princípio de que deveriam existir alguns irmãos nessas assembleias que efetuariam este trabalho. Isto nos serve como um excelente guia para os dias de hoje, quando já não dispomos de uma ordenação oficial de anciãos.

Ao escrever aos coríntios, Paulo disse a eles que reconhecessem os da casa de Estéfanas e outros semelhantes a eles, “que se tem dedicado ao ministério dos santos”. Paulo disse-lhes que os reconhecessem como líderes e se sujeitassem a eles (1 Co 16:15-18).

Ao escrever aos tessalonicenses, Paulo lhes disse que reconhecessem aqueles que trabalhavam entre eles para o bem da assembleia. Eles seriam identificados por seu trabalho em meio ao rebanho. Consequentemente, a assembleia devia tê-los “em grande estima e amor, por causa da sua obra” (1 Ts 5:12-13).

William Kelly escreveu: “O que fazer então? Será que não existem pessoas preparadas para serem bispos ou anciãos, só por não existirem apóstolos para designá-los? Graças a Deus, existem e não são poucos! Dificilmente você encontrará uma assembleia dos filhos de Deus onde não existam alguns homens mais velhos e responsáveis, que saem atrás dos que se desviam, que advertem os indisciplinados, que confortam aqueles que estão abatidos, que aconselham, admoestam e apascentam as almas. Acaso não seriam eles os anciãos, se ainda existisse poder e autoridade para ordená-los? Portanto, qual é o dever de um cristão, dentro da atual realidade e daquilo que ainda nos cabe? Não digo que deva chamá-los de anciãos, mas certamente deverá estimá-los com alta estima por causa de seu trabalho, e amá-los e reconhecê-los como aqueles que cuidam de seus irmãos no Senhor”.

 Hoje não há mais ordenação 
As assim chamadas “igrejas” das quais temos falado, usam a prática da ordenação para aprovar oficialmente uma pessoa para ministrar entre eles. Porém isso não é encontrado nas Escrituras. Se alguns cristãos criam uma organização à qual dão o nome de “igreja”, com seus próprios credos e regras administrativas, obviamente ninguém ali estará livre para ministrar, a menos que seja oficialmente aprovado.

Geralmente é assim que funciona, pois isso faz parte do sistema que eles organizaram. Se alguém quiser ser um ministro nessa seita, terá de se sujeitar às suas leis e regras. Mas tudo isso só comprova que essas organizações realmente não passam de seitas.

Apesar da maioria dos cristãos acreditarem que tal pessoa deva ser ordenada antes de poder ministrar na igreja, não existe na Bíblia uma só pessoa que tenha sido ordenada por homens para pregar a Palavra para a igreja! Nem sequer uma! Já está na hora de voltarmos às práticas bíblicas neste sentido.

 “Mas na Bíblia as pessoas eram ordenadas!” 
É comum as pessoas argumentarem que na Bíblia as pessoas eram ordenadas. Sim, a Bíblia nos diz que Paulo e Barnabé ordenaram anciãos de cidade em cidade em uma de suas jornadas missionárias (At 14:23). Mas nas Escrituras não existe uma única evidência sequer de que Paulo, Barnabé, Tito etc. tenham ordenado um pastor, mestre ou evangelista! Pela mesma razão, tampouco há nas Escrituras evidência de que eles tenham ordenado algum profeta ou sacerdote! Não existe qualquer indício de pessoas assim terem sido ordenadas. Onde, na Palavra de Deus, as igrejas denominacionais se baseiam para fazer isso? Cabe aqui uma citação de W. T. P. Wolston: “A ideia está na cabeça das pessoas, e não nas Escrituras”. Se essa fosse a vontade de Deus para a igreja, Ele teria nos dado instruções acerca disso em Sua Palavra.

Todavia, é verdade que homens que tinham um dom foram ordenados, mas não com o propósito de levarem adiante o ministério para o qual seu dom os capacitava! Aqueles que eram ordenados pelo apóstolo (ou por alguém autorizado pelo apóstolo) eram designados para ocuparem oficialmente o posto de presbítero (ancião ou guia). Considerando que todos têm um dom, aqueles homens certamente também tinham um dom. Alguns deles poderiam ter o dom de pastor ou mestre (doutor) (1 Tm 5:17), porém insistimos que sua ordenação não era para o exercício do dom, e sim para o ofício para o qual tinham sido designados.

 A imposição de mãos 
O que dizer de Atos 13:1-4? “E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé e Simeão chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram”. A passagem parece demonstrar ser necessário que alguém, até mesmo um apóstolo, seja ordenado antes de sair para pregar.

Muitas das ideias que as pessoas têm sobre os assuntos divinos vêm da leitura casual da Palavra de Deus. Elas nem sempre se dedicam a buscar as Escrituras com atenção e oração, antes de chegarem às suas conclusões. Este assunto da imposição de mãos é um excelente exemplo disso. Não temos autoridade para dizer que Atos 13:1-4 esteja se referindo a uma ordenação. Ali não diz ser uma ordenação, e a palavra (ordenar) nem sequer aparece na passagem. Ela menciona a imposição de mãos, mas não passa de suposição achar que uma ordenação seja feita pela imposição de mãos. Sempre que a Bíblia menciona que anciãos foram ordenados, não há qualquer menção de que isso tenha sido feito com a imposição de mãos! Pode até ser que houvesse imposição de mãos sobre aqueles que eram ordenados, mas as Escrituras não mencionam isso. Pode ser também que os apóstolos (ou os que foram autorizados por eles) tenham feito uma porção de coisas quando ordenaram anciãos, mas seria pura suposição de nossa parte afirmar que fizeram essas coisas, já que as Escrituras não mencionam isso. William Kelly escreveu: “Não tenho dúvida de que o Espírito de Deus sabia da superstição que seria associada à imposição de mãos anos mais tarde na história da igreja, por isso tomou o cuidado de nunca associar a imposição de mãos com a ordenação de anciãos… Eu insisto que, nesta questão de ordenação, a cristandade não percebeu a intenção e o pensamento de Deus, e agora se agarra a uma ordem de coisas que inventou e que não passa de desordem, fazendo isso por ignorância, mas não sem a responsabilidade por seu pecado.

Em Atos 11:25-26 e 12:25 fica claro que Barnabé e Saulo já estavam no ministério antes que os de Antioquia impusessem as mãos sobre eles. Paulo não foi colocado no ministério, como apóstolo, por meio da imposição de mãos daqueles homens. Ele disse que foi o Senhor quem o colocou. Ao escrever a Timóteo, ele disse: “E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério” (1 Tm 1:12). Ele não recebeu seu apostolado de homens. Ao escrever aos gálatas, ele disse: “Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos)” (Gl 1:1).

Se a imposição de mãos que vemos em Atos 13 tivesse sido uma ordenação, então quem os ordenou? Simeão, chamado Níger, Lúcio, Manaém, e talvez outros ali? Esses eram profetas e mestres, dons que têm o segundo e terceiro lugares na igreja (1 Co 12:28). Se eles ordenaram os apóstolos, então o menor ordenou o maior. Não pode ser. William Kelly escreveu: “Acaso o apóstolo Paulo considera a imposição de mãos de outros como ordenação para seu ofício especial? Com toda certeza podemos crer que não. Se fosse este o caso, por que ele não fez menção desta ocasião e da imposição de mãos quando reivindicou seu direito de apóstolo? (1 Co 9:1; 2 Co 11:5; 12:12)”.

Atos 14:26 explica o que realmente aconteceu quando as mãos de outros em Antioquia foram impostas sobre Barnabé e Saulo. Ali diz: “E dali navegaram para Antioquia, de onde tinham sido encomendados à graça de Deus para a obra que já haviam cumprido”. Isto demonstra que os irmãos em Antioquia haviam estendido a eles “as destras, em comunhão” (Gl 2:9). Eles tinham dado a Barnabé e Saulo total comunhão e suporte na obra que estavam para executar. Talvez tenha sido incluída uma ajuda prática ou financeira, além de suas contínuas orações por eles durante a jornada, apesar de as Escrituras não mostrarem estes detalhes. Não existe nada em Atos 13:1-4 que dê a entender que Barnabé e Saulo tenham sido ordenados para ocupar uma posição clerical.

Além disso, o ato de encomendarem Paulo à graça de Deus foi repetido. Aquilo era algo que os irmãos faziam para os servos do Senhor cada vez que eles saíam em uma nova obra para pregarem o evangelho (At 15:40; Gl 2:9). Isto certamente comprova que não se tratava de uma ordenação, pois mesmo aqueles que pensam enxergar uma ordenação em Atos 13 não acreditam que uma pessoa precise ser reordenada a cada um ou dois anos.

Oras, se a ordenação de alguém é capaz de validar o poder que designou aquela pessoa, e as Escrituras não autorizam qualquer poder de ordenar exceto o exercido por um apóstolo ou um enviado seu, então fica claro que aqueles que hoje tentam ordenar não têm poder de Deus para isso. Um irmão, que outrora se submeteu ao sistema humano da ordenação, coloca muito bem a questão: “Eles impuseram suas mãos vazias sobre minha cabeça oca!”.

Então, o que dizer de 1 Timóteo 4:14, que admoesta: “Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério [anciãos]”? Esta passagem também mostra a imposição de mãos, porém mais uma vez não há qualquer menção de ordenação. Trata-se de uma suposição na mente das pessoas. A passagem é bem simples. Timóteo tinha um dom do Senhor; e era um dom que fora profetizado por um profeta (ou profetas), de que Timóteo seria usado pelo Senhor no exercício desse dom. Os anciãos reconheceram o dom que ele havia recebido do Senhor e estenderam a ele as destras de comunhão em seu trabalho. Paulo escreveu a Timóteo exortando-o a não negligenciar esse dom, trazendo à sua memória que outros (os anciãos) também o estavam apoiando com seu suporte. Aquilo deve ter sido um tremendo encorajamento para Timóteo.

 Coleta ou dízimo? 
Outra prática que se tornou parte integrante dos cultos nas igrejas denominacionais é o uso do dízimo (dar 10% da renda). O dízimo é algo claramente judaico, e foi emprestado pela cristandade da ordem de coisas que a epístola aos Hebreus chamou de “arraial” (Lv 27:30-34; Nm 18:21-24; Hb 13:13). O dízimo não tem lugar no cristianismo. O cristianismo funciona sobre princípios completamente diferentes e muito mais elevados do que o sistema da lei mosaica. Impor esse padrão sobre os filhos de Deus no cristianismo hoje é não entender a graça e a diferença que existe entre judaísmo e cristianismo.

O dízimo era uma instituição imposta aos filhos de Israel que estavam sob a lei. No cristianismo o novo homem não precisa de uma lei. Ele se deleita em agradar a Deus e fazer a Sua vontade (Rm 8:4). Colocar a nova vida em Cristo sob o princípio da lei é achar que existe algo nessa vida que poderia querer agir fora da vontade de Deus, mas não existe tal impulso em um crente que esteja andando no Espírito. No judaísmo não importava se a pessoa queria ou não, pois mesmo assim ela era obrigada a dar seus 10%. Era a lei. De maneira alguma este é o princípio sobre o qual os cristãos se baseiam na hora de contribuir. Em 2 Coríntios 8-9 temos os princípios para o cristão ofertar. Repare com atenção que nestes capítulos, ou em qualquer outro lugar do Novo Testamento, não há uma palavra sequer que diga que os cristãos devem utilizar o método legal do dízimo em seu ato de ofertar.

Nos capítulos 8 e 9 de 2 Coríntios, os princípios da contribuição cristã são colocados de maneira bem simples. Primeiro devemos nos dar a nós mesmos para o Senhor e nos entregarmos à vontade de Deus, e então dar de nossos bens de acordo com a medida que temos. Ali diz: “será aceita segundo o que qualquer tem, e não segundo o que não tem” (2 Co 8:5, 11-12). Para ter algum valor diante de Deus, a contribuição cristã precisa vir do coração. Se não existir uma “prontidão de vontade”, então o ato de dar não passa de algo legal e, portanto, não existirá nisso qualquer valor real de sacrifício.

Estes capítulos também revelam o propósito da contribuição cristã. O apóstolo mostra que o ato de dar é para:

  • Expressar comunhão com outros membros do corpo de Cristo (2 Co 8:4).
  • Abundar em cada aspecto da experiência cristã (2 Co 8:7).
  • Provar a realidade de nosso amor (2 Co 8:8, 24).
  • Imitar nosso Senhor Jesus (2 Co 8:9).
  • Ajudar a atender as necessidades de outros (2 Co 8:13-15).
  • Experimentarmos, na prática, a abundância com que Deus nos supre conforme Sua total suficiência (2 Co 9:8-10).
  • Criar condições para que outros agradeçam a Deus (2 Co 9:11-15).
  • Permitir que tenhamos abundância creditada em nosso favor (Fp 4:17).

Na ordem de Deus, o que existe são as coletas feitas regularmente quando os santos se reúnem no primeiro dia da semana. A Palavra de Deus diz: “Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade” (1 Co 16:1-2). Embora a coleta mencionada nesta passagem fosse para as necessidades específicas dos santos em Jerusalém, o princípio continua valendo para nós hoje. Ainda existem necessidades específicas na igreja.

A ocasião quando a coleta deve ser feita é quando os santos se reúnem para partirem o pão no primeiro dia da semana (At 20:7). Hebreus 13:15-16 conecta o sacrifício da “beneficência e comunicação” com o “sacrifício de louvor” que é oferecido no partir do pão.

O que é estarrecedor na cristandade hoje, e certamente uma desonra ao Senhor, é vermos as denominações encorajarem até mesmo aqueles que não são salvos a ofertarem nas coletas. A impressão que isso dá naqueles que são deste mundo é que podem fazer algo de aceitável a Deus ainda em seu estado não regenerado. E o que é pior, isso também passa a impressão de que o cristianismo é um sistema de “toma-lá-dá-cá”. Como alguém observou, “seu Deus deve ser bem pobre, pois Ele está sempre obrigando vocês cristãos a pedirem dinheiro!”.

Não encontramos na Bíblia coletas envolvendo pessoas que não fossem salvas. A prática no princípio da igreja era de não fazer coletas públicas. Para evitar ideias erradas que o mundo pudesse ter dos cristãos, os servos do Senhor no início da igreja tinham o cuidado de não tomar “nada” daqueles dentre as nações às quais eles levavam o evangelho, pessoas que não conheciam o Senhor (3 Jo 7). Esta continua sendo a ordem para a igreja hoje.

 Disciplina na Igreja 
Outro assunto relacionado ao governo da igreja local, que é negligenciado nas assim chamadas “igrejas”, é o da disciplina e excomunhão. Como já vimos no capítulo com o título “Um chamado à separação”, cada cristão é individualmente responsável por separar-se do mal. Portanto é óbvio que uma assembleia de cristãos também deve se manter livre do mal. Trata-se de uma responsabilidade coletiva. O motivo disso é que a associação com o mal corrompe toda a assembleia.

Conforme mencionamos, os três principais tipos de mal que devem ser mantidos fora de um grupo de cristãos são o mal moral, doutrinal e eclesiástico. Se uma pessoa em uma assembleia se envolve ou está associada com um mal assim, a assembleia local tem a responsabilidade de tirar essa pessoa de sua comunhão. O apóstolo Paulo escreveu: “Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Co 5:12-13). Isto demonstra que a assembleia é responsável por julgar o mal em seu meio quando este se manifesta.

Existem três razões principais pelas quais a assembleia deve afastar pessoas envolvidas com o mal.

1) A glória do Senhor — A assembleia deve ter o cuidado de não permitir que o Nome do Senhor esteja associado com o mal diante dos olhos do mundo. Quando os irmãos em Corinto agiram em prol da glória do Senhor e colocaram fora a pessoa em pecado, o apóstolo escreveu em aprovação: “Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio” (2 Co 7:11). Eles agiram com zelo, adotando medidas extremas visando a glória do Senhor.

2) A santidade na assembleia, a qual deve ser mantida — Existem duas razões para isto: primeiro, a assembleia é o lugar da habitação de Deus. Ela deve ser mantida em condições adequadas para a Sua santa presença. O Senhor habita no meio do Seu povo congregado ao Seu Nome (Mt 18:20), portanto a assembleia deve manter o mal fora do seu meio a fim de permanecer um lugar adequado à Sua presença. “A santidade convém à tua casa, Senhor, para sempre” é um princípio que permanece válido para todas as épocas (Sl 93:5). “O que usa de engano não ficará dentro da minha casa” (Sl 101:7; 1 Co 3:17; Nm 5:1-4). A segunda razão é a característica que o mal tem de fermentar. Como já mencionamos, a associação com o mal corrompe. O apóstolo Paulo escreveu: “Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa” (1 Co 5:6-8; Gl 5:9-12). Ele também escreveu: “As más conversações corrompem os bons costumes” (1 Co 15:33). Se a assembleia não tirasse o mal de seu meio, logo outros seriam afetados por ele.

3) A correção e restauração do ofensor — A ação de colocar alguém fora de comunhão deveria ter sempre em vista o bem e a bênção da pessoa que errou. Ela é colocada fora e não se deve ter contato com ela, para que seja humilhada para arrependimento e restaurada ao Senhor. “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Co 5:11). Quando alguém se encontra numa condição de arrependimento e julgamento de seu próprio pecado, cabe à assembleia receber essa pessoa de volta à comunhão. Referindo-se à pessoa que os irmãos em Corinto haviam colocado fora de seu meio, o apóstolo Paulo escreveu: “Basta-lhe ao tal esta repreensão feita por muitos. De maneira que pelo contrário deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que o tal não seja de modo algum devorado de demasiada tristeza. Por isso vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor” (2 Co 2:6-8).

A assembleia deveria sempre tratar do assunto como sendo seu próprio pecado. Sua atitude quanto à excomunhão de alguém deveria ser de lamentação — reconhecendo que falharam, por terem sido incapazes de alcançar o irmão enquanto ele seguia em direção ao pecado. Os coríntios nada fizeram a respeito. Paulo lhes escreveu: “Estais ensoberbecidos, e nem ao menos vos entristecestes por não ter sido dentre vós tirado quem cometeu tal ação” (1 Co 5:2). Cada um na assembleia deveria investigar seu próprio coração e perguntar a si mesmo: “O que eu poderia ter feito para impedir que essa pessoa caísse em pecado?” Devemos reconhecer que não fizemos nada a respeito; que não pastoreamos essa pessoa da forma adequada, ou que não oramos por ela o suficiente etc. Era isto que significava o sacerdote comer da oferta pelo pecado: “O sacerdote que a oferecer pelo pecado a comerá” (Lv 6:26).

Este tipo de cuidado pela glória do Senhor é algo que quase não existe na cristandade hoje, todavia deveria ser praticado por cada assembleia cristã.

 Recepção – Uma responsabilidade da assembléia local 
Outra prática da igreja no princípio, que hoje quase não existe na cristandade, era o cuidado com a recepção de pessoas à comunhão.

Considerando o que a Bíblia ensina a respeito da pureza na assembleia, quando alguém tem o desejo de partir o pão “à mesa do Senhor” (1 Co 10:21), a assembleia deve ter o cuidado de não receber à comunhão alguém envolvido em pecado; seja ele moral, doutrinal ou eclesiástico. O princípio é simples. Se uma assembleia local tem a responsabilidade de julgar o pecado em seu meio, como já demonstramos (1 Co 5:12), a consequência natural disso é que ela deve ter o cuidado com aquilo ou aquele que recebe em seu meio.

Alguém afirmou corretamente que a assembleia local não deve ter uma comunhão aberta, e nem ter uma comunhão fechada, mas sim uma comunhão protegida. A assembleia deve receber à mesa do Senhor todo membro do corpo de Cristo que não esteja impedido pela disciplina bíblica. Se não fizer assim, ela estará agindo de forma inconsistente com o terreno do “um só corpo” sobre o qual ela professa estar congregada (Ef 4:4).

Se, por um lado, todos os cristãos devem estar à mesa do Senhor, nem todos podem estar ali, já que seu privilégio pode ser anulado por seu envolvimento com algum pecado.

 Quem decide quem deveria estar em comunhão? 
É importante entender que os irmãos na assembleia local não decidem o que é adequado à mesa do Senhor e o que não é. Isto é algo que compete à Palavra de Deus. A razão é que a mesa não é dos irmãos, a mesa é do Senhor. As preferências e gostos pessoais dos que fazem parte da assembleia não têm nada a ver com a recepção. A decisão vem totalmente da Palavra de Deus. Quando não existir um motivo bíblico para se recusar a alguém a comunhão à mesa do Senhor, tal pessoa deve ser recebida. Se um crente já batizado professar com clareza sua fé e demonstrar devoção em seu andar, não existe motivo para que seja recusado. O nível de conhecimento das Escrituras não é um critério neste sentido. Ainda que seja um crente limitado em seu conhecimento, as Escrituras dizem: “Ora, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas” (Rm 14:1).

Todavia, nem sempre se pode determinar de imediato se alguém professa claramente sua fé e é devoto em seu andar. Quanto maior a confusão no mundo ou no testemunho cristão do qual a pessoa tiver saído, maior a dificuldade de se tomar uma decisão. Se for este o caso, então o bom senso mostra que a assembleia deve pedir que a pessoa que tem o desejo de estar em comunhão aguarde algum tempo. Isto não significa que a assembleia está afirmando que tal pessoa tenha alguma associação com o mal. Poderia ser o caso, porém os irmãos podem estar incertos quanto a isso e por esta razão devem esperar até que estejam convencidos de não ser este o caso, uma vez que são eles os responsáveis diante de Deus pelas pessoas que recebem em comunhão. As Escrituras ensinam: “A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios” (1 Tm 5:22). Embora a aplicação deste versículo seja mais ampla do que a recepção à mesa do Senhor, ele apresenta um princípio pelo qual a assembleia pode ser guiada no processo de recepção. Alguém maduro e piedoso não se sentirá ofendido com isso, pois certamente nenhum cristão piedoso iria querer que a assembleia violasse um princípio bíblico. Na verdade, todo esse cuidado deveria dar a ele a confiança de estar entrando em uma comunhão onde existe a preocupação com a glória do Senhor e a pureza da assembleia.

 Seria suficiente o testemunho pessoal? 
Um importante princípio relacionado a este assunto e que precisa ser compreendido é que a assembleia, biblicamente falando, não se baseia no que diz uma testemunha. Tudo o que diz respeito à assembleia deve ser feito de acordo com este princípio: “Por boca de duas ou três testemunhas será confirmada toda a palavra” (2 Co 13:1). Confira também o que diz em João 8:17 e Deuteronômio 19:15. Por esta razão a assembleia não deve receber pessoas com base em seu próprio testemunho, principalmente considerando que todas as pessoas costumam dar um bom testemunho de si mesmas, como as próprias Escrituras afirmam: “Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos” (Pv 16:2). E também: “Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória” (Jo 7:18). Por isso é preciso pedir a uma pessoa que deseja entrar em comunhão que aguarde, principalmente quando a assembleia nada souber a respeito dela. Assim que a assembleia local venha a conhecer a pessoa que deseja estar em comunhão, ela poderá ser recebida com base no testemunho de outros.

Este é um princípio que encontramos em todas as Escrituras. Até mesmo o Senhor Jesus Cristo, o Senhor da Glória, sujeitou-Se a este princípio quando Se apresentou a Israel como seu Messias. Ele disse; “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro [válido]” (Jo 5:31). Em seguida ele continuou apresentando quatro outros testemunhos que comprovavam quem Ele era: João Batista, Suas obras, Seu Pai e as Escrituras (Jo 5:32-39). Apesar dos vários testemunhos de que Ele era o Messias, o Senhor ainda advertiu os judeus de que chegaria um tempo quando eles, como nação, receberiam um falso messias (o Anticristo) sem testemunhas. Ele disse: “Se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis” (Jo 5:43). Assim o Senhor reprovou a prática de se receber alguém com base em seu próprio testemunho.

Os filhos de Israel falharam justamente neste ponto, quando receberam os gibeonitas com base no testemunho deles próprios (Josué 9). Isto está registrado nas Escrituras para nos alertar quanto ao perigo de agirmos assim.

Atos 9:26-29 nos dá um exemplo do cuidado que a igreja no princípio tinha ao receber alguém à comunhão. Quando Saulo de Tarso foi salvo, ele quis entrar em comunhão com os santos em Jerusalém, porém foi rejeitado. Mesmo que tudo o que ele dissera aos irmãos em Jerusalém sobre sua vida pessoal fosse verdade, ele não foi recebido com base em seu próprio testemunho. Foi só quando Barnabé levou Saulo consigo e o apresentou aos irmãos, testificando de sua fé e caráter, de modo que então já era o testemunho de duas pessoas, que os irmãos o receberam. Daquele momento em diante Saulo “andava com eles em Jerusalém, entrando e saindo” (At 9:28). Se a igreja no princípio não recebeu Saulo de Tarso imediatamente, com certeza os cristãos hoje não podem esperar ser recebidos imediatamente quando desejarem estar em comunhão em uma assembleia local.

 Colocando a profissão de fé da pessoa à prova 
Outro importante princípio para se receber alguém é que existe a necessidade de se colocar à prova a profissão de fé da pessoa. Se alguém diz que é cristão, é preciso que prove isso deixando de lado todo pecado conhecido. Além disso, em 2 Timóteo 2:19 diz que “qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade”. Veja também Apocalipse 2:2 e 1 João 4:1. Se essa pessoa não apartar-se da iniquidade, sua confissão de fé não é genuína. Isso é ainda mais importante em uma época de ruína e abandono do testemunho cristão, quando o que não faltam são doutrinas e práticas perniciosas de todos os tipos. Um exemplo disso pode ser visto em figura em 1 Crônicas 12:16-18. Naquele momento Davi era o rei rejeitado de Israel. À medida que pessoas de várias tribos de Israel entenderam o erro que tinha sido rejeitá-lo, elas foram a ele e o consideraram como o verdadeiro rei de Israel. Quando os da tribo de Benjamim (a tribo do rei Saul) foram a Davi, ele colocou à prova a profissão de fé deles. Ao ficar comprovado que sua confissão era genuína, e eles demonstraram verdadeiramente estar ao lado de Davi, a Palavra de Deus nos diz que “Davi os recebeu”.

Se uma pessoa professa má doutrina, está claro que a assembleia não deve recebê-la, pois se o fizer ficará em comunhão com o mal que traz em seu ensino. (Compare 2 Jo 9-11 e Rm 16:17-18). Não falamos aqui das diferenças de opinião que as pessoas possam ter a respeito de assuntos como o batismo, por exemplo, mas de coisas que digam respeito aos fundamentos da verdade cristã. As Escrituras dizem: “Ora, o Deus de paciência e consolação vos conceda o mesmo sentimento uns para com os outros, segundo Cristo Jesus. Para que concordes, a uma boca, glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu para glória de Deus” (Rm 15:5-7). Isto demonstra que a assembleia deve receber à comunhão pessoas que possam glorificar a Deus “concordes, a uma boca”. Como a assembleia poderia glorificar a Deus assim se alguém fosse recebido trazendo consigo má doutrina? Enquanto os irmãos na assembleia estivessem falando uma coisa, aquela pessoa estaria falando outra. O resultado seria confusão. Paulo disse aos coríntios: “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer” (1 Co 1:10).

Quando a questão envolve pecado eclesiástico, é preciso paciência e discernimento para identificar isso em alguém. Existe uma diferença entre alguém associado ao erro clerical por ignorância e uma pessoa ativamente envolvida e promovendo tal erro. Um crente que talvez ignore a ordem bíblica para a adoração e o ministério cristão, pode querer partir o pão à mesa do Senhor vindo de uma denominação criada por homens e que pratique uma ordem clerical. Ainda que essa pessoa esteja associada ao erro eclesiástico, ela não está envolvida com o mal eclesiástico. E se tal pessoa for conhecida por sua piedade no andar e professar sã doutrina, não deveria haver impedimento para que ela partisse o pão, mesmo que não tivesse se desligado formalmente de sua associação com aquela denominação.

A questão é: “Quando uma associação inconsciente com o erro eclesiástico se torna mal eclesiástico?” Cremos que a resposta é simplesmente quando a vontade da pessoa está envolvida com isso. Para detectar essa vontade é preciso que a assembleia tenha um discernimento sacerdotal. Em casos assim a assembleia precisa depender muito do Senhor para conhecer o Seu pensamento a respeito do assunto. Em condições normais, os irmãos deveriam permitir que essa pessoa partisse o pão, esperando e confiando que Deus estaria trabalhando em seu coração — e que ela iria abandonar o lugar de onde veio, após participar da ceia do Senhor, e continuar congregada com aqueles reunidos ao nome do Senhor. Este princípio é encontrado em 2 Crônicas 30-31. Ezequias permitiu que o povo de Judá, e também alguns das dez tribos separadas, participassem da Páscoa e adorassem o Senhor no divino centro em Jerusalém. Depois de fazerem isso, eles voltaram para casa e destruíram seus ídolos e imagens. (Não estamos insinuando que as denominações criadas pelos homens sejam condescendentes com a idolatria; estamos falando apenas do princípio encontrado ali). O que é interessante neste caso é que Ezequias não lhes disse que procedessem assim! Aquilo foi uma resposta vinda de seus corações pelo simples fato de terem estado na presença do Senhor em Jerusalém. Todavia, se alguém deseja continuar indo a ambos os lugares regularmente, isto não deveria ser aceito. Como assinalou J. N. Darby, uma pessoa assim não estaria sendo honesta com nenhuma das partes. Ele também afirmou que a degradação e a corrupção aumentam cada vez mais no testemunho cristão, ficando cada vez mais difícil colocar em prática este princípio. É necessário um discernimento ainda maior à medida que os dias se tornam mais sombrios. Algo assim só tem acontecido esporadicamente nos dias atuais.

Outra figura do Antigo Testamento ilustra o cuidado no recebimento à comunhão. Quando a cidade de Jerusalém, o centro divino neste mundo onde o Senhor havia colocado o Seu Nome, foi reconstruída nos dias de Neemias, havia um grande perigo representado pelos inimigos em redor. Consequentemente, eles não abriam os portões para permitir que as pessoas entrassem na cidade “até que o sol aqueça” [literalmente ao meio-dia] (Ne 7:1-3). Eles se certificavam de não existir qualquer vestígio de sombras em redor antes de permitir que as pessoas entrassem na cidade. Até que chegasse aquele momento, eles faziam com que as pessoas que desejassem entrar na cidade aguardassem. À medida que a escuridão na cristandade aumenta nestes últimos dias, é preciso tomar este tipo de cuidado na recepção de pessoas à comunhão. Você encontra o mesmo princípio em 1 Crônicas 9:17-27 (“os porteiros”).

Tudo isso soa muito estranho para a maioria dos cristãos que não conhecem outros métodos além da comunhão aberta praticada pelos denominacionais. A ênfase nas igrejas é conseguir o máximo possível de pessoas para o grupo. São feitos grandes esforços neste sentido. Tomar cuidado com quem é acrescentado à comunhão provavelmente parece algo meio incomum, mas todavia é isso que a Palavra de Deus ensina.

 Exclusivo demais! 
Alguns discordam dessas coisas, declarando que isso é ser exclusivista. Gostaríamos de enfatizar mais uma vez que estes princípios não foram inventados por nós, mas são simplesmente princípios ensinados pela Palavra de Deus. As assembleias locais de cristãos devem ser exclusivistas quanto ao pecado, e devem ser cuidadosas quando não conhecerem com quê uma pessoa pode estar associada. A passagem em 1 Coríntios 11:28 costuma ser apresentada para dar a ideia de que cada pessoa é individualmente responsável diante do Senhor em julgar a si mesma, e que não caberia à assembleia “escrutinar” as pessoas. O versículo diz: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice”. Aqueles que pensam assim são rápidos em argumentar que não cabe à assembleia “examinar” a pessoa, mas que é a própria pessoa que deve “examinar-se a si mesma”, e então participar da ceia.

Oras, se fosse esse o significado do versículo, então ele entraria em conflito com os princípios que já mencionamos — de que a assembleia é responsável em julgar o mal em seu meio, e por conseguinte, deve ser cuidadosa quanto a quem está em comunhão (1 Co 5:12). Considerando que a Palavra de Deus não se contradiz, o versículo em 1 Coríntios 11:28 deve estar se referindo a algo que não seja a recepção à mesa do Senhor. Um exame mais atento do contexto do capítulo no qual o versículo aparece nos revela que a passagem não está se referindo àqueles que desejam entrar em comunhão à mesa do Senhor, mas sim àqueles que já estão em comunhão ali. A passagem diz simplesmente que cada um daqueles que estão em comunhão tem a responsabilidade de julgar-se a si mesmo antes de participar da ceia. Se não o fizer, ele “come e bebe para sua própria condenação [juízo governamental]” (1 Co 11:29).

Isto é parecido à ordem que os pais dão aos seus filhos antes de se sentarem à mesa para o jantar. Eles dizem: “Vejam se as suas mãos estão limpas antes de se sentarem à mesa”. A ordem aplica-se às crianças que fazem parte da família e participam regularmente das refeições naquela casa, e não aos vizinhos que moram na mesma rua. Aqueles que fazem parte da família e pretendem participar do jantar devem estar limpos quando chegarem à mesa. O mesmo acontece na assembleia. A exortação para se examinarem a si mesmo antes de participarem da ceia é para aqueles que já estão em comunhão à mesa do Senhor.

 A responsabilidade individual 
Se por um lado existe a responsabilidade da assembleia local nesta questão, por outro o indivíduo que deseja entrar em comunhão com uma assembleia local também tem sua parcela de responsabilidade. Se ele deseja andar corretamente diante do Senhor, irá querer ter cuidado ao dar esse passo. Todavia, muitos cristãos acham que podem se associar com qualquer coisa que desejarem sem que sejam afetados por isso, mas a Bíblia ensina que somos afetados por aqueles com quem nos associamos, e alguém que esteja buscando comunhão com uma assembleia de cristãos sobre a qual tenha poucas informações deve agir com cuidado. O princípio da contaminação decorrente da associação com o mal funciona nos dois sentidos. A assembleia deve ser cuidadosa quanto a quem e a quê recebe em sua comunhão, mas a pessoa que procura estar em comunhão também deve ser cuidadosa. As Escrituras dizem: “A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios; conserva-te a ti mesmo puro” (1 Tm 5:22). Isso se refere à comunhão e foi escrito para uma pessoa na casa de Deus. A responsabilidade de todo cristão é manter-se puro, pois “as más companhias corrompem os bons costumes” (1 Co 15:33).

Em vista disso, por que alguém iria a uma assembleia de cristãos, da qual não tem qualquer conhecimento quanto ao que creem ou praticam ali, para insistir em partir o pão ali, considerando que tal pessoa acabaria associada com tudo o que acontecesse ali? Como ela poderia ter certeza de não estar entrando em um grupo de pessoas com doutrinas blasfemas ou práticas condenáveis? Nossa única conclusão é que uma pessoa assim nunca teria levado em consideração estas coisas, ou simplesmente não acreditaria que elas pudessem ocorrer.

O cuidado que cada crente individualmente deve ter é visto em figura no Antigo Testamento, quando o assunto é a adoração praticada por Israel. O Senhor disse a eles: “Guarda-te, que não ofereças os teus holocaustos em todo o lugar que vires; mas no lugar que o SENHOR escolher numa das tuas tribos ali oferecerás os teus holocaustos, e ali farás tudo o que te ordeno” (Dt 12:13-14). Este princípio irá guiar o cristão que procura pelo lugar que o Senhor escolheu nos dias de hoje. Os filhos de Israel não deviam oferecer seus sacrifícios e nem adorar em qualquer lugar que vissem — e o mesmo vale para o cristão. Um cristão simplesmente não deve ir a qualquer lugar para oferecer sua adoração ao Senhor. Ele deve fazer isso apenas no lugar onde Deus quer que ele esteja. Tendo em vista o mal e o abandono da Palavra de Deus que existem hoje no testemunho cristão, e o perigo de ser levado ao erro, não se deve ter pressa em oferecer sacrifícios de louvor em comunhão com uma assembleia de cristãos da qual não se conhece coisa alguma. A obrigação de cada um é descobrir de antemão algo sobre aquele grupo de cristãos. A pergunta que se deve fazer é: “Quais doutrinas e práticas este grupo possui?”. Se uma pessoa encontrar o lugar que acredita ser da direção do Senhor para ela, é melhor não ter pressa de partir o pão ali. É preciso orar a respeito e esperar no Senhor até ter a tranquilidade de saber que não está se associando com algo que seja uma desonra para o Senhor. Que o Senhor possa guiar o leitor nesse importante passo.

 Cartas de recomendação 
Outra coisa que está estreitamente associada à recepção à comunhão é o uso de cartas de recomendação. Trata-se de uma carta escrita por uma assembleia e assinada por dois ou três irmãos, a qual é enviada a outra assembleia recomendando uma ou mais pessoas à comunhão dos santos naquela localidade para onde essas pessoas estiverem se dirigindo. Mais uma vez, isto é algo que geralmente não é praticado nas igrejas da cristandade.

Um exemplo desta prática entre os cristãos no princípio é visto no caso de Apolo, em Atos 18:24-28. Ali diz: “Querendo ele passar à Acaia, o animaram os irmãos, e escreveram aos discípulos que o recebessem; o qual, tendo chegado, aproveitou muito aos que pela graça criam”. Apolo era reconhecidamente um homem que tinha um dom, mas mesmo assim ele precisou de uma carta de recomendação dos irmãos para poder ser recebido pelas assembleias na Acaia, as quais até então nada sabiam a respeito dele. Isso demonstra o cuidado que existia entre os cristãos no princípio quanto a quem eles deviam receber à comunhão. Veja também Romanos 16:1 e 2 Coríntios 3:1-3.

 A Esfera de Ministério das Irmãs 

◄))) Outro aspecto em que as assim chamadas “igrejas” da cristandade se distanciaram da ordem estabelecida por Deus é o lugar e ministério das irmãs. Alguém poderia perguntar: “Vocês acreditam que uma irmã possa ministrar?”. Nossa resposta seria: “Sim, pois é o que ensinam as Escrituras”. Em Romanos 16:1 diz: “Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual serve na igreja que está em Cencréia”. Na verdade acreditamos que Deus gostaria que todas as irmãs na igreja fossem ministras — isto é, no sentido bíblico da palavra. Todavia, se a pergunta for feita usando o termo “ministro” do modo como é comumente utilizado, o que implica reconhecer a falsa posição ocupada pelo clero, então de maneira nenhuma poderíamos acreditar que uma irmã — ou mesmo um irmão — deveria ocupar tal posição clerical. As Escrituras deixam bem claro que o papel da mulher na igreja não é desempenhado em público.

Quando a Bíblia fala da oração em público, ela diz: “Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar” (1 Tm 2:8). Deus não diz o mesmo para as mulheres. Evidentemente elas devem orar, mas não em todo o lugar — isto é, não em um evento público.

No que diz respeito ao ensino e à pregação, a Palavra de Deus diz: “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei” (1 Co 14:34-38). E também: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Tm 2:11-14). Se fosse para as mulheres ministrarem a Palavra publicamente na assembleia, Paulo as teria incluído em suas instruções para o ministério público. Mas em 1 Coríntios 14:29, onde ele dá essas instruções, ele diz: “Falem dois ou três profetas…”. Ele não diz “Falem duas ou três profetisas”. Na verdade, na igreja em Tiatira havia uma mulher que tinha assumido o papel de ensinar, mas o Senhor mostra Sua desaprovação dizendo: “Tenho contra ti que toleras [permites] Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensinar” (Ap 2:20).

Da mesma forma, quando se trata de exercer autoridade nas questões administrativas de uma assembleia local, a Palavra de Deus diz que alguém que ocupe essa posição deve ser “marido de uma mulher” (1 Tm 3:2). Acerca disso a Palavra de Deus também diz: “Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto” (At 15:6, 7). Não há menção de mulheres (ou jovens) envolvidas neste trabalho administrativo. Além disso, quando aqueles homens se reuniram para tratar de questões administrativas, Pedro dirigiu-se a eles, dizendo: “Homens irmãos…”. A expressão ali é claramente restrita aos homens. Pedro não se dirigiu às mulheres porque elas não estavam ali. Isto demonstra que as mulheres, apesar de terem um papel importante na assembleia, não faziam parte da liderança administrativa na igreja. As Escrituras falam de “homens distintos [ou principais] entre os irmãos”, mas nunca fala de mulheres tomando a liderança entre os irmãos (At 15:22). Elas não deveriam exercer “autoridade” sobre os homens (1 Tm 2:12).

 O ministério das irmãs 
Portanto fica evidente que as Escrituras afirmam que as irmãs não devem ter um papel no ministério público, mas elas têm um importante ministério a desempenhar para o Senhor — para o qual os homens geralmente não estão capacitados. O ministério das mulheres é na esfera da vida doméstica e privada; elas não precisam competir com os irmãos na esfera do ministério público e administrativo. As Escrituras dizem: “As mulheres idosas… que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, a serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada” (Tt 2:4-5). E também: “Quero, pois, que as que são moças se casem, gerem filhos, governem a casa…” (1 Tm 5:14). “A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa” (Sl 128:3). Há muitas outras passagens que mostram a esfera na qual as irmãs devem ministrar.

É triste vermos que em quase todas as assembleias de cristãos nos dias de hoje esta ordem não é observada. As mulheres estão pregando e ensinando em púlpitos, e também ocupam postos de liderança nas várias “igrejas”. As Escrituras que citamos costumam ser distorcidas ou consideradas antiquadas e discriminatórias. Com muita frequência vemos uma inversão na ordem do ministério de irmãos e irmãs. Por exemplo, ouvimos falar de irmãos (no papel do “Pastor”) que têm encontros em particular com mulheres — geralmente mulheres jovens — com o objetivo de aconselhá-las em sua vida pessoal. É frequente pessoas assim acabarem caindo em algum tipo de imoralidade, para desonra do Senhor. Temos um artigo que mostra que mais de 80% dos homens no “ministério” que caíram em imoralidade chegaram a tal ponto como resultado de sessões de aconselhamento! Muito disso teria sido evitado se esse ministério na igreja fosse desempenhado por mulheres.

As Escrituras indicam que esse ministério de aconselhamento pessoal para mulheres não é para os irmãos; trata-se de um ministério de responsabilidade das irmãs, de preferência irmãs mais velhas. Isto é ensinado na epístola de Paulo a Tito. Dentre outras coisas (como a tarefa de escolher presbíteros), Tito recebeu o encargo de transmitir uma palavra de exortação dirigida às diferentes classes de crentes que havia em Creta. Ali ele deveria entregar algo para “os velhos”, “mulheres idosas”, “jovens [moços]”, e “servos” (Tt 2:1-10). Tito tinha a incumbência de entregar essas mensagens pessoalmente a cada um deles — exceto às mulheres jovens. Paulo o instrui especificamente para que dissesse às mulheres mais velhas que entregassem a mensagem às mulheres jovens. Esse trabalho pastoral dedicado às jovens não era a esfera do ministério de Tito. William Kelly escreveu: “Podemos observar a maneira sábia e santa como ele [Tito] é instruído a admoestar as mulheres jovens, não diretamente, mas por intermédio das anciãs”. Se, por alguma razão, um irmão precisar estar envolvido nesse tipo de aconselhamento, que o faça na companhia de sua esposa. Este é apenas um exemplo de um ministério que Deus deu às irmãs e que não foi concedido aos homens.

Ao desejarem fazer a vontade de Deus, as irmãs que aceitaram a ordem de Deus no que concerne à sua esfera de ministério, encontraram uma paz e um contentamento impossíveis de serem descritos com palavras.

 Três razões pelas quais as irmãs ocupam um lugar de subordinação no cristianismo 
Entendemos que este não é um assunto muito popular hoje em dia, e será particularmente difícil de ser aceito por alguns que se apoiam na filosofia do “Movimento de Liberação Feminina”. Apesar dessa filosofia popularmente aceita em nossos dias, a Bíblia apresenta ao menos três razões pelas quais as irmãs devem ocupar um lugar de submissão no cristianismo. Após o apóstolo Paulo ter falado do lugar das irmãs na casa de Deus em 1 Timóteo 2:9-12, ele continuou para nos ensinar a razão disso. Para isso ele usa a palavra “porque” no versículo seguinte (13).

1) Criacional“Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva” (1 Tm 2:13). Deus poderia ter feito o homem e a mulher ao mesmo tempo, mas Ele decidiu fazer primeiro Adão. Deus fez assim para indicar que foi a Sua intenção desde o princípio que o homem tivesse o lugar de liderança na criação. Os homens não conquistaram ou tomaram esse lugar — como alguns costumam pensar — mas foi dado a eles por Deus. Além disso, o fato de Deus ter feito o homem como o sexo mais forte entre os dois também indica que foi da vontade de Deus que ele ocupasse o lugar de líder (1 Pd 3:7). É preciso considerar também que faz parte da própria natureza feminina ser mais emocional. Esta característica é extremamente necessária para ela exercer seu trabalho na esfera que Deus lhe designou, mas pode ser desastrosa na administração e em outras responsabilidades de liderança, nas quais as emoções precisam ser mantidas sob controle. Deus deu a mulher ao homem para ser sua auxiliadora e complemento, não sua concorrente (Gn 2:18; 1 Co 11:9). Os dois se complementam maravilhosamente quando atuam dentro dos papéis que Deus lhes designou.

2) Governamental“E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Tm 2:14). Paulo segue apresentando uma segunda razão. A falha ocorreu quando Eva agiu de forma independente, assumindo assim a liderança na família de Adão. Daquele dia em diante o seu lugar seria de sujeição ao seu marido. Isto decorre do julgamento governamental de Deus e pode parecer um pouco severo, mas foi o que o Senhor disse à mulher: “O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (Gn 3:16). A irmã que reconhece o lugar que Deus lhe deu, e se submete à Sua vontade neste sentido, pode ser de verdadeira bênção (Sl 128:3 — “frutífera”). Nas Escrituras as mulheres que se recusaram a aceitar o lugar que Deus lhes designou, e assumiram a liderança, geralmente foram a causa de confusão e ruína (Gn 3:6; 1 Rs 21:25; 2 Rs 11:3; Mt 13:33; Ap 2:20; 1 Co 14:33-34). Não devemos pensar que as decisões governamentais só atingiram a mulher. O homem também está sob o juízo governamental. Ele deve se submeter ao juízo governamental de Deus no lugar que lhe foi designado. Desde a queda de Adão tem sido responsabilidade do homem trabalhar com afinco para prover alimento e abrigo, tanto para a mulher com quem estiver casado, como também à sua família (Gn 3:17-19). Um homem que não faça isso é considerado pior que um infiel (1 Tm 5:8).

3) Testemunhal – Em outra parte o apóstolo Paulo diz: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos… Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” (Ef 5:22-24, 32). Esta é uma terceira razão pela qual as mulheres cristãs devem assumir um lugar de submissão. As irmãs que estão no relacionamento do matrimônio podem, por sua sujeição ao marido, exibir para o mundo uma pequena figura da submissão da igreja a Cristo.

 “Mas a Bíblia diz que as mulheres devem orar e profetizar!” 
Há quem não acredite que as passagens que falam do lugar da mulher em 1 Coríntios 14:33-38 e 1 Timóteo 2:11-14 estejam se referindo à pregação e ao ensino, pois se assim fosse elas estariam contradizendo 1Coríntios 11:5, que diz: “Toda a mulher que ora ou profetiza…”. O argumento utilizado é o de que Deus não teria dito para as mulheres orarem e profetizarem em um lugar da Bíblia, para depois dizer o contrário em outro. A conclusão a que chegam é que o “falar” em 1 Coríntios 14 deve estar se referindo a algum problema local em Corinto, onde as mulheres estariam interrompendo a adoração da congregação fazendo perguntas fora do contexto, perguntas essas que poderiam ser feitas em casa.

Antes de qualquer coisa, se cremos que a Bíblia é inspirada pelo infalível Deus, então certamente devemos aceitar que não existem erros ou contradições em Sua santa Palavra. O “obreiro” precisa saber manejar bem a Palavra da verdade para encontrar o significado de uma passagem em particular (2 Tm 2:15). Se olharmos com atenção 1 Coríntios 11, veremos que o versículo que fala de mulheres orando e profetizando (vers. 5) vem antes das instruções dadas aos santos para quando eles estão reunidos (vers. 17). O versículo 17 neste capítulo marca um novo parágrafo e segue mostrando a ordem de coisas para quando os santos estão reunidos para a adoração e o ministério. Ali diz: “Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja…”. Deste versículo em diante e ao longo do capítulo 14 o apóstolo trata de questões diretamente relacionadas ao momento em que os santos estão reunidos em uma assembleia. Isto é indicado por Paulo que repetidamente diz “Quando vos ajuntais” (1 Co 11:17, 18, 20, 33, 34; 14:23, 26). Conforme temos dito, os versículos que se referem à mulher que ora e profetiza são encontrados numa seção que precede as instruções para os santos quando estão reunidos. Isso demonstra que naquela passagem (vers. 2 a 16) ele não está se referindo especificamente às atividades dos santos quando reunidos para o ministério. O assunto ali é mais amplo, portanto inclui a esfera doméstica etc. R. K. Campbell escreveu: “Esta passagem (vers. 2-16) permite que a mulher faça essas coisas, mas não indica onde elas devem ser feitas. Mas o capítulo 14 fala especificamente que tal ministério das mulheres não é permitido na assembleia”. Isso demonstra que Deus não impede as mulheres de orarem e profetizarem. Elas têm muitas oportunidades para fazerem isso na sua esfera doméstica, fora das reuniões públicas da assembleia. Portanto, não existe qualquer contradição entre as duas passagens. Uma está falando do momento quando os santos estão “na assembleia”, como o versículo claramente indica (1 Co 14:34), enquanto a outra é genérica, e não específica à assembleia (1 Co 11:5).

Ao respondermos às objeções que costumam ser feitas às claras afirmações das Escrituras, somos constantemente confrontados com ideias que as pessoas introduziram nas Escrituras. A suposição de que as mulheres de Corinto estavam atrapalhando as reuniões com tagarelices ou conversas paralelas é um exemplo clássico disso. As Escrituras não dizem coisa alguma a respeito. O modo como o apóstolo Paulo tratava as Escrituras era exatamente o oposto ao dos cristãos de nossos dias. Ele não introduzia ideias nas Escrituras, mas procurava entender aquilo que saía das Escrituras (Atos 17:2). Esta deveria ser uma diretriz para cada um de nós.

Em seu contexto, o capítulo está tratando do exercício do dom de alguém de profetizar (ministrar) na assembleia, e não de tagarelar. A palavra no original, que é traduzida como “falar” em 1 Coríntios 14:34 e aplicada ali às mulheres, é a mesma usada em todas as outras partes do mesmo capítulo quando, por exemplo, diz “Falem dois ou três profetas…” e “Se alguém falar…” etc. Ninguém iria discutir que estas passagens significam “falar” no sentido de ministrar a Palavra. Mesmo assim, quando chegamos ao versículo no mesmo capítulo que proíbe as irmãs de falarem, alguns querem alterar o significado da palavra para “tagarelar”. Parece que essas pessoas estão dispostas a aceitar qualquer tipo de explicação para o significado da palavra — mesmo uma explicação irracional — só para não admitirem que a passagem esteja se referindo à proibição de profetizar ou ministrar a Palavra. Essa insistência em distorcer a Palavra de Deus só acontece porque existem outros interesses: são pessoas que querem que as mulheres preguem a Palavra e buscam apenas uma desculpa para introduzir suas próprias ideias nas Escrituras.

 “Mas não devemos fazer distinção entre homem e mulher na igreja!” 
Outros concordarão que Deus tem papéis distintos para o homem e a mulher, e acreditam que estes devem ser observados, mas apenas nas relações da vida doméstica. Quando o assunto é a assembleia, eles acham que as distinções entre macho e fêmea não devem ser consideradas, pois a Palavra de Deus diz: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3:28). Muitos teólogos acreditam que esta declaração universal se sobreponha às declarações mais restritivas feitas por Paulo em 1 Coríntios 14 e 1 Timóteo 2.

O equívoco está em não distinguir entre posição e prática. A chave que desfaz a confusão existente na mente de alguns está em compreender o que significa a expressão “em Cristo Jesus”. Ela descreve nosso lugar de aceitação individual diante de Deus, a própria posição que Cristo ocupa agora como Homem na glória. A expressão mostra a completa posição que o cristão agora ocupa diante de Deus na nova criação, a qual está inseparavelmente associada à habitação do Espírito Santo no crente. Paulo usa essa expressão diversas vezes em suas epístolas (Rm 8:1; Ef 1:6; 2 Co 5:17; Gl 6:15; Ef 2:13 etc.). Gálatas 3:28 mostra que todos os crentes, independente de sua nacionalidade, nível social ou sexo, são igualmente abençoados nesse lugar de aceitação diante de Deus no céu. Trata-se de uma expressão posicional. Todavia, em 1 Coríntios 14 e 1 Timóteo 2 o assunto é a ordem prática das coisas entre os cristãos na terra. Há duas expressões que mostram essa diferença: “em Cristo Jesus” (Gl 3:28) e “nas igrejas” (1 Co 14:34). Uma fala daquilo que os santos são no lugar que Cristo ocupa diante de Deus no céu, enquanto a outra fala do que eles são quando estão reunidos para adoração e ministério na terra. Portanto, quando o assunto é seu lugar de aceitação em Cristo não existe diferença entre crentes, mas existe uma grande diferença quando o assunto é a função prática dos crentes na assembleia. Quando entendemos a diferença entre estas duas coisas, percebemos que o lugar e o serviço dos irmãos e das irmãs na assembleia são bem distintos.

 “Mas aquelas coisas se aplicavam apenas a Corinto!” 
Outros dizem que a proibição para as mulheres falarem na assembleia se aplicava somente à assembleia de Corinto, cidade particularmente conhecida por suas mulheres tagarelas e desavergonhadas. Supõe-se que essas mulheres em Corinto, após terem sido salvas, tenham continuado com seus velhos hábitos, e por isso acabavam atrapalhando as reuniões. A solução dada por Paulo para aquele problema local teria sido ordenar que ficassem em silêncio até que aprendessem a se comportar melhor. Conclui-se, portanto, que tal ordem não teria aplicação para as mulheres na igreja nos dias hoje.

Mais uma vez tudo não passa de mera suposição afirmar que as mulheres agiam assim. As Escrituras não dizem que havia tal problema. Além disso, é falsa a ideia de que tais instruções tivessem sido dadas apenas para Corinto. O início da epístola mostra que os princípios apresentados ali são destinados a muito mais do que apenas aquela assembleia; eles são para “todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1:2). A própria passagem em 1 Coríntios 14 nos diz claramente que tal ordem referia-se a “todas as igrejas dos santos” (1 Co 14:33-34).

 “Mas não queremos afugentar as pessoas do cristianismo!” 
Alguns acreditam que não deveríamos colocar em prática estas coisas, pois poderiam ofender pessoas incrédulas (principalmente mulheres) que observam o cristianismo. Eles acham que esse tipo de coisa poderia afugentar completamente as pessoas para longe de Deus, por dar a elas a impressão de que o cristianismo estaria colocando a mulher numa classe inferior.

Este argumento sugere que aquilo que o mundo pensa do cristianismo é mais importante do que a obediência às Escrituras. Ele implica que é aceitável desobedecer a Palavra de Deus, se no final pudermos ganhar alguém agindo desta forma. Mas as Escrituras dizem que a obediência a Deus é mais importante do que qualquer culto que possamos oferecer a Ele. “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22). Devemos obedecer a Palavra de Deus antes de qualquer coisa, deixando para Deus os resultados do testemunho. Como já dissemos, nossa responsabilidade é cuidar dos princípios e deixar que Deus cuide das pessoas. Devemos lembrar que este é o trabalho dEle. Afinal, é Ele quem produz o exercício espiritual nas pessoas por meio de Seu poder vivificador. O Senhor elogiou a assembleia em Filadélfia dizendo: “tendo pouca força, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome” (Ap 3:8). De modo algum poderíamos contar com seu Seu elogio e bênção, se desobedecêssemos ao ensino claro de Sua Palavra. Façamos aquilo que sabemos que devemos fazer, e deixemos que Ele cuide do resto.

 “Isso é coisa do velho Paulo!” 
Outros consideram que o apóstolo Paulo escreveu essas coisas sobre o lugar da mulher por ser ignorante e insensível para com as mulheres. São pessoas que veem seus ensinos sobre o assunto como se não passasse de opiniões pessoais pelo fato de ele ser solteiro.

Ficamos em dúvida se pessoas que pensam assim acreditam na inspiração das Escrituras. Devemos nos lembrar de que essas coisas são as Escrituras divinamente inspiradas. Elas não são meras opiniões de um solteiro, mas sim mandamentos do Senhor! No mesmo capítulo em que Paulo falou essas coisas relacionadas ao lugar da mulher, ele também disse: “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor” (1 Co 14:37).

 Cobertura para a cabeça 
Outra coisa que hoje tem sido desprezada entre os cristãos é o uso de cobertura para a cabeça. Em 1 Coríntios 11 temos instruções claras e explícitas dadas às irmãs para que tenham a cabeça coberta quando estiverem sendo tratados assuntos divinos. Já que a passagem das Escrituras não especifica onde a cobertura da cabeça deve ser usada, não temos autoridade para afirmar que ela se aplique apenas às reuniões da assembleia. Seu uso é mais amplo. Sua aplicação se estende a qualquer lugar onde a Palavra de Deus estiver sendo estudada, seja em reuniões públicas ou no estudo da Palavra em particular.

Costuma-se perguntar: “Por que Deus iria querer que as irmãs cobrissem a cabeça? Qual a utilidade disso?”. Deus não apenas nos diz para fazer algo, mas Ele também explica a razão. É esta a beleza do cristianismo. Temos um “culto racional” (Rm 12:1). Quando entendemos a razão de Deus nos pedir para praticarmos algo, nossa obrigação é obedecer Sua Palavra, pois então podemos fazer isso de forma inteligente e com um propósito. Isto contrasta com o culto que era oferecido sob a Lei; os israelitas não entendiam muito daquilo que faziam em seu culto a Deus.

O ato de descobrir a cabeça, por parte dos irmãos, e o cobrir a cabeça, pelas irmãs, são demonstrações dos princípios envolvidos na confissão cristã. O Apóstolo mostra no início do capítulo que no cristianismo a cabeça do homem representa Cristo. Paulo diz: “Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo” (1 Co 11:3). Em seguida ele mostra que, por esta razão, os irmãos devem descobrir a cabeça quando tratarem das coisas divinas. Ao fazerem assim eles reconhecem que toda glória pertence a Cristo. Trata-se de um ato deliberado de testemunho da parte dos irmãos, e reflete nosso desejo de conceder toda glória a Cristo, nosso Cabeça vivo no céu. Paulo diz: “O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem” (1 Co 11:7). Esta atitude glorifica a Cristo e deve ser feita tendo isto em vista.

Por outro lado, no cristianismo a mulher representa a glória do homem. Ali diz: “O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem. Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio [autoridade], por causa dos anjos” (1 Co 11:7-10). O cabelo da mulher é um sinal da glória natural do primeiro homem. O cabelo é seu véu permanente de beleza e glória (1 Co 11:15). O apóstolo ensinava que o cabelo da mulher deveria ser coberto quando estivessem sendo tratadas as coisas divinas, por causa do que o cabelo representa. Quando as irmãs usam uma cobertura na cabeça, elas estão proclamando o fato de que não reconhecemos o primeiro homem como tendo qualquer lugar no cristianismo. Trata-se de uma confissão de que o homem e sua glória não têm lugar nas coisas divinas.

Paulo acrescentou: “por causa dos anjos” (1 Co 11:10). Deus estabeleceu certa ordem em Sua criação. Homens e mulheres cristãs não devem negligenciar essa ordem, mas devem se lembrar de que são um espetáculo divinamente preparado. Os anjos estão aprendendo a sabedoria de Deus em Seu agir entre os cristãos na terra (1 Co 4:9; Ef 3:10).

 “Cobrir a cabeça era um costume cultural antigo que não deve ser considerado hoje 
Costuma-se argumentar que as instruções dadas pelo Apóstolo Paulo eram apenas para os Coríntios daquela época. Assim a cobertura da cabeça é descartada como sendo um antigo costume cultural que não tem qualquer aplicação para as mulheres de nossos dias.

Mais uma vez, isso não passa de suposição. Paulo nunca disse que aquilo seria somente para a sua época. Se estas coisas fossem apenas para aquela época, por que razão a igreja observou as instruções do cobrir a cabeça desde o princípio até cerca de 50 anos atrás? São 1900 anos! Será que a igreja agiu errado todo esse tempo? O Espírito de Deus parece que já tinha em mente a nossa época, quando alguns argumentariam sobre estas coisas. Por isso Paulo foi levado a escrever: “Se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus” (1 Co 11:16). Este “nós” que aparece no versículo refere-se aos apóstolos que foram dados à igreja para colocar o fundamento do cristianismo por meio de seu ministério. O que ele está dizendo neste versículo é que se existirem pessoas que queiram argumentar sobre estas coisas, que elas fiquem cientes de que os apóstolos não têm “tal costume”, o costume de as mulheres terem a cabeça descoberta quando as Escrituras fossem lidas. Em momento algum os apóstolos haviam entregado tal costume à igreja.

Mais uma vez lembramos o leitor de que as coisas que Paulo ensinou concernente ao cobrir a cabeça não foi algo dado exclusivamente aos Coríntios, mas é para ser praticado “em todo o lugar” (1 Co 1:2).

 “Mas o cabelo da mulher é o seu véu!” 
Outro argumento comumente usado para descartar o uso da cobertura é o versículo 15. Ali diz: “Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu”. Usando este versículo alguns argumentam que se a mulher tiver cabelo longo (e alguns que não precisa ser tão longo), então ela já estaria cumprindo esta passagem das Escrituras, pois seu cabelo funcionaria como um véu. Portanto, as mulheres não precisariam usar uma cobertura artificial para a cabeça por já terem uma cobertura proporcionada pelo cabelo.

Todavia, se olharmos com mais atenção para esta passagem, veremos que são mencionadas duas coberturas. Paulo propositalmente usa duas palavras diferentes para distinguir as duas coisas. Infelizmente na maioria das traduções isto não está indicado, e por isso o leitor acaba concluindo, em sua sinceridade, que o cabelo é uma cobertura suficiente para a mulher. Mas a palavra usada no idioma original para “cobrir” nos versículos 4 a 6 é diferente da usada no versículo 15. No versículo 15 a palavra original é peribolaiou e indica o cabelo enrolado em torno da cabeça. Na linguagem moderna seria o equivalente a um penteado ou algo semelhante. Portanto, o cabelo da mulher é um véu (ou cobertura) de glória e beleza que a natureza lhe concedeu. Mas a palavra nos versículos 4 a 6, katakalupo, indica uma cobertura artificial para o cabelo, algo como um chapéu, lenço etc. Por isso fica bem claro que não existe fundamento para a ideia de que a mulher não precise colocar uma cobertura sobre a cabeça.

Alguns argumentos são levantados por pessoas que querem fazer sua própria vontade, e acabam se mostrando ridículos quando tratados de maneira lógica. Esta ideia, em particular, de que a mulher pode deixar de trazer uma cobertura por esta já ser suprida pelo cabelo, é um exemplo disso. Se o cabelo é a cobertura da qual fala a passagem, então os homens também trariam por natureza uma cobertura, pois eles têm cabelo tanto quanto as mulheres! E se o cabelo é uma cobertura, como poderiam os irmãos orar e profetizar em obediência à Palavra de Deus, se estiverem impedidos de ministrar a Palavra com a cabeça coberta? (1 Co 11:4). Será que Paulo queria que todos os irmãos que ministram a Palavra na reunião tivessem a cabeça raspada? Certamente aqueles que usam de tais argumentos não creem ser assim. E se eles acreditam que o cabelo seja um véu, por que não raspam a cabeça? Não conhecemos um grupo sequer de cristãos que faça isso. Evidentemente, não é de cabelo natural que a passagem está tratando ao falar do véu.

 “Levando o Seu vitupério” 
Quando analisamos o assunto do lugar e ministério das irmãs na igreja tendo em vista o declínio do testemunho cristão nos últimos dias, fica bastante óbvio que a recusa das mulheres em aceitarem o lugar que Deus lhes designou é apenas mais uma evidência do grande abandono da verdade.

O problema disso — e de muitos outros assuntos que tratamos neste livro — é que os cristãos não querem levar o vitupério ou a vergonha que está associada à prática do cristianismo bíblico. Como consequência, eles inventam todo tipo de desculpa para não seguir as simples declarações da Palavra de Deus. Aqueles que atenderem à exortação “saiamos, pois, a Ele fora do arraial” irão levar “Seu vitupério”, “vergonha” ou “rejeição” (Hb 13:13). Não há como escapar disso; o cristianismo normal é assim. Devemos, portanto, estar preparados para aceitar isso. Se por um lado podemos ser envergonhados por causa do nome do Senhor, por outro teremos também um senso de Sua aprovação em nossa alma. Isto porque existe um gozo na senda de se fazer a vontade de Deus, gozo este que só é conhecido daqueles que caminham nela. “Deleito-me em fazer a Tua vontade, ó Deus meu” (Sl 40:8; Jr 15:16).

 Conclusões 

◄))) A qual denominação Pedro, Paulo e João se filiariam?

Vamos colocar toda a questão da organização eclesiástica denominacional (e não denominacional) de outra maneira. Vamos supor que pudéssemos transportar para os nossos dias Pedro, Paulo e João, além de alguns outros irmãos da igreja no princípio. Suponhamos que nós os trouxéssemos direto de uma de suas reuniões, onde eles estariam congregados ao Nome do Senhor Jesus somente (Mt 18:20); onde eles teriam partido o pão em recordação do Senhor, como regularmente fariam a cada dia do Senhor (At 20:7); ignorando qualquer outra maneira de congregar, além de fazê-lo na liberdade do Espírito em dirigir quem quer que Ele quisesse para falar na assembleia na adoração e no ministério (1 Co 14:23-32), onde estivessem mantendo a disciplina bíblica (1 Co 5:9-13; 1 Tm 5:20; 2 Ts 3:6, 14-15 etc.), onde procurassem manter a verdade na prática do “um só corpo” quanto à recepção e disciplina (Ef 4:3-4), etc.

Nós os tiraríamos dali e os traríamos para as ruas de uma das principais cidades da América do Norte, onde eles veriam a cristandade em total confusão, com suas inúmeras seitas e divisões, o mal e as doutrinas erradas permeando tudo, as construções luxuosas e ornamentadas, usadas para uma forma de adoração emprestada do judaísmo, os clérigos interferindo com a simplicidade da ordem de Deus para a adoração e o ministério, mulheres nos púlpitos, mulheres com a cabeça descoberta, corais uniformizados, orquestras, atletas famosos testificando de sua conversão, concertos de rock, homossexuais ocupando cargos na administração na igreja etc. Fazemos uma pausa aqui para perguntar: “A qual denominação você acha que eles iriam se filiar?”. Não é preciso muito discernimento para concluir que a nenhuma delas.

Trazendo a pergunta para mais perto de você, imagine você caminhando com os apóstolos pelas ruas de uma dessas cidades, já conhecendo algo da verdade da ordem de Deus para o funcionamento da igreja conforme ensinam as Escrituras, e vendo a confusão que eles estariam vendo nessas várias organizações chamadas de “igrejas”, a qual denominação você se filiaria?

 “Deveríamos iniciar uma comunhão cristã em conformidade com estes princípios bíblicos?” 
Após aprender alguns destes princípios relativos à igreja e à sua ordem conforme encontrada nas Escrituras, alguém poderia perguntar: “Já que não devemos nos juntar a uma denominação por causa da ordem inventada pelos homens, será que deveríamos iniciar uma comunhão seguindo a verdadeira ordem bíblica?”. Nossa resposta é não, pois cremos que isto seria um ato de independência. Não queremos dizer que não devem ser formadas novas reuniões, mas que há um outro princípio que deveria ser levado em consideração antes que uma reunião assim pudesse receber a aprovação de Deus.

Os cristãos devem se reunir sobre o fundamento do “um só corpo” (Ef 4:4). Para fazer isso, um grupo de cristãos precisa se reunir para adoração e ministério em comunhão com outras assembleias de crentes congregados da mesma forma, com os quais possam expressar esta verdade na prática nas questões relacionadas à recepção, disciplina, cartas de recomendação etc. Um grupo de cristãos que procurasse congregar ao nome do Senhor de forma independente não poderia colocar em prática esta verdade sozinhos. Formar uma comunhão de cristãos sem ter isto em mente é, na prática, congregar em um terreno de independência.

 O terreno do “um só Corpo” 
Antes de falarmos sobre o que os cristãos com este exercício devem fazer, cremos ser necessário estabelecer a importância da verdade do “um só corpo”. O propósito de Deus era que o Senhor Jesus reunisse “em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos”, para que viesse a existir “um rebanho e um Pastor” (Jo 11:51-52; 10:16). Apesar de estes versículos se referirem especificamente à unidade da família de Deus, eles mostram claramente que Deus desejava que o Seu povo fosse encontrado congregado em uma unidade visível na terra. Mateus 18:20 também indica isto. Ali diz: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. A voz passiva (“reunidos”) indica que existe um poder que não partiu deles para estarem reunidos ao nome do Senhor Jesus Cristo. Trata-se do poder do Espírito Santo. Ele é o “Reunidor” divino. Porém repare que o Espírito não apenas reúne crentes ao nome de nosso Senhor Jesus Cristo, mas também os reúne em unidade ao Seu nome. Trata-se de uma unidade prática, e aprendemos de outras Passagens que esta unidade prática não acontece apenas na localidade onde esses crentes estão reunidos; ela também se aplica aos crentes nas outras assembleias que estão igualmente reunidos no mesmo terreno (1 Co 1:2; 4:17; 5:3-4; 10:16-17; 11:16; 14:33-34; 16:1). As decisões de “ligar ou desligar” (Mt 18:18) tomadas em uma assembleia devem ser reconhecidas e aceitas nas outras assembleias, para que a verdade do “um só corpo” seja expressada de forma prática na terra.

Se uma assembleia local tomar uma decisão de colocar alguém fora de sua comunhão, o corpo todo deve agir em comunhão com aquela assembleia local e reconhecer aquela ação. Todos devem se submeter ao julgamento feito naquela assembleia local, de forma que a pessoa colocada fora de comunhão seja considerada como alguém efetivamente fora das outras reuniões também, e não apenas na assembleia da localidade onde ela resida. Vemos isto em 1 Coríntios 5:13, quando a assembleia local em Corinto deveria tirar de seu meio aquele malfeitor. Se você ler 2 Coríntios 2:6 verá que a “repreensão” foi “feita por muitos”. Os “muitos” ali se referem ao “corpo como um todo”, conforme mostra a nota de rodapé da Bíblia traduzida por J. N. Darby, citando 2 Coríntios 9:2 como um exemplo do uso e significado da expressão. Isto faz com que o ofensor sinta que a repreensão é feita por mais do que apenas a sua assembleia local, além de demonstrar que uma decisão de ligar ou desligar tomada em uma assembleia é, na realidade, tomada em nome do corpo como um todo. O que é feito em nome do Senhor em uma assembleia local deve, na prática, afetar a todos. Esta é uma das maneiras pelas quais a igreja deve “guardar a unidade do Espírito”, expressando assim a verdade de que “há um só corpo” (Ef 4:3).

 Cabe a cada crente hoje buscar a comunhão do testemunho existente da verdade do “um só Corpo” 
Nas Escrituras, quando o Espírito de Deus começava uma obra em alguns com relação à verdade de onde congregar, Ele tinha o cuidado de uni-los a outros no mesmo terreno de modo que a “unidade do Espírito” fosse mantida para expressar a verdade do “um só corpo”. Ao dirigir-se aos santos em tessalonicenses, o Apóstolo Paulo diz: “Porque vós, irmãos, haveis sido feitos imitadores das igrejas de Deus que na Judeia estão em Jesus Cristo” (1 Ts 2:14). Os tessalonicenses seguiram as assembleias da Judeia, estando ligados a elas em uma comunhão prática e até participando dos sofrimentos do evangelho. Isto não significava que as assembleias na Judeia fossem mais importantes ou mais espirituais que a dos tessalonicenses, simplesmente porque o Espírito havia começado Seu trabalho de reunir as almas ao nome do Senhor Jesus Cristo primeiramente na Judeia. À medida que outros iam sendo salvos, eram ligados em uma comunhão prática àquilo que o Espírito de Deus já havia começado.

Este princípio é mostrado em Atos 8:4-24. Muitos em Samaria haviam crido no Senhor Jesus por intermédio da pregação de Filipe, todavia o Espírito de Deus não os considerou como estando no terreno do “um só corpo” até que tivessem uma comunhão prática com aqueles que Ele já havia congregado ao Nome do Senhor Jesus em Jerusalém. Buscando manter a “unidade do Espírito”, dois representantes foram de Jerusalém até lá e impuseram suas mãos sobre os de Samaria (uma expressão de comunhão prática — Gl 2:9), pelo que o Espírito de Deus identificou-Se com eles. C. H. Brown escreveu: “Deus não permitiu que os Samaritanos fossem oficialmente reconhecidos como pertencentes à igreja (assembleia) até que recebessem isso daqueles emissários vindos de Jerusalém”. Vemos aqui o grande cuidado tomado pelo Espírito de Deus em ligar esses crentes àqueles que estavam em Jerusalém, de modo que pudesse haver uma expressão prática do “um só corpo” na terra.

Quando o Apóstolo Paulo encontrou um grupo de crentes em Éfeso, os quais desconheciam a existência de outros que Deus já havia tocado, ele descobriu que o Espírito de Deus não os tinha reconhecido como estando sobre o divino terreno da assembleia (At 19:1-6). Eles não foram reconhecidos como estabelecidos sobre o terreno do “um só corpo” até que houvesse uma comunhão prática (a imposição de mãos) da parte daqueles que o Espírito já tinha congregado. Referindo-se a este grupo de crentes, C. H. Brown escreveu: “Eles necessitavam de algo. Necessitavam ser colocados na mesma unidade que já existia. Eles não podiam ser reconhecidos como ocupando um terreno diferente dos outros. Paulo não poderia dizer, ‘Vocês não estão no mesmo terreno daqueles que estão em Antioquia ou Jerusalém, mas vocês trazem uma boa bagagem de verdade e por isso vou simplesmente seguir adiante com vocês’. Ah, não. Ele irá se certificar de que eles sejam trazidos para o mesmo terreno dos outros. Eles foram introduzidos na mesma coisa que havia sido formada antes mesmo de terem ouvido falar nela”. Mais uma vez vemos o cuidado e sabedoria de Deus em manter “a unidade do Espírito” para que existisse uma expressão prática da verdade do “um só corpo”.

É verdade que estes dois exemplos citados do livro de Atos são casos em que as pessoas ainda não tinham o Espírito e, portanto, não estavam realmente sobre terreno cristão. Mas como o irmão Brown demonstrou, os exemplos nos mostram um importante princípio sobre o qual Deus trabalha, no que diz respeito a manter a expressão prática da verdade do “um só corpo”. Por meio destes exemplos, a mente que é ensinada pelo Espírito irá aprender os pensamentos de Deus a respeito destas questões coletivas relacionadas à assembleia.

Este princípio aparece na forma de figura em Esdras 7-10. Deus havia começado uma nova obra ao trazer o Seu povo de volta da Babilônia para o centro divinamente designado para aquela época, o qual era Jerusalém (1 Rs 11:32; 14:21). Cerca de 42.000 pessoas voltaram sob o comando de Zorobabel e Jesua (Ed 1-3). Todavia, uns 68 anos mais tarde outros foram igualmente tocados para voltarem a Jerusalém (Ed 7-8). Ao voltarem eles descobriram que Deus já vinha trabalhando do mesmo modo com outros, muito tempo antes de eles terem sido exercitados acerca dessas coisas. E quando chegaram a Jerusalém, não encontraram um grupo perfeito de judeus ali (Ed 9), mas mesmo assim eles sabiam que aquele era o único lugar certo para o povo escolhido de Deus adorar. Portanto, eles se identificaram com o testemunho que já existia em Jerusalém. Não passou pela cabeça deles estabelecer um testemunho independente separado daquele que já existia ali.

Cremos que isto nos dê uma resposta quanto a se as pessoas deveriam ou não iniciar um testemunho cristão. Já que o objetivo de Deus é congregar os santos na terra em unidade para o Nome de nosso Senhor Jesus Cristo no terreno do “um só corpo”, não cremos que o Espírito de Deus iria dirigir pessoas a saírem por aí praticando estas verdades em um terreno da independência. Sabemos que alguns estão fazendo isso, mas não cremos que tenha a aprovação do Senhor, pois agir assim tão somente aumenta a divisão visível que não deveria existir no testemunho cristão.

Precisamos entender que o Espírito de Deus já começou uma obra no testemunho cristão no inicio dos anos 1800, reunindo crentes ao Nome do Senhor Jesus fora das denominações. Ele continua até hoje trabalhando com cristãos com o mesmo objetivo. Cremos que Ele quer e pode guiar aqueles aos quais Ele tem mostrado a verdade para que entrem em comunhão com o que Ele já começou. Cremos que o Espírito de Deus não ficaria satisfeito até que completasse a Sua obra, não apenas no sentido de mostrar aos crentes o modo bíblico de congregar, mas também de levá-los a uma associação prática com aqueles que Ele já congregou, de modo que possam todos estar no terreno do “um só corpo”.

Se existir um grupo de cristãos passando por estes exercícios em uma região onde não exista uma reunião de cristãos no terreno do “um só corpo”, eles não devem adotar o terreno da independência, formando uma assembleia independente. É preciso que entrem em contato com aqueles que já estão congregados no terreno do “um só corpo” para que a mesa do Senhor possa ser estendida àquela localidade. Ao agirem assim, a “unidade do Espírito” é mantida. A partir dos princípios bíblicos apresentados acima, cremos que seja esta a maneira de novas reuniões serem estabelecidas. Quando a mesa do Senhor é estendida a uma nova localidade, isto deve ser feito em comunhão com as outras assembleias que já se encontram no terreno do “um só corpo”.

 Outra seita? 
Talvez alguém venha a dizer: “Se fizermos tudo o que você diz, e começarmos a nos reunir com aqueles que congregam sobre as bases bíblicas, será que não estaríamos apenas nos filiando a outra divisão ou seita da igreja?”. A resposta simples para esta pergunta é que a obediência à Palavra de Deus nunca é uma dissidência. É isto que os cristãos deveriam estar fazendo há muito tempo. Se os cristãos se reunirem em obediência à Palavra de Deus, em conformidade com a verdade do “um só corpo”, eles jamais poderão ser considerados uma seita, mesmo que existissem apenas dois ou três se colocando nesse terreno. Se eles estiverem congregados pelo Espírito em torno do Senhor Jesus não estarão no terreno do sectarismo: eles estarão no divino centro, pois Cristo é o centro divino para o Seu povo (Gn 49:10; Sl 50:5; Mt 18:20; 1 Co 5:4).

 “Vocês acham que são os únicos que estão certos!” 
Às vezes encontramos pessoas que perguntam: “Você viria conosco à nossa igreja?” É difícil recusar um convite assim, sabendo que essas pessoas têm boas intenções, principalmente quando elas não entendem a força de nossa convicção. Quando respondemos: “Não, pois não cremos que seria da vontade de Deus”, elas costumam se ofender. Às vezes somos acusados de intolerância e exclusivismo. Elas dizem: “Como é que vocês acham natural irmos às suas reuniões, mas quando convidamos vocês a virem às nossas vocês se recusam? Vocês acham que são os únicos que estão certos! Vocês não amam os outros membros do corpo de Cristo!”.

De nossa parte, cremos que não poderia ser da vontade de Deus que abandonássemos os fundamentos bíblicos em troca de uma ordem sem base bíblica e inventada pelo homem. Portanto, o que nos impede de aceitar convites para seus cultos não é a falta de amor pelas almas que estão nessas denominações, mas sim o temor do pecado.

Ficamos imaginando se essas pessoas já consideraram o que intolerância realmente significa. William Kelly escreveu que intolerância é “apegar-se, sem pensar e sem uma garantia divina sólida, à sua própria doutrina ou prática, opondo-se a todas as outras”. Portanto a questão é: “Será intolerância evitar associar-se às igrejas denominacionais para seguir com aqueles que desejam reunir para adoração e ministério em conformidade com a Palavra de Deus?”. Se essas denominações estiverem marcadas pela confusão e pelo abandono da Palavra de Deus, como já descrevemos neste livro, como alguém poderia esperar que fôssemos tão inconsistentes com nossas convicções ao ponto de nos juntarmos a eles nessas assim chamadas “igrejas” das quais nos separamos? “Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor” (Gl 2:18).

William Kelly também declarou: “Certamente é intolerante, ou algo pior, alguém que insista ou espere que eu me junte a ele contra minha clara convicção, pois para fazer isso eu precisaria pecar contra Deus. Pecado é alguém fazer sua própria vontade ou a vontade de outro, contrária à vontade de Deus. Se você me pedisse para eu me afastar daquilo que eu sei ser a vontade de Deus, evidentemente eu estaria pecando se concordasse”.

Isto nos faz lembrar o velho profeta de Betel (1 Rs 13). Ele tentou fazer com que o profeta de Judá, que havia sido enviado pelo Senhor para clamar contra a adoração sem fundamento bíblico que havia sido estabelecida em Betel, tivesse comunhão consigo no próprio lugar contra o qual o profeta havia clamado! O velho profeta fez isso para aliviar sua própria consciência, pois então ele poderia dizer que outros profetas estavam ali com ele. Depois que o profeta de Judá concordou em atendê-lo, um leão o encontrou no caminho e o matou. Que isto seja um alerta para nós.

Como já dissemos, é comum existir animosidade, da parte daqueles que rejeitam a ordem de Deus, contra quem deseja obedecer a Palavra de Deus. A escolha de permanecer em um sistema de adoração da cristandade criado pelo homem é uma coisa, mas certamente não podemos considerar errado alguém que deseje estar com cristãos que queiram praticar a ordem de Deus. Afinal, são pessoas que estão simplesmente fazendo o que está na Palavra de Deus!

Se algum cristão deseja permanecer em uma ordem ou sistema eclesiástico criado pelo homem, e se ele tenta usar a Palavra de Deus para dar suporte a essa ordem, ele terá de inserir seus próprios pensamentos entre as claras afirmações das Escrituras. Por exemplo, ele precisará inferir que o tabernáculo do Antigo Testamento é realmente o padrão para a adoração cristã; que a cobertura da cabeça para as mulheres servia apenas para a igreja local de Corinto; que as mulheres pregavam nas reuniões das igreja; que eram feitas imposição das mãos sobre aqueles que eram ordenados etc.

Por outro lado, aqueles que simplesmente aceitam o que está nas Escrituras como Deus escreveu, desfrutarão da tranquila confiança de estarem fazendo a vontade de Deus. Isto porque existe uma paz que resulta de se fazer a vontade de Deus, paz esta que é conhecida apenas por aqueles que andam em conformidade com a Palavra. É um privilégio voltar ao cristianismo simples da Bíblia, sem todas as franjas acrescentadas pelo moderno cristianismo!

 Um apelo 
Como o leitor tem observado, apresentamos uma ordem para os cristãos congregarem para a adoração e o ministério, a qual é diferente da tradicionalmente aceita nas assim chamadas “igrejas”. O que mais precisaria ser dito a respeito das diferenças? Procuramos demonstrar, a partir da Palavra de Deus, que a ordem existente nas igrejas denominacionais em geral simplesmente não é bíblica. Mostramos que existe um padrão simples na Palavra de Deus para os cristãos se reunirem para este objetivo. É necessário fé e obediência para praticar estas verdades bíblicas. Se nos consideramos cristãos e reivindicamos que a Bíblia é o guia do cristão, então por que não seguir a Bíblia quando o assunto é o modo como os cristãos devem congregar para a adoração e o ministério?

Havendo completado nosso exame e exposição da falta de fundamento bíblico da ordem tradicionalmente seguida nas igrejas, e tendo apresentado a ordem de Deus para os cristãos congregarem para a adoração e o ministério, nossa oração e esperança são que o leitor não entenda mal nosso propósito com este livro. Não quisemos criticar as várias igrejas denominacionais existentes na profissão cristã apenas por criticar, mas buscamos fielmente — e cremos também em amor — apontar o erro de todo o sistema. Desde o princípio nosso desejo tem sido tornar conhecida a verdade, a fim de que o povo de Deus possa conhecer o verdadeiro cristianismo bíblico, se este for o desejo no coração daqueles que leem estas páginas.

Esperamos que, na maneira como abordamos os vários assuntos aqui, possa ser percebido um genuíno sentimento de amor e preocupação para com toda a família de Deus. Também entendemos que, independente do quanto de palavras de graça que possamos incluir na apresentação destas verdades, para alguns leitores elas nunca serão suficientes. Eles continuarão a rejeitar isso por acharem que abordar este assunto é inapropriado e injusto. É triste ter de dizer isto, mas parece que a verdadeira razão é que a vontade própria é o que está no controle deles, e simplesmente não desejam mudar. De nada adiantaria tentarmos agradar essas pessoas usando um tom mais ameno. Elas simplesmente não querem qualquer coisa que possa tocar suas consciências. Com pessoas assim nada podemos fazer além de entregá-las aos cuidados do Senhor.

Apelamos agora ao leitor para que dê atenção à verdade aqui compilada. Nossa oração é que cada cristão que ler o material contido neste livro seja honesto, espiritual e maduro o suficiente para enxergar e reconhecer a verdade conforme ela foi apresentada. Que Deus possa nos dar graça para fazermos a Sua vontade.

B. Anstey
4ª Edição – Julho 2010

Christian Truth Publishing
12048 59th Ave.
Surrey, BC V3X 3L3
CANADA

 Vídeos (somente áudio) 
A Ordem de Deus

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